O Brasil e sua jabuticaba chamada “condenação após o trânsito em julgado”

C.F. Art. 5º, LVII – “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Costuma-se relacionar situações inusitadas que ocorrem no Brasil à jabuticaba, fruta silvestre que só existe no Brasil. Pois é, em nossa Constituição Federal de 1988 há em seu artigo 5º, uma série de “direitos e garantias individuais”, e no meio deles, uma grande jabuticaba jurídica no inciso LVII, que é a tal expressão “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. O que isto quer dizer? Precisa de interpretação. E para isto, os Ministros do Supremo Tribunal Federal já deram seus pareceres, depois de seus juridiquês enfadonhos, várias vezes, como a parte dela que equivale, por exemplo, à prisão de réus após 2ª instância ou não. E a jabuticaba do Art. 5º, LVII da Constituição foi combinada com o artigo 283 do Código de Processo Penal (CPP) o qual afirma que “ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva”. E os Ministros admitiram, em 05 de outubro de 2016, a “.. execução da pena após condenação em segunda instância[1]. Parecia decifrada a jabuticaba.

Mas não foi isto o que ocorreu. Ontem, dia 07/11/2019, depois de cinco sessões dos 11 Ministros do STF, em atendimento a “… três ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs), relatadas pelo ministro Marco Aurélio e protocoladas pela Ordem dos Advogados, pelo PCdoB e pelo antigo PEN, atual Patriota[2]”, ficou definida, por 6 a 5, que esta “condenação após o trânsito em julgado” não se esgota na 2ª instância. Mesmo assim, considerando que 5 Ministros entenderam o contrário, ou seja, votaram pela condenação em 2ª instância, percebe-se que o resultado foi bem apertado, precisando do desempate do Presidente. Daí percebe-se como é confuso este inciso de nossa Carta Magna.

O julgamento de ontem teve os votos em FAVOR da condenação em segunda instância, dos Ministros:

  • Alexandre de Moraes
  • Cármen Lúcia
  • Edson Fachin
  • Luís Roberto Barroso
  • Luiz Fux

E os votos CONTRÁRIOS à condenação em segunda instância, foram dos Ministros:

  • Celso de Mello
  • Gilmar Mendes
  • Marco Aurélio Mello
  • Ricardo Lewandowski
  • Rosa Weber
  • Dias Toffoli, o Presidente do STF, que votou por último, desempatando o resultado.

Quais as consequências ou resultados imediatos da interpretação desta jabuticaba, aparentemente, resolvida ontem pela maioria o Supremo Tribunal Federal? Falam-se – o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por exemplo –, em solturas de 4,8 mil presos, incluindo condenados como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, Eduardo Cunha e muitos outros, cujos desdobramentos veremos em outro momento.

O certo é que esta jabuticaba, por enquanto, é sustentada, como afirma Claudia Wild em seu twitter, por “… três forças que garantem nosso atraso e que se escoram mutuamente: Constituição Federal, STF e Congresso Nacional” (@Clauwild1, 09/11/2019). E, enquanto termino este post, já tenho notícias das solturas de Lula e José Dirceu.

Por ora, como o STF em sido bastante benevolente com estes criminosos, se intencionalmente ou não, e como a arte imita a vida, fiquemos com este vídeo que é parte do filme-documentário, chamado o Mecanismo…

Notas:

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Caso Marielle: um enredo com muitos personagens e tempo indeterminado

Vereadora e seu motorista foram assassinados há um anoA carioca Marielle Franco[1], vereadora do PSOL, socióloga e ativista de direitos humanos, foi “… assassinada aos 38 anos de idade em uma emboscada no centro da capital fluminense no dia 14 de março de 2018[2]. Portanto, o caso ocorreu há quase 20 meses e ainda não foi desvendado.

Juntamente com Marielle, foi assassinado também o seu motorista Anderson Gomes[3]. Mas como era de se esperar, a morte do motorista ocorrida nas mesmas circunstâncias, não receberia as mesmas atenções como aconteceu com a de Marielle. Apenas citando algumas manchetes do Portal R7, vejamos parte das repercussões do caso:

As investigações concluíram que o policial reformado Ronnie Lessa foi o autor dos crimes, tendo efetuado os disparos de arma de fogo, e o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz estava conduzindo o Cobalt usado na execução (Negritos nosso).

Questionado pela entrevistadora da emissora norte-americana sobre alegações de que ele e sua família teriam ligações com as milícias suspeitas de envolvimento na morte de Marielle, Bolsonaro reiterou que só conheceu a vereadora após sua morte, em março do ano passado, e garantiu não ter qualquer relação com o PM da reserva apontado como executor do crime, apesar de ambos morarem no mesmo condomínio no Rio de Janeiro.

Em entrevista exclusiva para a Record TV, Bolsonaro comentou sobre depoimento de porteiro que afirmou que o presidente teria permitido a entrada em condomínio no Rio de Janeiro de um dos suspeitos de assassinar Marielle Franco. Jair Bolsonaro disse que, na data apontada pela testemunha, ele estava em Brasília.

Depois destas manchetes que resumem o caso Marielle, chegamos até aqui com dois principais suspeitos presos: Ronnie Lessa, que foi o autor dos disparos de arma que mataram a vereadora, e Elcio Vieira de Queiroz, condutor do Cobalt, usado no momento da execução da mesma. Mas estes dois suspeitos não encerram a discussão e o caso Marielle parece que ainda vai demorar um tempo para ser esclarecido.

Outros personagens surgem neste enredo. Em 17/09/2019, por exemplo, um pouco antes de deixar o cargo, a Ex-Procuradora da República, Raquel Dodge, denunciou um conselheiro afastado do Tribunal de Contas do RJ, Domingos Brazão, como mandante do crime de Marielle. Este e outros investigados, Gilberto Ribeiro da Costa, o PM Rodrigo Ferreira, a advogada Camila Nogueira e o delegado da PF, Hélio Khristian, são investigados “… por supostamente desviarem a investigação para não se desvelar organização criminosa e por inserção de declarações falsas em depoimento oficial[9].

No mesmo dia (17/09/2019), Raquel Dodge também propôs um novo rumo das investigações do caso, pois o que foi tomado pela Polícia Civil (RJ) “… apontou para receptores que não eram os verdadeiros. Estou pedindo o deslocamento de competência para que haja uma investigação para se chegar aos mandantes[10].

Bem, este “deslocamento de competência” agora se faz necessário, pois no caso, que têm interesse, partidos de oposição, jornalistas com viés de esquerda etc., estes pretendem envolver o Presidente da República, Jair Bolsonaro. Uma reportagem do Jornal Nacional, de 29/10/2019, da TV Globo, que divulgou informações, tentando ligar Jair Bolsonaro a Ronnie Lessa, acusado, como já vimos, de matar a vereadora Marielle Franco, caiu como uma luva para o gosto dos interessados oportunistas, que desejam realmente que Bolsonaro seja culpado. Lessa morava, em 14/03/2018, quando ocorreu o crime de Marielle, na “… casa registrada com os números 65 e 66 no Condomínio Vivendas da Barra, onde o presidente Jair Bolsonaro tem um imóvel, a casa 58[11]. Mas a Globo fez questão de chamar dar atenção à fala de um porteiro, que segundo a Globo, “… contou à polícia que Élcio entrou no Vivendas da Barra dizendo que iria para a casa do então deputado Jair Bolsonaro[12]. E mais: “… no dia do crime, o porteiro trabalhava na guarita que controla os acessos ao condomínio. Às 17h10 da data do crime, ele escreve no livro de visitantes o nome de quem entra, Élcio, o carro, um Logan, a placa, AGH 8202, e a casa que o visitante iria, a de número 58”. Ou seja, a Globo, na continuação da reportagem informa que o Deputado Jair Bolsonaro, na época, estava em Brasília, mas fez questão de dizer que um porteiro afirmou que Élcio, comparsa de Lessa havia se dirigido ao número 58, casa do Deputado.

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, que em 24/10/2019 disse sobre o interesse do governo federal de esclarecer o caso, mas que “… a investigação do crime não está na esfera de jurisdição do governo federal[13], agora tem interesse, de fato, de federalizar o caso Marielle, o que veremos num outro momento, embora, segundo reportagem o SBT, no vídeo a seguir, o caso parece que ficará mesmo com o Ministério Público do Rio de Janeiro.

 

Notas:

  • [1]  Foto disponível em: <https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/caso-marielle-novo-delegado-assume-investigacoes-do-ataque-20032019>. Acesso em: 05/11/2019.
  • [2]  Disponível em: <https://tudo-sobre.estadao.com.br/marielle-franco>. Acesso em: 04/11/2019.
  • [3]  Disponível em: <https://recordtv.r7.com/jornal-da-record/videos/multidao-acompanha-velorio-de-marielle-franco-e-anderson-gomes-no-rj-06102018>. Acesso em: 05.11.2019.
  • [4]  “Ex-Policial Militar Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Curicica”.
  • [5]  Richard nunes, Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro.
  • [6]  Renato Nascimento dos Santos, motorista de Orlando Curicica. Veja Nota 4.
  • [7]  Policial civil Rafael Luz Souza, conhecido como Pulgão.
  • [8]  Paulo Melo e Edson Albertassi, “… ouvidos na condição de testemunhas na linha de investigação que aponta motivação política”.
  • [9]  Disponível em: <https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/dodge-denuncia-domingos-brazao-conselheiro-do-tce-no-caso-marielle-18092019>. Acesso em: 06/11/2019.
  • [10]  Idem, Nota 9.
  • [11]  Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/10/30/audio-mostra-que-ronnie-lessa-liberou-a-entrada-de-elcio-de-queiroz-em-condominio-no-dia-do-assassinato-de-marielle-diz-mp.ghtml>. Acesso em: 06/11/2019.
  • [12]  Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/10/29/suspeito-da-morte-de-marielle-se-reuniu-com-outro-acusado-no-condominio-de-bolsonaro-antes-do-crime-ao-entrar-alegou-que-ia-para-a-casa-do-presidente-segundo-porteiro.ghtml>. Acesso em: 06/11/2019.
  • [13]  Disponível em: <https://jornaldebrasilia.com.br/politica-e-poder/moro-governo-federal-tem-todo-interesse-em-elucidar-morte-de-marielle/>. Acesso em: 06/11/2019.

 

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Os dons ministeriais e de governo

Como parte de nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas, e acerca do Espírito Santo, já estudamos a Doutrina de Deus, artigo no qual estão inseridos comentários sobre a Pessoa do Espírito Santo como parte da Trindade, a personalidade do Espírito Santo, como divina, distinta do Pai e do Filho, mas ao mesmo tempo unida com ambos, e sobre os dons espirituais, mais especificamente os nove dons de que fala o apóstolo Paulo em 1Coríntios 12.

Mas além destes nove dons, a Bíblia destaca também outros dons específicos do Espírito Santo para habilitar homens cristãos com chamadas especificas para exercer os diversos ministérios ou cargos na Igreja Cristã.

Dons ministeriais e de governo:

Já vimos no artigo “os dons espirituais” nove dons destacados pelo apóstolo Paulo conforme 1Coríntios 12.8-10. Agora, queremos destacar os dons ministeriais registrados em Romanos 12.4-8 e os de governo mencionados em Efésios 4.8-13. As duas listas de dons são habilidades ou vocações especiais dadas por Deus, mediante a graça e a medida da fé das pessoas chamadas para o ministério cristão (Rm 12.3), visando “… o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). Tanto em Romanos quanto em Efésios, Paulo está pensando claramente na comunidade cristã como organismo social, com os seus vários membros cooperando em serviço mútuo.

Mas a divisão aqui, dons de serviço ou ministeriais, baseados em Romanos, e dons de governo, baseados em Efésios, é apenas didática, uma vez que os termos podem ser sinônimos, embora, no caso dos cinco dons de Efésios, estes são mais relacionados a cargos voltados para a interpretação da Palavra de Deus, cuja doutrina é a base de sustentação e fundamentação da igreja.

  1. Dons de serviço ou ministeriais (Romanos 12.4-8)

Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros. Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria (Ro 12.4-8-NVI).

Para que o ministério ou serviço (gr. diakonia) tenha mais eficácia alguns dons são extremamente importantes, pois capacita os portadores dos mesmos com mais disciplina e espiritualidade para suprir as necessidades da igreja. Além disso, segundo Paulo, esses dons devem ser recebidos e usados com humildade. Os que têm dons especiais são tentados a fazer alto conceito e si mesmos e a se tornar importantes. Daí, o apóstolo avisar que os que tais se devem olhar com seriedade evitar vaidade, isto é, cada um “não pense de si mesmo além do que convém” (v. 3). Uma atitude razoável quanto a isso baseia-se no fato de os dons procederem de Deus, e, na verdade, da interdependência de todos, visto como Deus “repartiu a cada um segundo a medida da fé” (v. 3).

Neste propósito de distribuição dos dons segundo a fé, o apóstolo presenta a figura do corpo com seus membros (vs. 4 e 5), isto é, a igreja cristã como organismo social, com os seus vários membros cooperando em serviço mútuo. E com este intuito, uma lista de sete dons é mencionada por Paulo:

  1. Profecia (v. 6):

A profecia (προφητειαν) aqui tem o mesmo sentido de 1Co 12.10, como já vimos, de  capacitar o ministro cristão a falar com franqueza e perspicácia, mediante revelação, na qual o profeta proclama uma mensagem previamente recebida por meio dum sonho, uma visão ou ainda (e principalmente), mediante a exposição da Palavra do Senhor. Neste caso, trata-se de declarar a verdade inspirada mediante aconselhamento ou pregação. O profeta neotestamentário, diferentemente dos profetas do A.T., exerce o seu serviço cristão por meio de uma mensagem especial que exorta, consola e edifica a Igreja (I Co 14.3), com base na palavra de Deus, que, não obstante, é a espada do Espírito (Ef 6.17), a verdadeira profecia (2Tm 3.16), que educa o povo na justiça do Senhor: “Para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.17).

  1. Ministério / Diácono (v. 7):

Ministério (διακονιαν) aqui tem o sentido de um trabalhador (diácono) que se ocupa das obras materiais necessárias da igreja cristã, antes que às espirituais. Por isso, trabalhos como obras de limpeza, secretaria, infantil, organização dos elementos e da ordem da ceia, ofertas serviços gerais, portaria, estacionamento,  atendimento aos órfãos, viúvas e necessitados ou qualquer outra forma de ministração física ou material são tão importantes e bem vindos como os de ordem especificamente espirituais. O importante é que quem exerça este dom de ministério faça-o com dedicação (cf. v. 7).

  1. Ensino (v. 7):

O sentido de ensino (διδασκων) aqui é o de um professor ou mestre que expõe a verdade bíblica. Tem o mesmo sentido de didática, arte de transmitir conhecimentos, uma parte da pedagogia que se ocupa dos métodos e técnicas de ensino, visando uma atividade educativa de modo a torná-la mais eficiente.

Como dom (dádiva divina), ensino é aquela especial iluminação do Espírito Santo que habilita o ministro cristão a explicar as coisas difíceis, tornando estas verdades acessíveis a todos. Quem ensina deve cultivar um forte amor pelo ensino, pois isso é a base da Igreja. A tarefa primordial do ensinador é levar o aluno a uma transformação radical de vida, por intermédio da mensagem de edificação cristã. E “o que ensina, esmere-se no fazê-lo…” (cf. Rm 12.7).

  1. Exortação/dar ânimo (v. 8):

A expressão traduzida por exortação (προτρεπει τις) ou “dar ânimo”, na versão que estamos utilizando aqui, é uma continuação do dom de ensino, uma forma convincente de pregação ou ensino que visa o coração do homem, a fim de que este ensino alcance a consciência e vontade dos fiéis, estimulando-os na fé. “Pelo que vos exortai uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (I Ts 5.11).

Veja que exortar, animar e consolar são termos sinônimos neste caso. O cristão que possui este dom faz uso da Palavra ou pregação para admoestar a igreja, buscar o bem da comunidade, levantar os fracos e caídos, encorajar uns aos outros e preveni-los de heresias e pecados. “Façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o dia se aproxima” (Hb 10.25-B). “Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Pelo contrário, encorajem-se (ενθαρρύνετε το) uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.12,13)…

  1. Contribuição/liberalidade (v. 8):

A expressão grega usada para contribuir (μεταδιδων) tem o mesmo sentido de transmitir apoio emocional, físico e financeiro, ajudando a sustentar a causa do evangelho. O portador deste dom é alguém dotado de um grande amor pelo próximo, pois busca repartir o que recebeu, não com ostentação, mas com liberalidade, o que traduz a ideia de generosidade, nunca esperando receber nada em troca. Num sentido mais amplo, são os que dispõem de recursos e auxiliam membros e ministérios com ajuda financeira, emocional e física, a fim de suprir a sua carência. Este dom deve ser exercido de forma despretensiosa, e a ideia primordial é que aquele que oferece a contribuição não deve gabar-se de suas contribuições, mas seguir fielmente o sábio conselho proferido pelo Senhor Jesus durante o Sermão do Monte (Mt 6.1-4).

  1. Liderança/quem preside (v. 8):

 O dom de presidir (προισταμενος) ou liderar é uma habilidade relacionada aos cristãos chamados para “governo” ou situações que dependem de decisão de supervisão de departamentos e funções específicas dentro de uma administração eclesiástica visando o desenvolvimento da obra de Cristo. A referência pode ser ao governo lar, como vemos em 1Tm 3.4,5,12, aquele “que governe bem a sua própria casa…”, ou da congregação, como “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1Tm 5.17).

Mas não necessariamente, o que preside precisa ser um pastor, um presbítero ou bispo, mas um cristão que exerce a liderança dada por Deus, independentemente de cargo, embora seja exigido deste líder um certo preparo teológico e outros ligados à sua área de atuação para melhor crescimento espiritual e até material de seus liderados. O conselho de Paulo “Persiste em ler” (I Tm 4.13) deve ser acatado pelo líder, “nós somos o que lemos”, disse alguém, obviamente, seguindo o modelo para sua liderança, a Palavra de Deus. “Tem cuidado de ti e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (I Tm 4.16).

  1. Misericórdia (v. 8):

Todos os cristãos devem exercer misericórdia (Έλεος) com os necessitados. Mas como um dom, ela é exercida por aquele que sente compaixão pelo próximo servindo-o alegremente. Lembro-me de uma aula bíblica, um professor falou para os presentes sobre a etimologia da palavra misericórdia no latim: junção de duas palavras, miseratio (compaixão) + cordis (coração), que literalmente, pode ter o sentido de levar o miserável dentro do coração. Este é o sentido da expressão da benignidade, bondade e compaixão, que se espelha em Jesus, o maior exemplo de alguém que foi misericordioso. Por isso, Ele destacou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5.7).

Como um dom, é observado na vida daqueles cristãos que foram chamados para serviços especiais dentro da área da consolação cristã, como trabalho com centros de recuperação, orfanatos, creches, hospitais e associações beneficentes, procurando sempre oferecer uma saída para os problemas dos pobres e excluídos socialmente. Este serviço cristão também pode ser definido como o interesse misericordioso que sentimos para com outra pessoa. É um sentimento tão intenso que nos envolve na graça de Deus, tornando-nos portadores de uma sensibilidade maior aos dilemas existenciais e ao sofrimento humano.

  1. Dons de governo

Por isso é que foi dito: “Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. (Que significa “ele subiu”, senão que também descera às profundezas da terra?  Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.) E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado,
até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo (Efésios 4.8-13)

Em construção

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Os dons espirituais

“Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de conhecimento, pelo mesmo Espírito; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de cura, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas” (1Co 12.8-10).

Este é mais um artigo (post) de nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas, e acerca do Espírito Santo, desta feita, destacando os dons espirituais. Do grego, a expressão “pneumatika” ou “dons espirituais” (1Co 12.1), refere-se a coisas pertencentes ao Espírito Santo em relação ao corpo de Cristo, a Igreja.

Mas há um aspecto tríplice no ensino de Paulo em 1Coríntios 12. Ele fala em “charismata” (daí, palavras derivadas como carisma, carismático etc.), ou seja, uma variedade de dons concedidos pelo mesmo Espírito (versos 4 e 7);  “diakonai” (daí palavras como diácono, ministério ou serviço), isto é, variedade de serviços prestados na causa do mesmo Senhor (v. 5) e “energemata” (daí expressões como operações,  realizações, receber energia etc.), significando variedades de poder do mesmo Deus que opera tudo em todos (v. 6). Paulo refere-se a todos esses aspectos como “a manifestação do Espírito“, que é dado aos homens para proveito de todos.

Queremos destacar aqui, especificamente, a relação de nove dons que Paulo fala nos versículos (versos 8 a 10): palavra da sabedoria; palavra da ciência;
fé; cura; operação de maravilhas; profecia; discernimento dos espíritos; variedade de línguas e interpretação das línguas. Num outro momento, falaremos sobre os dons ministeriais.

1. Dons de revelação:

A classificação[1] dos nove dons espirituais referidos acima (1Co 12.8-10) podem ser divididos em três grupos: revelação, elocução e poder. Começaremos pelo primeiro grupo.

a) Palavra de sabedoria (v. 8):

Por esta expressão, palavra de sabedoria (λόγος σοφίας), entende não sabedoria como uma virtude natural das pessoas ou resultado de instrução, mas como o pronunciamento ou a declaração de sabedoria ou erudição como “dom” ou carisma para o atendimento às necessidades particulares da igreja. Trata-se da capacidade sobrenatural para expressar conhecimento nos sentidos supramencionados. Encontramos alguns textos que ajudam a entendermos a palavra de sabedoria como dom do Espírito Santo:

  • At 7.10, conf. Gn 41.28-40 – José, vendido e levado para o Egito, recebeu de Deus graça e sabedoria para interpretar sonhos e dar conselhos sábios ao Faraó.
  • Mt 22.16-22 – Jesus usou uma palavra de sabedoria quando respondeu os adversários que pretendiam surpreendê-Lo, no caso do pagamento do imposto a César (v. 21).
  • Ap 13.18 e At 17.9 – Aqui refere-se à inteligência demonstrada no esclarecer o significado de algum número ou visão misteriosos.
  • At 6.3 – Sabedoria e prudência em tratar assuntos como a escolha dos diáconos.
  • Cl 4.5 – Sabedoria como habilidade santa no trato com pessoas de fora da igreja.
  • Cl 1.28 – Jeito e discrição em comunicar verdades cristãs.
  • Tg 1.5; 3.13,17 – Sabedoria demonstrada no conhecimento e prática dos requisitos para uma vida piedosa e pura.
  • Lc 12.12; 21.15; Mt 13.54; Mc 6.2 – Sabedoria ou habilidade necessária para uma defesa eficiente da causa de Cristo…

b) Palavra de Conhecimento/Ciência (v. 8):

Por este dom (λογος γνωσεως) entende-se a revelação de fatos não manifestados através de processos naturais, mas que pode ser comprovado cientificamente. Vejamos a seguir alguns exemplos de palavra de conhecimento ou de ciência:

  • 1Sm 9.3-20 – Saul procura as ovelhas de seu pai, não as encontra e vai até o profeta (vidente) Samuel. E “um dia antes” (v. 15) Deus revela a Samuel que as ovelhas já tinham sido encontradas.
  • 2Re 6.8-12 – Eliseu também teve conhecimento sobrenatural concernente ao local em que estava acampado o exército sírio (v. 12).
  • Jo 1.46-51 – Jesus usou este dom quando afirmou que Natanael estivera debaixo da figueira (v. 48).
  • Jo 4.17-19 – Jesus também usou a ciência quando falou da condição moral e espiritual da mulher samaritana (v. 18).
  • Jo 11.14 – Também quando afirmou que Lázaro estava morto.
  • At 9.10-12 – Ananias é avisado pelo Espírito Santo para ir a Tarso, impor as mãos e curar Saulo que tinha se convertido. A revelação de Deus a Ananias deu a este a certeza de que Saulo agora seria “… um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel” (v. 15).
  • At 10.19 – Pedro é avisado que três homens o procurariam para ir com eles até à casa de Cornélio, em Cesareia, e pregasse o Evangelho ali. Veja que Deus já tinha avisado a Cornélio tanto o nome quanto o endereço onde Pedro estava (vs. 5,6).

Nota – Qual a diferença entre sabedoria e ciência? Não podemos dogmatizar estes conceitos, mas ao que parece, a palavra de sabedoria é uma revelação exclusivamente espiritual que não necessariamente terá explicação científica, ao contrário da palavra de ciência, que embora seja também um dom de revelação, ela pode ser explicada cientificamente depois de seu cumprimento ou acontecimento. Mais um exemplo disto, vemos no caso do jumentinho que os discípulos encontraram “… amarrado, no qual ninguém jamais montou” (Lc 19.30) e ao chegarem lá, os discípulos encontraram-no exatamente como Jesus lhes tinha dito (v. 32).

c) Discernimento de Espíritos (v. 10):

Este dom (διακρισεις πνευματων) para a igreja é uma revelação para que os cristãos consigam discernir espiritualmente uma inspiração falsa de uma verdadeira, uma obra de espíritos enganadores ou demoníacos de uma divina, uma ação proveniente de Deus (sobrenatural/espiritual) de uma estritamente humana ou natural. Esse dom capacita o possuidor para “enxergar” todas as aparências exteriores e conhecer a verdadeira natureza duma inspiração. A operação do dom de discernimento pode ser examinada por duas outras provas: a doutrinária (1Jo 4.1-6) e a prática (Mt 7.15-23). A operação desse dom é ilustrada nas seguintes passagens:

  • Jo 1.47-50 – A resposta de Jesus a Natanael foi ao mesmo tempo uma palavra de ciência e discernimento de espirito ao firmar que Ele, Jesus, era “… um verdadeiro israelita, em quem não há dolo” (v. 47), diferente do que Natanael achava: que não viria “… alguma coisa boa de Nazaré” (v. 46).
  • Jo 2.23-25 – Mesmo que muitos “creram” em Jesus por causa dos sinais que Ele fazia (v. 23), o próprio Jesus discerniu espiritualmente que esta “crença” não era real porque a “… todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” (vs. 24,25).
  • Jo 3.1-3 – Aqui Jesus é chamado Mestre (Rabi) por Nicodemos, mas ele não conhecia verdadeiramente Jesus. E, para conhecê-Lo, precisava “nascer de novo”, como um dos requisitos para ver o “reino de Deus” (v. 3).
  • 2Re 5.20-26 – Eliseu discerniu espiritualmente o que Geazi tinha feito: mentido e recebido dinheiro (bens) de Naamã, quando ele mesmo recusara a aceitar a “bênção” oferecida pelo sírio (vs. 15,16).
  • At 5.3 – Pedro discerne espiritualmente que Ananias tinha mentido ao Espírito Santo…
  • At 8.18-24 – Um certo Simão (mago) tenta comprar o poder do Espírito Santo com dinheiro e Pedro afirma com autoridade espiritual que o dinheiro dele era para sua perdição e via que Simão estava “… em fel de amargura, e em laço de iniquidade” (v. 23). Mas Simão se arrepende do que tinha proposto.
  • At 16.16-19 – Aqui Paulo discerne espiritualmente que uma jovem que tinha espírito de adivinhação, embora chamasse ele e Silas (e talvez também Lucas…) de servos do Deus Altíssimo, estava perturbando a obra, e expulsou o espirito diabólico da jovem…

2. Dons de elocução:

Três dons na lista dos nove, mencionados em 1Coríntios 12 têm relação com a palavra falada. São eles, a profecia, as línguas e a interpretação de línguas.

a) Profecia (v. 10):

A profecia (προφητεια) tem sido definida como “falar na própria língua sob a inteira unção do Espírito”. A profecia bíblica pode ser mediante revelação, na qual o profeta proclama uma mensagem previamente recebida por meio dum sonho, uma visão ou pela Palavra do Senhor. Pode ser também extática, uma expressão de inspiração do momento. Há muitos exemplos bíblicos de todas as formas de profecias. A profecia extática e inspirada pode tomar a forma de exaltação e adoração a Cristo, admoestação exortativa, ou de conforto e encorajamento inspirando os crentes. Mas é importante sabermos que os profetas do Novo Testamento não são “guias” como os do Antigo Testamento que dirigiam a Israel. O propósito do dom de profecia do Novo Testamento é declarado em 1Co 14.3: edificar, exortar e consolar os crentes. Portanto, a inspiração manifestada no dom de profecia não está no mesmo nível da inspiração das Escrituras. A profecia se distingue da pregação comum em que, enquanto a última é geralmente o produto do estudo de revelação existente, a profecia é o resultado da inspiração espiritual espontânea. Não se tenciona suplantar a pregação ou o ensino, senão completá-los com o toque da inspiração.

Alguns exemplos de profecias como dom espiritual:

  • At 15.32 – Judas e Silas, por possuírem este dom eram chamados profetas, os quais exortaram os irmãos…
  • At 21.8-12 – Em Cesareia, quatro filhas de Filipe, o evangelista, e um homem chamado Ágabo eram chamados profetas, e exortavam a Paulo em relação às perseguições pelas quais ele iria passar. Mas observa que Paulo, apesar a exortação, não atende os profetas e sobe a Jerusalém, local das perseguições (v. 13).
  • 1Co 14.29 – A profecia pode ser julgada, por não estar no mesmo nível das Escrituras.
  • 1Ts 5.19-20 – Embora a profecia possa ser julgada, não pode ser desprezada (v. 20), uma vez que ela indica que o fogo do Espírito está acesso (não extinto).

b) Línguas (v. 10):

Línguas, variedade de línguas (ειδη γλωσσων) ou dom de línguas é o poder de falar sobrenaturalmente em uma ou várias línguas nunca aprendidas por quem fala, sendo essas línguas inteligíveis aos ouvintes e, que por meio do dom igualmente sobrenatural de interpretação, elas são interpretadas, como veremos na sequência. As línguas são manifestações distribuídas pelo Espírito como Lhe apraz (v. 11). Mas os grupos chamados “cessacionistas” não aceitam este (principalmente) e outros dons como sendo atuais. Ou seja, eles acreditam que estes dons cessaram após o primeiro século da Igreja Cristã.

Parece haver duas classes de mensagens em línguas: primeira, louvor em êxtase dirigido a Deus somente (1Co 14.2), em que o crente, em espírito, fala em mistério com Deus; e segunda, uma mensagem definida para a igreja (1Co 14.5). Neste último caso, Paulo aconselha que apenas dois ou três falem em línguas (v. 27) e que haja interpretação. “Se não houver intérprete [aquele que tiver falando línguas], fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (v. 28).

c) Interpretação de Línguas (v. 10):

Assim como as línguas são o dom de falar sobrenaturalmente em uma ou várias línguas nunca aprendidas e, no caso coletivo (na igreja) precisa de interpretação, é este dom – o de interpretação de línguas (ερμηνεια γλωσσων) – que torna a mensagem das línguas estranhas em língua comum, conhecia pelo povo congregado. O mesmo Espírito que inspirou o falar em outras línguas, pelo qual as palavras pronunciadas procedem do espírito e não do intelecto, pode inspirar também a sua interpretação. A interpretação é, portanto, inspirada, extática e espontânea. Assim como o falar em língua não é concebido na mente, da mesma maneira, a interpretação emana do espírito antes que do intelecto do homem.

  • 1Co 14.5 – Nota-se que as línguas em conjunto com a interpretação tomam o mesmo valor de profecia.
  • 1Co 14.22 – Embora tenham o mesmo valor da profecia, as línguas, com as devidas interpretações são um “sinal” para os incrédulos.

3. Dons de poder:

Mais três dons na lista dos nove, mencionados em 1Coríntios 12 são classificados como “dons de poder” e são eles: fé, operação de milagres e cura.

a) Fé (v. 9):

A fé (πιστις) aqui, diferentemente da fé salvadora (ex. Hb 11.6 e Ef 2.8) ou da fé natural de confiança em Deus, é a fé necessária para a operação dos dons de curar e operação de milagres. É uma “fé especial ou miraculosa”, um “dom” ou dotação especial do poder do Espírito que parece ser manifestada por alguns dos servos de Deus em tempos de crise e oportunidades especiais.

  • Mc 11.22 – Possivelmente essa mesma qualidade de fé é o pensamento de nosso Senhor quando disse “Tende a fé de Deus”.
  • Mt 17.20 – Também vemos exemplo desta fé especial quando Jesus diz que é possível dizer ao um monte “vá daqui para lá”, e ele irá, pois nada lhes será impossível.
  • 1Re 18.22-39 – Aqui, Elias desafia os profetas de Baal e como resultado, o povo volta-se ao Senhor, o verdadeiro Deus.
  • Hb 11.33 – Daniel usou este dom quando foi lançado na cova dos leões.
  • At 3.1-8 – Também Pedro e João usaram este dom quando curaram o coxo de nascença.

b) Operação de milagres (v. 10):

Literalmente, significa “obras de poder” ou poder para realizar milagres (δύναμη να κάνει θαύματα). Parecido com a fé especial, este dom é tão estupendo que se torna quase inconcebível à mente finita do homem. Entretanto, ele faz parte do ministério sobrenatural do Espírito Santo operado através dos crentes e na história.

Pelo dom da fé é possível operar milagres. Como disse Jesus: “Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai” (Jo 14.12). Este poder foi prometido por Jesus (At 1.8), vivido por Paulo (At 19.11), os apóstolos (At 5.12-15) etc.

Através dos dons da fé e da operação de maravilhas, pessoas, orando a Deus, fizeram maravilhas como: Moisés, que abriu o mar Vermelho (Êx 14.28), Josué, que fez o Sol parar (Js 10.13), Isaías, que fez a luz do sol retroceder dez degraus (Is 38.8) etc.

c) Dons de curar (v. 9):

Dizer que uma pessoa tenha os dons de cura (χαρισματα ίαμάτων) – note-se o plural – talvez refira-se a uma variedade de curas por pessoas especiais que são usadas por Deus duma maneira sobrenatural para dar saúde aos enfermos por meio da oração. Parece ser um dom a ser usado como “sinal”, de valor especial ao evangelista (pregador), para atrair o povo ao Evangelho (At 8.6,7; 28.8-10).

Não se deve entender que quem possui esse dom (ou a pessoa possuída por esse dom) tenha o poder de curar a todos; deve-se dar lugar à soberania de Deus e à atitude e condição espiritual do enfermo. O próprio Cristo foi “limitado” em sua capacidade de operar milagres por causa da incredulidade de povo (Mt 13.58).

A pessoa enferma não depende inteiramente de quem possua o dom. Todos os crentes em geral, e os anciãos da igreja em particular, estão dotados de poder para orar pelos enfermos (Mc 16.18; Tg 5.14).

O propósito dos “dons de curar”, portanto, é libertar os enfermos, curar as pessoas de suas aflições. Contudo, eles têm ainda um propósito mais alto, que é a glória de Deus. Eles – os dons de curar – chamam a atenção para a majestade de Deus pela confirmação de Sua palavra e contribuem para abrir os corações de tal maneira que muitos aceitam o Evangelho da salvação ao ver o milagre de Deus mediante a cura ou curas.

Ainda sobre os nove dons espirituais de 1Coríntios 12, veja o vídeo a seguir, com o Pastor Luciano Subirá:

Referências bibliográficas:

  • BÍBLIA Grega. Modern Greek. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/greek/index>. Acesso em 23/09/2019.
  • BÍBLIA, Nova Versão Internacional (NVI). Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/nvi/index). Acesso em: 23/09/2019.
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).
  • SOUZA, Estevam Angelo de. O Espírito Santo. Veja Nota 1.

Nota:

  • [1] Utilizamos aqui, a classificação e orientações seguidas pelo Pastor Estevam Angelo de SOUZA, cujo livro foi utilizado num seminário há mais de 30 anos. Mas como já – dada a idade – não possui mais a capa (brochura) do mesmo, não consegui identificar nem a editora, o local e nem o ano de sua publicação. Utilizei também as explanações feitas por Myer PEARLMANN – Vide Referências Bibliográficas.
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A personalidade do Espírito Santo

Mais um artigo (post) de nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas, desta feita, destacando a personalidade do Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, conforme já destacamos no nosso post acerca da doutrina de Deus. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo (ex. Mt 3.16,17; 28.19 etc.). E ao falarmos que o Espírito Santo é uma pessoa, queremos destacar sua personalidade distinta do Pai e do Filho, mas ao mesmo tempo unida com ambos.

1. Alguns nomes do Espírito Santo

 O Deus das Escrituras é um Ser pessoal e Se revela por nomes. E este princípio se aplica também ao Espírito Santo. Por isso, a compreensão destes nos ajuda muito a saber sobre Sua Pessoa. Vejamos alguns:

a) Espírito de Deus:

Encontramos estes nomes em referências bíblicas como: 1Jo 4.2; Jó 33.4; 1Co 2.11; 3.16; 2Cr 15.1; Rm 8.9,14; Mt 12.28… Trata-se do Espírito como o executivo da Divindade, operando tanto na esfera física como na moral, conversão dos pecadores, santificando e sustentando os crentes.

b) Espírito de Cristo:

Referências: Rm 8.9; Fp 1.19… Não há nenhuma distinção especial entre as expressões Espírito de Deus, Espírito de Cristo, e Espírito Santo. Há somente um Espírito Santo, da mesma maneira como há somente um Deus e um Filho. Mas o Espírito Santo é também chamado o Espírito de Cristo porque Ele foi enviado em nome de Cristo (Jo 14.26), Ele é o princípio da vida espiritual pelo qual os homens são nascidos no reino de Deus, são batizados nEle (Mt 3.11) e, por intermédio dEle, glorifica a Cristo (Jo 16.14).

c) O Consolador:

Referências: Jo 14.16; 15.26; 16.7… Expressão utilizada por Jesus e mencionada por João, e tem o sentido de que o Espírito Santo substituiria a pessoa de Cristo, no comando da Igreja. Os discípulos haviam tomado sua última ceia com o Mestre. Os seus corações estavam tristes pensando na sua partida, e estavam oprimidos pelo sentimento de fraqueza e debilidade. O Espírito, o Consolador, era quem os ajudaria quando ele partisse e os guiaria na Verdade. Do grego, “parácleto”, e do latim, “advocatus”, o Espírito Santo foi enviado por Cristo para ser o “outro” Consolador que estaria de forma invisível junto aos discípulos no lugar de Cristo.

d) Espírito Santo:

Referências: Lc 1.67; 4.1; At 2.4; 8.17; 13.52; 19.2; 2Tm 1.14; Hb 10.15… A obra principal do Espírito Santo O Espírito Santo veio para reorganizar a natureza do homem e para opor-se a todas as suas tendências más.

Estes e outros nomes como Espírito da verdade (Jo 15.26 etc.), Espírito da Graça (Zc 12.10; Hb 10.29 etc.), Espírito da vida (Rm 8.2; Ap 11.11 etc.),  Espírito de adoção (Rm 8.15 etc.), Autor da Escritura (2Pe 1.21, 2Tm 3.16) etc., classificam o Espírito Santo como um ser divino no sentido absoluto.

2. Personalidade e atributos do Espírito Santo

O Espírito Santo é uma pessoa ou é apenas uma influência? Muitas vezes descreve-se o Espírito duma maneira impessoal – Sopro, Unção, Fogo, Água, Dom etc. –, mas a Bíblia O descreve duma maneira que não deixa dúvida quanto à sua personalidade.

A personalidade do Espírito Santo pode ser conhecida por vários atributos como veremos em alguns textos bíblicos abaixo:

a) Mente: “E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos” (Rm 8.27). O Espírito “sonda”, “examina”, “conhece”, ou seja, “… é Deus mesmo, onisciente, que conhece a direção e os movimentos do Espírito inspirando as aspirações humanas” (Apud SHEDD: 1983. Vol. II, p. 1170).

b) Vontade: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (1Co 12.11). Como “quer” ou lhe “apraz” são termos que retratam a volição ou vontade de escolha do Espírito Santo como uma Pessoa.

c) Sentimento: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). Como um Pessoa, o Espírito Santo possui sentimento e pode ser entristecido.

d) Atividades pessoais: Algumas atividades que são atribuídas ao Espírito Santo indicam também seus atributos pessoais, como: Ele revela/inspira (“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”, 2Pe 1.21); ensina (“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”, Jo 14.26); clama (“E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”, Gl 4.6); intercede (“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis”, Rm 8.26); fala (Ap 2:.); ordena (At 16.6,7); testifica (Jo 15.26); contra ele se pode mentir (At 5.3), e blasfemar (Mt 12.31,32)…

Além destes atributos, a personalidade do Espírito Santo também é indicada pelo fato de que se manifestou em forma visível de pomba (Mt 3.16), pelo fato de que ele se distingue dos seus dons (1Co 12.11). No caso do aspecto visível da pomba, não significa que Ele possui corpo, mas que apareceu – e quis aparecer – no momento do batismo de Jesus em “forma corpórea” ou “formato” de uma pomba. E o fato de Ele distribuir dons aos crentes não significa que o Espírito Santo entre em forma de “corpo” nas pessoas. A personalidade é aquilo que possui inteligência, sentimento e vontade; ela não requer necessariamente um corpo. Além disso, a falta duma forma definida não é argumento contra a realidade. O vento é real apesar de não possuir forma (Jo 3.8).

Não é difícil formar um conceito de Deus Pai ou do Senhor Jesus Cristo, mas alguns têm confessado certa dificuldade em formar um conceito claro do Espírito Santo. A razão é dupla: Primeiro, nas Escrituras as operações do Espírito são invisíveis, secretas, e internas; segundo, o Espírito Santo nunca fala de si mesmo nem apresenta a si mesmo. Ele sempre vem em nome de outro. Ele se oculta atrás do Senhor Jesus Cristo e nas profundezas do nosso homem interior. Ele nunca chama a atenção para si próprio, mas sempre para a vontade de Deus e para a obra salvadora de Cristo. Veja: “Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” (Jo 16.13).

O Espírito Santo é uma personalidade distinta e separada do Deus Pai e do Deus Filho. Mas não é independente de ambos. Além disso, também demonstra Sua divindade pelos atributos divinos lhe são aplicados, como: Ele é eterno, onipresente, onipotente, e onisciente (p, ex. Hb 9.14; Sl 139.7-10; Lc 1.35; 1Co 2.10,11); pratica obras divinas como criação, regeneração e ressurreição (Gn 1.2; Jó 33.4; Jo 3.5-8; Rm  8.11) e é classificado junto com o Pai e o Filho (1Co 12.4-6; 2Co 13.13; Mt 28.19; Ap. 1.4)…

3. A natureza do Espírito Santo e a Trindade

Já vimos acima que o Espírito Santo é uma Pessoa à parte do Pai e do Filho. Trata-se da Trindade Divina. Mas a Pessoa do Espírito Santo é a menos entendida pelos cristãos. E sua divindade é demonstrada em sua plena igualdade com o Pai e com o Filho. Vemos isto, pelas fórmulas trinitarianas que encontramos na Bíblia, esboçadas por Franklin FERREIRA: na fórmula batismal (“… em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, Mt 28.19); dons espirituais, 1Co 12.4-6 (“Espírito”, v. 4, “Senhor = Jesus”, v. 5 e “Deus = Pai” (v. 6); bênção apostólica, 2Co 13.13 (graça do Senhor Jesus Cristo,  amor de Deus e comunhão do Espírito Santo); obras da salvação, 1Pe 1.2 (presciência de Deus Pai, santificação do Espírito e aspersão do sangue de Jesus Cristo); e “ santíssima”, Jd 20-21 (orando no Espírito Santo, amor de Deus e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo);

Segundo Ferreira, a ordem diferente em que as pessoas divinas aparecem na Bíblia  – “… nem sempre o Pai vem primeiro, depois, o Filho e por último, o Espírito” –, indica que não há nenhum nível de inferioridade entre elas e também não se somam entre si. Como sintetiza Agostinho de Hipona:

“O Pai é apenas o Pai do Filho, e o Filho apenas o Filho do Pai; o Espírito, entretanto, é o Espírito tanto do Pai como do Filho, unindo-os em um vínculo de amor.”

A doutrina da Trindade foi sendo aos poucos definida na Igreja Cristã do primeiro século, e a base para tal, entre outros textos eram as fórmulas trinitarianas neotestamentárias. Encontramos uma definição mais abrangente, por volta do século IV, por exemplo, com Atanásio. Em sua luta contra a doutrina herética do arianismo, ele desenvolveu o credo, hoje aceito pelos cristãos:

“A fé católica [universal] consiste em venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo (…) E nesta Trindade nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor; porém todas as três pessoas são coeternas e iguais entre si; de modo que, em tudo, conforme já ficou dito acima, deve ser venerada a Trindade na unidade e a unidade na Trindade. Portanto, quem quer salvar-se, deve pensar assim a respeito da Trindade” (Credo de Atanásio, 3-6, 24-26).

Veja também:

Referências bibliográficas:

  • FERREIRA, Franklin. A Trindade e a pessoa do Espírito Santo. Disponível em: <https://voltemosaoevangelho.com/blog/2014/10/trindade-e-pessoa-espirito-santo/>. Acesso em 09/09/2019.
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983 (reimpressão).
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O Espírito Santo

Por

 

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 177 a 212.

 

A doutrina do Espírito Santo, a julgar pelo lugar que ocupa nas Escrituras, está em primeiro lugar entre as verdades redentoras. Com exceção das Epístolas 2 e 3 de João, todos os livros do Novo Testamento contêm referências à obra do Espírito; todos os Evangelhos começam com uma promessa do derramamento do Espírito Santo.

No entanto, é reconhecida como a doutrina mais negligenciada. O formalismo e um medo indevido do fanatismo têm produzido uma reação contra a ênfase na obra do Espírito na experiência pessoal…

Esboço

I – A natureza do Espírito Santo

  1. Os nomes do Espirito Santo
  2. Símbolos do Espírito

II – O Espírito no Antigo Testamento

  1. Espírito criador
  2. Espírito dinâmico, que produz
  3. Espírito regenerador

III – O Espírito em Cristo

  1. Nascimento
  2. Batismo
  3. Ministério
  4. Crucificação
  5. Ressurreição
  6. Ascensão

IV – Espírito na experiência humana

  1. Convicção
  2. Regeneração
  3. Habitação
  4. Santificação
  5. Revestimento de poder
  6. Glorificação
  7. Pecados contra o Espírito Santo

V – Os dons do Espírito

  1. Natureza geral dos dons
  2. Variedade de dons
  3. O regulamento dos dons
  4. Recebimento dos dons. Requisitos:
  5. A prova dos dons

VI – O Espírito na Igreja

  1. O advento do Espírito: o que ocorreu no Pentecoste
  2. O mistério do Espírito Santo
  3. A ascensão do Espírito

 

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Para visualizar e/ou imprimir este texto em PDF, clique AQUI.

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A vida de Jesus Cristo

Continuando nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas e, especificamente, acerca de Jesus, além do post “O Senhor Jesus Cristo, por Myer Pearlman”, escrevemos também sobre Jesus, o Verbo Divino. Neste, destacaremos como o Verbo, tradução do Logos trata-se de Jesus como a Palavra, que criou todas as coisas e, portanto, existe por si mesmo, antes da criação de todas as coisas. Mas este Ser criador foi encarnado e viveu como homem. É sobre esta sua trajetória nesta terra como homem, que era, ao mesmo tempo, o Messias Salvador, que pretendemos enfatizar neste artigo (post). Para isto, queremos usar como base o texto de J. N. GELDENHUYS, referido (na fonte) abaixo.

1. Historicidade

O fato histórico de Cristo está inexoravelmente estabelecido. As tentativas que têm sido feitas para provar o contrário, durante os últimos duzentos anos, têm falhado inteiramente. Não somente o Novo Testamento inteiro está baseado sobre o Cristo histórico, mas também a elevação e o progresso da Igreja Cristã, e, de fato, o curso da história do mundo durante os últimos dezenove séculos, seriam inexplicáveis à parte do fato histórico do Cristo que viveu, morreu e ressuscitou.

O fato que registros seculares existentes até hoje, pertencentes aos primeiros cem anos depois do ministério de Cristo, contém apenas algumas poucas referências a Ele, é algo perfeitamente natural. O cristianismo foi apenas um dos muitos cultos religiosos que se originaram no Oriente, no mundo romano dos dois primeiros séculos de nossa era, e pouco havia em Cristo que atraísse o interesse dos historiadores pagãos. Somente quando o Cristianismo entrou em conflito com o estado é que se tornou digno de ser mencionado naqueles dias recuados, e os primeiros escritores pagãos a fazerem menção do mesmo, em tal contexto todos mencionam significativamente o nome de Cristo como fundador do Cristianismo.

Excetuando uma passagem duvidosa, e, quando muito, pesadamente interpolada em Josefo, Jesus não é mencionado diretamente no escritos judaicos não-cristãos referentes àquele período. O motivo disso certamente é a hostilidade e o ressentimento que Sua memória provocava nos líderes judeus de Seu tempo. Entretanto, existem referências indiretas a Ele, nos primeiros escritos rabínicos, que fazem menção razoavelmente reconhecível obre Ele, como um transgressor em Israel, que praticava magia, zombava das palavras dos sábios, fazia o povo desviar-se, e disse que viera para fazer adições à lei, além de ter alterado a Páscoa, e cujos discípulos efetuavam curas de doentes em Seu nome.

Nos primeiros séculos d.C., nem mesmo os mais amargos inimigos do cristianismo tinham qualquer pensamento de negar que Jesus vivera e morrera na Palestina, e que realizou realmente obras maravilhosas, qualquer que fosse a explicação que davam ao poder mediante o qual Ele realizava essas coisas. Nem, nos dias atuais, qualquer historiador objetivo nega o fato histórico de Cristo. Não são os historiadores que brincam com a fantasia do mito-de-Cristo. Não apenas a Sua morte, mas também a Sua ressurreição, devem ser levadas em consideração como os mais bem confirmados fatos históricos que existem.

2. Fontes

Quanto aos detalhes essenciais da vida de Cristo, temos que depender inteiramente do Novo Testamento. Conforme já foi dito, não se pode aproveitar muito do estudo da literatura pagã ou judaica das primeiras décadas d.C., e, quando nos volvemos para a literatura cristã extra bíblica, pertencente ao mesmo período, encontramos bem pouco que já não esteja registrado no Novo Testamento. A maioria dos evangelhos apócrifos é tão obviamente produto da imaginação que só nos podem prestar qualquer ajuda, por meio de contraste, para provar o caráter histórico dos Evangelhos canônicos; porém, não adiciona coisa alguma ao nosso conhecimento sobre a vida de nosso Senhor.

Os Evangelhos não são biografias o sentido comum da palavra. Cada um dos quatro evangelistas tinha um propósito específico com seu livro, tendo feito uma seleção apropriada dentre a informação à sua disposição com referência à vida de nosso Senhor. Embora existam muitas diferenças quanto à ênfase, no tocante a certos aspectos de Sua vida, todos os quatro Evangelhos proclamam um só e o mesmo Cristo, como Senhor e Salvador, o perfeito Filho do homem e o Filho unigênito de Deus.

Visto que os Evangelhos não são biografias no sentido ordinário do termo, mas antes, proclamações das boas novas concernentes a Jesus como Salvador e Senhor, não devemos buscar neles um arranjo estritamente cronológico. Por outro lado, o propósito religioso dos evangelistas não os conduziu à negligência do caráter histórico da vida de Jesus. Conforme é declarado tão claramente no prefácio de nosso terceiro Evangelho, os autores sagrados estavam perfeitamente cônscios da urgente necessidade de tornar conhecida a verdade acerca de Jesus Cristo. Para eles e para seus irmãos crentes, a fé em Cristo era questão de vida e morte. Dessa maneira, não podiam permitir que sua fé repousasse sobre fantasias, mitos, ou lendas. Uma fé como a daquelas gerações iniciais de crentes cristãos exigia absoluta lealdade a Cristo – até à morte, se necessário fosse. Tal fé só podia ser edificada em face de fatos certos. Além disso, os escritores dos Evangelhos estiveram num contato tão íntimo e vivo com muitos que haviam ouvido e visto a nosso Senhor, que tiveram oportunidade sem igual de verificar esses fatos. Acresce que os fatos históricos eram conhecidos em primeira mão por tantas pessoas que não podiam arriscar-se a apresentar relatos fictícios.

Embora Lucas tenha incorporado grandes seções de Marcos em seu Evangelho, e que João bem poderia ter conhecido os três primeiros Evangelhos, a verdade é que nossos quatro Evangelhos são essencialmente quatro fontes independentes de informação no tocante à vida de nosso Senhor. Cada um desses relatos frisa certos aspectos de Sua vida e ministério mais que os demais relatos, porém, é sempre essencialmente o mesmo Cristo que encontramos em todos os quatro. Isso é verdade tanto no tocante ao livro de João como aos três Evangelhos sinóticos. O Evangelho de João suplementa os outros e, em resultado de muitos anos de reflexão, e de discernimento mais amadurecido quanto ao significado filosófico e teológico mais profundo da história do Evangelho. João se ocupa mais em ensinar o ensinamento de nosso Senhor no tocante à Sua divina Filiação; porém, até mesmo João não proclama outro Cristo além do Cristo proclamado pelos três primeiros evangelistas.

Em suma, temos nos quatro Evangelhos canônicos, as melhores e mais dignas fontes de informação referente à vida de Jesus Cristo. Embora o restante do Novo Testamento não adicione muito aos detalhes históricos do Evangelho, é importante observar que o livro de Atos, as epístolas e o livro de Apocalipse, estão todos edificados sobre o fato que Jesus viveu, ensinou, sofreu e triunfou conforme os Evangelhos afirmam. Visto que algumas das Epístolas do Novo Testamento foram escritas tão cedo como 50 d.C. (ou talvez um pouco mais cedo ainda) – 1 e 2 Tessalonicenses e Gálatas, e, possivelmente, Tiago – somos assim levados a recuar até não mais de vinte anos depois da data da crucificação de Jesus. Levando em consideração o fato que um dos primeiros escritores neotestamentário, Paulo, foi um figadal perseguidor dos seguidores de Jesus, mas convertido tão cedo como 32 ou 33 d.C., e que a epístola de Tiago foi escrita pelo irmão de Jesus, percebemos quão íntimo era o contato entre o tempo da vida de nosso Senhor sobre a terra (c. de 6/4 a.C. – 30 d.C.) e aquela geração de crentes em cuja vida os primeiros documentos do Novo Testamento foram escritos. O sumário apresentado por Paulo sobre a pregação apostólica, em 1Co 15.1-8, se reveste de grande significação: “irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que ainda perseverais… Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia… E apareceu a Cefas, e, depois, aos doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora, porém alguns já dormem. Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos, e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora do tempo”.

Nessa passagem Paulo não somente proclama essencialmente o mesmo evangelho que o fazem os quatro evangelistas, mas também revela quão íntima era a relação entre a Igreja Cristã Primitiva e os apóstolos e outras testemunhas oculares da vida de nosso Senhor. Dessa maneira, não é surpreendente descobrir que nossos quatro Evangelhos, apesar de toda sua ênfase diferente e da escola variada de detalhes, proclamam o mesmo Cristo que veio buscar e salvar aos perdidos, o Senhor divino a Quem todo poder foi dado, no céu e na terra (Mt 11.27; 28.18; Mc 1.1; 8.29; Lc 1.32,35; 2.11; 9.35; 10.22; Jo 1.1; 10.28 etc.).

Não admira, portanto, que após mais de um século de criticismo agudo e rude, o caráter digno de confiança de nossos quatro Evangelhos canônicos tenha ficado mais firmemente estabelecido que nunca. Uma teoria após outra, e sucessivas escolas de pensamento, que têm lançado dúvidas sobre a fidelidade dos Evangelhos, têm se despedaçado perante a irrefutável historicidade da vida de Jesus que os mesmos historiam. Embora os Evangelhos façam silêncio no tocante a muitos detalhes que naturalmente gostaríamos de saber, os quatro Evangelhos, confirmando-se e suplementando-se entre si, nos fornecem todos os fatos referentes a Jesus Cristo que precisamos saber a fim de que possamos confiar nEle como “Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

3. Sem paralelo

A vida de nosso Senhor não encontra iguais em muitos particulares; um aspecto desse caráter singular é seu cumprimento de profecias específicas feitas centenas de anos antes de Seu nascimento. O próprio Jesus, por exemplo, repetidamente ensinou aos Seus discípulos que Ele, conforme a “tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas” haveria de sofrer, morrer e ressuscitar dentre os mortos (cf. Lc 18.31-34). Depois de haver ressuscitado, igualmente, Ele declarou claramente que, em Sua vida, morte e ressurreição, as Escrituras haviam sido cumpridas (Lc 24.25-27,44-48).

Nos discursos de Pedro, de Estevão e de Paulo, registrados no livro de Atos, em praticamente todos os livros do Novo Testamento, a vida, os sofrimentos e a exaltação de Jesus são repetidamente proclamados como o cumprimento das promessas de Deus no Antigo Testamento. Nada existe na história do mundo que se possa comparar com o fato que centenas de anos antes do nascimento de Jesus, muitas coisas a respeito dEle – até mesmo o lugar de Seu nascimento (Mq 5.2) – haviam sido preditos e registrados nas Escrituras do Antigo Testamento. E, em muitos outros aspectos – desde Sua concepção sobrenatural até Sua ascensão ao céu – essa vida é sem paralelo. Somente em Sua vida vemos Deus tornando-se carne. Enquanto que as vidas de todos os outros fundadores de religiões revelam-nos homens que buscaram a verdade e se esforçaram por obter introspecção religiosa, a vida de Jesus Cristo é a única que revela o Deus de amor e justiça, que busca salvar a humanidade caída.

Todas as reivindicações feitas por Jesus referentes à Sua eterna e divina Filiação são confirmadas por Sua vida, morte, ressurreição e ascensão triunfal. Ele não tem igual entre os homens.

4. Épocas principais

Embora não possamos refazer uma biografia detalhada ou estritamente cronológica de Jesus Cristo, os Evangelhos nos fornecem material suficiente que nos capacita a apontar as épocas mais importantes de Sua vida.

a) Seu nascimento sobrenatural

Os autores dos Evangelhos tiveram amplas oportunidades para descobrir a verdade a respeito do nascimento de Jesus. À parte do fato que Maria, mãe de Jesus, foi deixada ao encargo do discípulo amado (cf. Jo 19.26,27), devemo-nos relembrar que Tiago, o irmão de Jesus, foi durante muitos anos um dos líderes da Igreja Cristã de Jerusalém. Depois da ressurreição e ascensão de Jesus, Maria e seus filhos ficaram livres de toda dúvida referente à Sua soberania, e passaram a viver em íntima comunhão com seus irmãos na fé, na igreja de Jerusalém (cf. At 1.14). Quando o Evangelista Lucas acompanhou Paulo a Jerusalém, em 56 ou 57 d.C., uma das pessoas a quem visitou foi Tiago, irmão do Senhor (At 21.17,18). Naquele tempo, a julgar pelo prefácio de seu Evangelho, Lucas já estava intensamente interessado nos fatos referentes à vida de Jesus. Se Lucas se encontrou pessoalmente com Maria, não o sabemos; porém, é certo que ele teve acesso a informações referentes ao nascimento de nosso Senhor, que afinal de contas, só poderiam ter sido prestadas pela própria Maria. É basicamente do ponto de vista dela que Lucas relata a história da concepção sobrenatural e do nascimento de Jesus (Lc 1.26-56; 2.1-51). Mateus, por outro lado, conta a mesma história, mas mais do ponto de vista de José. Porém, ambos os Evangelhos concordam que Jesus não era o filho de um pai humano, mas foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu como o Filho unigênito de Deus (cf. Lc 1.35; Mt 1.18-24). Em perfeita conformidade com esse fato, João dá início ao seu Evangelho com as palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.1-14).

b) Infância, meninice e crescimento até à maturidade

Por Lc 2.40,52 torna-se claro que a vida de Jesus, desde a meninice até a idade adulta ainda jovem foi normal, mas também perfeita. Em Sua vida, o ideal de Deus para uma vida humana perfeita foi cumprido em cada estágio. Embora vivesse num lar humilde com Maria, José, e diversos irmãos e irmãs mais novos, Sua vida em todas as ocasiões estava em completa concordância com a vontade de Deus (Lc 2.52), e desde tenra idade (Lc 2.49) parece que Ele tinha consciência que era o Filho de Deus num sentido todo especial. Por Lc 2.46,47 depreende-se que desde Sua meninice Ele estudara intensamente as Escrituras do Antigo Testamento; e embora José provavelmente tenha falecido cedo e que Jesus tenha sentido necessidade de trabalhar arduamente como carpinteiro, a fim de prover o necessário para Maria e seus irmãos mais novos (Mt 13.55,56), é claro eu Ele dedicava muito tempo à meditação sobre as Escrituras e à oração.

À parte os poucos detalhes dados em relação à meninice de Jesus, e às inferências que podem ser tiradas dos Evangelhos a respeito de Sua vida, que exibem-no a crescer física, mental e espiritualmente até à plena maturidade, o Novo Testamento passa em silêncio aqueles anos de preparação.

c) Batismo e tentação

Quando Jesus (provavelmente em 27 d.C.) havia atingido o apogeu da vida (cerca de 30 anos de idade, Lc 3.23), partiu da Nazaré e foi batizado por João Batista. Fazendo isso aceitava publicamente Sua tarefa messiânica na qualidade de Filho de Deus e Salvador que, apesar de implacável em Si mesmo, deixou-se revestir pela culpa de Seu povo.

Deus Pai demonstrou Sua aprovação à ação do Seu Filho, ao identificar-se deliberadamente com Seu povo pecaminoso, mediante a descida do Espírito “como pomba, vindo sobre ele” e pela voz do céu, que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Essas palavras, que combinam Sl 2.7 com Is 32.1, reconhecem-No como o Messias, mas também indicam que Ele haveria de cumprir Sua chamada messiânica em termos do servo obediente e sofredor do Senhor.

Com essa certeza em Seu coração, Jesus foi impelido pelo Espírito para o deserto da Judeia, onde seria tentado pelo diabo (Mt 4.1). A fim de vindicar a Sua competência para ser o Salvador dos homens, Ele tinha primeiramente de provar Sua total e incondicional obediência ao Seu Pai celeste, bem como Seu poder de vencer o grande enganador. A narrativa da tentação é evidentemente situada em contraste com a história da queda, em Gn 3; dessa maneira, enquanto que Adão e Eva sucumbiram à tentação, a despeito de estarem vivendo nas condições mais favoráveis possíveis, Jesus saiu-se vencedor, ainda que tentado sob as mais difíceis circunstâncias. Depois de quarenta dias de tensão física e espiritual e de privação no deserto, foi assaltado por toda a astúcia concentrada e o poder do tentador, para que pusesse Seu Pai sob teste ou para que rejeitasse a vereda que a voz celestial havia assinalado como a vontade de Seu Pai para com Ele. Jesus, entretanto, resistiu às mais sutis tentações e permaneceu inflexivelmente obediente à vontade de Seu Pai. E assim saiu-se desse conflito espiritual como o leal Filho de Deus e como o Servo Fiel (Mt 4.1-11); Mc 1.12,13; Lc 4.1-13).

d) Início de Seu ministério público

Tendo triunfado sobre os titânicos assaltos do diabo, Jesus deu início, ativamente, ao primeiro estágio de Seu ministério público, chamando os Seus primeiros discípulos (Jo 2.1-11), realizando milagres (Jo 2.23 e segs.), ensinando a Nicodemos verdades espirituais revolucionárias, e a salvação até mesmo aos desprezados samaritanos (Jo 4.1-42). Esse estágio de Seu ministério fora preparado por João Batista, e atingiu seu clímax quando alguns dos samaritanos confessaram, dizendo “… nóssabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42).

e) Ensino e ministério concentrado na Galileia

O aprisionamento de João Batista foi o sinal para Jesus dar início ao Seu ministério na Galileia, com a proclamação que o tempo determinado chegara, e que o reino de Deus estava próximo (Mc 1.24 e segs.). Quando Sua reivindicação, na sinagoga de Nazaré, de que Ele era Aquele mediante Quem as promessas messiânicas seriam cumpridas, foi rejeitada pela Sua própria cidade adotiva (Lc 4.16 e seg.) Ele fez de Cafarnaum Seu novo quartel. Provavelmente durante mais de um ano Ele então trabalhou e ensinou em Cafarnaum e noutras localidades da Galileia (Mt 4.12-14.13; Mc 1.14-6.34; Lc 4.14-9.11; Jo 4.46-54 etc.), revelando Seu poder divino sobre a natureza (Mc 4.35-41; 6.34-51 etc.), sobre o mundo dos espíritos e demônios (Lc 8.26-39; 9.37-45 etc.), sobre o corpo humano e sobre as enfermidades físicas e espirituais (Mt 8.1-17; 9.1-8 etc.), e até mesmo sobre a vida e a morte (Lc 7.11-17; Mt 8.18-26). Além disso, Ele afirmou possuir autoridade final sobre o destino eterno da humanidade, e, no Sermão da Montanha e noutro ensinos, revelou Sua autoridade sem par de proclamar as leis do reino de Deus (Mt 5.1-7.29 etc.).

Enquanto ao mesmo tempo revela Sua autoridade suprema na qualidade do prometido Cristo, Jesus, durante esse período, também revelou Seu amor e simpatia por amor àqueles que se achavam em apertos físicos e espirituais (Mt 9.1-8,18-22; Lc 8.43-48 etc.). Ele declarou repetidas vezes que viera a fim de buscar e salvar aqueles que estão perdidos, e exerceu a prerrogativa divina de perdoar pecados (Lc 5.20-26; 7.48-50).

Dentre Seu grupo bem maior de seguidores, Ele escolheu doze discípulos especiais (Mt 10.1-4; Lc 6.12-16), aos quais ensinava sistematicamente, treinando-os para serem Seus apóstolos ou enviados.

A autoridade com a qual Ele ensinava aos Seus ouvintes, e Sua recusa de deixar-se intimidar pelos inimigos, entre os governantes judeus e os fariseus, em adição aos Seus muitos milagres de cura e outras manifestações de Seu poder sobre a ordem criada (Lc 4.33-41); Mc 5.1-42 etc.), eram motivos para Jesus tornar-se intensamente popular entre as populações da Galileia (Lc 4.40-42; 5.15,26; 6.17-19). Essa popularidade atingiu seu clímax no milagre da multiplicação dos pães para os 5.000 homens (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo 6.5-13), e essa prova clara de Seu caráter messiânico fez as massas resolverem coroá-Lo rei (Jo 6.145).

f) O treinamento dos doze

Depois da recusa de Jesus de ser coroado como um messias terreno (Jo 6.26,27) as multidões e até mesmo muitos dentre Seus discípulos do círculo mais lato, abandonaram-No (Jo 6.66,67). Ele então se retirou para o território pertencente a Tiro, Sidom e Cesareia de Filipe (Mt 15.21; 16.13; Mc 7.31 etc.), porém, em realidade nunca pode escapar da atenção pública. Quando novamente voltou ara as proximidades do mar da Galileia, uma vez mais curou e ajudou a muitos indivíduos em dificuldade, e pela segunda vez alimentou miraculosamente as multidões, visto que tinha compaixão das mesmas (Mt 15.29-39). A seguir, retirando-se novamente dentre as multidões, buscou a solidão em companhia de Seus discípulos, fazendo-lhes a pergunta crucial: “… E vós quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15) Depois que Pedro, falando como porta-voz de todos os apóstolos, havia confessado abertamente “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, Jesus, com grande determinação, começou a preparar os Seus discípulos para o terrível choque que os aguardava em Jerusalém (Mt 6.21-26). Porém, ao mesmo tempo, Ele clara e repetidamente lhes ensinava que alcançaria finalmente a vitória (Mt 16.27,28), e que Seus seguidores, por isso mesmo, não precisavam temer coisa alguma (Lc 12.4-12,32-34).

Sua autorevelação aos Seus discípulos culminou em Sua transfiguração, no monte, quando Seus três mais íntimos seguidores viram-No em Sua divina glória (Mt 17.1-13; Mc 9.2-10; Lc 9.28-36). Visto que Ele veio cumprir tanto a Lei como os Profetas, Moisés (tipificando a lei) e Elias (representante dos profetas) apareceram juntamente com Ele, gloriosamente, antes que finalmente desse início à Sua viagem para Jerusalém, a fim de sofrer a morte visando  salvação dos homens. Uma vez mais a voz de Deus, vinda do céu, declarou que Jesus era o Seu Filho amado, ao qual todos deveriam dar ouvidos (Lc 9.35).

g) Antagonismo crescente

Tendo-se revelado aos Seus discípulos, e sendo reconhecido por eles como verdadeiramente o Filho de Deus (Mt 17.1-13; Mc 9.2-10; Lc 9.18-20), Jesus preparou-os em seguida, mais deliberadamente ainda, para a futura tarefa que teriam como membros fundadores de Sua Igreja. Ele lhes ensinou muitas verdades, tanto diretamente como também em forma de parábolas, e continuou a revelar Seu divino poder e autoridade mediante a cura de enfermos (Lc 14.1-6; 17.11-19), restauração da vida aos cegos (Mc 10.46-52), e alívio das mazelas alheias.

A oposição contra Ele, entre os governantes judeus e os líderes religiosos, foi crescendo cada vez mais (Lc 14.1). Todo método e esquema possível foi tentado para apanhá-Lo em alguma armadilha, para interromper Sua contínua influência sobre as massas, e para encontrar um motivo para entregá-Lo às autoridades romanas a fim de que fosse executado (Mt 19.1-3; Lc 11.53,54). Todas as Suas advertências, dirigidas contra os Seus inimigos, e todo o Seu penetrante ensinamento que visava levá-los à mudança de coração, todas as Suas obras de benevolência, curando os enfermos e até mesmo ressuscitando mortos para que voltassem à vida (Jo 11.41-45), tão somente inflamavam mais ainda os fariseus, os escribas, e outros líderes dos judeus, com um ódio ainda mais intenso contra Ele (Jo 11.46-53).

h) A última semana em Jerusalém

Tendo entrado abertamente em Jerusalém, na qualidade de Messias, em meio à multidão aclamadora (Mc 11.1-10; Jo 12.12-19 etc.), Jesus expulsou os cambistas e traficantes com animais para os sacrifícios, tirando-o a todos do átrio externo do Templo, e assim revelou Sua reivindicação de possuir autoridade messiânica (Lc 19.45,46; Mt 21.12-16). O fim estava agora bem próximo. Jesus, incansavelmente, expunha a hipocrisia dos Seus perseguidores (Mt 23.1-39; Lc 20.45-47), ao ensinar ao átrio do Templo, durante aqueles dias importantíssimos (Mt 21.33-34; 22.1-14; Mc 12.1-12; Lc 20.9-47), e profetizou o que aconteceu ao povo da Judeia, a Jerusalém e ao Templo (Lc 21.20-24 etc.), nos tempos iminentes de desgraça. Advertiu Seus seguidores a respeito dos perigos que os aguardavam (Lc 21.9-19 etc.), predizendo o que esperava o mundo e a Igreja no futuro (Lc 21.25-27), predizendo que a história do mundo culminaria em Seu retorno, em grande majestade, para revelar Seu divino poder sobre todas as forças das trevas e para dar início ao Seu reino eterno (Mt 24.29-31; 25.31-46).

Na véspera de Sua paixão como uma preparação final para os apóstolos para a grande tarefa que os esperava, Jesus lavou os pés dos mesmos (Jo 13.1-11), ensinando-lhes uma lição urgentemente necessária sobre a humildade de uns para com os outros (Jo 13.12-17; Lc 22.24-30), anunciando que Judas haveria de traí-Lo (Mc 14.18-21; Jo 13.21-30), instituindo a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29 etc.), e orando em prol de todos os Seus seguidores (Jo 17.1-26).

Então seguiu-se Sua final e completa auto rendição à vontade de Seu Pai no jardim do Getsêmani (Mt 26.39-46 etc.). Tendo tomado sobre Si mesmo a culpa de toda a humanidade caída permitiu-se voluntariamente ser aprisionado, maltratado, falsamente condenado e crucificado. Seu sofrimento sacrificial e expiatório atingiu seu clímax por ocasião da crucificação, quando, no fim de três horas de trevas, Ele clamou em alta voz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Ele dissera aos Seus discípulos que não veio a fim de julgar ao mundo, mas antes, para dar Sua vida em resgaste a favor e muitos (Mt 26.28 etc.). Tendo-se oferecido voluntariamente como o Cordeiro e Deus (Jo 1.29; 10.11-18), sua tarefa havia agora terminado. Antes de recomendar Seu espírito às mãos do Seu Pai, anunciou triunfalmente: “Está consumado” (Jo 19.30).

i) Sepultamento, ressurreição e ascensão

Depois de Sua morte, não estava mais no poder de Seus inimigos. Seu corpo foi arriado da cruz (Lc 23.50-53) e foi sepultado num túmulo novo, que havia em um jardim nas proximidades do local da crucificação. Sua promessa de ressurgir dentre os mortos logo se cumpriu e, na qualidade de Cristo ressurreto e Senhor eternamente vivo, pessoalmente fez desaparecer os temores e as dúvidas de Seus seguidores (Lc 24.13-49; Jo 20.11-21.22). Durante quarenta dias apareceu-lhes repetidamente abrindo suas mentes para que pudessem entender as Escrituras do Antigo Testamento, e prometendo-lhes enviar o Espírito Santo, o qual haveria de consolá-los, guia-los e dotá-los para agirem como Suas testemunhas – a começar por Jerusalém, e paulatinamente atingindo o mundo inteiro (At 1.8). Tendo-lhes assegurado, uma vez mais, que todo o poder Lhe havia sido conferido, tanto no céu como na terra (Mt 28.18), Cristo os comissionou para que fizessem discípulos dentre todas as nações (Mt 28.19). Depois que prometeu estar com eles para sempre, até o próprio fim do mundo (Mt 28.20), Ele subiu ao céu – com as mãos levantadas, a abençoá-los (Lc 4.50).

Portanto, a vida de Jesus Cristo como Homem entre os homens, sobre este planeta, terminou triunfalmente. A reivindicação apostólica nos provê uma apropriada conclusão para Seu ministério terreno “… a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36).

 

Fonte:

  • GELDENHUYS, J. N. Vida de Jesus Cristo. In: DOUGLAS, J. D. (Editor Organizador). O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1979, pp. 819 a 824. Texto adaptado.

 

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Jesus, o Verbo Divino

No nosso capítulo (post) sobre a doutrina de Deus, vimos que Myer Pearlmann destaca várias referências bíblicas que enfatizam a divindade de Jesus Cristo. A linguagem dos escritores do Novo Testamento era de que Ele está “… sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5). Estas crença e experiência espiritual dos cristãos apoiavam estas afirmações. Ao conhecer a Jesus, conheciam-no como Deus. É neste sentido, que queremos estudar neste post, embora de forma limitada, o significado do Logos ou Verbo, tendo como referência o prólogo do Evangelho de João. Informações complementares, mas tão importantes quanto o texto principal, escrevi-as em NOTAS, as quais ajudarão um pouco mais a compreensão do assunto.

1. O Verbo (Logos): prólogo[1] do Evangelho de João

“… Logos para João é uma pessoa, que comunica a realidade de Deus aos homens pela Sua encarnação e sacrifício na cruz… Servia o termo de ponte entre o mundo grego e judaico. Sendo Deus, o Logos é a perfeita expressão Deus. A revelação no A.T. era perfeita, mas incompleta. Em o N.T. é perfeita e completa … A falta do artigo no original não quer dizer ‘um deus’ mas que o Verbo [tradução de Logos] tinha a natureza divina. ‘O Filho está destacado na Trindade, mas a Trindade toda não é o Verbo’”.[2]

O prólogo do Evangelho de João não é mero prefácio ou introdução, mas uma declaração do tema central e básico no ensino do Filho de Deus, a saber, a encarnação do Verbo. O evangelista pinta o pano de fundo necessário para a revelação do evento redentor, isto é, o Verbo feito carne. O prólogo é poético na sua forma e estrutura, e constitui um hino à Palavra de Deus. Vejamos o texto:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João1.1-14).

Nos primeiros versículos (1 e 2) encontramos um eco claro das primeiras palavras do Velho Testamento e também uma indicação do conceito joanino do Logos – palavra grega traduzida como Verbo em nossas versões em Português – Em Gên. 1.1 encontra-se o ato criativo de Deus (berê’shiyth bârâ’ ‘elohiym ‘êth hashâmayim ve’êth hâ’ârets = No princípio criou Deus os céus e a terra[3]), porém João 1.1 (Εν αρχη ητο ο Λογος, και ο Λογος ητο παρα τω Θεω, και Θεος ητο ο Λογος[4] = No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus) revela O Verbo que existe antes da criação. O pensamento do escritor é impregnado do Velho Testamento e não devemos imaginar que o evangelista esteja tomando emprestado um termo ou conceito da filosofia grega daquela época, Ele expõe uma ideia que remonta ao ensino rabínico, concernente à Palavra de Deus. O Logos é o Ser cuja existência transcende o tempo. Sua pré-existência eterna é implícita. A preposição com (em “com Deus”, v. 1) implica relação e distinção. Usada com o acusativo significa não somente coexistência, mas intercomunicação direta. Plummer sugere “face a face com Deus”. Da expressão “O Verbo era Deus” (v. 1), não se deduz que o Verbo era Deus, no sentido exclusivo que o identifica com a totalidade da existência e atributos divinos; entretanto, significa mais do que divindade. Há uma implicação definida na reivindicação de Ele ser Deus. O substantivo theos é colocado em primeiro lugar sem o artigo, dando-lhe mais força. O logos é então identificado com Deus no sentido de que Ele é coparticipante (veja NOTA 10) da essência e natureza divinas e, em virtude de tal relação, pode ser considerado como Deus. No vers. 2, João reúne todas as três cláusulas da primeira sentença. O verbo era se usa no sentido absoluto de “existir” e não no sentido de “tornar-se”. Sua existência transcende o tempo, não sendo ele criado.

Nos primeiros versículos 3 a 5, salienta-se o fato de o Verbo “tornar-se” algo, o que corresponde ao processo criativo. O verbo é o instrumento da criação, “pois todas as coisas foram feitas por ele” (v. 3); literalmente pode-se dizer que “todas as coisas foram criadas por intermédio dele”. A origem última é o Pai, e nenhum agente intermediário teve parte no trabalho da criação, apesar da crença sustentada pelos gnósticos. “E sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nEle, e a vida era a luz dos homens” (vs. 3,4). É excluída a possibilidade de qualquer processo criativo à parte dele. Salienta-se o pensamento de que todas as coisas criadas são sustentadas por Ele e se coadunam através do princípio de vida emanada dEle. “A fonte de vida é necessariamente a fonte de luz” (Cambridge Bible).

O pensamento do evangelista em “A luz nas trevas” (v. 5) agora abrange a esfera espiritual. O homem recebeu iluminação espiritual. Tal revestimento emana da vida que tem seu fundamento na Palavra de Deus. A conexão entre vida e luz é apontada pelo salmista (“Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz”, Sl 36.9. Ver também: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1Jo 1.5). A luz brilha no mundo, e ela está em conflito com as espessas trevas originadas na desobediência e ignorância do homem. Não se pode apagar o testemunho à verdade divina. A luz é inextinguível e inconquistável, “as trevas não prevaleceram contra ela”.

Nos versículos 6 a 13, pode se destacar o Verbo em relação com a História humana. Sua vinda foi proclamada por João, o Batista, “que veio para que testificasse da luz” (v. 8). “João [Batista] era a lâmpada que ardia e iluminava” (Jo 5.35), porém ele é somente um reflexo da verdadeira luz, não derivada, que veio ao mundo (v. 9). O testemunho de João Batista é parte integral do texto. Por outro lado, o evangelista insiste na subordinação de João Batista ao Verbo, que há de ocupar o primeiro lugar.

A luz criadora estava presente no mundo antes da encarnação. Ela se tinha revelado imanentemente ao mundo que fora criado por ela, entretanto o mundo não a conhecia (v. 10). Mais, ainda, Jesus, a Luz, revelou-se historicamente ao seu próprio povo, Israel, que não O recebeu (v. 11). Aqui notamos a manifestação progressiva do Verbo. “Ele estava com Deus” (v. 2)… “estava no mundo” (v. 10)… “Ele veio para o que era seu” (v. 11). Seu próprio povo recusou acolhê-Lo. A tragédia desta oposição torna-se evidente. Contudo, todos quantos o receberam entraram em uma nova relação com Deus tornando-se “filhos de Deus” (v. 12), através do renascimento espiritual. Esta nova condição, que resulta da regeneração, não se explica como fenômeno psíquico, nem como experiência espírita. Esta experiência não é devido a um processo natural, envolvendo a vontade da carne, nem a vontade do homem (v. 13). Não é alcançada por nenhuma faculdade inerente do homem, mas por meio de um novo nascimento, provindo de Deus.

No vers. 14-18, João fala do Verbo encarnado. Há uma relação notável entre a declaração fundamental do vers. 1 e a do vers. 14. O Verbo que estava no princípio com Deus tornou-se homem; o Verbo que estava com Deus tabernaculou com os homens. Aquele que era Deus estava cheio de Graça e de Verdade, mas agora este Verbo eterno é identificado com o Cristo da História. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (v. 14). Note-se que ao mencionar “carne” exclui-se qualquer espécie de Docetismo[5] e outras noções semelhantes dos tempos modernos. Nosso Senhor assumiu um corpo humano real; ele tabernaculou entre os homens. A essência de Deus se manifesta naquele que é Graça e Verdade encarnadas. A majestade e o poder de Deus se encobriram na carne.

E vimos a sua glória” (v. 14). João, o Evangelista, está falando como testemunha ocular da glória de Deus. O conceito deve ser tomado subjetivamente. “Este conceito é moral e espiritualmente grandioso” (Plummer). Esta “glória” se define como a “glória do Unigênito do Pai” (v. 14), exclusividade de sua filiação com o Pai e, coforme a palavra “como” (v. 14) sugere, a filiação de Jesus é diferente de qualquer outra espécie de filiação.

Como vimos, Gênesis 1.1 inicia-se com a criação do mundo (céus e a terra), enquanto em João 1.1, vimos que o Logos (Verbo) existe antes da criação mencionada em Gênesis e foi Ele também o criador do mundo. O Verbo “estava com Deus”, “o Verbo era Deus”, “todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (cf. vs. 1 a 3). A expressão Logos, na Septuaginta[6], tem sido usada para traduzir a palavra hebraica Dabhar (Palavra = Palavra de Deus). Mas outros sentidos também estão envolvidos no Logos, como “afirmação”, “declaração”, “discurso”, “assunto”, “doutrina”, “questão”, “razão”, “causa”, “motivo” etc.

Como afirma Pearlman[7], a palavra do homem é aquela por meio da qual ele se expressa e se comunica com os seus semelhantes. Por sua palavra ele dá a conhecer seus pensamentos e sentimentos, e por sua palavra ele manda e executa a sua vontade. A palavra com que se expressa está impregnada de seu pensamento e de seu caráter. Pela expressão verbal de um homem até um cego pode conhecê-lo perfeitamente. Embora se veja uma pessoa e dela se tenha informações, não se conhecerá o suficiente enquanto ela não falar. A palavra do homem é a expressão de seu caráter. Da mesma maneira, a “Palavra de Deus” é o veiculo mediante o qual Deus se comunica com outros seres, e é o meio pelo qual Deus expressa o seu poder, a sua inteligência e a sua vontade. Cristo é a Palavra ou Verbo, porque por meio dele, Deus revelou sua atividade, sua vontade e propósito, e por meio dele tem contato com o mundo. Nós nos expressamos por meio de palavras; o eterno Deus se expressa a si mesmo por meio do seu Filho, o qual “é a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3). Cristo é a Palavra de Deus, demonstrando-o em pessoa. Ele não somente traz a mensagem de Deus — ele é a mensagem de Deus.

O homem anelava por uma resposta mais clara à seguinte pergunta: como é Deus? Para responder a esta pergunta, surgiu o evento mais significativo da história — “E o Verbo se fez carne” (Jo 1.14). O Verbo eterno de Deus tomou sobre si mesmo a natureza humana e se tornou homem, a fim de revelar o eterno Deus por meio de uma personalidade humana. “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1.1,2). De modo que à pergunta “como é Deus?”, o cristão responde: Deus é como Cristo, porque Cristo é o Verbo — a ideia que Deus tem de si mesmo. Isto é, ele é “a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3), “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.5).

2. A cristologia do Logos (Verbo)

“Uma palavra é um meio pelo qual os pensamentos são expressos, e a aplicação dessa palavra [Logos] ao Filho eterno nos leva a crer que a auto expressão é inerente à Divindade, que Deus está sempre procurando falar com a sua criação…”[8]

Continuando, quero destacar o que J. N. BIRDSALL[9] fala sobre como foi conceituada a cristologia do Logos. A Palavra de Deus é a autorevelação do Logos. Ela possui um poder semelhante ao de Deus, o qual a profere (cf. Is 55.11, “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”) e efetua Sua vontade sem qualquer resistência. Por conseguinte o termo pode referir-se à palavra criadora de Deus. Na literatura de Sabedoria e poder criador de Deus é referido como a Sua sabedoria, e, em certo número de passagens é referida como uma hipóstase[10] distinta de Deus (p. ex. Pv 8.22-30).

Influenciado tanto pelo Antigo Testamento como pelo pensamento helênico, Filo[11] fez uso frequente do termo Logos, ao qual deu um significado altamente desenvolvido e um lugar central em seu esquema teológico. Ele deriva o termo de fontes estoicas e de conformidade com sua descoberta do pensamento grego nas escrituras hebraicas, fez uso do mesmo sobre a base de passagens tais como Salmo 33.6 (“Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca”), para expressar os meios mediante os quais o Deus transcendental podia ser o Criador do universo e o revelador de Si mesmo a Moisés e aos patriarcas. Pelo lado grego, Filo equiparou o Logos com conceito platônico do Mundo de Ideias, pelo que se torna tanto o plano de Deus como o poder de Deus na criação. Pelo lado da exegese bíblica, Filo identificou o Logos com o Anjo do Senhor e com o Nome de Deus, o qual é descrito através de uma variedade de termos, como Sumo-Sacerdote, Capitão e Guia, Advogado (Paracletos) e Filho de Deus. O Logos é chamado então de um segundo Deus, e, por outro lado, é descrito como o Homem Ideal, o Padrão da criação terrena do homem por parte de Deus. A despeito de toda essa terminologia de personificação, entretanto, o termo permanece – inevitavelmente, em vista do inquebrantável Judaísmo de Filo (pelo menos quanto à intenção) – como  um termo e instrumento filosófico e teológico.

Um outro possível fator determinante do uso do Logos, nas passagens que precisamos examinar, é o emprego desse termo para significar a mensagem evangélica. O termo é usado de modo absoluto (exemplo, pregar a Palavra) e com certo número de genitivos (a Palavra de Deus, de Cristo, da cruz, da reconciliação, da vida etc.). Esses genitivos mostram que a história evangélica é encarnada no Novo Testamento essencialmente como uma apresentação do próprio Jesus; Ele é a Palavra que é pregada. Mas isso de forma alguma é sempre implícito na frase.

Birdsall destaca os três lugares na Bíblia, onde o uso do Logos aparece em sentido técnico: João 1.1 e 14, 1João 1.1-3 e Apocalipse 19.13 (todas as passagens do mesmo autor: João). Só queremos destacar, ainda, sobre João 1.1, o que Filo fala a respeito. Para ele, neste texto, há um esquema claramente teológico em que a Palavra possui uma unidade semelhante com Deus e uma semelhante distinção entre si mesma e Deus, e na qual tanto a atividade criativa como a atividade sustentadora do universo e a atividade revelatória para com o homem se atribuem ao Logos. Além disso, o conceito necessariamente sem paralelo da encarnação é, não obstante, um desenvolvimento apropriado da identificação do Logos com o Homem Ideal.

O certo é que, como afirma B. Hägglund[12], a cristologia do Logos visa responder a questão mais difícil da fé cristã na linguagem da época. Os apologistas [defensores da fé, principalmente do segundo século] escolheram um conceito da filosofia contemporânea e usaram para descrever o que para a mentalidade grega era absurdo – que Cristo é Deus, mas que, com isso, a unidade da Divindade não é negada. Se Cristo é apresentado como Logos, a razão divina, é natural considerar sua obra principalmente em termos pedagógicos. Ele nos transmite o verdadeiro conhecimento de Deus e nos instrui na nova lei, que nos guia ao caminho da vida. Considera-se do ponto de vista do desenvolvimento histórico do dogma, que a principal contribuição dos apologistas foi sua tentativa de correlacionar o cristianismo com a erudição grega, tentativa que encontrou sua expressão mais marcante na doutrina do Logos e sua aplicação à cristologia.

Bem, ao contrário de Mateus e Lucas que se ocupam da linhagem humana de Jesus, o evangelista e apóstolo João começa seu Evangelho falando do Verbo (Logos), o Cristo Deus e Criador, que É (existe) antes de qualquer criatura e mesmo porque sem Ele “nada do que foi feito se fez”. E João testifica que suas “… mãos tocaram da Palavra da Vida” (1Jo 1.1), porque “… o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus” ( Ap 19.13). O Logos que era tema de preocupação filosófica nos dias de João, depois dele serviu de ponte entre a filosofia e o cristianismo, como também para a elucidação dos dogmas da encarnação do Verbo e da Trindade pelos apologistas cristãos.

Veja mais sobre este assunto no vídeo a seguir:

 

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo. Vida Nova, 1990.
  • HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia: 2003.
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983 (reimpressão).

Notas:

  • [1] Texto resumido do Prólogo no Comentário sobre o Evangelho de João por A. J. MACLEOD. In: SHEDD: 1983, pp. 1063 e 1064.
  • [2] SHEDD, Russell P. (Editor Responsável). Nota de João 1.1. A Bíblia Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, (?).
  • [3] Texto transliterado e traduzido disponível em: <http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/geneses-bereshit-completo-%D7%91%D6%BC%D6%B0%D7%A8%D6%B5%D7%90%D7% A9%D7%81%D6%B4%D7%99%D7%AA-hebraico-portugues-e-transliterado/bereshit-geneses-capitulo-01-%D7%91%D7%A8%D7%90%D7%A9%D7%99%D7%AA-portugues-hebraico-transliterado/>. Acesso em 30/05/2019.
  • [4] Texto de João 1.1, em grego, disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/greek/jo/1>. Acesso em: 30/05/2019.
  • [5] Em linhas gerais, o Docetismo era uma corrente doutrinária que afirmava que o corpo de Jesus era apenas uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. Os docetistas afirmavam “… que Jesus tão-somente parecia existir em forma humana, que apenas parecia ter sofrido na cruz e que depois da ressurreição retornou a uma existência espiritual incorpórea” (HÄGGLUND: 2003, p. 18). Esta doutrina desconsiderava o fato de que “o Verbo se fez carne”, ou seja, Jesus Cristo humanizou-se, mediante a Encarnação.
  • [6] Septuaginta ou Setenta (LXX) foi uma tradução dos livros judaicos para o grego feita no século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-245 a.C.), para a sua biblioteca em Alexandria, no Egito. Esta versão recebeu este nome por causa da quantidade de tradutores, um tanto inexata, que era de setenta e dois anciãos, e foi feita também para atender a conveniência de alguns judeus de fala grega, que por causa da influência do helenismo desconheciam sua própria língua. Veja mais sobre isto em: <http://amorim.pro.br/?p=2551>.
  • [7] PEARLMAN: 1978, pp. 100 e 101 (Op. Cit.).
  • [8] TOZER, A. W. Nota sobre João 1.1.
  • [9] BIRDSALL, J. N. Logos. In: SHEDD: 1983, pp. 958-60 – Texto parcial e adaptado conforme o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro.
  • [10] Hipóstase é um termo grego que pode se referir à natureza de algo, de uma pessoa, com personalidade própria, individual e distinta. “… Teologicamente foi desenvolvida como o termo para descrever qualquer das três substancias reais e distintas na única substancia ou essência indivisíveis de Deus, e especialmente a única personalidade unificada de Cristo, o Filho, em Suas duas naturezas, a humana e a divina…” (WARD, W. E. Hipóstase. In: ELWELL: 1990, p. 252.
  • [11] Filo ou Filon de Alexandria (10 a.C – 50 d.C) “… foi um dos mais renomados filósofos do judaísmo helênico, interpretou a bíblia utilizando elementos da filosofia de Platão, para ele o Demiurgo de Platão é o Deus criador dos hebreus… Para ele existe um Deus único, incorpóreo e que não tem princípio. Deus criou o Logos, que é a atividade intelectiva de Deus, e ao Logos devemos a criação do mundo. O Logos é o que está entre Deus e os homens, é o intermediário da relação entre os dois. O Logos é o ser mais antigo, o primeiro a ser criado por Deus e é também a sua imagem…” (Disponível em:<http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=39>. Acesso em: 04/06/2019.
  • [12] HÄGGLUND: 2003, pp. 23 e 24.

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O Senhor Jesus Cristo, Por Myer Pearlman

Por

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 96 a 120.

 

ESBOÇO

I. A natureza de Cristo

  1. Filho de Deus (Deidade).
  2. O Verbo (preexistência e atividade eternas).
  3. Senhor (deidade, exaltação e soberania).
  4. Filho do Homem (humanidade).
  5. Cristo (título oficial e missão).
  6. Filho de Davi (linhagem real).
  7. Jesus (obra salvadora).

II. Os ofícios de Cristo

  1. Profeta.
  2. Sacerdote.
  3. Rei.

III. A obra de Cristo

1. Sua morte.

a) Sua importância.
b) Seu significado.

2. Sua ressurreição.

a) O fato.
b) A evidência.
c) O significado.

3. Sua ascensão constituiu-o

a) O Cristo celestial.
b) O Cristo exaltado.
c) O Cristo soberano.
d) O Cristo que prepara o caminho.
e) O Cristo intercessor.
f) O Cristo onipresente.
g) Conclusão: valores da ascensão.

 

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Revelação Geral e Especial de Deus

Este é o quarto post que escrevemos acerca de Deus. Nos anteriores, falamos, primeiramente, sobre os argumentos em prol da sua existência, depois, sobre  seus atributos, e por último, sobre  sua doutrina, incluindo a Trindade. Neste, queremos enfocar a revelação geral e a especial de Deus, embora estes dois assuntos já estejam permeados nos posts anteriores.

1. Revelação Geral:

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Num outro momento, já vimos acerca do argumento Teleológico ou do desígnio que afirma, entre outras coisas, ser o universo, obra de um grande Arquiteto. Seguindo parte desta linha de raciocínio, a revelação geral diz respeito ao universo ou a toda manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe que é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e justo. A revelação geral, ou natural pode ser dividida em duas categorias: a interna, que diz respeito ao senso inato da deidade e da consciência, e a externa, relacionada à natureza e à história da providência.

Demarest (Op. Cit., pp. 303-304) afirma, citando Lutero, que “todos os homens têm o conhecimento geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que Ele castiga os iníquos etc”, enquanto Calvino insistiu que “até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e do céu, a subirem em direção ao Criador”.

Apresentando alguns dados bíblicos, Demarest aponta:

O discurso de Eliú dirigido a Jó (cap. 36.24-37.24), que chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados estão presentes para todos contemplares (JÓ 36.25). Além disso, o discurso que Deus dirigiu a Jó (cap. 38.1-39.30) transmite a ideia de que os fenômenos naturais (trovão, relâmpago, chuva, neve), o nascer do sol todas as manhas, as constelações majestosas nos céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal, todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.

De acordo com o Salmo 19, Deus Se revela através de uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vs. 1 a 6) e o livro da lei (vs. 7-13). No primeiro volume, lemos: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (v. 1). Aquilo que a ordem criada demonstra é a “glória”, saber: a manifestação externa daquilo que Deus é no Seu intimo e dos Seus atributos. A revelação da glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (V. 2), muda ou inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4).

Vemos mais um dado bíblico em Romanos 2.14-45, onde Paulo ensina que uma modalidade adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências morais. Por isso, podemos afirmar que a revelação geral é referida como tal porque possui um conteúdo geral e é revelada para um público em geral. Através da revelação geral, dirigida a todos os homens, Deus comunica a Sua existência, Seu poder e Sua glória, de modo que os homens são deixados sem desculpa.

2. Revelação Especial:

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).

A revelação geral, imediata (que ocorre sem um agente intermediário) ou mediada (que ocorre através de um agente intermediário, como as obras criadas, por exemplo) é dirigida a todos os homens. No entanto, ela não é suficiente para levá-los ao conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação. Ela não revela Jesus Cristo ou Sua obra redentora dirigida aos pecadores. Assim, torna-se necessário aquilo que é chamado de revelação especial.

Embora a revelação de Deus não deva, necessariamente, ser dividida em geral e a especial, mas não há dúvida que há uma revelação especial, que é redentora e está acima da luz natural da razão. As Escrituras, que como vimos, também fala da revelação geral ao destacar a natureza e a consciência humana, publica as boas-novas que o Deus santo e misericordioso promete a salvação como uma dádiva divina ao homem que não pode salvar-se a si mesmo (AT), e que Ele agora cumpriu aquela promessa mediante a dádiva do Seu Filho, em quem todos os homens são chamados a crer (NT). O evangelho é a notícia de que o Logos encarnado (do qual falaremos noutro momento) carregou sobre Si os pecados dos homens condenados, morreu em seu lugar e ressuscitou para a sua justificação. Este é o centro permanente da revelação especial redentora.

Para chegar esta revelação especial à humanidade, Deus preparou um povo, Israel, na Antiga Aliança, e a igreja, na Nova Aliança, para revelar-lhe diretamente o conhecimento necessário à salvação. Foi assim que Deus revelou-se a Noé, a Abraão, a Moisés, aos profetas, a Davi, a Salomão, aos seus apóstolos e, especialmente, em Cristo. É neste sentido que o autor da Epístola aos Hebreus afirma que, “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.1-2). Cristo é a revelação final de Deus.

É este também o sentido das palavras do apóstolo Paulo endereçada aos gálatas: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11-12). À igreja de Deus, portanto, foram confiados os oráculos de Deus, uma revelação especial, inspirada, clara, precisa, autoritativa, suficiente para ensinar ao homem o que ele deve conhecer e crer e o que dele é requerido, com vistas à sua própria salvação e à glória de Deus.

Como afirma A Confissão de Fé Westminster 1.1:

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens sejam inescusáveis todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso agradou ao Senhor, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e contra a maldade de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna as Escrituras Sagradas indispensável [sic], tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo.[1]

Concluindo, vimos que pela revelação geral, a humanidade em geral tem conhecimento de um Deus todo-poderoso e que através de Suas obras e nossa consciência não somos enganados em relação à Sua resistência e atributos. Mas que, além disso, Ele deixou-nos uma revelação escrita para aqueles que queiram conhecer sobre o caminho da salvação, sua comunhão e seu destino com Ele.

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Sobre a Revelação Escrita, veja os meus posts:

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Referências bibliográficas:

  • DEMAREST, B. A. Revelação Geral. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • HENRY, C. F. H. Revelação Especial. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • MATHISON, Keith. Revelação Geral e Revelação Especial – Uma abordagem reformada sobre a relação entre Ciência e Escrituras. Disponível em: <https://tuporem.org.br/revelacao-geral-e-revelacao-especial/>. Acesso em: 14/05/2019.

 

Nota:

 

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