A personalidade do Espírito Santo

Mais um artigo (post) de nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas, desta feita, destacando a personalidade do Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, conforme já destacamos no nosso post acerca da doutrina de Deus. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo (ex. Mt 3.16,17; 28.19 etc.). E ao falarmos que o Espírito Santo é uma pessoa, queremos destacar sua personalidade distinta do Pai e do Filho, mas ao mesmo tempo unida com ambos.

1. Alguns nomes do Espírito Santo

 O Deus das Escrituras é um Ser pessoal e Se revela por nomes. E este princípio se aplica também ao Espírito Santo. Por isso, a compreensão destes nos ajuda muito a saber sobre Sua Pessoa. Vejamos alguns:

a) Espírito de Deus:

Encontramos estes nomes em referências bíblicas como: 1Jo 4.2; Jó 33.4; 1Co 2.11; 3.16; 2Cr 15.1; Rm 8.9,14; Mt 12.28… Trata-se do Espírito como o executivo da Divindade, operando tanto na esfera física como na moral, conversão dos pecadores, santificando e sustentando os crentes.

b) Espírito de Cristo:

Referências: Rm 8.9; Fp 1.19… Não há nenhuma distinção especial entre as expressões Espírito de Deus, Espírito de Cristo, e Espírito Santo. Há somente um Espírito Santo, da mesma maneira como há somente um Deus e um Filho. Mas o Espírito Santo é também chamado o Espírito de Cristo porque Ele foi enviado em nome de Cristo (Jo 14.26), Ele é o princípio da vida espiritual pelo qual os homens são nascidos no reino de Deus, são batizados nEle (Mt 3.11) e, por intermédio dEle, glorifica a Cristo (Jo 16.14).

c) O Consolador:

Referências: Jo 14.16; 15.26; 16.7… Expressão utilizada por Jesus e mencionada por João, e tem o sentido de que o Espírito Santo substituiria a pessoa de Cristo, no comando da Igreja. Os discípulos haviam tomado sua última ceia com o Mestre. Os seus corações estavam tristes pensando na sua partida, e estavam oprimidos pelo sentimento de fraqueza e debilidade. O Espírito, o Consolador, era quem os ajudaria quando ele partisse e os guiaria na Verdade. Do grego, “parácleto”, e do latim, “advocatus”, o Espírito Santo foi enviado por Cristo para ser o “outro” Consolador que estaria de forma invisível junto aos discípulos no lugar de Cristo.

d) Espírito Santo:

Referências: Lc 1.67; 4.1; At 2.4; 8.17; 13.52; 19.2; 2Tm 1.14; Hb 10.15… A obra principal do Espírito Santo O Espírito Santo veio para reorganizar a natureza do homem e para opor-se a todas as suas tendências más.

Estes e outros nomes como Espírito da verdade (Jo 15.26 etc.), Espírito da Graça (Zc 12.10; Hb 10.29 etc.), Espírito da vida (Rm 8.2; Ap 11.11 etc.),  Espírito de adoção (Rm 8.15 etc.), Autor da Escritura (2Pe 1.21, 2Tm 3.16) etc., classificam o Espírito Santo como um ser divino no sentido absoluto.

2. Personalidade e atributos do Espírito Santo

O Espírito Santo é uma pessoa ou é apenas uma influência? Muitas vezes descreve-se o Espírito duma maneira impessoal – Sopro, Unção, Fogo, Água, Dom etc. –, mas a Bíblia O descreve duma maneira que não deixa dúvida quanto à sua personalidade.

A personalidade do Espírito Santo pode ser conhecida por vários atributos como veremos em alguns textos bíblicos abaixo:

a) Mente: “E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos” (Rm 8.27). O Espírito “sonda”, “examina”, “conhece”, ou seja, “… é Deus mesmo, onisciente, que conhece a direção e os movimentos do Espírito inspirando as aspirações humanas” (Apud SHEDD: 1983. Vol. II, p. 1170).

b) Vontade: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (1Co 12.11). Como “quer” ou lhe “apraz” são termos que retratam a volição ou vontade de escolha do Espírito Santo como uma Pessoa.

c) Sentimento: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). Como um Pessoa, o Espírito Santo possui sentimento e pode ser entristecido.

d) Atividades pessoais: Algumas atividades que são atribuídas ao Espírito Santo indicam também seus atributos pessoais, como: Ele revela/inspira (“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”, 2Pe 1.21); ensina (“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”, Jo 14.26); clama (“E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”, Gl 4.6); intercede (“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis”, Rm 8.26); fala (Ap 2:.); ordena (At 16.6,7); testifica (Jo 15.26); contra ele se pode mentir (At 5.3), e blasfemar (Mt 12.31,32)…

Além destes atributos, a personalidade do Espírito Santo também é indicada pelo fato de que se manifestou em forma visível de pomba (Mt 3.16), pelo fato de que ele se distingue dos seus dons (1Co 12.11). No caso do aspecto visível da pomba, não significa que Ele possui corpo, mas que apareceu – e quis aparecer – no momento do batismo de Jesus em “forma corpórea” ou “formato” de uma pomba. E o fato de Ele distribuir dons aos crentes não significa que o Espírito Santo entre em forma de “corpo” nas pessoas. A personalidade é aquilo que possui inteligência, sentimento e vontade; ela não requer necessariamente um corpo. Além disso, a falta duma forma definida não é argumento contra a realidade. O vento é real apesar de não possuir forma (Jo 3.8).

Não é difícil formar um conceito de Deus Pai ou do Senhor Jesus Cristo, mas alguns têm confessado certa dificuldade em formar um conceito claro do Espírito Santo. A razão é dupla: Primeiro, nas Escrituras as operações do Espírito são invisíveis, secretas, e internas; segundo, o Espírito Santo nunca fala de si mesmo nem apresenta a si mesmo. Ele sempre vem em nome de outro. Ele se oculta atrás do Senhor Jesus Cristo e nas profundezas do nosso homem interior. Ele nunca chama a atenção para si próprio, mas sempre para a vontade de Deus e para a obra salvadora de Cristo. Veja: “Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” (Jo 16.13).

O Espírito Santo é uma personalidade distinta e separada do Deus Pai e do Deus Filho. Mas não é independente de ambos. Além disso, também demonstra Sua divindade pelos atributos divinos lhe são aplicados, como: Ele é eterno, onipresente, onipotente, e onisciente (p, ex. Hb 9.14; Sl 139.7-10; Lc 1.35; 1Co 2.10,11); pratica obras divinas como criação, regeneração e ressurreição (Gn 1.2; Jó 33.4; Jo 3.5-8; Rm  8.11) e é classificado junto com o Pai e o Filho (1Co 12.4-6; 2Co 13.13; Mt 28.19; Ap. 1.4)…

3. A natureza do Espírito Santo e a Trindade

Já vimos acima que o Espírito Santo é uma Pessoa à parte do Pai e do Filho. Trata-se da Trindade Divina. Mas a Pessoa do Espírito Santo é a menos entendida pelos cristãos. E sua divindade é demonstrada em sua plena igualdade com o Pai e com o Filho. Vemos isto, pelas fórmulas trinitarianas que encontramos na Bíblia, esboçadas por Franklin FERREIRA: na fórmula batismal (“… em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, Mt 28.19); dons espirituais, 1Co 12.4-6 (“Espírito”, v. 4, “Senhor = Jesus”, v. 5 e “Deus = Pai” (v. 6); bênção apostólica, 2Co 13.13 (graça do Senhor Jesus Cristo,  amor de Deus e comunhão do Espírito Santo); obras da salvação, 1Pe 1.2 (presciência de Deus Pai, santificação do Espírito e aspersão do sangue de Jesus Cristo); e “ santíssima”, Jd 20-21 (orando no Espírito Santo, amor de Deus e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo);

Segundo Ferreira, a ordem diferente em que as pessoas divinas aparecem na Bíblia  – “… nem sempre o Pai vem primeiro, depois, o Filho e por último, o Espírito” –, indica que não há nenhum nível de inferioridade entre elas e também não se somam entre si. Como sintetiza Agostinho de Hipona:

“O Pai é apenas o Pai do Filho, e o Filho apenas o Filho do Pai; o Espírito, entretanto, é o Espírito tanto do Pai como do Filho, unindo-os em um vínculo de amor.”

A doutrina da Trindade foi sendo aos poucos definida na Igreja Cristã do primeiro século, e a base para tal, entre outros textos eram as fórmulas trinitarianas neotestamentárias. Encontramos uma definição mais abrangente, por volta do século IV, por exemplo, com Atanásio. Em sua luta contra a doutrina herética do arianismo, ele desenvolveu o credo, hoje aceito pelos cristãos:

“A fé católica [universal] consiste em venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo (…) E nesta Trindade nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor; porém todas as três pessoas são coeternas e iguais entre si; de modo que, em tudo, conforme já ficou dito acima, deve ser venerada a Trindade na unidade e a unidade na Trindade. Portanto, quem quer salvar-se, deve pensar assim a respeito da Trindade” (Credo de Atanásio, 3-6, 24-26).

Veja também:

Referências bibliográficas:

  • FERREIRA, Franklin. A Trindade e a pessoa do Espírito Santo. Disponível em: <https://voltemosaoevangelho.com/blog/2014/10/trindade-e-pessoa-espirito-santo/>. Acesso em 09/09/2019.
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983 (reimpressão).
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O Espírito Santo

Por

 

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 177 a 212.

 

A doutrina do Espírito Santo, a julgar pelo lugar que ocupa nas Escrituras, está em primeiro lugar entre as verdades redentoras. Com exceção das Epístolas 2 e 3 de João, todos os livros do Novo Testamento contêm referências à obra do Espírito; todos os Evangelhos começam com uma promessa do derramamento do Espírito Santo.

No entanto, é reconhecida como a doutrina mais negligenciada. O formalismo e um medo indevido do fanatismo têm produzido uma reação contra a ênfase na obra do Espírito na experiência pessoal…

Esboço

I – A natureza do Espírito Santo

  1. Os nomes do Espirito Santo
  2. Símbolos do Espírito

II – O Espírito no Antigo Testamento

  1. Espírito criador
  2. Espírito dinâmico, que produz
  3. Espírito regenerador

III – O Espírito em Cristo

  1. Nascimento
  2. Batismo
  3. Ministério
  4. Crucificação
  5. Ressurreição
  6. Ascensão

IV – Espírito na experiência humana

  1. Convicção
  2. Regeneração
  3. Habitação
  4. Santificação
  5. Revestimento de poder
  6. Glorificação
  7. Pecados contra o Espírito Santo

V – Os dons do Espírito

  1. Natureza geral dos dons
  2. Variedade de dons
  3. O regulamento dos dons
  4. Recebimento dos dons. Requisitos:
  5. A prova dos dons

VI – O Espírito na Igreja

  1. O advento do Espírito: o que ocorreu no Pentecoste
  2. O mistério do Espírito Santo
  3. A ascensão do Espírito

 

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A vida de Jesus Cristo

Continuando nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas e, especificamente, acerca de Jesus, além do post “O Senhor Jesus Cristo, por Myer Pearlman”, escrevemos também sobre Jesus, o Verbo Divino. Neste, destacaremos como o Verbo, tradução do Logos trata-se de Jesus como a Palavra, que criou todas as coisas e, portanto, existe por si mesmo, antes da criação de todas as coisas. Mas este Ser criador foi encarnado e viveu como homem. É sobre esta sua trajetória nesta terra como homem, que era, ao mesmo tempo, o Messias Salvador, que pretendemos enfatizar neste artigo (post). Para isto, queremos usar como base o texto de J. N. GELDENHUYS, referido (na fonte) abaixo.

1. Historicidade

O fato histórico de Cristo está inexoravelmente estabelecido. As tentativas que têm sido feitas para provar o contrário, durante os últimos duzentos anos, têm falhado inteiramente. Não somente o Novo Testamento inteiro está baseado sobre o Cristo histórico, mas também a elevação e o progresso da Igreja Cristã, e, de fato, o curso da história do mundo durante os últimos dezenove séculos, seriam inexplicáveis à parte do fato histórico do Cristo que viveu, morreu e ressuscitou.

O fato que registros seculares existentes até hoje, pertencentes aos primeiros cem anos depois do ministério de Cristo, contém apenas algumas poucas referências a Ele, é algo perfeitamente natural. O cristianismo foi apenas um dos muitos cultos religiosos que se originaram no Oriente, no mundo romano dos dois primeiros séculos de nossa era, e pouco havia em Cristo que atraísse o interesse dos historiadores pagãos. Somente quando o Cristianismo entrou em conflito com o estado é que se tornou digno de ser mencionado naqueles dias recuados, e os primeiros escritores pagãos a fazerem menção do mesmo, em tal contexto todos mencionam significativamente o nome de Cristo como fundador do Cristianismo.

Excetuando uma passagem duvidosa, e, quando muito, pesadamente interpolada em Josefo, Jesus não é mencionado diretamente no escritos judaicos não-cristãos referentes àquele período. O motivo disso certamente é a hostilidade e o ressentimento que Sua memória provocava nos líderes judeus de Seu tempo. Entretanto, existem referências indiretas a Ele, nos primeiros escritos rabínicos, que fazem menção razoavelmente reconhecível obre Ele, como um transgressor em Israel, que praticava magia, zombava das palavras dos sábios, fazia o povo desviar-se, e disse que viera para fazer adições à lei, além de ter alterado a Páscoa, e cujos discípulos efetuavam curas de doentes em Seu nome.

Nos primeiros séculos d.C., nem mesmo os mais amargos inimigos do cristianismo tinham qualquer pensamento de negar que Jesus vivera e morrera na Palestina, e que realizou realmente obras maravilhosas, qualquer que fosse a explicação que davam ao poder mediante o qual Ele realizava essas coisas. Nem, nos dias atuais, qualquer historiador objetivo nega o fato histórico de Cristo. Não são os historiadores que brincam com a fantasia do mito-de-Cristo. Não apenas a Sua morte, mas também a Sua ressurreição, devem ser levadas em consideração como os mais bem confirmados fatos históricos que existem.

2. Fontes

Quanto aos detalhes essenciais da vida de Cristo, temos que depender inteiramente do Novo Testamento. Conforme já foi dito, não se pode aproveitar muito do estudo da literatura pagã ou judaica das primeiras décadas d.C., e, quando nos volvemos para a literatura cristã extra bíblica, pertencente ao mesmo período, encontramos bem pouco que já não esteja registrado no Novo Testamento. A maioria dos evangelhos apócrifos é tão obviamente produto da imaginação que só nos podem prestar qualquer ajuda, por meio de contraste, para provar o caráter histórico dos Evangelhos canônicos; porém, não adiciona coisa alguma ao nosso conhecimento sobre a vida de nosso Senhor.

Os Evangelhos não são biografias o sentido comum da palavra. Cada um dos quatro evangelistas tinha um propósito específico com seu livro, tendo feito uma seleção apropriada dentre a informação à sua disposição com referência à vida de nosso Senhor. Embora existam muitas diferenças quanto à ênfase, no tocante a certos aspectos de Sua vida, todos os quatro Evangelhos proclamam um só e o mesmo Cristo, como Senhor e Salvador, o perfeito Filho do homem e o Filho unigênito de Deus.

Visto que os Evangelhos não são biografias no sentido ordinário do termo, mas antes, proclamações das boas novas concernentes a Jesus como Salvador e Senhor, não devemos buscar neles um arranjo estritamente cronológico. Por outro lado, o propósito religioso dos evangelistas não os conduziu à negligência do caráter histórico da vida de Jesus. Conforme é declarado tão claramente no prefácio de nosso terceiro Evangelho, os autores sagrados estavam perfeitamente cônscios da urgente necessidade de tornar conhecida a verdade acerca de Jesus Cristo. Para eles e para seus irmãos crentes, a fé em Cristo era questão de vida e morte. Dessa maneira, não podiam permitir que sua fé repousasse sobre fantasias, mitos, ou lendas. Uma fé como a daquelas gerações iniciais de crentes cristãos exigia absoluta lealdade a Cristo – até à morte, se necessário fosse. Tal fé só podia ser edificada em face de fatos certos. Além disso, os escritores dos Evangelhos estiveram num contato tão íntimo e vivo com muitos que haviam ouvido e visto a nosso Senhor, que tiveram oportunidade sem igual de verificar esses fatos. Acresce que os fatos históricos eram conhecidos em primeira mão por tantas pessoas que não podiam arriscar-se a apresentar relatos fictícios.

Embora Lucas tenha incorporado grandes seções de Marcos em seu Evangelho, e que João bem poderia ter conhecido os três primeiros Evangelhos, a verdade é que nossos quatro Evangelhos são essencialmente quatro fontes independentes de informação no tocante à vida de nosso Senhor. Cada um desses relatos frisa certos aspectos de Sua vida e ministério mais que os demais relatos, porém, é sempre essencialmente o mesmo Cristo que encontramos em todos os quatro. Isso é verdade tanto no tocante ao livro de João como aos três Evangelhos sinóticos. O Evangelho de João suplementa os outros e, em resultado de muitos anos de reflexão, e de discernimento mais amadurecido quanto ao significado filosófico e teológico mais profundo da história do Evangelho. João se ocupa mais em ensinar o ensinamento de nosso Senhor no tocante à Sua divina Filiação; porém, até mesmo João não proclama outro Cristo além do Cristo proclamado pelos três primeiros evangelistas.

Em suma, temos nos quatro Evangelhos canônicos, as melhores e mais dignas fontes de informação referente à vida de Jesus Cristo. Embora o restante do Novo Testamento não adicione muito aos detalhes históricos do Evangelho, é importante observar que o livro de Atos, as epístolas e o livro de Apocalipse, estão todos edificados sobre o fato que Jesus viveu, ensinou, sofreu e triunfou conforme os Evangelhos afirmam. Visto que algumas das Epístolas do Novo Testamento foram escritas tão cedo como 50 d.C. (ou talvez um pouco mais cedo ainda) – 1 e 2 Tessalonicenses e Gálatas, e, possivelmente, Tiago – somos assim levados a recuar até não mais de vinte anos depois da data da crucificação de Jesus. Levando em consideração o fato que um dos primeiros escritores neotestamentário, Paulo, foi um figadal perseguidor dos seguidores de Jesus, mas convertido tão cedo como 32 ou 33 d.C., e que a epístola de Tiago foi escrita pelo irmão de Jesus, percebemos quão íntimo era o contato entre o tempo da vida de nosso Senhor sobre a terra (c. de 6/4 a.C. – 30 d.C.) e aquela geração de crentes em cuja vida os primeiros documentos do Novo Testamento foram escritos. O sumário apresentado por Paulo sobre a pregação apostólica, em 1Co 15.1-8, se reveste de grande significação: “irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que ainda perseverais… Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia… E apareceu a Cefas, e, depois, aos doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora, porém alguns já dormem. Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos, e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora do tempo”.

Nessa passagem Paulo não somente proclama essencialmente o mesmo evangelho que o fazem os quatro evangelistas, mas também revela quão íntima era a relação entre a Igreja Cristã Primitiva e os apóstolos e outras testemunhas oculares da vida de nosso Senhor. Dessa maneira, não é surpreendente descobrir que nossos quatro Evangelhos, apesar de toda sua ênfase diferente e da escola variada de detalhes, proclamam o mesmo Cristo que veio buscar e salvar aos perdidos, o Senhor divino a Quem todo poder foi dado, no céu e na terra (Mt 11.27; 28.18; Mc 1.1; 8.29; Lc 1.32,35; 2.11; 9.35; 10.22; Jo 1.1; 10.28 etc.).

Não admira, portanto, que após mais de um século de criticismo agudo e rude, o caráter digno de confiança de nossos quatro Evangelhos canônicos tenha ficado mais firmemente estabelecido que nunca. Uma teoria após outra, e sucessivas escolas de pensamento, que têm lançado dúvidas sobre a fidelidade dos Evangelhos, têm se despedaçado perante a irrefutável historicidade da vida de Jesus que os mesmos historiam. Embora os Evangelhos façam silêncio no tocante a muitos detalhes que naturalmente gostaríamos de saber, os quatro Evangelhos, confirmando-se e suplementando-se entre si, nos fornecem todos os fatos referentes a Jesus Cristo que precisamos saber a fim de que possamos confiar nEle como “Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

3. Sem paralelo

A vida de nosso Senhor não encontra iguais em muitos particulares; um aspecto desse caráter singular é seu cumprimento de profecias específicas feitas centenas de anos antes de Seu nascimento. O próprio Jesus, por exemplo, repetidamente ensinou aos Seus discípulos que Ele, conforme a “tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas” haveria de sofrer, morrer e ressuscitar dentre os mortos (cf. Lc 18.31-34). Depois de haver ressuscitado, igualmente, Ele declarou claramente que, em Sua vida, morte e ressurreição, as Escrituras haviam sido cumpridas (Lc 24.25-27,44-48).

Nos discursos de Pedro, de Estevão e de Paulo, registrados no livro de Atos, em praticamente todos os livros do Novo Testamento, a vida, os sofrimentos e a exaltação de Jesus são repetidamente proclamados como o cumprimento das promessas de Deus no Antigo Testamento. Nada existe na história do mundo que se possa comparar com o fato que centenas de anos antes do nascimento de Jesus, muitas coisas a respeito dEle – até mesmo o lugar de Seu nascimento (Mq 5.2) – haviam sido preditos e registrados nas Escrituras do Antigo Testamento. E, em muitos outros aspectos – desde Sua concepção sobrenatural até Sua ascensão ao céu – essa vida é sem paralelo. Somente em Sua vida vemos Deus tornando-se carne. Enquanto que as vidas de todos os outros fundadores de religiões revelam-nos homens que buscaram a verdade e se esforçaram por obter introspecção religiosa, a vida de Jesus Cristo é a única que revela o Deus de amor e justiça, que busca salvar a humanidade caída.

Todas as reivindicações feitas por Jesus referentes à Sua eterna e divina Filiação são confirmadas por Sua vida, morte, ressurreição e ascensão triunfal. Ele não tem igual entre os homens.

4. Épocas principais

Embora não possamos refazer uma biografia detalhada ou estritamente cronológica de Jesus Cristo, os Evangelhos nos fornecem material suficiente que nos capacita a apontar as épocas mais importantes de Sua vida.

a) Seu nascimento sobrenatural

Os autores dos Evangelhos tiveram amplas oportunidades para descobrir a verdade a respeito do nascimento de Jesus. À parte do fato que Maria, mãe de Jesus, foi deixada ao encargo do discípulo amado (cf. Jo 19.26,27), devemo-nos relembrar que Tiago, o irmão de Jesus, foi durante muitos anos um dos líderes da Igreja Cristã de Jerusalém. Depois da ressurreição e ascensão de Jesus, Maria e seus filhos ficaram livres de toda dúvida referente à Sua soberania, e passaram a viver em íntima comunhão com seus irmãos na fé, na igreja de Jerusalém (cf. At 1.14). Quando o Evangelista Lucas acompanhou Paulo a Jerusalém, em 56 ou 57 d.C., uma das pessoas a quem visitou foi Tiago, irmão do Senhor (At 21.17,18). Naquele tempo, a julgar pelo prefácio de seu Evangelho, Lucas já estava intensamente interessado nos fatos referentes à vida de Jesus. Se Lucas se encontrou pessoalmente com Maria, não o sabemos; porém, é certo que ele teve acesso a informações referentes ao nascimento de nosso Senhor, que afinal de contas, só poderiam ter sido prestadas pela própria Maria. É basicamente do ponto de vista dela que Lucas relata a história da concepção sobrenatural e do nascimento de Jesus (Lc 1.26-56; 2.1-51). Mateus, por outro lado, conta a mesma história, mas mais do ponto de vista de José. Porém, ambos os Evangelhos concordam que Jesus não era o filho de um pai humano, mas foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu como o Filho unigênito de Deus (cf. Lc 1.35; Mt 1.18-24). Em perfeita conformidade com esse fato, João dá início ao seu Evangelho com as palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.1-14).

b) Infância, meninice e crescimento até à maturidade

Por Lc 2.40,52 torna-se claro que a vida de Jesus, desde a meninice até a idade adulta ainda jovem foi normal, mas também perfeita. Em Sua vida, o ideal de Deus para uma vida humana perfeita foi cumprido em cada estágio. Embora vivesse num lar humilde com Maria, José, e diversos irmãos e irmãs mais novos, Sua vida em todas as ocasiões estava em completa concordância com a vontade de Deus (Lc 2.52), e desde tenra idade (Lc 2.49) parece que Ele tinha consciência que era o Filho de Deus num sentido todo especial. Por Lc 2.46,47 depreende-se que desde Sua meninice Ele estudara intensamente as Escrituras do Antigo Testamento; e embora José provavelmente tenha falecido cedo e que Jesus tenha sentido necessidade de trabalhar arduamente como carpinteiro, a fim de prover o necessário para Maria e seus irmãos mais novos (Mt 13.55,56), é claro eu Ele dedicava muito tempo à meditação sobre as Escrituras e à oração.

À parte os poucos detalhes dados em relação à meninice de Jesus, e às inferências que podem ser tiradas dos Evangelhos a respeito de Sua vida, que exibem-no a crescer física, mental e espiritualmente até à plena maturidade, o Novo Testamento passa em silêncio aqueles anos de preparação.

c) Batismo e tentação

Quando Jesus (provavelmente em 27 d.C.) havia atingido o apogeu da vida (cerca de 30 anos de idade, Lc 3.23), partiu da Nazaré e foi batizado por João Batista. Fazendo isso aceitava publicamente Sua tarefa messiânica na qualidade de Filho de Deus e Salvador que, apesar de implacável em Si mesmo, deixou-se revestir pela culpa de Seu povo.

Deus Pai demonstrou Sua aprovação à ação do Seu Filho, ao identificar-se deliberadamente com Seu povo pecaminoso, mediante a descida do Espírito “como pomba, vindo sobre ele” e pela voz do céu, que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Essas palavras, que combinam Sl 2.7 com Is 32.1, reconhecem-No como o Messias, mas também indicam que Ele haveria de cumprir Sua chamada messiânica em termos do servo obediente e sofredor do Senhor.

Com essa certeza em Seu coração, Jesus foi impelido pelo Espírito para o deserto da Judeia, onde seria tentado pelo diabo (Mt 4.1). A fim de vindicar a Sua competência para ser o Salvador dos homens, Ele tinha primeiramente de provar Sua total e incondicional obediência ao Seu Pai celeste, bem como Seu poder de vencer o grande enganador. A narrativa da tentação é evidentemente situada em contraste com a história da queda, em Gn 3; dessa maneira, enquanto que Adão e Eva sucumbiram à tentação, a despeito de estarem vivendo nas condições mais favoráveis possíveis, Jesus saiu-se vencedor, ainda que tentado sob as mais difíceis circunstâncias. Depois de quarenta dias de tensão física e espiritual e de privação no deserto, foi assaltado por toda a astúcia concentrada e o poder do tentador, para que pusesse Seu Pai sob teste ou para que rejeitasse a vereda que a voz celestial havia assinalado como a vontade de Seu Pai para com Ele. Jesus, entretanto, resistiu às mais sutis tentações e permaneceu inflexivelmente obediente à vontade de Seu Pai. E assim saiu-se desse conflito espiritual como o leal Filho de Deus e como o Servo Fiel (Mt 4.1-11); Mc 1.12,13; Lc 4.1-13).

d) Início de Seu ministério público

Tendo triunfado sobre os titânicos assaltos do diabo, Jesus deu início, ativamente, ao primeiro estágio de Seu ministério público, chamando os Seus primeiros discípulos (Jo 2.1-11), realizando milagres (Jo 2.23 e segs.), ensinando a Nicodemos verdades espirituais revolucionárias, e a salvação até mesmo aos desprezados samaritanos (Jo 4.1-42). Esse estágio de Seu ministério fora preparado por João Batista, e atingiu seu clímax quando alguns dos samaritanos confessaram, dizendo “… nóssabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42).

e) Ensino e ministério concentrado na Galileia

O aprisionamento de João Batista foi o sinal para Jesus dar início ao Seu ministério na Galileia, com a proclamação que o tempo determinado chegara, e que o reino de Deus estava próximo (Mc 1.24 e segs.). Quando Sua reivindicação, na sinagoga de Nazaré, de que Ele era Aquele mediante Quem as promessas messiânicas seriam cumpridas, foi rejeitada pela Sua própria cidade adotiva (Lc 4.16 e seg.) Ele fez de Cafarnaum Seu novo quartel. Provavelmente durante mais de um ano Ele então trabalhou e ensinou em Cafarnaum e noutras localidades da Galileia (Mt 4.12-14.13; Mc 1.14-6.34; Lc 4.14-9.11; Jo 4.46-54 etc.), revelando Seu poder divino sobre a natureza (Mc 4.35-41; 6.34-51 etc.), sobre o mundo dos espíritos e demônios (Lc 8.26-39; 9.37-45 etc.), sobre o corpo humano e sobre as enfermidades físicas e espirituais (Mt 8.1-17; 9.1-8 etc.), e até mesmo sobre a vida e a morte (Lc 7.11-17; Mt 8.18-26). Além disso, Ele afirmou possuir autoridade final sobre o destino eterno da humanidade, e, no Sermão da Montanha e noutro ensinos, revelou Sua autoridade sem par de proclamar as leis do reino de Deus (Mt 5.1-7.29 etc.).

Enquanto ao mesmo tempo revela Sua autoridade suprema na qualidade do prometido Cristo, Jesus, durante esse período, também revelou Seu amor e simpatia por amor àqueles que se achavam em apertos físicos e espirituais (Mt 9.1-8,18-22; Lc 8.43-48 etc.). Ele declarou repetidas vezes que viera a fim de buscar e salvar aqueles que estão perdidos, e exerceu a prerrogativa divina de perdoar pecados (Lc 5.20-26; 7.48-50).

Dentre Seu grupo bem maior de seguidores, Ele escolheu doze discípulos especiais (Mt 10.1-4; Lc 6.12-16), aos quais ensinava sistematicamente, treinando-os para serem Seus apóstolos ou enviados.

A autoridade com a qual Ele ensinava aos Seus ouvintes, e Sua recusa de deixar-se intimidar pelos inimigos, entre os governantes judeus e os fariseus, em adição aos Seus muitos milagres de cura e outras manifestações de Seu poder sobre a ordem criada (Lc 4.33-41); Mc 5.1-42 etc.), eram motivos para Jesus tornar-se intensamente popular entre as populações da Galileia (Lc 4.40-42; 5.15,26; 6.17-19). Essa popularidade atingiu seu clímax no milagre da multiplicação dos pães para os 5.000 homens (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo 6.5-13), e essa prova clara de Seu caráter messiânico fez as massas resolverem coroá-Lo rei (Jo 6.145).

f) O treinamento dos doze

Depois da recusa de Jesus de ser coroado como um messias terreno (Jo 6.26,27) as multidões e até mesmo muitos dentre Seus discípulos do círculo mais lato, abandonaram-No (Jo 6.66,67). Ele então se retirou para o território pertencente a Tiro, Sidom e Cesareia de Filipe (Mt 15.21; 16.13; Mc 7.31 etc.), porém, em realidade nunca pode escapar da atenção pública. Quando novamente voltou ara as proximidades do mar da Galileia, uma vez mais curou e ajudou a muitos indivíduos em dificuldade, e pela segunda vez alimentou miraculosamente as multidões, visto que tinha compaixão das mesmas (Mt 15.29-39). A seguir, retirando-se novamente dentre as multidões, buscou a solidão em companhia de Seus discípulos, fazendo-lhes a pergunta crucial: “… E vós quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15) Depois que Pedro, falando como porta-voz de todos os apóstolos, havia confessado abertamente “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, Jesus, com grande determinação, começou a preparar os Seus discípulos para o terrível choque que os aguardava em Jerusalém (Mt 6.21-26). Porém, ao mesmo tempo, Ele clara e repetidamente lhes ensinava que alcançaria finalmente a vitória (Mt 16.27,28), e que Seus seguidores, por isso mesmo, não precisavam temer coisa alguma (Lc 12.4-12,32-34).

Sua autorevelação aos Seus discípulos culminou em Sua transfiguração, no monte, quando Seus três mais íntimos seguidores viram-No em Sua divina glória (Mt 17.1-13; Mc 9.2-10; Lc 9.28-36). Visto que Ele veio cumprir tanto a Lei como os Profetas, Moisés (tipificando a lei) e Elias (representante dos profetas) apareceram juntamente com Ele, gloriosamente, antes que finalmente desse início à Sua viagem para Jerusalém, a fim de sofrer a morte visando  salvação dos homens. Uma vez mais a voz de Deus, vinda do céu, declarou que Jesus era o Seu Filho amado, ao qual todos deveriam dar ouvidos (Lc 9.35).

g) Antagonismo crescente

Tendo-se revelado aos Seus discípulos, e sendo reconhecido por eles como verdadeiramente o Filho de Deus (Mt 17.1-13; Mc 9.2-10; Lc 9.18-20), Jesus preparou-os em seguida, mais deliberadamente ainda, para a futura tarefa que teriam como membros fundadores de Sua Igreja. Ele lhes ensinou muitas verdades, tanto diretamente como também em forma de parábolas, e continuou a revelar Seu divino poder e autoridade mediante a cura de enfermos (Lc 14.1-6; 17.11-19), restauração da vida aos cegos (Mc 10.46-52), e alívio das mazelas alheias.

A oposição contra Ele, entre os governantes judeus e os líderes religiosos, foi crescendo cada vez mais (Lc 14.1). Todo método e esquema possível foi tentado para apanhá-Lo em alguma armadilha, para interromper Sua contínua influência sobre as massas, e para encontrar um motivo para entregá-Lo às autoridades romanas a fim de que fosse executado (Mt 19.1-3; Lc 11.53,54). Todas as Suas advertências, dirigidas contra os Seus inimigos, e todo o Seu penetrante ensinamento que visava levá-los à mudança de coração, todas as Suas obras de benevolência, curando os enfermos e até mesmo ressuscitando mortos para que voltassem à vida (Jo 11.41-45), tão somente inflamavam mais ainda os fariseus, os escribas, e outros líderes dos judeus, com um ódio ainda mais intenso contra Ele (Jo 11.46-53).

h) A última semana em Jerusalém

Tendo entrado abertamente em Jerusalém, na qualidade de Messias, em meio à multidão aclamadora (Mc 11.1-10; Jo 12.12-19 etc.), Jesus expulsou os cambistas e traficantes com animais para os sacrifícios, tirando-o a todos do átrio externo do Templo, e assim revelou Sua reivindicação de possuir autoridade messiânica (Lc 19.45,46; Mt 21.12-16). O fim estava agora bem próximo. Jesus, incansavelmente, expunha a hipocrisia dos Seus perseguidores (Mt 23.1-39; Lc 20.45-47), ao ensinar ao átrio do Templo, durante aqueles dias importantíssimos (Mt 21.33-34; 22.1-14; Mc 12.1-12; Lc 20.9-47), e profetizou o que aconteceu ao povo da Judeia, a Jerusalém e ao Templo (Lc 21.20-24 etc.), nos tempos iminentes de desgraça. Advertiu Seus seguidores a respeito dos perigos que os aguardavam (Lc 21.9-19 etc.), predizendo o que esperava o mundo e a Igreja no futuro (Lc 21.25-27), predizendo que a história do mundo culminaria em Seu retorno, em grande majestade, para revelar Seu divino poder sobre todas as forças das trevas e para dar início ao Seu reino eterno (Mt 24.29-31; 25.31-46).

Na véspera de Sua paixão como uma preparação final para os apóstolos para a grande tarefa que os esperava, Jesus lavou os pés dos mesmos (Jo 13.1-11), ensinando-lhes uma lição urgentemente necessária sobre a humildade de uns para com os outros (Jo 13.12-17; Lc 22.24-30), anunciando que Judas haveria de traí-Lo (Mc 14.18-21; Jo 13.21-30), instituindo a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29 etc.), e orando em prol de todos os Seus seguidores (Jo 17.1-26).

Então seguiu-se Sua final e completa auto rendição à vontade de Seu Pai no jardim do Getsêmani (Mt 26.39-46 etc.). Tendo tomado sobre Si mesmo a culpa de toda a humanidade caída permitiu-se voluntariamente ser aprisionado, maltratado, falsamente condenado e crucificado. Seu sofrimento sacrificial e expiatório atingiu seu clímax por ocasião da crucificação, quando, no fim de três horas de trevas, Ele clamou em alta voz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Ele dissera aos Seus discípulos que não veio a fim de julgar ao mundo, mas antes, para dar Sua vida em resgaste a favor e muitos (Mt 26.28 etc.). Tendo-se oferecido voluntariamente como o Cordeiro e Deus (Jo 1.29; 10.11-18), sua tarefa havia agora terminado. Antes de recomendar Seu espírito às mãos do Seu Pai, anunciou triunfalmente: “Está consumado” (Jo 19.30).

i) Sepultamento, ressurreição e ascensão

Depois de Sua morte, não estava mais no poder de Seus inimigos. Seu corpo foi arriado da cruz (Lc 23.50-53) e foi sepultado num túmulo novo, que havia em um jardim nas proximidades do local da crucificação. Sua promessa de ressurgir dentre os mortos logo se cumpriu e, na qualidade de Cristo ressurreto e Senhor eternamente vivo, pessoalmente fez desaparecer os temores e as dúvidas de Seus seguidores (Lc 24.13-49; Jo 20.11-21.22). Durante quarenta dias apareceu-lhes repetidamente abrindo suas mentes para que pudessem entender as Escrituras do Antigo Testamento, e prometendo-lhes enviar o Espírito Santo, o qual haveria de consolá-los, guia-los e dotá-los para agirem como Suas testemunhas – a começar por Jerusalém, e paulatinamente atingindo o mundo inteiro (At 1.8). Tendo-lhes assegurado, uma vez mais, que todo o poder Lhe havia sido conferido, tanto no céu como na terra (Mt 28.18), Cristo os comissionou para que fizessem discípulos dentre todas as nações (Mt 28.19). Depois que prometeu estar com eles para sempre, até o próprio fim do mundo (Mt 28.20), Ele subiu ao céu – com as mãos levantadas, a abençoá-los (Lc 4.50).

Portanto, a vida de Jesus Cristo como Homem entre os homens, sobre este planeta, terminou triunfalmente. A reivindicação apostólica nos provê uma apropriada conclusão para Seu ministério terreno “… a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36).

 

Fonte:

  • GELDENHUYS, J. N. Vida de Jesus Cristo. In: DOUGLAS, J. D. (Editor Organizador). O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1979, pp. 819 a 824. Texto adaptado.

 

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Jesus, o Verbo Divino

No nosso capítulo (post) sobre a doutrina de Deus, vimos que Myer Pearlmann destaca várias referências bíblicas que enfatizam a divindade de Jesus Cristo. A linguagem dos escritores do Novo Testamento era de que Ele está “… sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5). Estas crença e experiência espiritual dos cristãos apoiavam estas afirmações. Ao conhecer a Jesus, conheciam-no como Deus. É neste sentido, que queremos estudar neste post, embora de forma limitada, o significado do Logos ou Verbo, tendo como referência o prólogo do Evangelho de João. Informações complementares, mas tão importantes quanto o texto principal, escrevi-as em NOTAS, as quais ajudarão um pouco mais a compreensão do assunto.

1. O Verbo (Logos): prólogo[1] do Evangelho de João

“… Logos para João é uma pessoa, que comunica a realidade de Deus aos homens pela Sua encarnação e sacrifício na cruz… Servia o termo de ponte entre o mundo grego e judaico. Sendo Deus, o Logos é a perfeita expressão Deus. A revelação no A.T. era perfeita, mas incompleta. Em o N.T. é perfeita e completa … A falta do artigo no original não quer dizer ‘um deus’ mas que o Verbo [tradução de Logos] tinha a natureza divina. ‘O Filho está destacado na Trindade, mas a Trindade toda não é o Verbo’”.[2]

O prólogo do Evangelho de João não é mero prefácio ou introdução, mas uma declaração do tema central e básico no ensino do Filho de Deus, a saber, a encarnação do Verbo. O evangelista pinta o pano de fundo necessário para a revelação do evento redentor, isto é, o Verbo feito carne. O prólogo é poético na sua forma e estrutura, e constitui um hino à Palavra de Deus. Vejamos o texto:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João1.1-14).

Nos primeiros versículos (1 e 2) encontramos um eco claro das primeiras palavras do Velho Testamento e também uma indicação do conceito joanino do Logos – palavra grega traduzida como Verbo em nossas versões em Português – Em Gên. 1.1 encontra-se o ato criativo de Deus (berê’shiyth bârâ’ ‘elohiym ‘êth hashâmayim ve’êth hâ’ârets = No princípio criou Deus os céus e a terra[3]), porém João 1.1 (Εν αρχη ητο ο Λογος, και ο Λογος ητο παρα τω Θεω, και Θεος ητο ο Λογος[4] = No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus) revela O Verbo que existe antes da criação. O pensamento do escritor é impregnado do Velho Testamento e não devemos imaginar que o evangelista esteja tomando emprestado um termo ou conceito da filosofia grega daquela época, Ele expõe uma ideia que remonta ao ensino rabínico, concernente à Palavra de Deus. O Logos é o Ser cuja existência transcende o tempo. Sua pré-existência eterna é implícita. A preposição com (em “com Deus”, v. 1) implica relação e distinção. Usada com o acusativo significa não somente coexistência, mas intercomunicação direta. Plummer sugere “face a face com Deus”. Da expressão “O Verbo era Deus” (v. 1), não se deduz que o Verbo era Deus, no sentido exclusivo que o identifica com a totalidade da existência e atributos divinos; entretanto, significa mais do que divindade. Há uma implicação definida na reivindicação de Ele ser Deus. O substantivo theos é colocado em primeiro lugar sem o artigo, dando-lhe mais força. O logos é então identificado com Deus no sentido de que Ele é coparticipante (veja NOTA 10) da essência e natureza divinas e, em virtude de tal relação, pode ser considerado como Deus. No vers. 2, João reúne todas as três cláusulas da primeira sentença. O verbo era se usa no sentido absoluto de “existir” e não no sentido de “tornar-se”. Sua existência transcende o tempo, não sendo ele criado.

Nos primeiros versículos 3 a 5, salienta-se o fato de o Verbo “tornar-se” algo, o que corresponde ao processo criativo. O verbo é o instrumento da criação, “pois todas as coisas foram feitas por ele” (v. 3); literalmente pode-se dizer que “todas as coisas foram criadas por intermédio dele”. A origem última é o Pai, e nenhum agente intermediário teve parte no trabalho da criação, apesar da crença sustentada pelos gnósticos. “E sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nEle, e a vida era a luz dos homens” (vs. 3,4). É excluída a possibilidade de qualquer processo criativo à parte dele. Salienta-se o pensamento de que todas as coisas criadas são sustentadas por Ele e se coadunam através do princípio de vida emanada dEle. “A fonte de vida é necessariamente a fonte de luz” (Cambridge Bible).

O pensamento do evangelista em “A luz nas trevas” (v. 5) agora abrange a esfera espiritual. O homem recebeu iluminação espiritual. Tal revestimento emana da vida que tem seu fundamento na Palavra de Deus. A conexão entre vida e luz é apontada pelo salmista (“Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz”, Sl 36.9. Ver também: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1Jo 1.5). A luz brilha no mundo, e ela está em conflito com as espessas trevas originadas na desobediência e ignorância do homem. Não se pode apagar o testemunho à verdade divina. A luz é inextinguível e inconquistável, “as trevas não prevaleceram contra ela”.

Nos versículos 6 a 13, pode se destacar o Verbo em relação com a História humana. Sua vinda foi proclamada por João, o Batista, “que veio para que testificasse da luz” (v. 8). “João [Batista] era a lâmpada que ardia e iluminava” (Jo 5.35), porém ele é somente um reflexo da verdadeira luz, não derivada, que veio ao mundo (v. 9). O testemunho de João Batista é parte integral do texto. Por outro lado, o evangelista insiste na subordinação de João Batista ao Verbo, que há de ocupar o primeiro lugar.

A luz criadora estava presente no mundo antes da encarnação. Ela se tinha revelado imanentemente ao mundo que fora criado por ela, entretanto o mundo não a conhecia (v. 10). Mais, ainda, Jesus, a Luz, revelou-se historicamente ao seu próprio povo, Israel, que não O recebeu (v. 11). Aqui notamos a manifestação progressiva do Verbo. “Ele estava com Deus” (v. 2)… “estava no mundo” (v. 10)… “Ele veio para o que era seu” (v. 11). Seu próprio povo recusou acolhê-Lo. A tragédia desta oposição torna-se evidente. Contudo, todos quantos o receberam entraram em uma nova relação com Deus tornando-se “filhos de Deus” (v. 12), através do renascimento espiritual. Esta nova condição, que resulta da regeneração, não se explica como fenômeno psíquico, nem como experiência espírita. Esta experiência não é devido a um processo natural, envolvendo a vontade da carne, nem a vontade do homem (v. 13). Não é alcançada por nenhuma faculdade inerente do homem, mas por meio de um novo nascimento, provindo de Deus.

No vers. 14-18, João fala do Verbo encarnado. Há uma relação notável entre a declaração fundamental do vers. 1 e a do vers. 14. O Verbo que estava no princípio com Deus tornou-se homem; o Verbo que estava com Deus tabernaculou com os homens. Aquele que era Deus estava cheio de Graça e de Verdade, mas agora este Verbo eterno é identificado com o Cristo da História. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (v. 14). Note-se que ao mencionar “carne” exclui-se qualquer espécie de Docetismo[5] e outras noções semelhantes dos tempos modernos. Nosso Senhor assumiu um corpo humano real; ele tabernaculou entre os homens. A essência de Deus se manifesta naquele que é Graça e Verdade encarnadas. A majestade e o poder de Deus se encobriram na carne.

E vimos a sua glória” (v. 14). João, o Evangelista, está falando como testemunha ocular da glória de Deus. O conceito deve ser tomado subjetivamente. “Este conceito é moral e espiritualmente grandioso” (Plummer). Esta “glória” se define como a “glória do Unigênito do Pai” (v. 14), exclusividade de sua filiação com o Pai e, coforme a palavra “como” (v. 14) sugere, a filiação de Jesus é diferente de qualquer outra espécie de filiação.

Como vimos, Gênesis 1.1 inicia-se com a criação do mundo (céus e a terra), enquanto em João 1.1, vimos que o Logos (Verbo) existe antes da criação mencionada em Gênesis e foi Ele também o criador do mundo. O Verbo “estava com Deus”, “o Verbo era Deus”, “todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (cf. vs. 1 a 3). A expressão Logos, na Septuaginta[6], tem sido usada para traduzir a palavra hebraica Dabhar (Palavra = Palavra de Deus). Mas outros sentidos também estão envolvidos no Logos, como “afirmação”, “declaração”, “discurso”, “assunto”, “doutrina”, “questão”, “razão”, “causa”, “motivo” etc.

Como afirma Pearlman[7], a palavra do homem é aquela por meio da qual ele se expressa e se comunica com os seus semelhantes. Por sua palavra ele dá a conhecer seus pensamentos e sentimentos, e por sua palavra ele manda e executa a sua vontade. A palavra com que se expressa está impregnada de seu pensamento e de seu caráter. Pela expressão verbal de um homem até um cego pode conhecê-lo perfeitamente. Embora se veja uma pessoa e dela se tenha informações, não se conhecerá o suficiente enquanto ela não falar. A palavra do homem é a expressão de seu caráter. Da mesma maneira, a “Palavra de Deus” é o veiculo mediante o qual Deus se comunica com outros seres, e é o meio pelo qual Deus expressa o seu poder, a sua inteligência e a sua vontade. Cristo é a Palavra ou Verbo, porque por meio dele, Deus revelou sua atividade, sua vontade e propósito, e por meio dele tem contato com o mundo. Nós nos expressamos por meio de palavras; o eterno Deus se expressa a si mesmo por meio do seu Filho, o qual “é a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3). Cristo é a Palavra de Deus, demonstrando-o em pessoa. Ele não somente traz a mensagem de Deus — ele é a mensagem de Deus.

O homem anelava por uma resposta mais clara à seguinte pergunta: como é Deus? Para responder a esta pergunta, surgiu o evento mais significativo da história — “E o Verbo se fez carne” (Jo 1.14). O Verbo eterno de Deus tomou sobre si mesmo a natureza humana e se tornou homem, a fim de revelar o eterno Deus por meio de uma personalidade humana. “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1.1,2). De modo que à pergunta “como é Deus?”, o cristão responde: Deus é como Cristo, porque Cristo é o Verbo — a ideia que Deus tem de si mesmo. Isto é, ele é “a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3), “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.5).

2. A cristologia do Logos (Verbo)

“Uma palavra é um meio pelo qual os pensamentos são expressos, e a aplicação dessa palavra [Logos] ao Filho eterno nos leva a crer que a auto expressão é inerente à Divindade, que Deus está sempre procurando falar com a sua criação…”[8]

Continuando, quero destacar o que J. N. BIRDSALL[9] fala sobre como foi conceituada a cristologia do Logos. A Palavra de Deus é a autorevelação do Logos. Ela possui um poder semelhante ao de Deus, o qual a profere (cf. Is 55.11, “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”) e efetua Sua vontade sem qualquer resistência. Por conseguinte o termo pode referir-se à palavra criadora de Deus. Na literatura de Sabedoria e poder criador de Deus é referido como a Sua sabedoria, e, em certo número de passagens é referida como uma hipóstase[10] distinta de Deus (p. ex. Pv 8.22-30).

Influenciado tanto pelo Antigo Testamento como pelo pensamento helênico, Filo[11] fez uso frequente do termo Logos, ao qual deu um significado altamente desenvolvido e um lugar central em seu esquema teológico. Ele deriva o termo de fontes estoicas e de conformidade com sua descoberta do pensamento grego nas escrituras hebraicas, fez uso do mesmo sobre a base de passagens tais como Salmo 33.6 (“Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca”), para expressar os meios mediante os quais o Deus transcendental podia ser o Criador do universo e o revelador de Si mesmo a Moisés e aos patriarcas. Pelo lado grego, Filo equiparou o Logos com conceito platônico do Mundo de Ideias, pelo que se torna tanto o plano de Deus como o poder de Deus na criação. Pelo lado da exegese bíblica, Filo identificou o Logos com o Anjo do Senhor e com o Nome de Deus, o qual é descrito através de uma variedade de termos, como Sumo-Sacerdote, Capitão e Guia, Advogado (Paracletos) e Filho de Deus. O Logos é chamado então de um segundo Deus, e, por outro lado, é descrito como o Homem Ideal, o Padrão da criação terrena do homem por parte de Deus. A despeito de toda essa terminologia de personificação, entretanto, o termo permanece – inevitavelmente, em vista do inquebrantável Judaísmo de Filo (pelo menos quanto à intenção) – como  um termo e instrumento filosófico e teológico.

Um outro possível fator determinante do uso do Logos, nas passagens que precisamos examinar, é o emprego desse termo para significar a mensagem evangélica. O termo é usado de modo absoluto (exemplo, pregar a Palavra) e com certo número de genitivos (a Palavra de Deus, de Cristo, da cruz, da reconciliação, da vida etc.). Esses genitivos mostram que a história evangélica é encarnada no Novo Testamento essencialmente como uma apresentação do próprio Jesus; Ele é a Palavra que é pregada. Mas isso de forma alguma é sempre implícito na frase.

Birdsall destaca os três lugares na Bíblia, onde o uso do Logos aparece em sentido técnico: João 1.1 e 14, 1João 1.1-3 e Apocalipse 19.13 (todas as passagens do mesmo autor: João). Só queremos destacar, ainda, sobre João 1.1, o que Filo fala a respeito. Para ele, neste texto, há um esquema claramente teológico em que a Palavra possui uma unidade semelhante com Deus e uma semelhante distinção entre si mesma e Deus, e na qual tanto a atividade criativa como a atividade sustentadora do universo e a atividade revelatória para com o homem se atribuem ao Logos. Além disso, o conceito necessariamente sem paralelo da encarnação é, não obstante, um desenvolvimento apropriado da identificação do Logos com o Homem Ideal.

O certo é que, como afirma B. Hägglund[12], a cristologia do Logos visa responder a questão mais difícil da fé cristã na linguagem da época. Os apologistas [defensores da fé, principalmente do segundo século] escolheram um conceito da filosofia contemporânea e usaram para descrever o que para a mentalidade grega era absurdo – que Cristo é Deus, mas que, com isso, a unidade da Divindade não é negada. Se Cristo é apresentado como Logos, a razão divina, é natural considerar sua obra principalmente em termos pedagógicos. Ele nos transmite o verdadeiro conhecimento de Deus e nos instrui na nova lei, que nos guia ao caminho da vida. Considera-se do ponto de vista do desenvolvimento histórico do dogma, que a principal contribuição dos apologistas foi sua tentativa de correlacionar o cristianismo com a erudição grega, tentativa que encontrou sua expressão mais marcante na doutrina do Logos e sua aplicação à cristologia.

Bem, ao contrário de Mateus e Lucas que se ocupam da linhagem humana de Jesus, o evangelista e apóstolo João começa seu Evangelho falando do Verbo (Logos), o Cristo Deus e Criador, que É (existe) antes de qualquer criatura e mesmo porque sem Ele “nada do que foi feito se fez”. E João testifica que suas “… mãos tocaram da Palavra da Vida” (1Jo 1.1), porque “… o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus” ( Ap 19.13). O Logos que era tema de preocupação filosófica nos dias de João, depois dele serviu de ponte entre a filosofia e o cristianismo, como também para a elucidação dos dogmas da encarnação do Verbo e da Trindade pelos apologistas cristãos.

Veja mais sobre este assunto no vídeo a seguir:

 

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo. Vida Nova, 1990.
  • HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia: 2003.
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983 (reimpressão).

Notas:

  • [1] Texto resumido do Prólogo no Comentário sobre o Evangelho de João por A. J. MACLEOD. In: SHEDD: 1983, pp. 1063 e 1064.
  • [2] SHEDD, Russell P. (Editor Responsável). Nota de João 1.1. A Bíblia Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, (?).
  • [3] Texto transliterado e traduzido disponível em: <http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/geneses-bereshit-completo-%D7%91%D6%BC%D6%B0%D7%A8%D6%B5%D7%90%D7% A9%D7%81%D6%B4%D7%99%D7%AA-hebraico-portugues-e-transliterado/bereshit-geneses-capitulo-01-%D7%91%D7%A8%D7%90%D7%A9%D7%99%D7%AA-portugues-hebraico-transliterado/>. Acesso em 30/05/2019.
  • [4] Texto de João 1.1, em grego, disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/greek/jo/1>. Acesso em: 30/05/2019.
  • [5] Em linhas gerais, o Docetismo era uma corrente doutrinária que afirmava que o corpo de Jesus era apenas uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. Os docetistas afirmavam “… que Jesus tão-somente parecia existir em forma humana, que apenas parecia ter sofrido na cruz e que depois da ressurreição retornou a uma existência espiritual incorpórea” (HÄGGLUND: 2003, p. 18). Esta doutrina desconsiderava o fato de que “o Verbo se fez carne”, ou seja, Jesus Cristo humanizou-se, mediante a Encarnação.
  • [6] Septuaginta ou Setenta (LXX) foi uma tradução dos livros judaicos para o grego feita no século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-245 a.C.), para a sua biblioteca em Alexandria, no Egito. Esta versão recebeu este nome por causa da quantidade de tradutores, um tanto inexata, que era de setenta e dois anciãos, e foi feita também para atender a conveniência de alguns judeus de fala grega, que por causa da influência do helenismo desconheciam sua própria língua. Veja mais sobre isto em: <http://amorim.pro.br/?p=2551>.
  • [7] PEARLMAN: 1978, pp. 100 e 101 (Op. Cit.).
  • [8] TOZER, A. W. Nota sobre João 1.1.
  • [9] BIRDSALL, J. N. Logos. In: SHEDD: 1983, pp. 958-60 – Texto parcial e adaptado conforme o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro.
  • [10] Hipóstase é um termo grego que pode se referir à natureza de algo, de uma pessoa, com personalidade própria, individual e distinta. “… Teologicamente foi desenvolvida como o termo para descrever qualquer das três substancias reais e distintas na única substancia ou essência indivisíveis de Deus, e especialmente a única personalidade unificada de Cristo, o Filho, em Suas duas naturezas, a humana e a divina…” (WARD, W. E. Hipóstase. In: ELWELL: 1990, p. 252.
  • [11] Filo ou Filon de Alexandria (10 a.C – 50 d.C) “… foi um dos mais renomados filósofos do judaísmo helênico, interpretou a bíblia utilizando elementos da filosofia de Platão, para ele o Demiurgo de Platão é o Deus criador dos hebreus… Para ele existe um Deus único, incorpóreo e que não tem princípio. Deus criou o Logos, que é a atividade intelectiva de Deus, e ao Logos devemos a criação do mundo. O Logos é o que está entre Deus e os homens, é o intermediário da relação entre os dois. O Logos é o ser mais antigo, o primeiro a ser criado por Deus e é também a sua imagem…” (Disponível em:<http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=39>. Acesso em: 04/06/2019.
  • [12] HÄGGLUND: 2003, pp. 23 e 24.

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O Senhor Jesus Cristo, Por Myer Pearlman

Por

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 96 a 120.

 

ESBOÇO

I. A natureza de Cristo

  1. Filho de Deus (Deidade).
  2. O Verbo (preexistência e atividade eternas).
  3. Senhor (deidade, exaltação e soberania).
  4. Filho do Homem (humanidade).
  5. Cristo (título oficial e missão).
  6. Filho de Davi (linhagem real).
  7. Jesus (obra salvadora).

II. Os ofícios de Cristo

  1. Profeta.
  2. Sacerdote.
  3. Rei.

III. A obra de Cristo

1. Sua morte.

a) Sua importância.
b) Seu significado.

2. Sua ressurreição.

a) O fato.
b) A evidência.
c) O significado.

3. Sua ascensão constituiu-o

a) O Cristo celestial.
b) O Cristo exaltado.
c) O Cristo soberano.
d) O Cristo que prepara o caminho.
e) O Cristo intercessor.
f) O Cristo onipresente.
g) Conclusão: valores da ascensão.

 

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Revelação Geral e Especial de Deus

Este é o quarto post que escrevemos acerca de Deus. Nos anteriores, falamos, primeiramente, sobre os argumentos em prol da sua existência, depois, sobre  seus atributos, e por último, sobre  sua doutrina, incluindo a Trindade. Neste, queremos enfocar a revelação geral e a especial de Deus, embora estes dois assuntos já estejam permeados nos posts anteriores.

1. Revelação Geral:

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Num outro momento, já vimos acerca do argumento Teleológico ou do desígnio que afirma, entre outras coisas, ser o universo, obra de um grande Arquiteto. Seguindo parte desta linha de raciocínio, a revelação geral diz respeito ao universo ou a toda manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe que é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e justo. A revelação geral, ou natural pode ser dividida em duas categorias: a interna, que diz respeito ao senso inato da deidade e da consciência, e a externa, relacionada à natureza e à história da providência.

Demarest (Op. Cit., pp. 303-304) afirma, citando Lutero, que “todos os homens têm o conhecimento geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que Ele castiga os iníquos etc”, enquanto Calvino insistiu que “até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e do céu, a subirem em direção ao Criador”.

Apresentando alguns dados bíblicos, Demarest aponta:

O discurso de Eliú dirigido a Jó (cap. 36.24-37.24), que chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados estão presentes para todos contemplares (JÓ 36.25). Além disso, o discurso que Deus dirigiu a Jó (cap. 38.1-39.30) transmite a ideia de que os fenômenos naturais (trovão, relâmpago, chuva, neve), o nascer do sol todas as manhas, as constelações majestosas nos céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal, todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.

De acordo com o Salmo 19, Deus Se revela através de uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vs. 1 a 6) e o livro da lei (vs. 7-13). No primeiro volume, lemos: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (v. 1). Aquilo que a ordem criada demonstra é a “glória”, saber: a manifestação externa daquilo que Deus é no Seu intimo e dos Seus atributos. A revelação da glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (V. 2), muda ou inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4).

Vemos mais um dado bíblico em Romanos 2.14-45, onde Paulo ensina que uma modalidade adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências morais. Por isso, podemos afirmar que a revelação geral é referida como tal porque possui um conteúdo geral e é revelada para um público em geral. Através da revelação geral, dirigida a todos os homens, Deus comunica a Sua existência, Seu poder e Sua glória, de modo que os homens são deixados sem desculpa.

2. Revelação Especial:

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).

A revelação geral, imediata (que ocorre sem um agente intermediário) ou mediada (que ocorre através de um agente intermediário, como as obras criadas, por exemplo) é dirigida a todos os homens. No entanto, ela não é suficiente para levá-los ao conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação. Ela não revela Jesus Cristo ou Sua obra redentora dirigida aos pecadores. Assim, torna-se necessário aquilo que é chamado de revelação especial.

Embora a revelação de Deus não deva, necessariamente, ser dividida em geral e a especial, mas não há dúvida que há uma revelação especial, que é redentora e está acima da luz natural da razão. As Escrituras, que como vimos, também fala da revelação geral ao destacar a natureza e a consciência humana, publica as boas-novas que o Deus santo e misericordioso promete a salvação como uma dádiva divina ao homem que não pode salvar-se a si mesmo (AT), e que Ele agora cumpriu aquela promessa mediante a dádiva do Seu Filho, em quem todos os homens são chamados a crer (NT). O evangelho é a notícia de que o Logos encarnado (do qual falaremos noutro momento) carregou sobre Si os pecados dos homens condenados, morreu em seu lugar e ressuscitou para a sua justificação. Este é o centro permanente da revelação especial redentora.

Para chegar esta revelação especial à humanidade, Deus preparou um povo, Israel, na Antiga Aliança, e a igreja, na Nova Aliança, para revelar-lhe diretamente o conhecimento necessário à salvação. Foi assim que Deus revelou-se a Noé, a Abraão, a Moisés, aos profetas, a Davi, a Salomão, aos seus apóstolos e, especialmente, em Cristo. É neste sentido que o autor da Epístola aos Hebreus afirma que, “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.1-2). Cristo é a revelação final de Deus.

É este também o sentido das palavras do apóstolo Paulo endereçada aos gálatas: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11-12). À igreja de Deus, portanto, foram confiados os oráculos de Deus, uma revelação especial, inspirada, clara, precisa, autoritativa, suficiente para ensinar ao homem o que ele deve conhecer e crer e o que dele é requerido, com vistas à sua própria salvação e à glória de Deus.

Como afirma A Confissão de Fé Westminster 1.1:

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens sejam inescusáveis todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso agradou ao Senhor, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e contra a maldade de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna as Escrituras Sagradas indispensável [sic], tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo.[1]

Concluindo, vimos que pela revelação geral, a humanidade em geral tem conhecimento de um Deus todo-poderoso e que através de Suas obras e nossa consciência não somos enganados em relação à Sua resistência e atributos. Mas que, além disso, Ele deixou-nos uma revelação escrita para aqueles que queiram conhecer sobre o caminho da salvação, sua comunhão e seu destino com Ele.

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Sobre a Revelação Escrita, veja os meus posts:

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Referências bibliográficas:

  • DEMAREST, B. A. Revelação Geral. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • HENRY, C. F. H. Revelação Especial. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • MATHISON, Keith. Revelação Geral e Revelação Especial – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras. Disponível em: <https://tuporem.org.br/revelacao-geral-e-revelacao-especial/>. Acesso em: 14/05/2019.

 

Nota:

 

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A Doutrina de Deus

Sobre DEUS, Já vimos dois artigos (posts): no primeiro, vimos o que Myer PEARLMAN descreve sobre alguns argumentos sobre sua existência, e no segundo, acerca de Seus atributos. Neste, fizemos um breve estudo   sobre o Ser de Deus – sua personalidade –, conceituado pelos seus diversos nomes e a doutrina da Trindade.

1.  Definição de Deus: sua personalidade

Quem é, e que é Deus? A melhor definição, segundo Myer Pearlman[1] “… é a que se encontra no Catecismo de Westminster: ‘Deus é Espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade” (Op. Cit., p. 41). E ele afirma também que a formulação bíblica desta definição está na compreensão dos “nomes de Deus”, assunto destacado mais abaixo. Sabemos que é impossível uma definição rigorosa da ideia de Deus. E a que foi mencionada acima é baseada no que a Bíblia ou o próprio Deus se revela de Si mesmo e de seus atributos. Uma das verdades acerca de Deus é que Ele é pessoal.

Em contraste, com qualquer conceito metafísico neutro abstrato, afirma R. L Saucy[2], Deus das Escrituras é um Ser pessoal. Ele Se revela por nomes, especialmente o grande nome pessoal Javé (cf. Ex 3.13-15; 6.3; Is 42.8). Ele conhece e determina de modo autoconsciente, de acordo com o nosso conceito da personalidade. Por exemplo, em 1Coríntios 2.10-11 encontramos: “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus”. E em Efésios 1.11, vimos: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. A centralidade da personalidade de Deus é vista no fato de que, embora seja o Criador e o Preservador de toda a natureza, Ele é encontrado nas Escrituras não principalmente como o Deus da natureza, como nas religiões pagãs, mas, sim, como o Deus da história, que controla e dirige os assuntos dos homens. O lugar central da aliança mediante a qual Ele Se liga com os homens num relacionamento pessoal é uma indicação adicional da ênfase bíblica dada à natureza pessoal de Deus. Em nenhum lugar a personalidade de Deus fica mais evidente do que na Sua descrição bíblica como Pai. Jesus falava constantemente de Deus como “meu Pai”, “vosso Pai” e “o Pai celeste”. Além do relacionamento trinitariano sem igual entre o Filho divino e o Pai, que certamente envolve traços pessoais, a paternidade de Deus fala dEle como a origem e o sustentador das Suas criaturas, que pessoalmente cuida delas (Mt 5.45; 6.26-32), e Aquele para quem o homem pode voltar com confiança.

A personalidade de Deus tem sido colocada em dúvida com base no nosso uso da palavra “pessoa”, no que diz respeito aos seres humanos. A personalidade humana envolve limitação que permite o relacionamento com outra pessoa ou com o mundo. Ser uma pessoa significa ser um indivíduo entre indivíduos. Tudo isto nos acautela contra antropomorfismos errôneos de Deus. Biblicamente, é mais apropriado entender que a personalidade de Deus tem prioridade sobre a do homem e, portanto, entender a personalidade humana de modo teomórfico, isto é, como uma réplica finita da pessoa divina infinita. A despeito da derradeira incompreensibilidade da personalidade supra-humana de Deus, as Escrituras O retratam como uma pessoa real que Se oferece a nós num relacionamento recíproco como um “tu” genuíno.

O conceito bíblico da personalidade de Deus refuta todas as ideias filosóficas abstratas acerca dEle como mera Causa Prima ou Motor Imóvel bem como todos os conceitos naturalistas  e panteístas. As equações modernas entre Deus e os relacionamentos pessoais imanentes – o amor – também são rejeitadas.

2.  Os principais nomes de Deus

Conforme vimos acima, Myer Pearlman afirma que a formulação bíblica para a definição de Deus está na compreensão dos seus “nomes”. Deus revela-se a si mesmo fazendo-se conhecer ou proclamando o seu nome JAVÉ. E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, o Senhor [Javé], não lhes fui perfeitamente conhecido(Êx  6.3). Vejamos o significado deste e de outros nomes de Deus que encontramos nas Escrituras:

a)  Javé ou Jeová (traduzido “SENHOR” na versão de Almeida[3]):

Este nome, originado do tetragrama YHWH, intercalado com as vogais A e E ou E, O e A (YAHWÉH ou YEHOWAH. Tem relação também com o SER, em Êxodo 3.14-15 (E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração), cujo verbo (SER) inclui os três tempos desse verbo — passado, presente e futuro. O nome, portanto significa: Ele que era, que é e que há de ser; em outras palavras, o Eterno. Visto que Jeová é o Deus que se revela a si mesmo ao homem, o nome significa: Eu me manifestei, me manifesto, e ainda me manifestarei. O que Deus opera a favor de seu povo acha expressão nos seus nomes, e ao experimentar o povo a sua graça, desse povo então pode dizer-se: “conhecem o seu nome.”

A relação entre Jeová e Israel resume-se no uso dos nomes encontrados nos concertos entre Jeová e seu povo. Por isso, Javé ou Jeová aparece acompanhado de outros nomes e significados como:

  • Jeová-Rafa (Yahweh Raph’eka), “o Senhor que cura (sara)” (Êx 15.26). É a resposta de Jeová aos que jazem em leitos de doença (dor).
  • JeováNissi (Yahweh-nisi), “o Senhor é minha (nossa) bandeira” (Êx 17.15). O nome invocado pelos oprimidos frente à fúria do inimigo.
  • JeováShalom (Yahweh-shalom), “o Senhor é (nossa) Paz” (Jz 6.24). Jeová enfatiza que a verdadeira paz para os desconsolados vem Dele.
  • Jeová Ra’ah, “o Senhor meu pastor” (Sl 23.1). Esse é o nome empregado pelo salmista Davi para expressar a liderança, provisão e proteção de Deus para com seu povo.
  • JeováTsidkenu (Yahweh-tsidqenu), “o Senhor é nossa justiça” (Jr 23.6). Resposta de Jeová àqueles que se sentem sob condenação e necessitados da justificação.
  • Jeová Jireh (Yhaweh-yir’eh), “o Senhor que provê” (Gn 22.14). Esse foi o nome utilizado por Abraão para se referir a Deus na ocasião em que ele iria sacrificar seu filho Isaque no Monte Moriá.
  • Jeová-Shammah (Yahweh-shamah), o Senhor está ali” (Ez 48.35). Expressão final da profecia do profeta Ezequiel, que enfatiza a promessa da presença de Deus com o seu povo.
  • Jeová Sabaote (Yahweh-tseva’ot), Senhor dos Exércitos. Título divino que aparece pela primeira vez em 1Samuel 1.3, e é mesmo utilizado por Davi quando ele foi lutar contra o gigante Golias dos filisteus (1Sm 17.45).

b)  Elohim.  A palavra Elohim (p. ex. Gn 1.1) é a forma plural de El (Deus). Esta palavra emprega-se sempre que sejam descritos ou implícitos o poder criativo e a onipotência de Deus. Elohim é o Deus Criador. A forma plural significa a plenitude de poder e [pode] representa a trindade. A expressão “façamos o homem” (Gn 1.26) diz respeito à ação de Elohim (Deus, no plural) na criação do homem. Ou seja, a presença da trindade na obra da criação.

c)  El (Deus), usado em certas combinações:

  • ElElyon (Gn 14.18-20), o “Deus altíssimo”, o Deus que é exaltado sobre tudo o que se chama deus ou deuses.
  • ElShaddai, “o Deus que é suficiente para as necessidades do seu povo” (Êx 6.3).
  • ElOlam, “o eterno Deus” (Gn. 21.33)…

d)  Adonai. Literalmente. significa “Senhor” e “Pai”, e dá a ideia de governo e domínio. (Êx 23.17; Is 10.16,33.) Por causa do que Deus é e do que tem feito, ele exige o serviço e a lealdade do seu povo. Este nome no Novo Testamento aplica-se ao Cristo glorificado.

3.  O Deus trino

As Escrituras, afirma Pearlman, ensinam que Deus é Um, e que além dele não existe outro Deus. Poderia surgir a pergunta: “Como podia Deus ter comunhão com alguém antes que existissem as criaturas finitas?” A resposta é que a Unidade Divina é uma Unidade composta, e que nesta unidade há realmente três Pessoas distintas, cada uma das quais é a Divindade, e que, no entanto, cada uma está sumamente consciente das outras duas. Assim, vemos que havia comunhão antes que fossem criadas quaisquer criaturas finitas. Portanto, Deus nunca esteve só. Veja o esquema abaixo:

Não é o caso de haver três Deuses, todos três independentes e de existência própria. Os três cooperam unidos e num mesmo propósito, de maneira que no pleno sentido da palavra, são “um”. O Pai cria, o Filho redime, e o Espírito Santo santifica; e, no entanto, em cada uma dessas operações divinas os Três estão presentes. O Pai é preeminentemente o Criador, mas o Filho e o Espírito são tidos como cooperadores na mesma obra. O Filho é preeminentemente o Redentor, mas Deus o Pai e o Espírito são considerados como Pessoas que enviam o Filho a redimir. O Espírito Santo é o Santificador, mas o Pai e o Filho cooperam nessa obra.

A Trindade é uma comunhão eterna, mas a obra da redenção do homem evocou a sua manifestação histórica. O Filho entrou no mundo duma maneira nova ao tomar sobre si a natureza humana e lhe foi dado um novo nome, Jesus. O Espírito Santo entrou no mundo duma maneira nova, isto é, como o Espírito de Cristo incorporado na igreja. Mas ao mesmo tempo, os três cooperaram. O Pai testificou do Filho (Mt  3.17); e o Filho testificou do Pai (Jo 5.19). O Filho testificou do Espírito (Jo 14.26), e mais tarde o Espírito testificou do Filho (Jo 15.26).

Será tudo isso difícil de compreender? Como poderia ser de outra maneira visto que estamos tentando explicar a vida íntima do Deus Todo poderoso! A doutrina da Trindade é claramente uma doutrina revelada, e não doutrina concebida pela razão humana. De que maneira poderíamos aprender acerca da natureza íntima da Divindade a não ser pela revelação? (1Co 2.16.) É verdade que a palavra “Trindade” não aparece no Novo Testamento; é uma expressão teológica, que surgiu no segundo século para descrever a Divindade. Mas o planeta Júpiter existiu antes de receber ele este nome; e a doutrina da Trindade encontrava-se na Bíblia antes que fosse tecnicamente chamada a Trindade.

a)  A Trindade no Antigo Testamento:

O Antigo Testamento não ensina clara e diretamente sobre a Trindade, e a razão é evidente. Num mundo onde o culto de muitos deuses era comum, tornava-se necessário acentuar esta verdade em Israel, a verdade de que Deus é Um, e de que não havia outro além dele. Se no princípio a doutrina da Trindade fosse ensinada diretamente, poderia ter sido mal entendida e mal interpretada.

Muito embora essa doutrina não fosse explicitamente mencionada, sua origem pode ser vista no Antigo Testamento. Sempre que um hebreu pronunciava o nome de Deus (Elohim) ele estava realmente dizendo “Deuses”, pois a palavra é plural, e às vezes se usa em hebraico acompanhada de adjetivo plural (Js. 24:18,19) e com verbo no plural. (Gn 35.7.) Imaginemos um hebreu devoto e esclarecido ponderando o fato de que Deus é Um, e, no entanto, é Elohim — “Deuses”. Facilmente podemos imaginar que ele chegasse à conclusão de que exista pluralidade de pessoas dentro de um Deus.

Todos os membros da Trindade são mencionados no Antigo Testamento:

a)  O Pai:

  • Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome” (Is 63.16).
  • Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que agimos aleivosamente cada um contra seu irmão, profanando a aliança de nossos pais?” (Ml 2.10).

b)   O Filho de Jeová:

  • O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” (Sl 45.6,7).
  • Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o Senhor e contra o seu ungido… Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei… Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Sl 2.6,7,12).

Alguns textos apresentam também o Messias (o Filho) com títulos divinos:

  • Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra.
    Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA
    ” (Jr 23.5,6).
  • Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6.).
  • Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado. Guarda-te diante dele, e ouve a sua voz, e não o provoques à ira; porque não perdoará a vossa rebeldia; porque o meu nome está nele” (Êx 23.20,21).

g)  O Espírito Santo:

  • E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas(Gn 1.2).
  • E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. E deleitar-se-á no temor do Senhor; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos” (Is 11.2,3).
  • Chegai-vos a mim, ouvi isto: Não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que aquilo se fez eu estava ali, e agora o Senhor DEUS me enviou a mim, e o seu Espírito” (Is 48.16).
  • O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” (Is 61.1).
  • Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo; pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles” (Is 63.10-ARC).

Prenúncios da Trindade veem-se na tríplice bênção de Nm 6.24-26 (“O Senhor te abençoe e te guarde; O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”) e tríplice doxologia de Is 6.3 (E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória).

b)  A Trindade no Novo Testamento:

Os cristãos primitivos mantinham como um dos fundamentos da fé o fato da unidade de Deus. Tanto ao judeu como ao pagão podiam testificar: “Cremos em um Deus.” Mas ao mesmo tempo eles tinham as palavras claras de Jesus para provar que ele arrogou a si uma posição e uma autoridade que seriam blasfêmia se não fosse ele Deus. Os escritores do Novo Testamento, ao referirem-se a Jesus, usaram uma linguagem que indicava reconhecerem a Jesus como sendo “… sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5). E a experiência espiritual dos cristãos apoiava estas afirmações. Ao conhecer a Jesus, conheciam-no como Deus.

O mesmo se verifica em relação a Deus e ao Espírito Santo. Os primitivos cristãos criam que o Espírito Santo, que morava neles, ensinando-os, guiando-os, e inspirando os a andar em novidade de vida, não era meramente uma influência ou um sentimento, mas um ser ao qual poderiam conhecer e com o qual suas almas poderiam ter verdadeira comunhão. E, ao examinarem o Novo Testamento, ali acharam que ele era descrito como possuindo os atributos de uma personalidade.

Assim a igreja primitiva se defrontava com estes dois fatos: que Deus é Um, e que o Pai é Deus; o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E estes dois grandes fatos concernentes a Deus constituem a doutrina da Trindade. Deus, o Pai, era para eles uma realidade; o Filho era para eles uma realidade; e da mesma forma, o Espírito Santo. E, diante desses fatos, a única conclusão a que se podia chegar era a seguinte: que havia na Divindade uma verdadeira, embora misteriosa, distinção de personalidades, distinção que se tomou manifesta na obra divina para redimir o homem.

c)  Várias passagens do Novo Testamento mencionam as três Pessoas Divinas.

  • E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16,17).
  • E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo(Mt 28.18,19).
  • E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós (…) Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14.16,17,26).
  • Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim” (Jo 15.26).
  • A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém” (2Co 13,14).
  • E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4.6).
  • Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (Ef 2.18).
  • Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” (2Ts 3:5).
  • Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” (1Pe 1.2).
  • Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1.3).
  • Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” (Hb 9.14).

Num próximo estudo, pretendemos falar mais especificamente sobre a deidade de cada uma das pessoas da Trindade, cuja doutrina desenvolveu-se do desejo da igreja de preservar as verdades bíblicas no tocante ao Deus que é o Senhor transcendente sobre toda a História e que, porém, dá-Se a Si mesmo pessoalmente para agir dentro da História. Aliás, a própria a palavra Trindade, que não se encontra na Bíblia, surge no século II, como resultado da preocupação com a definição da doutrina de Deus. O verdadeiro conhecimento desta verdade foi, e continua sendo, necessário para refutar distorções como o Subordinacionismo, que tornava Cristo menor do que Deus, o Pai, o adocianismo, que entendia que Cristo era apenas um ser humano revestido por algum tempo com o Espírito de Deus, o modalismo ou o sabelianismo, que diz que as pessoas de Cristo e do Espírito Santo são apenas papéis ou modificações históricas do único Deus…

A doutrina trinitariana, portanto, é central para o kerigma salvífico das Escrituras, de acordo com o qual o Deus transcendente age pessoalmente na História, para redimir as Suas criaturas e dar-Se a elas. Orígenes concluiu corretamente que o crente ‘não chegaria à salvação se a Trindade não fosse completa’. Portanto, que “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém”.

Referências bibliográficas:

ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).

 

Notas:


[1] PEARLMAN: 1978 (q.v.), pp. 51 a 55 – Texto adaptado de acordo com o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro.

[2] SAUCY, R. L. Doutrina de Deus. In: ELWELL: 1988 (q.v.), pp. 440-444 – Texto parcial e adaptado de acordo com o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro, usado conjuntamente com o texto de PEARLMAN (Nota 1) no decorrer deste estudo.

[3] Versão de Almeida é o nome às principais versões bíblicas de do principal tradutor da Bíblia para a Língua Portuguesa, João Ferreira de Almeida. “A grande maioria dos evangélicos do Brasil associa o nome de João Ferreira de Almeida às Escrituras Sagradas. Afinal, é dele a tradução da Bíblia mais usada e apreciada pelos protestantes brasileiros. Disponível, no Brasil, em duas edições, a Revista e Corrigida e a Revista e Atualizada, a tradução de Almeida é a preferida de mais de 60% dos leitores evangélicos das Escrituras no País”. Disponível em: <http://www.sbb.org.br/a-biblia-sagrada/joao-ferreira-de-almeida/>. Acesso em 09/05/2019.

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Os atributos de Deus

Como parte da série Doutrinas Bíblicas, queremos dar continuidade ao nosso estudo, ainda que superficial, cerca de Deus. Depois do nosso artigo em prol da existência de Deus, queremos destacar, neste, os seus atributos[1], apesar de nossa limitação para tratar de assunto tão profundo e infinito. Para isto, usei como base o texto – adaptado e de acordo com o Novo Acordo Ortográfico – e as sugestões de G. R. LEWIS[2], mas com algumas inserções, destacadas nas notas abaixo.

O Deus, do qual ocupamos nesta e em outras reflexões é o Deus dos hebreus, cujas informações sobre o qual nós as encontramos no Antigo Testamento, primeira parte das Escrituras cristãs. E esta primeira parte da Bíblia inicia com a expressão: “no principio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Isto significa que Deus não se preocupa em provar sua existência. São as informações acerca de seus atributos que nos levam a entender um pouco do “ser de Deus”.

Atributos são qualidades ou adjetivos que marcam as particularidades próprias de alguém. No caso de Deus, como um Ser invisível, pessoal e vivo, que se diferencia de todos os demais seres, podemos destacar os atributos como seguem: metafísicos, existenciais, éticos, intelectuais, emocionais e relacionais.

1. Atributos metafísicos: auto existência, eternidade e imutabilidade

Diferenças relevantes aparecem em vários aspectos, mas primeiramente focalizaremos as características de Deus metafisicamente distintas.

a) Deus é auto existente:

Todos os demais seres foram criados e, portanto, têm um começo. Devem a outro sua existência. Para existir, Deus não depende do mundo nem de qualquer pessoa que nele há. O mundo depende de Deus para a sua existência. De modo contrário àqueles teólogos que dizem que não podemos conhecer nada a respeito de Deus em Si mesmo, Jesus revelou que Deus tem vida em Si mesmo: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5.26). O fundamento da existência de Deus não se acha nos outros, porque nada há de mais ulterior do que Ele mesmo. Deus não tem origem; é Aquele que sempre existe: “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx 3.14). Perguntar quem deu origem a Deus é fazer uma pergunta contraditória, conforme os termos do conceito que Jesus tem de Deus.

Outro termo que transmite o conceito e auto existência de Deus é “asseidade”. A palavra é derivada do latim a, que, significa “de” e se que significa “si mesmo”. Deus tem existência não-derivada, necessária, independente. Compreender que Deus é incontingente ajuda-nos a ver como Deus não é limitado por coisa alguma, é infinito, autodeterminado, não determinado por outra coisa senão Ele mesmo, de conformidade com Seus propósitos soberanos.

b) Deus é eterno:

A vida de Deus vem de Si mesmo, não é algo que teve início no mundo do espaço e do tempo. Deus não teve início, fase de crescimento, velhice nem fim. O Senhor está entronizado como Rei para sempre: “O Senhor se assentou sobre o dilúvio; o Senhor se assenta como Rei, perpetuamente” (Sl 29.10). Este Deus é o nosso Deus para todo o sempre: “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” (Sl 48.14). Embora Deus não seja limitado por espaço e tempo, nem pela sucessão de eventos no tempo, Ele criou o mundo com espaço e tempo. Deus sustenta o âmbito mutável dos eventos sucessivos e está consciente de cada movimento na História. O mundo observável e mutável não é sem importância nem irreal (maya, no hinduísmo) para o onipresente Senhor de tudo. Nenhuma vida, seja de uma tribo, nação, cidade, família ou pessoa, é sem valor, por mais breve ou aparentemente insignificante que seja. A natureza eterna de Deus não está totalmente fora do tempo, nem removida de tudo no tempo e no espaço. O mundo do espaço e do tempo não é estranho a Deus nem lhe é desconhecido. A História é o produto do planejamento eternamente sábio de Deus, do Seu propósito criador, da Sua preservação providencial e da Sua graça geral. Deus enche o espaço e o tempo com a Sua presença, sustenta-os e lhes dá propósito e valor. O Deus onipresente e ubíquo[3] é Senhor do tempo e da história, e não a forma contrária. Deus não nega o tempo, mas o cumpre. Nele, os Seus propósitos são atingidos.

Portanto, no cristianismo a eternidade não é de natureza intemporal e abstrata, mas o eterno é uma característica do Deus vivo presente em todos os tempos e todos os lugares, criando e sustentando o mundo do espaço e do tempo e realizando os Seus propósitos redentores na plenitude do tempo.

c) Deus é imutável:

Deus é imutável em sua natureza, desejo e propósito. Dizer que Deus é imutável não é contradizer a verdade prévia de que Ele é vivo e ativo. É afirmar que todos os empregos do poder e da vitalidade divinos são coerentes com Seus atributos, como a sabedoria, a justiça e o amor. Os atos de Deus nunca são meramente arbitrários, embora alguns deles o possam ser por razões totalmente inerentes a Ele, ao invés de serem condicionados pela reação humana. Por trás de cada punição dirigida aos maus e de cada perdão concedido aos arrependidos está Seu imutável propósito no tocante ao pecado e à conversão. Ao contrário do conceito estoico da imutabilidade divina, Deus não é indiferente às atividades humanas. Pelo contrário, sempre podemos contar com a preocupação de Deus a favor da retidão humana. Deus responde imutavelmente à oração, de conformidade com Seus desejos e propósitos de amor santo. Daí, embora se fale em termos da experiência humana, às vezes se afirma nas Escrituras que Deus se arrepende; mas, na realidade, os impenitentes é que mudaram, ou os fiéis é que se tornaram infiéis.

Deus é o mesmo, embora tudo mais na criação envelheça como uma roupa: “Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim”
(Sl 102.25-27). Jesus compartilhava desta mesma natureza imutável: “E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão,
E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão
” (Hb 1.10-12) e a exibiu de modo vívido e coerente no decurso de todo o Seu ministério ativo, numa variedade de situações.

A imutabilidade do caráter de Deus significa que Ele nunca perde a Sua própria integridade nem decepciona as pessoas. Em Deus não pode existir variação ou sombra de mudança (Tg 1.17). A natureza e a palavra inabaláveis de Deus fornecem o fundamento mais forte para a fé e trazem forte consolação (Hb 6.17-18). Deus não é homem para mentir (Nm 23.19) ou Se arrepender (1Sm 15.29). O conselho do Senhor permanece para sempre (Sl 33.11). Passarão o céu e a terra, porém as palavras de Deus não passarão (Mt 5.18; 24.35).

2. Atributos intelectuais: onisciência, fidelidade e sabedoria

A capacidade intelectual de Deus é ilimitada, e Deus a usa de modo pleno e perfeito.

a) Deus é onisciente:

Deus sabe todas as coisas (1Jo 3.20). Jesus também tem este atributo de divindade, pois Pedro diz: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (Jo 21.17). Deus conhece todos os pensamentos íntimos e os atos externos da humanidade (Sl 139). Nada em toda a criação está oculto aos olhos de Deus. Todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas (Hb 4.13). Isaías fazia distinção entre o Senhor de tudo e os ídolos pela capacidade de o Senhor predizer o futuro (Is 44.7-8,25-28). Fica claro que o conhecimento do futuro da parte do Senhor era comunicável em conceitos e palavras humanos. No contexto, Isaías fez predições a respeito de Jerusalém, Judá, Ciro e o templo. Estes conceitos foram inspirados na língua original e são traduzíveis nos idiomas de todo o mundo.

Como Deus pode conhecer o fim desde o começo? De uma forma maior do que aquela ilustrada no conhecimento que uma pessoa tem que de um salmo decorado, sugeriu Agostinho. Antes de recitarmos o Salmo 23, ele está todo em nossa mente. Então, citamos a primeira metade dele, e sabemos o que já passou e a parte que ainda falta ser citada. Deus conhece a totalidade da História de uma só vez, simultaneamente, porque não é limitado por tempo e sucessão, mas Deus também conhece qual parte da História está no passado hoje, e qual parte está no futuro, porque o tempo não é irreal nem sem importância para Ele (Confissões XI, 31).

A crença de que Deus conhece tudo – no passado, no presente e no futuro – é de pouca relevância, no entanto, se o conhecimento de Deus fosse removido do conhecimento humano por uma distinção infinita e qualitativa, a frequente alegação de que o conhecimento de Deus é totalmente diferente do nosso subentende que a verdade de Deus pode ser contraditória em relação à nossa verdade. Ou seja, aquilo que é verdadeiro para nós é falso para Deus, ou aquilo que é falso para nós pode ser verdadeiro para Deus. Os defensores desta posição argumentam que, pelo fato de Deus ser onisciente, ele não pensa de modo discursivo, linha por linha, nem usa conceitos distintivos ligados pelo verbo “ser” em proposições lógicas. Este conceito da transcendência divina forneceu um corretivo eficaz às mãos de Barth[4] e Bultmann[5] contra a continuidade que o modernismo alegava entre o pensamento humano mais sublime e o pensamento de Deus. E aquela influência recebe apoio adicional dos místicos orientais que negam qualquer validez ao pensamento conceptual com referência ao eterno. Os relativistas de muitos campos também negam que quaisquer asseverações humanas, inclusive as da Bíblia, sejam capazes de expressar a verdade a respeito de Deus.

No entanto, segundo a perspectiva bíblica, a mente humana foi criada à imagem divina para pensar os pensamentos de Deus segundo Ele, ou receber, a verdade da parte de Deus, mediante as revelações geral e especial. Embora a queda tenha afetado a mente humana, esta capacidade não foi erradicada. O novo nascimento envolve a renovação da pessoa, pelo Espírito Santo, no conhecimento segundo a imagem do Criador (Cl 3.10).

Contextualmente, o conhecimento possível aos regenerados inclui a posição e a natureza atuais do Cristo exaltado (Cl 1.15-20) e o conhecimento da vontade de Deus (Cl 1.9). Com este conhecimento, os cristãos podem evitar o engano proveniente de raciocínios falazes que soam bem (Cl 2.4). Devem fortalecer a fé na qual foram instruídos por conceitos e palavras (Cl 2.7). E o conteúdo da palavra de Cristo pode prestar informações ao ensino e à adoração deles (Cl 3.16).

Destas maneiras e de muitas outras, as Escrituras pressupõem uma revelação informativa da parte de Deus, verbalmente inspirada e iluminada pelo Espírito, a mentes criadas e renovadas à imagem divina para o recebimento desta verdade. À medida que captamos o significado contextual dado pelos escritores originais das Escrituras, são verdadeiras as nossas asseverações, baseadas nas Escrituras, de que Deus é espirito, é santo, e é amor. Estas afirmações são verdadeiras para Deus assim como Ele é em Si mesmo. São verdadeiras para a fé e a vida dos cristãos e das igrejas.

A verdade proporcional que a Bíblia transmite em frases indicativas que afirmam, negam, argumentam, sustentam, pressupõem e inferem é plenamente verdadeira para Deus e para a humanidade. Naturalmente, a onisciência de Deus não é limitada às distinções entre os sujeitos e os predicados, a sequência lógica, a pesquisa exegética ou o raciocínio discursivo. Mas Deus conhece a diferença entre um sujeito e um predicado, relaciona-Se tanto com a sequência como com a sequência temporal, estimula pesquisas exegéticas e o raciocínio discursivo baseado na revelação. Embora a mente de Deus seja ilimitada e conheça tudo, não é totalmente diferente em todos os aspectos das mentes humanas criadas à Sua imagem. Portanto, sendo onisciente, Seus julgamentos se formam com conhecimento de todos os dados relevantes. Deus sabe tudo quanto diz respeito à verdade concernente a qualquer pessoa ou evento. Nossos julgamentos são verdadeiros à medida que se conformam aos de Deus, sendo coerentes ou fiéis a todas as evidencias relevantes.

b) Deus é fiel e verdadeiro:

Porque Deus é fiel e verdadeiro (Ap 19.11), Seus juízos (Ap 19.2) e Suas palavras em linguagem humana são fiéis e verdadeiras (Ap 21.5; 22.6). Não há falta de fidelidade na pessoa, no pensamento ou na promessa de Deus. Ele não é hipócrita nem incoerente.

Mantenhamos firme a nossa esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10.23). Ele é fiel para perdoar os nossos pecados (1Jo 1.9), santificar os crentes até à volta de Cristo (1Ts 5.23-24), fortalecê-los e protegê-los do maligno (2Ts 3.3), e para não permitir que sejam tentados além daquilo que podem suportar (1Co 10.13). Até mesmo quando somos infiéis, Ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a Si mesmo (2Tm 2.13).

Nenhuma das boas promessas que Deus deu por meio de Moisés falhou (1Re 8.56). Isaías louva o nome divino, porque com fidelidade perfeita Deus fez coisas maravilhosas há muito tempo planejadas (Is 25.1). Passagens como estas transmitem uma integridade divina básica tanto na vida quanto no pensamento. Nenhum contraste pode ser feito entre aquilo que Deus é em si mesmo e aquilo que Ele é com relação aos que nEle confiam. Deus não contradiz as Suas promessas em Suas obras ou em outros ensinos por meio de dialética, paradoxo ou mera complementaridade. Deus conhece tudo, e nada pode surgir que já não tenha sido levado em conta antes de Deus revelar os Seus propósitos.

Porque Deus é fiel e coerente, nós também devemos ser fiéis e coerentes. Jesus disse: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não” (Mt 5.7). Paulo demonstrou esta autenticidade lógica nos seus ensinos a respeito de Deus. Tão seguramente como Deus é fiel, disse ele, a nossa mensagem para convosco não é “sim” e “não” (2Co 1.18). Aqueles que imaginam que a conversa a respeito de Deus na linguagem humana tem de afirmar e negar a mesma coisa ao mesmo tempo e no mesmo assunto (na dialética ou no paradoxo) têm um conceito diferente do de Paulo sobre o relacionamento entre a mente divina e a mente da pessoa piedosa. Porque Deus é fiel, devemos ser fiéis em nossa mensagem a respeito dEle. Visto que Deus não pode negar a Si mesmo, não devemos negar a nós mesmos, ao falarmos a Deus.

Conhecendo a ligação entre a fidelidade pessoal e a conceptual em Deus, sabemos que a ideia de que pessoas não devem contradizer a si mesmas não se originou com Aristóteles. Embora ele tenha formulado a lei da não-contradição, de forma que tem sido citada a partir de então, a fonte ulterior do desafio à fidelidade humana na pessoa e na palavra está arraigada no próprio Deus. A exigência universal de honestidade intelectual reflete no coração humano a total integridade do coração do Criador.

c) Deus é sábio:

Deus não é apenas onisciente e coerente em Sua Pessoa e palavra, mas também perfeitamente sábio. Além de conhecer todos os dados relevantes sobre qualquer assunto, Deus seleciona Seus fins com discernimento, e age com harmonia com Seus propósitos de amor santo. Talvez nem sempre consigamos ver que os eventos nas nossas vidas cooperam para um propósito sábio, mas sabemos que Deus escolhe dentre todas as alternativas possíveis os melhores fins e meios para atingi-los. Deus não somente escolhe os fins certos como também o faz pelas razões certas: o bem das Suas criaturas e, portanto, a Sua glória.

Embora talvez não possamos entender plenamente a sabedoria divina, temos boas razões para confiar nela. Depois de escrever a respeito da grande dádiva da justiça que vem de Deus, Paulo exclama: “Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém” (Rm 16.27). Anteriormente, já fizeram alusão à profundidade insondável da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus (Rm 11.33).

O inter-relacionamento dos atributos é evidente, porque a onisciência divina tem consciência não somente daquilo que existe, mas também daquilo que deve existir (moralmente); a fidelidade e a coerência divinas envolvem a integridade moral sem hipocrisia; e a sabedoria toma decisões no sentido de agir visando certos fins e meios em termos dos mais altos valores. Portanto, não devemos sentir estranheza quando lemos que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.17).

3. Atributos éticos: santidade, justiça e amor

Deus é distinto de todas as Suas criaturas e transcendente a todas elas, não apenas metafísica e epistemologicamente, mas também moralmente, Deus é moralmente imaculado no caráter e na ação, reto, puro e imaculado por desejos, motivos, pensamentos, palavras ou ações malignas.

a) Deus é santo:

Deus é santo, e, como tal, é a fonte e o padrão de tudo quanto é justo. Deus está livre de todo o mal, ama toda a verdade e a bondade. Dá valor à pureza e detesta a impureza e a inautenticidade. Deus não pode aprovar qualquer mal. E nele não tem prazer (Sl 5.4), nem pode tolerá-lo (Hc 1.13). Deus aborrece o mal e não pode suportar o pecado de modo algum (Tg 1.13-14). Os cristãos não têm reverente temor àquilo que é santo de modo abstrato, mas ao Santo (Is 40.25). O Santo não é meramente um objeto de fascínio emocional, mas também deve ser ouvido de modo inteligente e obedecido segundo a volição.

A santidade não é apenas o produto da vontade de Deus, mas também uma característica imutável da Sua natureza eterna. Assim, a pergunta formulada por Platão precisa ser refraseada para se aplicar ao Deus dos cristãos: “O bem é bom porque Deus assim determina? Ou Deus o determina porque é bom?”. A pergunta não se relaciona com a vontade de Deus, mas à essência de Deus. O que é bom, justo, puro e santo é santo, não em razão de um ato arbitrário da vontade divina, nem de um princípio independente de Deus, mas porque é uma decorrência da Sua natureza. Deus sempre determina de modo coerente à Sua própria natureza. Ele determina o bem porque Ele é bom. E porque Deus é santo, Ele consistentemente odeia o pecado e repugna todo o mal, sem fazer distinção de pessoa. O Espírito Santo é chamado santo não somente porque, como membro da Trindade Divina, compartilha da santidade da natureza divina, mas também porque a função distintiva do Espírito é produzir amor santo no povo redimido de Deus. Devemos procurar ser moralmente imaculados em nosso caráter e ação, retos e justos como o Deus a quem adoramos.

b) Deus é justo ou reto:

A justiça ou retidão de Deus é revelada na Sua lei moral que expressa a Sua natureza moral e no Seu juízo, outorgando a todos, nas questões de mérito, exatamente aquilo que merecem. Seu julgamento não é arbitrário nem segundo caprichos, mas com princípios sem acepção de pessoas. Os escritores do AT frequentemente protestam contra a injustiça experimentada por pobres, viúvas, órfãos, estrangeiros e piedosos. Deus, por contraste, tem compaixão dos pobres e necessitados (Sl 72.12-14). Ele responde, liberta, reavive, inocenta e outorga-lhes a justiça que lhes é devida. Em Sua justiça, Deus liberta os necessitados da injustiça e da perseguição. Finalmente, Deus criará novo céu e nova terra, onde habitará a justiça (Is 65.17).

A ira de Deus é revelada quando os pecadores suprimem a Sua verdade e a impedem pela injustiça (Rm 1.18-31), sendo que tanto os judeus quanto os gentios agem assim (Rm 2.1-3,20). No evangelho é revelada uma justiça da parte de Deus, justiça que subsiste pela fé, do começo ao fim (Rm 1.17; 3.21). Os crentes são justificados livremente pela graça de Deus, vinda mediante Jesus Cristo, que forneceu o sacrifício da expiação (Rm 3.24). Assim, como Abraão, os que são plenamente convencidos de que Deus pode fazer aquilo que prometeu (Rm 4.21) descobrem que a sua fé lhes é creditada como justiça (Rm 4.3,24). Deus na Sua justiça provê gratuitamente a condição de justos para os crentes em Cristo. Em Deus, a justiça não está desligada da misericórdia, da graça e do amor.

c) Deus é amor:

Na Sua misericórdia, Deus retém ou modifica o julgamento merecido e, na Sua graça, concede gratuitamente benefícios imerecidos a quem Ele quiser. Todas estas características morais fluem do grande amor de Deus. Em contraste com Sua auto existência transcendente, está o Seu amor gracioso, abnegado, o amor agape. Aquele que vive para sempre como santo, alto e sublime também habita com o contrito e abatido de espírito (Is 57.15).

Não se trata de Deus precisar de alguma coisa (At 17.25), mas, sim, de Ele desejar dar de Si mesmo para o bem-estar das pessoas amadas, a despeito do fato de não serem dignas de amor nem terem outros méritos. Deus não somente ama como também é amor em Si mesmo (1Jo 4.8). Seu amor é como o de um marido para com a esposa, de um pai para com o filho, e como o de uma mãe para com seu bebê a quem amamenta. Com amor, Deus escolheu a Israel (Dt 7.7) e predestinou os crentes da igreja a serem adotados como filhos mediante Jesus Cristo (Ef 1,4-5). Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16).

O amor cuida de idosos, oprimidos, pobres, órfãos e demais necessitados. O Deus amoroso da Bíblia não permanece insensível por causa das pessoas que têm necessidades genuínas (nem fica impossível). O Deus de Abraão, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, Judas, Pedro e Paulo sofria, era realmente longânimo (sofredor). Com empatia, Deus, através da imaginação, penetra nos sentimentos das Suas criaturas. Além disso, o Deus encarnado submeteu-se às nossas tentações e sofrimentos, mediante a participação neles. Conforme disse H. W. Robinson: “Apenas como sofrimento o mal moral pode entrar na consciência do moralmente bom”. Em todas as aflições de Israel, Deus Se afligia (Is 63.9). Que significado pode haver, pergunta Robinson, num amor que nada custa àquele que ama? O Deus da Bíblia está longe de ser apático no tocante ao vasto sofrimento das pessoas no mundo. Com amor, Deus enviou Seu Filho para morrer, a fim de que, finalmente, o sofrimento fosse abolido e a justiça restaurada em toda a terra, assim como as águas cobrem o mar.

Visto que o amor envolve um compromisso com o bem-estar dos outros, um compromisso responsável e fiel, ele não é classificado como basicamente emocional. O amor é uma disposição firme da vontade que envolve toda a pessoa que procura o bem-estar dos outros.

4. Atributos emocionais: Deus detesta o mal, é longânimo e compassivo

Strong diz que Deus está livre de paixões e caprichos. De fato, Deus está isento de caprichos, injustiças e emoções fora do controle. Neste artigo já procuramos negar quaisquer paixões indignas de Deus. Strong acrescenta, como razão: “Não em Deus qualquer ira egoísta”. Mesmo assim, Deus é pessoal e ético, e estes dois conceitos exigem emoções ou paixões saudáveis. Aquele que Se deleita na justiça, na retidão e na santidade, visando o bem-estar das Suas criaturas, pode sentir repulsa diante da injustiça, da iniquidade e da corrupção, que destroem os seus corpos, mentes e espíritos. Daí, a Bíblia frequentemente referir-se à justa indignação de Deus contra o mal. A justa indignação é a ira provocada, não pelo fato de alguém ser vencido por emoções egoístas, mas pela injustiça e por todas as obras da “carne” decaída.

a) Deus é benigno:

Deus detesta o mal. Em geral, Jesus e as Escrituras falam mais frequentemente da ira de Deus diante de injustiças, tais como os maus tratos persistentes aplicados aos pobres e necessitados, do que do amor e do céu. Embora o Senhor seja tardio em irar-Se, jamais inocenta os culpados, mas derramará sobre eles a Sua fúria (“O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…”, Na 1.3). Ninguém pode suportar a Sua indignação, que é derramada como fogo e esmaga as rochas diante dEle (Na 1.6). À parte de uma compreensão da ira de Deus contra o mal, é impossível entender a extensão do amor divino na encarnação, a magnitude do sofrimento de Cristo na cruz, a natureza propiciatória do Seu sacrifício, as Escrituras proféticas sobre o grande dia da ira de Deus, a grande tribulação e o livro do Apocalipse.

b) Deus é longânimo:

Deus é paciente e longânimo. Zelando pelo bem-estar dos objetos do Seu amor, Deus torna-Se irado por causa da injustiça cometida contra eles, mas sofre sem Se abater. Deus, sendo longânimo com os malfeitores, mas sem lhes desculpar o pecado, fornece-lhes graciosamente benefícios temporais e espirituais imerecidos, Deus prometera a terra a Abraão, mas a iniquidade dos amorreus ainda não se enchera (Gn 15.16). Depois de quatrocentos anos de sua autocontenção longânima, Deus, na plenitude do tempo, permitiu que os exércitos de Israel trouxessem o justo juízo à iniquidade dos amorreus. Mais tarde, Israel adorou o bezerro de ouro e mereceu o castigo divino como os demais idólatras. Mas Deus Se revelou, ao dar a Lei pela segunda vez, como “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34.6). O salmista pôde escrever: “Mas tu, SENHOR, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (Sl 86.15). Todavia, o dia da graça de Deus tem seu fim. Finalmente, sem acepção de pessoas, o justo juízo de Deus caiu sobre Israel, por causa dos seus males difusos. A longanimidade de Deus é uma virtude notável, mas não exclui nem contradiz a justiça divina.

c) Deus é compassivo:

Embora os teólogos da tradição tomista tenham ensinado a impassibilidade de Deus, as Escrituras não hesitam em chamar Deus de compassivo. Não somos consumidos por causa do Seu grande amor, porque “as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.22). Mesmo depois do cativeiro de Israel, Deus voltaria a demonstrar-lhe compaixão (Mq 7.19). O Deus da Bíblia não é um Deus apático, mas é Aquele que Se preocupa profundamente até com o pardal. Jesus demonstrou, de uma linda maneira, esta compaixão divino-humana por famintos (Mt 15.32), cegos (Mt 20.34) e enlutados (Lc 7.13). Jesus também ensinou a importância da compaixão através da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.33) e de outra sobre a solicitude do pai para com seu filho perdido (Lc 15.20).

O Cristo encarnado sentiu tudo o que os seres humanos sentem em todas as áreas, mas não Se rendeu às tentações envolvidas nestes sentimentos. Como Deus, ao participar literalmente da experiência humana, Jesus chorava com os que choravam a alegrava-Se com os que se alegravam. Ele relembrava a exultante glória compartilhada com Seu Pai antes da fundação do mundo (Jo 17.5,13). Entretanto, o autor divino-humano da nossa salvação foi aperfeiçoado através das coisas que sofreu nesta vida (Hb 2.10). Pelo fato de ter sofrido, ele pode prestar ajuda aos que sofrem e são tentados (Hb 2.18). O Deus revelado em Jesus Cristo não é uma causa primeira apática, isolada e impessoal. O Pai que Jesus revelou fica profundamente tocado por tudo que fere seus filhos.

5. Atributos existenciais: liberdade, autonomia e onipotência 

A preocupação moderna no tocante a liberdade, autenticidade e plenitude não deve ser limitada à humanidade. Os escritores bíblicos parecem ter se preocupado muito mais com que Deus fosse compreendido como um Ser livre, autêntico e pleno.

a) Deus é livre:

Desde a eternidade, Deus nunca esteve condicionado a qualquer elemento, a não ser a Si próprio, que fosse contrário aos Seus propósitos. Como já vimos, as coisas boas são planejadas com prazer e capacidade divinos. As coisas más são permitidas com desprazer divino. Mas, de qualquer forma, Deus é autodeterminado. Autodeterminação é o conceito de liberdade que enfatiza a realidade de que pensamentos, sentimentos e volição não são determinados por fatores externos, mas sim pela própria pessoa.

Deus não é livre para aprovar o pecado, deixar de amar, ser insensato, ignorar os duros fatos da realidade, ser infiel àquilo que é ou deve ser, ser incompassivo ou não-misericordioso. Deus não pode negar a Si próprio. Deus é livre para ser Ele mesmo, um ser com características pessoais, eternas, vivas, intelectuais, éticas, emocionais e volitivas.

b) Deus é autêntico:

Deus é autêntico, autenticamente Ele mesmo. O Deus que, em Cristo, Se opôs de modo tão implacável à hipocrisia, não é um hipócrita. Já enfatizamos acima a Sua fidelidade ou integridade intelectual. Agora, damos ênfase à Sua integridade dos pontos de vista ético, emocional e existencial. Deus é autoconsciente, sabe quem é e quais são os Seus propósitos (1Co 2.11). Ele tem uma alta percepção de identidade, significado e propósito.

Deus sabe que é o Ser ulterior e que, na realidade, nada se compare a Ele. Entretanto, ao conclamar as pessoas para que abandonem os ídolos, de forma alguma Deus está nos solicitando algo que esteja em desacordo com a realidade. Em Sua firme oposição à idolatria, Ele procura livrar as pessoas de interesses fadados à desilusão e ao desapontamento. Deus requer a nossa adoração para o nosso bem, para que, no final, não sucumbamos ao desespero, à medida que somos abandonados pelos nossos deuses finitos.

c) Deus é onipotente:

Continuando, Deus é onipotente (Mc 14.36; Lc 1.37). Deus é capaz de fazer tudo quanto determinada, à seu modo. Deus não escolhe fazer coisa alguma contrária à Sua natureza de sabedoria e santo amor. Deus não pode negar a Si mesmo e não escolhe fazer tudo por Seus próprios meios imediatos, sem agentes angelicais e humanos intermediários. Embora Deus determine que algumas coisas aconteçam incondicionalmente (Is 14.24-27), a maioria dos eventos na História são planejados sob certas condições, pela obediência do povo aos preceitos divinos e pela sua desobediência permitida (2Cr 7.14; Lc 7.30; Rm 1.24). De qualquer maneira, os propósitos eternos de Deus para a História não são frustrados, mas cumpridos do modo que Ele escolheu (Ef 1.11).

Deus não somente tem força para levar a efeito todos os Seus propósitos, da maneira que os determina, como também autoridade no âmbito total do Seu reino para fazer o que quer. Deus não está sujeito ao domínio de outrem, mas é Rei e Senhor de todos. Em virtude de todos os Seus outros atributos – por exemplo, sabedoria, justiça e amor – Deus é digno de dominar tudo quanto criou e sustenta. Deus é um soberano sábio, santo e gracioso. Por ser justo, o poder de Deus em si mesmo não pode punir os pecadores mais do que eles merecem. Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão. Mas na concessão de benefícios e dádivas imerecidos, Deus está livre para distribuí-los conforme o Seu beneplácito (Sl 135.6). Tendo permitido o pecado, Deus é suficientemente grande para limitar as paixões furiosas dele, submetendo-o à Sua soberania para um bem maior, como se deu no Calvário (At 4.24-28). Deus pode derrotar as nações e as hostes demoníacas que se enfurecem contra Ele. Ninguém pode existir independentemente da soberania divina. A tentativa de a pessoa seguir o seu próprio caminho independente de Deus é uma insolência pecaminosa da parte de criaturas que nEle vivem, se movem e existem. Somente um tolo poderia dizer que não há Deus, pois é o próprio Deus quem sustenta o fôlego que o ateu usa para negar o domínio divino sobre ele.

6. Atributos relacionais: transcendência e imanência

Relacionalmente, Deus é transcendente na Sua existência, universalmente imanente na Sua atividade providencial e imanente com seu povo na atividade redentora.

a) Deus é transcendente:

Como transcendente, Deus é diferente, de forma inigualável, de tudo na criação. A distinção entre Deus e a existência do mundo tem sido subentendida nas discussões anteriores dos atributos metafísicos, intelectuais, éticos, emocionais e existenciais de Deus. Deus está relacionalmente “oculto”, por ser tão grande de todas estas outras maneiras. A existência de Deus é eterna; a do mundo, temporal. O conhecimento de Deus é total; o conhecimento humano, incompleto. O caráter de Deus é santo; o caráter da humanidade, decaído e pecaminoso. Os desejos de Deus colocam-se consistentemente contra o mal, mas Ele é longânimo e compassivo; os desejos humanos flutuam de modo incoerente, com frequência misturam o mal com o bem. A energia de Deus é incansável e inexaurível; a energia do mundo está sujeita à depleção pela entropia. Por isso, Deus é superior e está acima das pessoas do mundo em todos estes aspectos.

A transcendência divina incomparável envolve um dualismo radical entre Deus e o mundo, que não deve ser ofuscado por um ressurgimento do monismo[6] e do panteísmo[7]. Embora tenha sido feita segundo Deus e à imagem divina, a humanidade (ao contrário de Cristo) não é gerada a partir de Deus nem é uma emanação de Deus que possua a mesma natureza divina. O alvo ulterior da salvação não é a reabsorção para dentro da existência de Deus, mas a comunhão ininterrupta com Deus. A união que os cristãos procuram com Deus não é metafísica, mas relacional, uma unidade de mente, desejo e vontade. Procurar ser como Deus, de uma perspectiva bíblica, não é uma espiritualidade mais profunda, mas idolatria ou blasfêmia rebelde. Os cristãos podem respeitar a natureza como uma criação divina, mas não a adora como divina. Os cristãos podem respeitar os fundadores das religiões do mundo, mas não podem se curvar diante de qualquer guru como o divino manifesto na forma humana. Somente Jesus Cristo vem de cima; todos os demais vêm de baixo (Jo 8.23). Porque Deus está separado do mundo, os cristãos não podem se curvar diante de qualquer potência na terra como se ela fosse Deus, quer seja uma potência econômica, política, religiosa, científica, educacional ou cultural. O benefício inestimável do ato de curvar-se diante de um Senhor transcendente a todas as coisas é que ele liberta a pessoa de todas as tiranias finitas e descaídas.

O teísta bíblico não somente crê que o único Deus vivo está separado do mundo, em contraste com o panteísmo e o panenteísmo[8], mas também acredita que Deus está continuamente ativo em todo o mundo, de modo providencial, contrastando com o deísmo. Deus não está tão exaltado que não possa conhecer, amar ou relacionar-Se com a lei natural no mundo da experiência de todos os dias. Um estudo da providência divina, conforme ensinada nas Escrituras, demonstra que Deus sustenta, orienta e governa tudo quanto criou. Os salmos da natureza refletem sobre a atividade de Deus com relação a cada aspecto da terra, da atmosfera, da vegetação e da vida animal (e.g. Sl 104). Deus também preserva e governa a história humana, condenando as sociedades corruptas e abençoando os justos e os ímpios com benefícios temporais tais como luz do sol, a chuva, o alimento e a bebida. Mediante a atividade providencial universal de Deus, o cosmos se mantém unido, e Seus propósitos sábios da graça geral são realizados.

b) Deus é imanente:

Mas Deus é imanente nas vidas dos Seus que se arrependem do pecado e vivem pela fé para realizar os alvos da Sua graça redentora. “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15). Assim como as pessoas podem estar presentes umas com as outras em graus variados, Deus pode estar presente com os ímpios de certa maneira, e com os justos de uma forma mais rica. Uma pessoa pode estar presente simplesmente como mais um passageiro num ônibus ou, de modo muito mais relevante, como uma mãe piedosa que orou diariamente por alguém durante toda a sua vida. Deus está graciosamente presente, com amor perdoador. Junto ao convertido, que pela fé foi propiciado, reconciliado e redimido pelo sangue precioso de Cristo. Tornam-se o Seu povo, e Ele Se torna o seu Deus. Deus habita em Seu povo como Seu santo lugar ou templo. A união relacional de pensamentos, desejos e propósitos cresce com o passar dos anos. Esta união é compartilhada por outros membros do Corpo de Cristo que têm dons para se edificarem uns aos outros, a fim de se tornarem progressivamente mais semelhantes ao Deus a quem adoram, não metafisicamente, mas intelectualmente, ética, emocional e existencialmente.

Em resumo:

  • Deus é Espírito vivo e pessoal, digno de adoração e da confiança de todo coração, separado do mundo, porém continuamente ativo no mundo.
  • Deus criou e sustenta o cosmos, as leis científicas, as fronteiras geográficas e políticas.
  • Deus está além do tempo, mas não deixa de Se relacionar ativamente com o tempo, com a vida humana, lar, cidade, nação e com a história da humanidade em geral.
  • Embora transcendente Deus não deixa de relacionar-Se de modo inteligente com o pensamento proposicional e com a comunicação verbal. Com a validez objetiva, com a consciência lógica, com a fidelidade, coerência e clareza fatual, bem como a autenticidade subjetiva e a integridade existencial.
  • Embora não esteja limitado por um corpo, Deus não deixa de Se relacionar providencialmente com o poder físico na natureza e na sociedade, nos aspectos industrial, agricultural, social e político. Deus conhece e julga a mordomia humana no uso de todos os recursos de energia do mundo.
  • Deus transcende toda tentativa de se obter justiça no mundo, mas, relaciona-Se retamente com todos os bons esforços das Suas criaturas, pessoal, econômica, acadêmica, religiosa, e politicamente.
  • Embora esteja livre de emoções indignas e descontroladas, Deus mostra-Se solícito aos pobres, infelizes, solitários, enlutados, enfermos e vítimas de preconceito, injustiça, ansiedade e desespero.
  • Além de toda aparente falta de significado e propósito na existência humana, Deus pessoalmente dá relevância à vida mais insignificante.

 

Referência Bibliográfica:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pp. 427-438 – Texto adaptado.

 

Notas:

  • [1] LEWIS, G. R. Atributos de Deus. In: ELWELL: 1988, pp. 427-438. Vide Referência Bibliográfica.
  • [2] LEWIS, Gordon R. – Ph.D., Universidade Syracuse. Professor de Teologia e Filosofia, Seminário Teo-lógico Batista Conservador de Denver, Denver. Colorado, EUA.
  • [3] Ubíquo: aquele (Deus) que está ou existe ao mesmo tempo em toda parte.
  • [4] Karl Barth, teólogo reformado suíço que é muitas vezes considerado o maior teólogo protestante do século 20. “Barth destaca a absoluta transcendência de Deus. Deus é o único positivo, o ser. O homem, no entanto, da mesma forma que o mundo, é a negação, o não ser. Justamente por não ser nada, o homem não tem a possibilidade de auto redenção; nem ao menos de conhecer Deus, mas somente de saber que não o conhece” (Disponível em: <http://teologia-contemporanea.blogspot.com/2008/02/karl-barth-1886-1969.html>. Acesso em 18/04/2019.
  • [5] Rudolf Karl Bultman (1884-1976), teólogo alemão que dedicou-se ao estudo do N.T. “… Da doutrina de Bultmann deduz-se que a fé cristã deve interessar-se pelo Jesus histórico para centrar-se no Cristo transcendente do querigma [proclamação da Palavra/Evangelho]. A fé cristã, a fé no querigma da Igreja, pela qual se pode dizer que Jesus Cristo ressuscitou, e não fé no Jesus histórico…” (Disponível em: <http://teologia-contemporanea.blogspot.com/2008/03/rudolf-bultmann-1884-1976.html>. Acesso em: 18/04/2019.
  • [6] Este ressurgimento do monismo a que Lewis refere, ocorreu principalmente na Idade Média. Na verdade, o monismo parece ser uma resposta à pergunta filosófica no campo da metafísica. Os pré-socráticos perguntavam: “quantas coisas existem”? Enquanto o monismo medieval responde: existe “uma coisa”. Mas há conceitos diferentes em relação a este assunto, como o monismo substancial, de Spinoza, que afirma, por exemplo, “… que existe uma só substância ou coisa, que existe independente, e que tanto Deus quanto o universo são aspectos dessa substância”. Por outro lado, o monismo atributivo (uma só categoria) sustenta que “… a realidade, em última análise, é composta de muitas coisas, em vez de uma só… [Mas] a tradição intelectual cristã geralmente tem sustentado que o monismo substancial deixa de tratar à altura distinção entre Deus e as criaturas, e que do monismo atributivo somente o idealismo [categoria da existência, no campo mental] é teologicamente aceitável…”. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª Ed.). pp. 547-548. Veja o significado de panteísmo na nota a seguir, ambos (monismo e panteísmo) conceitos muito parecidos.
  • [7] Panteísmo: palavra derivada do grego pan e theos (“tudo é Deus”). Normalmente identificada com o sistema filosófico que tende a identificar Deus com o mundo. O panteísmo é tipicamente monista em relação à realidade, ao passo que o teísmo bíblico faz uma distinção entre Deus e o mundo. Ou seja, o mundo existe porque Deus o criou e ambos não podem confundir-se. “… Por causa da tendência de identificar Deus com o mundo material, surge… uma negação menor ou maior do caráter pessoal de Deus. Nas Escrituras, Deus não somente possui os atributos de uma pessoa, como também, na encarnação, Ele assume um corpo e se torna o Deus-homem. Deus é retratado supremamente como uma Pessoa”. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª Ed.). p. 90.
  • [8] Panenteísmo: “Todos em Deus”, é a doutrina que diz que o universo está contido em Deus, mas Deus é maior do que o universo, bem distinto do panteísmo e do monismo. O panenteísmo procura combinar os pontos fortes do teísmo clássico como do panteísmo clássico. Deus é visto como a alma do universo, o espírito universal presente em todos os lugares, ao mesmo tempo transcende todas as coisas criadas. Mas, como afirma o texto, “o teísta bíblico não somente crê que o único Deus vivo está separado do mundo, em contraste com o panteísmo e o panenteísmo, mas também acredita que Deus está continuamente ativo em todo o mundo, de modo providencial, contrastando com o deísmo”.

 

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Argumentos em prol da existência de Deus

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles[1] se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Dando prosseguimento à nossa série de estudos sobre Doutrinas Bíblicas, quero me ocupar no estudo sobre “DEUS”, em três partes. Neste post (artigo), enfatizando resumidamente alguns argumentos sobre a existência de Deus.

A relevância de um Criador[2]

Já citamos e postamos aqui o texto completo de Myer PEARLMAN, onde ele apresenta alguns argumentos bíblico-filosóficos acerca da existência de Deus, como a criação (um princípio; efeito de uma causa suficiente); o desígnio (o universo como obra dum Arquiteto inteligente), a natureza humana (regulada por conceitos do bem e do mal), a história (marcada por eventos que demonstram evidências de um poder e duma providência dominantes) e a crença universal (tão difundida quanto a própria raça humana).

Mas queremos usar como base neste artigo, principalmente o texto de A. J. HOOVER[3], onde os argumentos acerca da existência de Deus às vezes se interpõem e se completam aos de Pearlman.

Conforme Hoover há três maneiras segundo as quais se pode argumentar em prol da existência de Deus, que são a abordagem a priori (definição, principalmente de Anselmo de Cantuária, acerca de Deus como um ser infinito, perfeito e necessário, cuja inexistência é inconcebível), a abordagem a posteriori (que oferece evidências extraídas do mundo, do universo observável e empírico, insistindo em que Deus é necessário para explicar certos aspectos do cosmos) e a abordagem existencial (que firma a experiência direta de Deus através da revelação pessoal). Mas a mentalidade popular parece gostar mais da abordagem a posteriori. E é por este caminho que seguem os argumentos[4] a seguir:

1. O Argumento Cosmológico

Este argumento tem mais de uma forma. A mais antiga ocorre em Platão[5] e Aristóteles[6] e ressalta a necessidade de explicar a causa do movimento. Supondo que o repouso é natural e o movimento não o é, estes pensadores chegaram a Deus como o necessário Agente Motor de todas as coisas. Tomás de Aquino usou o movimento como sua primeira prova na Summa Theologica[7]. Tudo quando se movimenta deve ser movimentado por outra coisa. Mas esta cadeia de motores não pode continuar até o infinito – esta é uma suposição-chave – porque então não haveria agente motor primário e, portanto nenhum outro motor. Devemos chegar, portanto, a um Agente Motor, ou Motor Primo, segundo conclui Aquino, “e todos entendem que se trata de Deus”.

Este argumento baseado no movimento está longe de ser coerente para a nossa geração científica, porque entendemos que o movimento é natural e que o repouso é desnatural, conforme declara o princípio da inércia. Muitos filósofos insistem em que o movimento de uma série infinita de motores não é impossível nem contraditória, de modo algum.

A forma mais interessante – e persuasiva – do argumento cosmológico é a “terceira via” de Aquino, o argumento baseado na contingência. Sua força deriva da sua maneira de empregar tanto a permanência quanto a mudança. Epicuro declarou o problema metafísico há séculos: “obviamente algo existe agora, e algo nunca surgiu do nada”. A existência, portanto, deve ter sido sem início. Um Eterno Algo deve ser admitido por todos – teístas, ateus e agnósticos.

Mas o universo físico não poderia ser este Eterno Algo, porque ele é obviamente contingente, mutável, sujeito à decadência. Como uma entidade em decomposição poderia explicar-se a toda a eternidade? Se cada coisa/evento contingente presente depende de uma coisa/evento contingente anterior, e assim por diante ad infinitum, então isto não fornece nenhuma explicação adequada de coisa alguma.

Daí, para haver alguma coisa que seja até mesmo um pouco contingente no universo, deve haver pelo menos uma coisa que não seja contingente – algo que seja necessário no meio de todas as mudanças e estabelecido em si mesmo. Neste caso, “necessário” não se aplica a uma proposição, mas a uma coisa, e significa infinito, eterno, perpétuo, causado por si mesmo, auto existente.

Não basta dizer que o tempo infinito solucionará o problema da existência contingente. Não importa quanto tempo haja disponível, a existência dependente continua dependendo de alguma coisa. Tudo quanto estiver contingente dentro do alcance do infinito passará, num determinado momento, a não existir. Mas se houve um momento em que nada existia, logo, nada existiria agora.

A escolha é simples: ou escolhemos um Deus auto existente ou um universo auto existente – e o universo não se comporta como se fosse auto existente. Na verdade, de conformidade com a segunda lei da termodinâmica, o universo está parando como um relógio sem corda, ou melhor, está esfriando como um forno gigante. A energia está sendo constantemente difundida ou dissipada, ou seja, progressivamente distribuída por todo o universo. Se este processo continuar por mais alguns bilhões de anos – e os cientistas nunca observaram uma restauração da energia dissipada – logo, o resultado será um estado de equilíbrio térmico, uma “morte do calor”, uma degradação aleatória da energia por todo o cosmos e, daí, haverá a estagnação de toda a atividade física.

Os naturalistas, desde Lucrécio até Sagan, têm pensado que não precisamos postular Deus enquanto a natureza puder ser considerada uma entidade que se auto explica por toda a eternidade. Mas é difícil sustentar esta doutrina se a segunda lei for verdadeira e a entropia for irreversível. Se o cosmos está deixando de funcionar por falta de impulso, ou se está esfriando totalmente, logo, não pode ter estado eternamente deixando de funcionar ou esfriando. Deve ter tido um início.

Uma réplica popular ao argumento cosmológico é perguntar: “Se Deus criou o universo, quem, pois criou a Deus?” Se insistirmos em que o mundo teve uma causa, não devemos insistir também em que Deus teve uma causa? Não, porque se Deus é um ser necessário – fato este que é estabelecido se aceitarmos a prova – logo, é desnecessário perguntar sobre as Suas origens. Seria como perguntar: “Quem criou o Ser incriável?” ou “Quem causou o Ser incausável?”

Mais séria é a objeção de que a prova baseia-se numa aceitação não-crítica do “principio da razão suficiente”, a ideia de que cada evento/efeito tem uma causa. Se este princípio for negado, mesmo na metafísica, o argumento cosmológico perderá o seu impacto. Hume argumentou que a causação é um princípio psicológico, não metafísico, cujas origens se achavam na propensão humana de tomar por certa ligações necessárias entre eventos, enquanto tudo quanto realmente vemos é contiguidade e sucessão. Kant apoiou Hume ao Argumentar que a causalidade é uma categoria embutida em nossas mentes como uma das muitas maneiras pelas quais ordenamos a nossa experiência. Sartre achava que o universo era “infundado”. Bertrand Russell alegava que a questão das origens estava emaranhada em verbosidade sem sentido e que devemos restringir-nos a declarar que o universo “simplesmente existe, e com isso esgota-se o assunto.”

Não é com facilidade que se comprova o princípio da causalidade. É uma daquelas pressuposições fundamentais que se faz ao elaborar-se uma cosmovisão. No entanto, pode ser indicado que, se alijarmos a ideia da razão suficiente, destruiremos não somente a metafísica como também a ciência. Quando alguém ataca a causalidade, ataca boa parte do conhecimento em si, porque sem este princípio a conexão racional na maior parte da nossa aprendizagem se desfaz. Por certo, não é irracional pesquisar a causa do universo inteiro.

2. O Argumento Teleológico ou do desígnio

Esta é uma das provas teístas mais antigas, mais populares e mais inteligíveis. Sugere que há uma analogia específica entre a ordem e a regularidade do cosmos e algo produzido pela engenhosidade humana. Voltaire colocou o assunto em termos um pouco simplistas: “Se um relógio comprova a existência do relojoeiro, mas o universo não comprova a existência de um grande Arquiteto, então consinto em ser chamado de tolo”.

Ninguém pode negar que o universo parece ser resultado de desígnio[8]; exemplos da ordem proposital acham-se ao nosso redor. Em quase qualquer lugar, acham-se aspectos da existência que demonstram que o universo é basicamente amistoso à vida, à mente, à personalidade e aos valores. A própria vida é uma função cósmica, ou seja, uma disposição muito complexa de coisas tanto terrestres quanto extraterrestres deve entrar em ação antes de a vida poder subsistir. A Terra deve ter o tamanho exatamente certo, a sua rotação deve ser exatamente correta, sua distância do sol deve estar dentro de certos limites, sua inclinação deve ser correta para causar as estações, deve haver um equilíbrio muito delicado entre a terra seca e as águas. Nossa estrutura biológica é muito frágil. Com um pouco mais de calor ou de frio, morremos. Precisamos de luz, mas não da ultravioleta em demasia. Precisamos de calor, mas não da luz infravermelha em demasia. Vivemos exatamente embaixo de uma proteção atmosférica que todos os dias nos serve de escudo contra milhões de mísseis. Vivemos exatamente 16 km acima de uma blindagem e rochas que nos protege do calor terrível abaixo dos nossos pés. Quem criou todos estes anteparos e escudos que tornam possível a nossa existência terrestre?

Mais uma vez, há uma escolha que devemos enfrentar. Ou o universo foi projetado, ou desenvolveram-se por acaso todas estas características. O cosmos ou é um plano ou um acidente!

A maioria das pessoas tem uma repugnância inata à ideia do acaso, porque contradiz a maneira segundo a qual ordinariamente explicamos as coisas. O acaso não é uma explicação, mas a falta de explicação. Quando um cientista explica um evento imediato, ele age segundo a suposição de que este universo é regular, onde tudo ocorre como resultado da marcha ordeira de causa e efeito. Quando, porém, o naturalista chega à metafísica, à origem do universo inteiro, abandona o princípio da razão suficiente e toma por certo que a causa de tudo é uma inimaginável sem-causa, o acaso ou o destino.

Imagine que você está em pé olhando para um alvo, e vê uma flecha, atirada detrás de você, “acertar na mosca”. Depois, você vê mais nove flechas, atiradas em rápida sucessão, todas atingindo o mesmo ponto. A pontaria é tão exata que cada flecha racha a flecha anterior ao atingir o alvo. Ora, uma flecha atirada ao ar está sujeita a muitos processos contrários e discordantes – a gravidade, a pressão do ar e o vento. Quando dez flechas em seguida atingem exatamente o mesmo alvo, isto não exclui a possibilidade do mero acaso? Você não diria que isto foi o resultado de um exímio arquiteto? Esta parábola não forma uma analogia com o nosso universo?

Objeta-se que o argumento do desígnio, mesmo que fosse válido, não comprova a existência de um criador, mas somente de um arquiteto, e mesmo neste caso, apenas um arquiteto suficientemente inteligente para produzido universo conhecido, e não necessariamente um ser onisciente. Esta objeção é correta. Não devemos procurar mais do que a vidência permitida. Não teremos uma visão cem por cento completa do Javé da Bíblia através de qualquer evidência da teologia natural. Este nosso universo, no entanto, é tão vasto e maravilhoso que podemos concluir com segurança que seu projetista deve ser digno de nossa adoração e devoção.

Muitos objetam que a teoria da evolução remove boa parte do impacto do argumento do desígnio. O evolucionismo demonstra que o desígnio maravilhoso nos organismos vivos veio a existir mediante a adaptação lenta ao meio-ambiente, e não pela criação inteligente. Esta é uma alegação falsa. Mesmo se fosse admitida, a evolução simplesmente introduz um período mais longo de tempo na questão do desígnio. Comprovar que relógios vinham de uma fábrica completamente automatizada sem intervenção humana alguma não nos levaria a perder o interesse por um projetista, porque se pensamos que um relógio é maravilhoso, o que devemos pensar de uma fábrica que produz relógios? Isto não sugeriria com igual ênfase a existência de um projetista? As pessoas religiosas têm sido muito atemorizadas pela teoria da evolução.

Até mesmo os grandes críticos da teologia natural, como Hume e Kant, revelavam admiração pelo argumento teleológico. Hume atribuía a ele certa validez limitada. Kant foi mais além. “Esta prova sempre merecerá ser tratada com respeito. É a mais antiga, a mais clara, e a que mais está de conformidade com o raciocínio humano… Nada temos a dizer contra a racionalidade e a utilidade desta linha de argumento, mas desejamos, pelo contrário, recomendá-la e estimulá-la”.

3. O Argumento Moral

Esta é a mais recente das provas teístas. O primeiro filósofo de destaque que a usou foi Kant, que achava deficientes as provas tradicionais. Kant sustentava que a existência de Deus e a imortalidade da alma eram questões de fé, e não do raciocínio especulativo comum que, segundo declarava, está limitado à sensação.

Kant raciocinava que a lei moral nos ordenou a buscar o summum bonum (o sumo bem) tendo a perfeita felicidade como resultado lógico. Mas surge um problema quando contemplamos o fato desagradável de que “não há o mínimo fundamento na lei moral para uma conexão necessária entre a moralidade e a felicidade proporcional num ser que pertence ao mundo como parte dele”. Portanto, o único postulado da experiência moral do homem que fará sentido é “a existência de uma causa de toda a natureza, distinta da própria natureza”, isto é, um Deus que recompensará devidamente o esforço moral em outro mundo. Num universo sem Deus a experiência mais profunda do homem seria um enigma cruel.

Na sua obra Rumor of Angels (“Rumor dos Anjos”), Peter Berger oferece uma interessante versão negativa do argumento moral, denominada por ele “o argumento da perdição eterna”. Nossa condenação moral apodíctica de homens imorais como Adolf Eichmann parece transcender gostos pessoais e costumes sociais; parece exigir uma condenação de dimensões sobrenaturais. Alguns atos não são apenas maus, mas monstruosamente malignos; parecem estar imunes a qualquer tipo de relativismo moral. Ao pronunciarmos julgamentos morais de tão grande peso, como quando condenamos a escravidão e o genocídio, apontamos em direção a um âmbito transcendente de absolutos morais. De outra forma, toda a nossa moralização fica sem fundamento e razão de ser. Um “relativista pregador” é uma das mais cômicas autocontradições.

A maioria dos pensadores modernos que usa o argumento moral dá continuidade à tese de Kant de que Deus é um postulado necessário para explicar a experiência moral. Kant pensava que a lei moral poderia ser estabelecida pelo raciocínio, mas invocou a presença de Deus para garantir a recompensa da virtude. Os pensadores modernos não fazem tanto uso do conceito de Deus com vistas à recompensa, mas com o intuito de providenciar um fundamento para a lei moral em primeiro lugar.

O argumento moral começa com o simples fato de experiência ética. A pressão no sentido do cumprimento do dever pode ser sentida tão fortemente quanto a pressão de um objeto empírico. Quem ou o que está provocando esta pressão? Não basta dizer que a sociedade nos condiciona a sentir essas pressões. Alguns dos maiores moralistas da História adquiriram fama exatamente porque criticaram as falhas do seu grupo – tenha sido tribo, classe, raça ou nação. Se o subjetivismo social é a explicação da motivação moral, logo, não temos direito algum de criticar a escravidão, o genocídio ou coisa alguma!

Os evolucionistas atacam o argumento moral, insistindo que toda a moralidade é meramente um longo desenvolvimento a partir dos instintos animais. Os homens gradualmente elaboram seus sistemas éticos convivendo em comunidades sociais. Mas esta objeção é uma espada de dois gumes: se elimina a moralidade, também elimina o raciocínio e o método científico. O evolucionista acredita que o intelecto humano desenvolveu-se do cérebro físico dos primatas, mas toma por certo que o intelecto é fidedigno. Se a mente faz jus à confiança, embora tenha evoluído de formas inferiores, por que não a natureza moral também?

Muitas pessoas colocam-se numa posição intermediária e aceitam o objetivismo moral, mas querem parar no ponto do âmbito transcendental dos absolutos morais impessoais. Negam que seja necessário crer numa Pessoa, numa Mente ou num Legislador. Isto parece ser redutivo. É difícil imaginar uma “mente impessoal”. Como uma coisa poderia nos fazer sentir obrigados pelo dever a sermos bondosos, úteis, verazes e amorosos? Devemos prosseguir firmemente até chegar a uma Pessoa, a Deus, ao Legislador. Somente aí a experiência moral é adequadamente explicada.

Até que ponto todas estas provas teístas são válidas? O que diz o apóstolo Paulo?

Esta pergunta levanta questões em vários campos: lógica, metafísica, física e teoria do conhecimento. Citamos alguns pensadores acima como Aquino, Hume, Pascal e Kant. Mas fico apenas com o argumento do apóstolo Paulo, parte do qual usamos para encabeçar este artigo. Ele parece exigir um alto conceito das provas teístas quando diz que os descrentes são ‘indesculpáveis’. “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles [nos homens] se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Ampliando um pouco mais este argumento, até o verso 32, o apóstolo Paulo trata da justiça dos gentios – povos não-judeus –, e neste texto, destacam Thomson e Davidson:

Paulo traça um retrato vivido da injustiça do mundo gentílico, descrevendo a religião pagã (impiedade) e a moralidade pagã (injustiça). Sobre uma e outra a ira de Deus se revela (18), de igual modo como se revela Sua justiça… Os gentios tornaram-se nulos em seus próprios raciocínios (21); isto é, fúteis em suas filosofias… Essa jactanciosa teorização levava à idolatria, visto como, obscurecendo ou detendo a verdade (18), fazia-os afastar-se de Deus e a excogitar ignóbeis substitutos dEle (23). Eles deviam compreender melhor! Deviam conhecer o que era cognoscível. Deus Se lhes revelara. Sua mão oculta, desde o princípio, podia ser bem discernida. Deus sempre deu testemunho de Si, tanto pela natureza como pela consciência. Não havia desculpas para a ignorância deles. Embora seja paradoxal falar em ver o invisível, as coisas invisíveis de Deus, o seu próprio poder e divindade, ‘Deus em ação e na Sua essência’, nunca estiveram escondidas do homem (20). E assim Paulo condena as filosofias gentílicas por alienarem de Deus os homens, Deus que é a verdade, e por conduzirem ao culto vão dos ídolos… (G. T. THOMSON e F. DAVIDSON (In. SHEDD: 1983, p. 1156).

Paulo não estava necessariamente afirmando que os argumentos são dedutíveis, analíticos ou demonstrativos. Se alguém rejeitasse uma proposição de alta probabilidade, ainda poderíamos dizer que ele não tinha desculpa. Os argumentos, em seu efeito cumulativo, oferecem uma defesa muito forte da existência de Deus, mas não são logicamente inexoráveis nem racionalmente inevitáveis. Se definirmos a prova como ocorrência provável baseada nas experiências empiricamente produzidas e sujeitas ao teste do julgamento razoável poderemos, pois, dizer que os argumentos comprovam a existência de Deus.

Se Deus realmente existe, estamos lidando com uma proposição fatual, e o que realmente queremos, ao pedirmos a prova de uma proposição fatual, não é uma demonstração da sua impossibilidade lógica, mas, sim, um grau de evidência que exclua a dúvida razoável. Algo pode ser tão provável que exclui a dúvida razoável sem ser dedutiva, analítica, demonstrativa ou logicamente inevitável. Achamos que as provas teístas – excluindo o argumento ontológico – encaixam-se nesta categoria.

A teologia natural, no entanto, nunca poderá estabelecer a existência do Deus bíblico. Estas provas podem fazer da pessoa um deísta, mas somente a revolução fará da pessoa um cristão. A razão que opera sem a revelação sempre acaba indicando uma divindade diferente de Javé, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Podemos facilmente confirmar este fato ao compararmos Javé om as divindades de Aristóteles, Spinoza, Voltaire e Thomas Paine.

Portanto, a verdadeira crença no verdadeiro Deus é aquela que é o resultado da revelação geral ou manifestação deste Deus a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que este verdadeiro Deus existe e como é, mas este é assunto para um próximo artigo ou post.

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983.

Notas:

  • [1]Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou…”. Neles, isto é os gentios, isto é, os povos não-judeus. Veja mais no comentário de G. T. THOMSON e F. DAVIDSON (In. SHEDD: 1983), no final deste artigo.
  • [2]  Imagem disponível em: <http://ourview.com.br/index.php/tag/criador-do-mundo/>. Acesso em: 08/04/2019.
  • [3] A. J. HOOVER é Doutor (Ph.D.), pela Universidade do Texas, Professor de História, Universidade Cristã de Abilene, Abilene, Texas, EUA, e um dos colaboradores da Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (q.v.), editada por Walter A. ELWELL.
  • [4] Adaptação de parte do texto “Argumentos em prol da existência de Deus”, de A. J. Hoover (Nota 1), pp. 421 a 427.
  • [5] PLATÃO. Leis, Livro X.
  • [6] ARISTÓTELES. Metafisica, Livro VIII.
  • [7] Em sua obra, “A Suma Teologica” Tomás de Aquino que foi um grande estudioso dos escritos de Aristóteles buscou provar a existência de Deus por meio da razão.
  • [8] O argumento do desígnio, também destacado por Myer PERLMAN (veja AQUI) é usado pelos teístas para defender a existência de Deus, pois está relacionado com o modo regular, ordenado e complexo como o universo está organizado. Estes fatores revelam o desígnio de um ser divino e criador, cujos sinais são: todos aqueles objetos naturais que se assemelham a máquinas feitas pelo homem; o modo como as partes na natureza se juntam e se combinam entre si; e a adaptação dos meios aos fins. Destes sinais do desígnio, estabelecendo uma analogia entre os desígnios e as obras humanas e os desígnios e obras divinas, os teístas inferem a existência de um autor divino – Deus –, cuja inteligência e planejamento sejam de algum modo análogos às dos humanos.

 

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Deus…, por Myer Pearlman

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 29 a 81.

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Nossa intenção era usar o livro de PEARLMAN como uma das referências bibliográficas deste artigo. Mas dado a profundidade de como o autor trata o assunto “DEUS” achei por bem – até para não enfraquecer os argumentos do autor – apenas adaptar os seus escritos à nova ortografia e manter todo o seu conteúdo, gravado em PDF (link no final).

Esboço

I – A EXISTÊNCIA DE DEUS

1. Sua existência declarada:
2. Sua existência provada:
   a) O argumento da criação.
   b) O argumento do desígnio.
   c) O argumento da natureza do homem.
   d) O argumento da história.
   e) O argumento da crença universal.
3. Sua existência negada: 

II – A NATUREZA DE DEUS

1. Conceito bíblico (os nomes de Deus):
   a) Elohim. 
   b) Jeová.
   c) El.
   d) Adonai.
   e) Pai.
2. Crenças errôneas:
   a) Agnosticismo.
   b) Politeísmo.
   c) Panteísmo.
   d) Materialismo.
   e) Deísmo.

III – OS ATRIBUTOS DE DEUS

1. Atributos não relacionados (a natureza íntima de Deus):
   a) Espiritualidade.
   b) Infinitude.
   c) Unidade.
2. Atributos ativos (Deus e o universo:
   a) Onipotência.
   b) Onipresença.
   c) Onisciência.
   d) Sabedoria.
   e) Soberania.
3. Atributos morais (Deus e as criaturas morais):
   a) Santidade.
   b) Justiça.
   c) Fidelidade.
   d) Misericórdia.
   e) Amor.
   f) Bondade.

IV – O TRINO DEUS

1. A doutrina declarada:
2. A doutrina definida:
3. A doutrina provada:
   a) O Antigo Testamento.
   b) O Novo Testamento.
4. A doutrina ilustrada:

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