Antes do alvorecer, a noite escura

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 173 a 181.

 

A furore normannorum, libera nos Domine: da fúria dos normandos, livra-nos, Senhor.

Verso latino do século X

Por algum tempo parecia que Carlos Magno tinha arrancado a Europa ocidental das trevas e do caos em que tinha afundado desde as invasões dos germanos nos séculos IV e V. Porém a verdade era que as invasões germânicas ainda não tinham terminado, e que eles aproveitariam a decadência do império carolíngio para se intensificarem.

Os normandos ou vikings

Durante vários séculos os territórios que hoje abrangem Dinamarca, Suécia e Noruega tinham estado ocupados por diversos povos chamados de “escandinavos”. Durante o século VIII, no entanto, estes povos, até então relativamente sedentários, desenvolveram a arte da navegação a tal ponto que não demorou para eles se fazerem donos dos mares próximos. Seus navios, de mais de vinte metros de comprimento, e impulsionados tanto por uma vela quadrada como por mais de mais de uma dezena de remos, podiam levar tripulações de oitenta homens. Neles os escandinavos logo empreenderam incursões ao resto da Europa, onde foram chamados de “normandos”, ou seja, homens do norte. Sua ferocidade era tanto maior porquanto se baseava em sua religião, que assegurava aos soldados mortos em batalha que eles seriam levados pelas formosas “valquírias” ao paraíso, o “valhala”. Além disto, por causa da desintegração do poderio carolíngio, as ricas costas do norte da França ficaram relativamente indefesas, e os normandos descobriram que poderiam desembarcar impunemente em uma região, saquear suas igrejas, mosteiros e palácios, capturar escravos, e regressar às suas terras com uma presa enorme. Como eles atacavam frequentemente os mosteiros, eles eram tidos por gente irreligiosa, e seu nome semeou o pânico em toda a Europa.

No princípio os normandos limitavam seus ataques a regiões mais próximas, nas Ilhas Britânicas e no norte da França. Porém logo se tornaram mais ousados, ampliaram sua área de ação e se estabeleceram como conquistadores em diversos lugares. Na Inglaterra o rei de Wessex, Alfredo, o Grande (871-899) foi o único que conseguiu resistir à sua investida. Porém em princípios do século XI o rei da Dinamarca, Canuto, era dono de toda a Inglaterra. Na França os normandos tomaram e saquearam cidades como Bordeaux, Nantes e Paris, onde chegaram subindo o Sena, em 845. Na Espanha saquearam lugares cristãos como Santiago de Compostela, e lugares muçulmanos como Sevilha. Depois passaram pelo estreito de Gibraltar, e começaram a atacar as costas de Mediterrâneo. Mais tarde se estabeleceram no sul da Itália e na Sicília, de onde expulsaram os muçulmanos e fundaram um reino normando.

soldado-normando

Todas estas conquistas não faziam outra coisa que semear o pânico e os caos na Europa ocidental. A efêmera unidade conseguida sob Carlos Magno e Ludovico, o Pio, tinha se rompido, e não restava nenhuma autoridade capaz de se opor aos abusos dos escandinavos. Ao mesmo tempo estes abusos contribuíram para o caos, e faziam ainda mais difícil a restauração das glórias carolíngias.

Por estas razões um famoso historiador se referiu aos séculos X como “um século escuro, de ferro e de chumbo”. Do ponto de vista político o Império conseguiu manter certo brilho até a segunda metade do século, sob Oto, o Grande, e seus sucessores imediatos. Mas mesmo este Império restaurado teve de ser um império de ferro e chumbo. Do ponto de vista religioso o papado desceu ao nível mais baixo da sua história. Quanto aos normandos, mais tarde todos se tornaram cristãos. Alguns se estabeleceram em territórios antes cristãos, como a zona do norte da França que desde então é chamada de “Normandia”, e aceitaram a fé dos povos conquistados. Outros simplesmente esperaram que, por diversas razões, seus reis se tornassem cristãos, e então seguiram seu exemplo (ou sua ordem, de acordo com o caso). Na primeira metade do século XI, sob o rei Canuto, que chegou o governar toda a Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Noruega, quase todos os escandinavos já eram cristãos, pelo menos de nome.

Os magiares ou húngaros

Ao mesmo tempo que os normandos invadiam a cristandade ocidental vindos do norte, outro povo o fazia do leste. Tratava-se dos magiares, a quem o mundo latino deu o nome de “húngaros”, porque pareciam se comportar como os hunos de séculos antes. Depois de se estabelecerem no que hoje é Hungria, os húngaros invadiram a Alemanha repetidamente, e em mais de uma ocasião atravessaram o Reno. A distante Burgúndia tremeu sob os cascos dos seus cavalos, e até o extremo sul da Itália suas hostes marcharam vitoriosas e destruidoras. Arrasavam tudo onde passavam, e cidades inteiras foram incendiadas. Por fim, em 936, Henrique I, o falconeiro, os derrotou decisivamente, e desde então os ataques dos húngaros, apesar de frequentes, foram menos temíveis.

Pouco a pouco os húngaros assimilaram a cultura dos alemães, seus vizinhos, e dos eslavos sobre quem dominavam. Chegaram missionários à Hungria, tanto da Alemanha como do Império Bizantino. Em fins do século X o rei Gueisa recebeu o batismo, bem como sua corte e seu herdeiro, Vaik. Em 997 Vaik, que tinha mudado seu nome para Estêvão, herdou a coroa, e imediatamente ordenou aos seus súditos que se tornassem cristãos. Pela força o país se converteu. Depois da morte de Estêvão, em 1038, o povo o teve por santo, e por isto ele é conhecido como Santo Estêvão da Hungria.

A decadência do papado

O ocaso do papado não foi tão rápido como o dos carolíngios. Pelo contrário, quando faltou a unidade imperial, por um breve tempo os papas foram a única fonte de autoridade universal na Europa ocidental. Por esta razão Nicolau I, que reinou de 858 a 867, foi o papa mais notável desde o tempo de Gregório, o Grande. O poder de Nicolau se viu aumentado por uma coleção de documentos supostamente antigos, os Falsos Decretos, que davam enorme poder aos papas. Os historiadores modernos provaram que os decretos falsificados não foram escritos pelo papa, mas por certos membros da baixa hierarquia alemã, que queriam aumentar o poder do papado como um freio contra seus superiores diretos. Em todo caso, o fato é que Nicolau cria, junto com toda a Europa, que os Decretos eram genuínos, e com base neles ele agiu com uma energia sem precedentes. Boa parte de sua atuação foi em prol da paz, que na sua opinião os poderosos rompiam por razões triviais, enquanto o povo sofria os abusos da guerra. Além disto tentou intervir no caso do rei Lotário II, que tinha abandonado sua esposa para se casar com aquela que fora sua concubina desde sua juventude.

O sucessor de Nicolau, Adriano II, seguiu a mesma política. Quando Lotário e sua corte se apresentaram em Montecassino à comunhão que o papa oficiava, este o desafiou:

Se te declaras inocente do crime de adultério, pelo que o papa Nicolau te excomungou, e prometes nunca mais ter relações ilícitas com a malafamada Waldrada, então te aproxima com fé, e toma este sacramento para remissão dos teus pecados. Porém se estás pensando em voltar a te revolveres no pecado de adultério, não o recebas, para que não provoques o terrível juízo de Deus.

O rei e todos os presentes tremeram, sobretudo porque o papa admoestou os demais com palavras semelhantes. Porém no fim das contas todos tomaram a comunhão.

Pouco depois quem tremeu foi toda a Europa, ao ficar sabendo que uma praga terrível tinha irrompido na corte do rei, e que ele e todos os que comungaram com ele naquele dia tinham morrido.

O próximo papa, João VII, teve um reino muito menos glorioso. Os sarracenos ameaçavam a Itália, e o papa apelou a Carlos, o Gordo, a quem fez rei da Itália. Porém depois de receber as honras devidas o novo rei marchou para a França, onde as invasões dos normandos o preocupavam, e o papa teve de pedir auxílio à corte bizantina. Este foi um dos papas que teve a ver com o caso de Fócio, que discutimos no capítulo anterior, e a necessidade em que se encontrava o obrigou a fazer concessões aos bizantinos que de outro modo não teria feito. Por fim ele morreu assassinado em seu próprio palácio, onde o auxiliar que o envenenou, ao ver que ele demorava para morrer, lhe acertou um golpe de machado no crânio.

A partir de então os papas se sucedem uns aos outros com rapidez vertiginosa. Sua história fica tão complicada e tão cheia de intrigas que aqui podemos mencionar somente alguns acontecimentos que são típicos daqueles tempos. O papado se transformou em pomo de discórdia entre diferentes partidos romanos e transalpinos. Não faltaram papas que foram estrangulados, ou que morreram de fome nos calabouços em que seus sucessores os tinham colocado. Às vezes houve mais de um papa, e até três. Vejamos alguns exemplos.

Em 897 Estêvão VI presidiu sobre o assim chamado “concílio cadavérico”. Seu antecessor Formoso, o mesmo que antes tinha sido missionário entre os búlgaros, e que depois tinha sido papa, foi desenterrado. Vestiram-no com a indumentária papal e o arrastaram pelas ruas. Depois o julgaram, declararam-no culpado de vários crimes, cortaram-lhe os dedos com que tinha abençoado o povo, e lançaram o resto do seu corpo ao Tigre.

Em 904 Sérgio III mandou encarcerar e matar seus dois rivais, Leão V e Cristóvão I. Este mesmo papa chegou ao poder com a ajuda de uma das famílias mais poderosas e ambiciosas da Itália. À testa desta família estava o patrício Teofilato e sua esposa Teodora. O próprio Sérgio III era amante da filha de Teofilato e Teodora, Marósia. O filho desta união subiu mais tarde ao trono papal com o nome de João XI.

Pouco depois da morte de Sérgio, Marósia e seu marido Guido, marquês de Túscia, se apossaram do palácio de Latrão e aprisionaram o papa João X, que depois mataram cobrindo-lhe o rosto com um travesseiro. Depois dos papados breves de Leão VI e Estêvão VII, Marósia colocou na sede pontifícia João XI, e o filho que tinha tido, anos antes, de Sérgio III.

Trinta anos depois da morte de João XI, um neto de Marósia ocupava o papado, com o nome de João XII. João XIII era filho de Teodora, a jovem, irmã de Marósia, Seu sucessor, Benedito VI, foi deposto e estrangulado por Crescêncio, irmão de João X III. João X IV morreu de fome ou envenenado no calabouço onde fora colocado por Bonifácio VII, que, por sua vez, também foi envenenado.

Durante um breve período o imperador ato III interveio e fez nomear dois papas, primeiro a seu sobrinho de vinte e três anos, que tomou o nome de Gregório V, e depois ao célebre erudito Gerberto de Aurillac, que com o nome de Silvestre II fez tudo que esteve ao seu alcance para reformar a igreja, mas com pouco êxito.

Depois da morte de ato, no entanto, a família de Crescêncio se apossou novamente do papado, até que os condes de Túsculum impuseram sua vontade e fizeram nomear, sucessivamente, a Benedito VIII, João XIX e Benedito IX. Este último tinha quinze anos quando cingiu a tiara papal. Doze anos depois ele abdicou em troca de que seu padrinho, que lhe sucedeu com o nome de Gregório VI, lhe concedesse certos rendimentos eclesiásticos procedentes da Inglaterra.

Gregório VI tentou reformar a igreja, mas não tardou em se encontrar em situação difícil, porque Benedito IX, depois de abdicar, voltou a reclamar o papado. Além disto a família de Crescêncio, descontente por ter perdido seu antigo poder, tinha seu próprio papa, que se dava o nome de Silvestre III.

Em meio deste caos Henrique III da Alemanha decidiu intervir. Depois de se avistar com Gregório VI reuniu um sínodo em Sutri, em 1046. Este sínodo, seguindo a orientação real, declarou depostos os três papas e nomeou a Clemente II. Além disto promulgou uma série de decretos contra a corrupção eclesiástica, particularmente a compra e venda de cargos.

Clemente II morreu depois de um breve pontificado, e então Henrique III, que Clemente tinha coroado imperador, decidiu oferecer o trono papal ao bispo de Tula, Bruno, conhecido por seu zelo reformador, que se negou a aceitar o pontificado antes de o próprio povo de Roma o eleger.

Com este propósito Bruno partiu para Roma. Em sua pequena comitiva iam dois monges, Hildebrando e Humberto. Depois de séculos de trevas, a cristandade ocidental clamava por uma nova luz, e aqueles três homens se preparavam para oferecê-la.

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