As Cruzadas

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), páginas 047 a 084.

”Eu o digo aos presentes. E ordeno que seja dito aos ausentes. Cristo está mandando. Todos que forem e lá perderem a vida, seja no caminho por terra ou no mar, ou na luta contra os pagãos, terão perdão imediato dos seus pecados. Isto eu concedo a todos que marcharem, em virtude do grande dom que Deus me tem dado.”

Urbano II

De todos os ideais elevados que cativaram o espírito da época, nenhum foi tão avassalador, tão dramático, nem tão contraditório como o das cruzadas. Durante vários séculos a Europa ocidental derramou seu fervor e seu sangue em uma série de expedições cujos resultados foram, nos melhores casos, de pouca duração; e nos piores casos, trágicos. O objetivo era derrotar os muçulmanos que ameaçavam Constantinopla, salvar o Império do Oriente, unir de novo a cristandade, reconquistar a Terra Santa, e em tudo isto ganhar o céu. Se este último propósito foi alcançado ou não, cabe ao Juiz Supremo decidir. Todos os outros foram concretizados, de uma ou outra forma. Mas nenhum deles de maneira permanente. Os muçulmanos, derrotados no começo por estarem divididos entre si, mais tarde se uniram e expulsaram os cruzados. Constantinopla, e a sombra do seu Império, puderam continuar existindo até o século XV, mas a longo prazo caíram sob o ímpeto dos turcos otomanos. As igrejas latina e grega se uniram por pouco tempo, pela força, em consequência da quarta cruzada; mas o verdadeiro resultado desta união forçada foi que o ódio dos gregos pelos latinos se acentuou. A Terra Santa esteve em poder dos cristãos mais ou menos um século, e depois caiu novamente em mãos de muçulmanos.

Pano de fundo das cruzadas: as peregrinações

Desde o século IV as peregrinações até a Terra Santa tinham ficado cada vez mais populares. Já antes surgira o costume de visitar os túmulos dos mártires no aniversário da sua morte. Agora o Império era cristão, e era possível fazer peregrinações mais longas, até a Terra Santa ou Roma, onde descansavam os restos mortais de São Pedro e São Paulo. A mãe de Constantino, Helena, creu ter descoberto em Jerusalém os restos da “vera cruz”. Esta descoberta, e as basílicas que ela e vários imperadores mandaram construir, aumentaram a fascinação dos cristãos pela Terra Santa. Ao mesmo tempo vários dos “gigantes” a que dedicamos nosso segundo volume atacaram as peregrinações, dizendo que se tratava de superstição, e que em todo caso havia mais mérito em ficar em casa e fazer o bem do que marchar até algum distante lugar por motivos religiosos.

Apesar desta oposição, durante a “era das trevas” as peregrinações ficaram cada vez mais populares. Não demorou e elas foram consideradas como uma forma de penitência adequada para certos pecados. Em alguns documentos do século VII vemo-las incluídas entre as penitências que é Iícito impor a um pecador. Mesmo havendo outros lugares de peregrinação, o de maior prestígio, tanto pela distância como por sua importância histórica, naturalmente era a Terra Santa.

Quando os árabes tomaram os lugares sagrados do cristianismo, algumas pessoas temeram que as peregrinações à Terra Santa seriam dificultadas sobremaneira. Mas os governantes árabes em sua maioria se mostraram extremamente benevolentes para com os peregrinos cristãos, que continuaram afluindo para Jerusalém e os lugares santos. Como muitas vezes os mares não eram seguros, por causa da pirataria, a rota mais comum dos peregrinos do Ocidente os levava primeiro até Constantinopla, c dali por terra, através da Anatólia e da Síria, até Jerusalém.

A reforma do século XI deu grande importância às peregrinações, que nesta época ficaram mais fáceis e comuns porque a pirataria tinha sido quase totalmente erradicada do Mediterrâneo.

Mas no fim deste século as circunstâncias políticas mudaram no Oriente Próximo. Até então a grande potência da região tinha sido o califado abássida, com capital em Bagdá. Se bem que as suas relações com o Império Bizantino não eram cordiais, este último tinha naquele um forte baluarte contra as herdas da Ásia central. No século XI, no entanto, o poderio abássida se desfez, e os turcos seljúcidas invadiram o califado, e depois o Império. Constantinopla viu-se ameaçada, e por esta razão repetidamente pediu ajuda ao Ocidente. Os turcos tomaram primeiro os santos lugares. Depois a dinastia árabe dos fatimidas, tendo como sede do seu poder o Egito, começou a tomar as terras conquistadas pelos turcos. Estes se dividiram em diversos grupos. Para os peregrinos isto tudo fazia sua viagem ser confusa e perigosa. Os que regressavam à Europa diziam que cada cidade parecia ter seu próprio governo, e que por todos os lados havia fortes bandos de ladrões, contra os quais era necessário se armar.

Nestas novas circunstâncias, aliadas ao fato de que muitos peregrinos não voltavam para sua cidade natal, as pessoas começaram a pensar na Terra Santa como o lugar da última peregrinação. Muitos documentos da época nos falam de peregrinos que esperavam morrer em Jerusalém ou a caminho. Alguns chegam a se mostrar decepcionados por ter podido regressar. Para os espíritos mais exaltados a morte em peregrinação à Terra Santa veio a ser a suprema eleição divina, como a morte nas mãos do Império o tinha sido para os mártires de antigamente.

Por outro lado, a situação provocou a existência de peregrinos armados. Estes peregrinos não iam conquistar a Terra Santa, mas queriam estar prontos para se defenderem se deparassem com algum bandido, ou se um grupo de soldados pretendesse matá-los ou aprisioná-los. Desta forma houve peregrinações que pareciam ser pequenos exércitos. E nelas encontramos algumas raízes das cruzadas.

Pano de fundo das cruzadas: a guerra santa

A tradição da guerra santa se fundiu com a das peregrinações para criar o ideal das cruzadas. Como todos sabem, a igreja antiga tinha sérias dúvidas sobre se alguém podia ser soldado e cristão ao mesmo tempo. Na época de Constantino estas dúvidas tinham sido desfeitas, e por isto os cristãos parecem ter sido relativamente numerosos nas legiões romanas. Eusébio relata as guerras de Constantino contra Magêncio e Licínio como se fossem empreendimentos ordenados por Deus. Para isto ele contava com muitos precedentes no Antigo Testamento, e ele não deixou de fazer uso deles. Pouco depois Agostinho desenvolveu a teoria da guerra justa, e assinalou as condições necessárias para que este nome pudesse ser dado a uma ação bélica qualquer.

Na “era das trevas” houve muitos bispos cristãos que de um ou outro modo apoiaram algum exército que saía para o campo de batalha. As conquistas de Carlos Magno receberam sanção papal. Na época que estamos estudando o papa Leão IX deu o exemplo, ao marchar à frente das tropas com que esperava derrotar os normandos. Ao mesmo tempo, como veremos no próximo capítulo, os cristãos tentavam expulsar os mouros da Espanha. Neste esforço contavam com o apoio da igreja e a bênção do papa, que às vezes chegou a reclamar os territórios conquistados como propriedade de São Pedro. Além disto, Gregório VII, a figura predominante da reforma do século XI, tentara enviar soldados ocidentais para socorrer o Império Bizantino, só que suas convocações só encontraram ouvidos surdos.

A primeira cruzada

Foi no tempo de Urbano II que todas as circunstâncias necessárias para o grande empreendimento coincidiram. O imperador de Bizâncio, Aleixo Comneno, tinha enviado emissários para Roma, para pedir socorro contra os turcos. As autoridades eclesiásticas estavam tentando frear o espírito guerreiro dos nobres, declarando a Trégua de Deus e a Paz de Deus. A primeira estabelecia certos períodos durante os quais era proibido fazer guerra, normalmente abrangendo as principais festas da igreja, os domingos, do Advento até Epifania, e de quarta-feira de cinzas até a oitava semana depois da Ressurreição. A segunda estabelecia que certos lugares, propriedades e pessoas estariam desobrigados de todas as implicações da guerra. Isto tudo, porém não bastava, e muitas vezes não era cumprido. Por isto os papas reformadores, Urbano em particular, procuravam outros métodos para pôr fim às intermináveis escaramuças entre os nobres.

Por outro lado os últimos anos do século XI foram tristes na maior parte da Europa ocidental. Houve vários anos seguidos de colheitas fracas. Em algumas regiões a fome foi atroz. A. ela se juntaram as epidemias. A peste fez grandes estragos. Mas a enfermidade mais temida, por não ser conhecida antes, foi a dos “ardentes”. Os enfermos sofriam de febre altíssima, e seus pés e mãos gangrenavam, apodreciam e caíam aos pedaços. Os poucos enfermos que conseguiam sobreviver ficavam mutilados, e condenados a uma existência miserável.

Em meio a estas circunstâncias não devemos surpreender-nos com a acolhida que o chamado do papa Urbano teve no concílio de Clermont, na França, onde ele fez sua famosa convocação à primeira cruzada. Como Urbano era francês, é de se supor que seu discurso, dirigido a todos os presentes, foi proferido no idioma do povo. Depois de se referir aos perigos que os cristãos elo Oriente enfrentavam na ameaça turca, o papa passou a descrever em detalhes os horrores que os peregrinos sofriam, a profanação dos lugares sagrados, e a necessidade imperiosa de que se acudisse em socorro aos irmãos gregos. Antes de ele terminar seu discurso a multidão já dava mostras da sua aprovação. O papa ofereceu indulgência plena a todos que morressem no empreendimento. Isto queria dizer que qualquer pecado, por mais grave que fosse, seria perdoado, e eles iriam diretamente para o paraíso. A multidão continuou expressando seu entusiasmo, e quando o discurso chegou ao fim começou a gritar: “Deus o quer! Deus o quer! Deus o quer!”

O resultado da convocação ultrapassou de muito as esperanças do papa. O que parece que ele desejava era que começassem os preparativos para uma grande expedição militar, de acordo com os padrões tradicionais, dirigida pelos nobres. Mas o resultado imediato foi uma febre de entusiasmo que parecia ser tão contagiosa como a praga. Logo surgiram numerosos pregadores do grande empreendimento. Todos os sonhos apocalípticos que durante muitos séculos estiveram reprimidos nas classes baixas começaram a reluzir. Houve quem tivesse visões da Jerusalém celestial, que descia do céu, e ficava suspensa no Oriente. Outros viram grandes bandos de aves, de peixes, ou de borboletas que se dirigiam para o leste, como que indicando aos cruzados o caminho a seguir. Alguns diziam ter recebido sobre o ombro a marca da cruz, que os declarava eleitos para a peregrinação militar. E não faltavam os que mostravam orgulhosos tal sinal da graça divina.

O mais famoso destes pregadores populares foi Pedro, o Ermitão, cujo manto de lã grosseira as multidões tentavam beijar. Sua pregação estimulante, seu fervor contagioso, e sua pobreza austera o transformaram no principal Iíder das multidões que sonhavam com a Terra Prometida. Conta-se que muitas pessoas arrancavam os cabelos da sua mula, para guardá-los como relíquia.

Pedro, o Ermitão, atravessou toda a França, anunciando a cruzada e levando atrás de si uma multidão cada vez maior de seguidores entusiasmados. Enquanto os nobres e os cavaleiros preparavam cuidadosamente sua expedição, esta gente, oprimida por suas circunstâncias do momento, simplesmente decidia seguir a Pedro ou a algum outro pregador semelhante. E não iam tanto como soldados, mas como peregrinos e colonizadores. Muitos ferraram seus bois para a longa marcha, puseram-nos à frente de uma carreta, e sobre esta levaram sua família e suas escassas posses.

Pedro e seus seguidores então passaram para a Alemanha, para recrutar mais adeptos, e seguiram para o território dos húngaros, onde esperavam ser bem recebidos. Mas os cruzados não levavam provisões, e por isto tinham de se sustentar com o que tomavam do país. Não tardou para eles terem de lutar contra cristãos que tentavam defender seus bens; primeiro os húngaros, depois os búlgaros. Nestas peripécias Pedro perdeu boa parte da sua autoridade, e o “exército” começou a se desfazer. Chegaram, afinal, às fronteiras do Império Bizantino, e Aleixo Comneno fez todo o possível para apressar sua passagem através dele, para evitar incidentes como os ocorridos na Hungria. Com ajuda imperial os cruzados atravessaram o Bósforo e entraram na Anatólia. Ali eles tiveram seus primeiros encontros com os turcos, que foram desastrosos. Mais tarde, seguindo os conselhos do imperador, eles decidiram aguardar o exército dos nobres antes de tentar tomar a cidade de Nicéia.

Enquanto isto outros grupos de cruzados tinham partido da França e de outras regiões da Europa. Muitas destas partidas estavam pior organizadas que a de Pedro, o Ermitão, e nem sequer esperaram até sair da Alemanha para se entregarem à pilhagem. Isto é compreensível, pois se tratavam de pessoas que nada tinham, que se consideravam enviadas em uma missão divina, e para as quais, por isto, a riqueza dos territórios que atravessavam parecia um sacrilégio. Mas o resultado foi que muitos destes bandos foram aniquilados pelos habitantes do país, e que alguns sobreviventes foram submetidos a condições de penúria ainda maior do que a que tinham sofrido em sua terra natal.

Além disto, boa parte destes “soldados de Cristo” se dedicou a matar judeus. Já que iam a terras distantes para lutar contra os infiéis, por que não começar esta luta imediatamente, matando os judeus que encontravam a caminho? Em Praga, Metz, Ratisbona e Mogúncia milhares de judeus foram mortos pelos cruzados. Quando Henrique IV regressou ao país de uma viagem à Itália, os abusos contra os judeus foram afinal proibidos. Mas o mal já estava feito.

Enquanto estes bandos desorganizados se dirigiam para o Oriente os nobres preparavam uma expedição militar elaborada. O papa tinha nomeado Ademar de Monteil, bispo de Puy, seu legado, e com isto chefe do empreendimento. Mas ocorreu que os cruzados partiram da Europa para Constantinopla por diversos caminhos. O comandante dos soldados procedentes da região do Reno, tanto alemães como franceses, era Godofredo de Bulhões, duque da Baixa Lorena. Os franceses do sul estavam sob o comando direto de Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse, acompanhado de Ademar, Iíder espiritual da cruzada. Outros franceses seguiam Hugo de Vermandois, irmão do rei Felipe I. E os normandos do sul da Itália seguiram Boemundo e Tancredo, dois nobres da região. Contingentes menores, procedentes de outros países (Galícia, Inglaterra, Escandinávia etc.) se uniram a estes exércitos principais.

Cada uma por seu próprio caminho, as colunas de cruzados foram chegando em Constantinopla. Ali o imperador Aleixo os recebeu com cortesia e todo tipo de festejos e donativos. Mas ao mesmo tempo se mostrou firme, obrigando-os a lhe jurar lealdade, e que qualquer cidade bizantina que fosse tirada dos turcos voltaria a integrar o Império. Quando os exércitos partiram da cidade Aleixo lhes consignou uma escolta militar, não só para lhes servir de guia, mas também para evitar que os cruzados se dedicassem a saquear o território que tinham de atravessar. Por todos os lados viam-se os esqueletos das primeiras vagas de cruzados, que os turcos tinham batido facilmente. Pedro, o Ermitão, e os demais sobreviventes juntaram-se ao exército dos nobres.

A primeira ação militar contra os turcos foi o sítio de Nicéia, onde o sultão seljúcida, Kirlik Arslan, tinha sua capital. Os turcos aparentemente não deram grande atenção às hostes invasoras, talvez porque esperavam que elas fossem tão fáceis de vencer como tinham sido as hostes de Pedro, o Ermitão. Quando descobriram seu erro a cidade de Nicéia estava sitiada. Um exército turco que acudiu em seu auxílio foi derrotado pelas tropas de Raimundo de Toulouse, que ordenou que as cabeças dos inimigos mortos fossem lançadas por sobre as muralhas de Nicéia, para semear o pânico entre os defensores.

Niceia, entretanto, estava construída à margem de um grande lago, e os cruzados, sem forças navais, não podiam evitar que os sitiados recebessem recursos por este caminho. A pedido dos cruzados o imperador enviou uma flotilha para fechar o cerco.

A queda de Nicéia, a cidade que tinha sido sede do primeiro concílio ecumênico, era inevitável.

Porém Aleixo temia a cobiça dos cruzados. A maior parte da população de Niceia era cristã, e se a cidade fosse tomada sem maiores danos ela poderia facilmente ser incorporada ao Império Bizantino. Por isto o imperador começou negociações secretas com os sitiados, que lhe abriram as portas que davam para o lago, enquanto os cruzados atacavam as muralhas por terra. Antes que as muralhas cedessem os atacantes viram ondear dentro da cidade o pendão imperial. Aleixo tomou posse da cidade, e não permitiu aos cruzados tomar nenhuma presa; somente distribuiu entre eles comida abundante, além de ouro e pedras preciosas tiradas do tesouro do sultão.

De Niceia os cruzados partiram para Antioquia. Para esta marcha eles se dividiram em duas colunas, que marchavam com um dia de distância entre si. Esta divisão acabou sendo a salvação do exército, pois o sultão Kirlik tinha conseguido reunir todas as suas tropas e preparar uma armadilha na planície de Dorileia. Ali o primeiro exército foi surpreendido e cercado. Não havia nenhuma maneira de escapar ao massacre, e a única coisa que sustentava os cristãos era a certeza de que se se rendessem esperava-os uma sorte pior que a morte. Desde a madrugada até o meio-dia defenderam-se sob uma chuva constante de flechas, sem esperança de vitória. Mas então chegou Raimundo de Toulouse à frente do segundo exército. Antes de atacar, esta outra força se dividiu. Enquanto Raimundo se lançou ao combate, outro contingente, sob o comando do bispo Ademar, rodeou o campo às escondidas, atrás de uma elevação do terreno. O ataque de Raimundo surpreendeu os turcos, que romperam o cerco ao redor do primeiro exército. Este recobrou sua coragem, de modo que as tropas cristãs se uniram para fazer uma frente comum contra o inimigo. Este começava a se reorganizar quando de repente Ademar e os seus atacaram a sua retaguarda. A resistência dos turcos desmoronou diante de tantas surpresas, e eles fugiram espavoridos. O massacre foi enorme, e os cruzados ficaram de posse do campo de batalha e do acampamento do sultão, com todas suas tendas e tesouros. C caminho até a Terra Santa estava aberto.

Mas os soldados europeus não contavam com as dificuldades do terreno na Anatólia. Durante seis semanas, até que chegaram a Icônio, sofreram sede e todo tipo de privações. Muitos animais de carga morreram, e o glorioso exército da cruz se viu obrigado a colocar seus fardos sobre cabras e porcos. Esta experiência, no entanto, consolidou a unidade entre as tropas procedentes de diversas regiões, que mal se compreendiam entre si.

Depois de dois dias de descanso em Icônio o exército marchou até Heracleia, onde novamente derrotou os turcos. Depois se dividiram de novo, pois alguns decidiram tomar o caminho mais curto e perigoso até Antioquia, enquanto outros preferiram dar uma grande volta através da região da Armênia, onde esperavam receber o apoio e provisões da população cristã. Quando por fim os dois grupos se reuniram perto de Antioquia ambos tinham más notícias para repartir. Os que tinham rumado para a Armênia tinham sido bem recebidos pelos habitantes do lugar. Mas nos passos das montanhas tinham perdido muitas vidas, animais, armas e provisões. Os que tinham seguido o outro caminho tiveram melhor sorte, mas as desavenças entre eles se tornaram insuportáveis. Diante dos muros de Tarso, Tancredo e Balduíno, o irmão de Godofredo de Bulhões, combateram entre si. Por fim Balduíno decidiu abandonar o empreendimento comum e aceitar a oportunidade que os armênios lhe ofereciam de estabelecer um condado independente em Edessa.

O chefe turco de Antioquia tinha se preparado para o ataque dos cruzados fazendo vir provisões de toda a região, e pedindo reforços aos outros chefes turcos. Os atacantes tiveram a sorte de capturar um grande envio de provisões destinadas a Antioquia, e com elas restaurar sua força e moral. O cerco prometia ser longo, pois Antioquia ainda era uma grande cidade, protegida por uma muralha de quatrocentas torres. Mas os cruzados tinham v(veres, e estavam dispostos a esperar a rendição da cidade. Pouco depois chegaram vários navios genoveses, carregados de reforços e de provisões. De Chipre o patriarca exilado de Jerusalém, Simeão, lhes enviava quanto podia. Mas tudo isto não bastava. Em fins de 1097 não havia o que comer no acampamento dos cristãos, enquanto os sitiados permaneciam firmes e suas provisões não se esgotavam. O exército cristão estava em perigo de se desfazer. As deserções eram cada vez mais numerosas. Uma noite Pedro, o Ermitão, fogoso e volúvel como o apóstolo do mesmo nome, abandonou o acampamento. Felizmente Tancredo conseguiu capturá-lo antes que os outros seguissem seu exemplo, e o trouxe de volta para o exército. Outro desertor encontrou Aleixo Comneno, que vinha com reforços, e o convenceu de que o empreendimento tinha fracassado, e que as tropas bizantinas não tinham chances de sobreviver.

Enquanto Aleixo seguia os conselhos dos desertores e marchava de volta para Constantinopla a situação em Antioquia mudava completamente. Um armênio que morava na cidade abriu as portas aos francos, que entraram em Antioquia aos gritos de “Deus o quer!” Os turcos, tomados de surpresa, se refugiaram na cidadela fortificada que se encontrava no meio da povoação. Os cristãos, tanto cruzados como residentes de Antioquia, se lançaram às ruas e mataram todos os turcos que não se tinham refugiado na cidadela com rapidez suficiente.

O entusiasmo da vitória durou somente quatro dias. No dia sete de junho um novo exército turco, sob o comando de Kerbogat, cercou Antioquia. Os cristãos estavam assim entre as forças inimigas: o novo exército que os sitiava e os antigos sitiados, que ainda dominavam a cidadela. A situação era desesperadora; a fome, insuportável. O longo sítio e o enorme massacre tinham provocado epidemias terríveis.

Foi então que um humilde camponês provençal, chamado Pedro Bartolomeu, foi ver os chefes da cruzada para lhes contar as visões que tivera. Nestas, Santo André e o próprio Jesus Cristo lhe tinham aparecido, e lhe tinham dito que a lança que ferira o Senhor estava enterrada sob a igreja de São Pedro, ali mesmo, em Antioquia. A princípio os líderes não lhe deram atenção. Naquele exército abundavam as visões. Mas depois o sacerdote Estêvão teve outras revelações que pareciam confirmar o que Pedro Bartolomeu tinha dito. Por fim os comandantes decidiram ir buscar a Santa Lança. Durante todo o dia cavaram onde Pedro Bartolomeu indicara. Estavam dispostos a abandonar a busca quando o visionário se lançou ao solo e beijou algo que mal se via, no fundo. Com ânimo redobrado os que cavavam desenterraram o que o vidente lhes mostrava, e descobriram que era uma lança!

Um frenesi se apossou do exército. Em outra visão Pedro Bartolomeu recebeu a ordem de que os cruzados jejuassem por cinco dias, para depois atacar os que os cercavam. Quando, depois do período de jejum, aquele exército quase delirante se lançou sobre os turcos, com a Santa Lança como estandarte, as tropas de Kerbogat fugiram apavoradas. Em meio à desordem morreram milhares de turcos, enquanto os seus inimigos os perseguiam sem trégua. O exército turco foi desbaratado. Por fim os cruzados regressaram ao acampamento do inimigo, para tomar a presa de guerra. Ali encontraram muitas mulheres que os turcos tinham trazido consigo, e um cronista nos conta que o fervor daqueles soldados cristãos era tal que “não lhes fizemos nenhum mal, somente as matamos a lançadas”.

A conquista de Antioquia não facilitou a tarefa dos cruzados. Boemundo queria a cidade para si, assim como Balduíno antes tomara Edessa. Raimundo de Toulouse insistia no juramento feito ao imperador bizantino. Estas dissensões demoravam a marcha para Jerusalém. Por fim o exército, que sentia que estavam freiando seu entusiasmo, ameaçou os nobres, dizendo-lhes que já que Antioquia parecia estar causando tais contendas era melhor destruir suas muralhas, para que ninguém se deixasse levar pela ambição. Diante destas ameaças, os nobres fizeram uma paz forçada. Boemundo ficou em Antioquia, enquanto Raimundo e o grosso do exército prosseguia até Jerusalém. Mas antes de sair Raimundo ordenou a destruição das defesas, e incendiou a cidade. Ademar de Puy, o único que poderia manter unidos aqueles nobres de ambições discordantes, tinha morrido de febre em Antioquia. Já não havia outros líderes religiosos reconhecidos, além de visionários no estilo de Pedro Bartolomeu.

Quanto mais se aproximavam do final da sua longa peregrinação, mais o povo insistia em que a marcha fosse apressada. Os nobres, entretanto, acostumados a guerrear por presa e terras, queriam se deter a cada passo para assediar uma cidade ou tomar uma fortaleza. Quando chegaram a Trípoli o emir desta cidade os recebeu cortesmente e Ihes prometeu pagar forte tributo. Mas Raimundo pensou que talvez conseguisse um pagamento mais elevado se antes de fazer um acordo tomasse a fortaleza da Arca. O exército para contra mais esta demora. Godofredo de Bulhões, que tinha saído para uma expedição breve, voltou a se reunir ao grosso das tropas, e tomou o partido do povo. Era necessário continuar imediatamente a marcha para Jerusalém.

Pedro Bartolomeu, o visionário que levara ao descobrimento da Santa Lança, teve uma nova revelação, em que lhe foi dito que a expedição não deveria mais se demorar pelo caminho. Se fossem tomar a Arca, isto deveria ser feito imediatamente, com um ataque frontal, e depois continuar imediatamente até a Cidade Santa. Raimundo e os seus não lhe prestaram atenção. O vidente se mostrou disposto a provar sua visão por meio do fogo. Na sexta-feira santa, no começo da tarde, quarenta mil testemunhas se reuniram para presenciar o espetáculo. Duas piras foram acendidas. Entre as duas havia uma rampa estreita, de uns quatro metros de largura, por onde deveria andar o presumido profeta. Este, depois de pedir a ajuda do céu, tomou a Santa Lança, e com passo firme e decidido entrou nas chamas. Ali quarenta mil testemunhas o viram andar lentamente, até que saiu do outro lado.

Os cronistas diferem sobre o que aconteceu então. Há quem diz que o falso profeta caiu sem forças do outro lado, e que à noite morreu em consequência das queimaduras. Mas a versão difundida entre os cruzados era que, ao vê-lo sair ileso das chamas, 6 povo se lançou sobre ele, para tentar tocá-lo, ou obter um pedaço de suas roupas como relíquia, e o tumulto foi tal que seus próprios seguidores lhe quebraram vários ossos, em consequência do que ele morreu na mesma noite.

Em todo caso a maioria dos cruzados não estava disposta a continuar o s(tio da Arca, que logo foi levantado. Com os dentes cerrados Raimundo seguiu o impulso incontável que parecia arrastar aquele exército até Jerusalém. O resultado da sua ambição foi que ele perdeu o apoio com que antes contara entre os soldados. Seu lugar foi tomado por Godofredo de Bulhões, que naquele momento propício tinha insistido na necessidade de continuar a marcha até Jerusalém.

Por fim, no dia 7 de junho de 1099, da colina que recebeu o nome de Montjoie (isto é, Monte da Alegria), os cruzados avistaram as muralhas da Cidade Santa. Mas estas muralhas, até então tema dos seus sonhos, não tardaram em se transformar em pesadelo.

Os que ocupavam Jerusalém não eram turcos, mas árabes, procedentes em sua maior parte do Egito. No princípio os governantes fatímida do Egito tinham visto com bons olhos as vitórias dos cruzados sobre os turcos. Mas agora, aproveitando estas vitórias, decidiram empreender a conquista dos territórios que os turcos tinham ocupado, e que anteriormente tinham estado em mãos árabes. Atacado ao mesmo tempo pelos cruzados e pelos fatímida, o poderio dos turcos seljúcidas desapareceu. Mas isto, por sua vez, deixou os cruzados confrontados diretamente com os fatímida.

Os defensores de Jerusalém tinham tomado boas medidas para sua proteção. Seus armazéns e cisternas estavam cheios. Todos os cristãos foram expulsos da cidade, tanto para evitar que traíssem os defensores como para se assegurar que as provisões durariam mais tempo. Os comandantes árabes também mandaram envenenar todos os poços das proximidades, destruíram as colheitas e arrasaram tudo que poderia oferecer o mínimo abrigo aos cruzados.

Quando estes chegaram ao término da sua viagem tiveram de enfrentar as novas dificuldades que os árabes tinham lhes preparado. O único lugar perto da cidade onde havia água era o tanque de Siloé. Mas também ali a água era tão pouca que os animais e as pessoas se pisoteavam para chegar a ela, e logo ela estava fétida por causa dos cadáveres. A não ser ali, a água mais próxima estava a milhas de distância, e foi necessário que boa parte dos cruzados se dedicassem a buscá-la para aqueles que cercavam a cidade. Além disto, não havia madeira para construir torres e demais artefatos necessários para o assédio. Um contingente foi enviado até perto de Samaria, de onde trouxeram os troncos necessários. Pouco depois uma frota genovesa chegou a um porto próximo com reforços e provisões. Apesar de a pequena frota ser surpreendida pelos árabes no porto, e destruída, somente os navios foram perdidos. Os reforços, junto com os marinheiros e as provisões, aliviaram a condição dos cruzados. Muitos dos marinheiros também eram bons carpinteiros, e a construção de instrumentos de assédio foi acelerada.

Em princípios de julho chegaram notícias de que um exército árabe se aproximava da cidade. Se o sítio durasse mais tempo os cruzados estariam esmagados entre as muralhas e este novo exército. Então alguém teve uma visão. O falecido bispo Ademar de Puy lhe apareceu e disse que, para tomar a cidade, o exército deveria fazer penitência, marchar descalço ao redor dela e jejuar, e depois atacá-la com todas as forças.

Na manhã do dia 8 de julho os árabes que guardavam as muralhas zombaram com gosto daqueles soldados, supostamente’ valentes, que marchavam descalços ao redor da cidade atrás de bispos e do restante do clero, lamentando-se e entoando hinos de penitência. Mas no dia 12 as torres estavam prontas para o assalto. Contra elas os defensores reforçaram as muralhas. Naquela noite, ocultos na escuridão, os cruzados desmontaram as torres, e as transportaram de maneira que ficaram diante das partes mais fracas das muralhas. Na madrugada do dia 13 o ataque começou. Durante todo este dia e no seguinte a batalha continuou, sem que os atacantes conseguissem abrir uma brecha entre os defensores. As baixas eram enormes em ambos os exércitos. As forças fraquejavam.

Por fim, na manhã do dia 15, o cavaleiro Leotoldo, do exército de Godofredo de Bulhões, conseguiu saltar o parapeito e se apossar de uma pequeníssima parte da muralha. Logo Godofredo, Tancredo e outros o seguiram. Por aquela brecha o exército cruzado foi abrindo o caminho. A resistência se desfez. O pânico se espalhou entre os defensores. Em outros lugares foram abertas novas brechas. Jerusalém estava novamente em poder de cristãos!

Então aqueles soldados de Cristo se dedicaram à vingança. Todos os soldados sarracenos foram mortos, e a população civil não sofreu melhor sorte. Muitas mulheres foram violentadas. De outras as crianças foram arrancadas do peito, para serem jogadas contra a parede. Os judeus tinham fugido para a sinagoga. Os cruzados atearam fogo ao prédio, e mataram todos. Uma testemunha ocular conta que a matança foi tal que no Pórtico de Salomão o sangue chegava até os joelhos dos cavalos. Quando o massacre afinal acabou, e foi decidido enterrar os cadáveres, os sobreviventes entre os sarracenos eram tão poucos que foi necessário pagar aos cristãos mais pobres para que se ocupassem da tétrica tarefa.

História posterior das cruzadas

Depois do banho de sangue os cruzados começaram a organizar suas conquistas. Se poucos meses antes o líder natural parecia ser Raimundo de Toulouse, agora Godofredo de Bulhões o era, e ele foi eleito rei de Jerusalém. Alguns cronistas antigos contam que Godofredo se negou a tomar o título real na cidade onde o Rei dos Reis tinha morrido, razão pela qual ele era chamado somente de “protetor do Santo Sepulcro”. Em todo caso, quando seu irmão Balduíno lhe sucedeu pouco depois (em 1100), este tomou o título de rei. Assim ficou estabelecido o Reino de Jerusalém, organizado de acordo com os padrões feudais franceses, e cujos principais vassalos eram o Príncipe de Antioquia (Boemundo) e os condes de Edessa (Balduíno) e de Trípoli (Raimundo de Toulouse).

Muitos dos que tinham marchado naquela primeira cruzada, no entanto, não tinham a intenção de permanecer no Oriente. Assim que Jerusalém foi conquistada eles concluíram que sua tarefa estava encerrada, e se puseram a cumprir os ritos prescritos para os peregrinos, para depois partir. A duras penas Godofredo pôde reter suficientes cavaleiros para enfrentar o exército sarraceno que marchava contra Jerusalém. Este foi derrotado em Ascalom. Mas a partida de muitos cavaleiros deixava o Reino de Jerusalém em situação precária.

O resultado disto foi um chamado constante à Europa para que fossem enviados reforços. Assim as cruzadas se transformaram em uma instituição militar e religiosa. Continuamente partiam para a Terra Santa contingentes em que se mesclavam motivações de aventura com espírito de penitência. Por isto, quando os historiadores se referem à segunda cruzada, à terceira cruzada etc., os acontecimentos que narram são somente pontos culminantes de um movimento ininterrupto que cativou a imaginação da cristandade ocidental durante vários séculos. Além disto, estas cruzadas, por assim dizer “oficiais”, têm sido objeto de atenção especial porque foram dirigidas pelos reis e poderosos. Mas sempre existiu o fluxo popular, representado na primeira cruzada por Pedro, o Ermitão, e pelos vários bandos de cruzados pobres que o seguiram, bem como a outros pregadores semelhantes. Entre as massas o espírito apocalíptico e messiânico das cruzadas perdurou por várias gerações. De algum modo estas massas escutaram ecos da predileção das Escrituras pelos pobres (tema que não era pregado naquela época), e frequentemente se convenceram de que eram elas que deviam trazer o reino de Deus. Um tema semelhante podemos ver nas repetidas cruzadas de crianças. Como a inocência era o melhor meio de merecer o favor divino, pensava-se que estava reservado a crianças inocentes vencer os infiéis, através da intervenção milagrosa do céu. De modo que cada vez que o fervor popular se incendiava grandes colunas de crianças marchavam até a Terra Santa, sem conseguir outro resultado que morrer no caminho ou ser feito escravo pelos senhores por cujos territórios tinham de passar. Toda esta história de religiosidade popular, de esperanças de redenção e de visões apocalípticas, fica eclipsada quando os historiadores se ocupam somente das cruzadas “oficiais”.

Feita esta salvaguarda, faremos um esboço breve dos acontecimentos posteriores, considerando as cruzadas que os historiadores enumeram. A segunda ocorreu em resposta à queda de Edessa, que foi tomada pelo sultão de Alepo em 1144. Geralmente diz-se que o grande pregador desta cruzada foi Bernardo de Claraval (o mesmo de quem falamos no primeiro capítulo deste volume). Mas a verdade é que quando Bernardo começou sua pregação já havia outros dedicados à mesma tarefa, se bem que com uma perspectiva bem diferente. Destes o mais famoso era o frei Rodolfo, um personagem muito parecido com Pedro, o Ermitão. A pregação de Rodolfo era eminentemente popular e escatológica. O Anticristo estava prestes a vir. Os pobres, sem esperar a ordem dos nobres, deveriam partir imediatamente para a Terra Santa, onde o grande conflito final teria lugar. A caminho era necessário destruir os judeus, povo rebelde rejeitado por Deus. Com esta mensagem Rodolfo ia de região em região. Dizia-se que ele tinha o dom pentecostal, pois em todos os lugares as pessoas o entendiam. Onde quer que Rodolfo pregasse os espíritos se inflamavam, as pessoas abandonavam os campos para marchar para a Terra Santa, e as vidas dos judeus estavam em perigo.

A pregação de Bernardo era bem diferente. Na verdade o monge de Claraval parece ter dedicado tanta atenção a refutar Rodolfo como à própria cruzada. Na sua opinião a pregação não deveria alterar a vida ordenada das massas, e somente deveria ocorrer com o consentimento das autoridades eclesiásticas. Rodolfo se equivocava em suas expectações apocalípticas e em seu ódio contra os judeus. Mas estes não eram seus erros fundamentais. Seu erro fundamental consistia em romper a disciplina da igreja e da sociedade. Por seu lado Bernardo se dedicou a pregar aos poderosos. Pouco antes, o rei da França, Luís VII, tinha prometido marchar em peregrinação armada até a Terra Santa, para cumprir o voto que seu falecido irmão Felipe não pudera guardar. Agora Bernardo se dedicou a recrutar cavaleiros que seguissem o rei na guerra santa. Viajou também para a Alemanha, onde afinal conseguiu persuadir o imperador, Conrado III, a se unir ao empreendimento.

Quando por fim os exércitos partiram, sob as ordens do imperador e do rei, contavam com quase 200.000 homens, dos quais mais da quarta parte eram incapazes de portar armas. Depois de passar por Constantinopla, os alemães seguiram por terra até Dorileia, onde os turcos lhes infligiram uma derrota esmagadora. Com parte das suas tropas o imperador regressou a Constantinopla, de onde embarcou para São João de Acre. O restante do seu exército, sob o comando de seu irmão ato, foi destroçado perto de Laodiceia. Enquanto isto os franceses também tinham sido derrotados pelos turcos, e Luís VII embarcou para Antioquia com parte das suas tropas. Os demais, entre eles os pobres que tinham participado do empreendimento, simplesmente ficaram à mercê dos turcos, que reduziram à escravidão aos que não mataram. O príncipe de Antioquia, Raimundo de Aquitânia, era tio de Leonor, esposa de Luís. Ali os franceses foram bem recebidos, até que o rei começou a desconfiar das relações entre sua esposa e o príncipe. Quando Leonor pediu a anulação do seu matrimônio, Luís decidiu viajar para Jerusalém, forçando sua esposa a segui-lo.

O rei Balduíno III de Jerusalém persuadiu Luís e Conrado, que também tinha chegado à Cidade Santa, para que empreendessem a conquista de Damasco, que nunca tinha sido conquistada pelos cristãos. Para lá partiram os cruzados. Mas quando viram que o sítio seria prolongado e penoso desistiram da ideia. O imperador decidiu que era tempo de voltar para a Europa. Pouco depois o rei Luís fez o mesmo. A segunda cruzada tinha terminado.

Por breve tempo parecia que o reino de Jerusalém tinha seu futuro assegurado. Os muçulmanos não conseguiram chegar a um acordo entre si, e o rei de Jerusalém, Amalarico I, estendeu seu poderio até o Cairo. Mas estas conquistas foram efêmeras. O novo sultão do Egito, Saladino, consolidou sob seu poder as forças muçulmanas, e em 1187 tomou Jerusalém.

A notícia comoveu a cristandade, e o papa Gregório VIII convocou uma nova cruzada. Esta terceira cruzada foi dirigida por três soberanos: o imperador Frederico Barbaroxa, o rei da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão, e o rei da França, Felipe II Augusto. Tratava-se cada vez mais de um empreendimento aristocrático. Nesta ocasião, com base nas lições aprendidas em episódios anteriores, proibiu-se que qualquer pessoa que não pudesse cobrir todos os seus gastos durante dois anos de campanha marchasse com os cruzados. Mas apesar disto milhares de pobres se puseram a caminho. Ao mesmo tempo estabeleceu-se o dízimo para a Terra Santa, que era um imposto adicional que todos, pobres como ricos, deviam pagar. Logo surgiram queixas no sentido de que os pobres pagavam os gastos de guerra dos poderosos, e mesmo assim não tinham permissão de marchar com o exército, nem receber os bens espirituais prometidos para a marcha.

A terceira cruzada foi outro fracasso. Frederico Barbaroxa se afogou, e seu exército se desfez. Muitos regressaram à Alemanha, outros se uniram aos demais cruzados diante de São João de Acre, e muitos morreram às mãos dos muçulmanos. Os pobres que marchavam por conta própria se uniram aos cristãos da palestina e aos restos do exército alemão, e sitiaram São João de Acre. Algum tempo depois Ricardo Coração de Leão e Felipe Augusto se reuniram a eles. Diz-se que chegou a haver mais de meio milhão de sitiantes. Por fim, depois de dois anos de assédio, a cidade se rendeu. Felipe Augusto logo inventou desculpas para regressar à França, onde esperava se aproveitar da ausência de Ricardo para se apossar das possessões inglesas no continente. Ricardo Coração de Leão, por seu lado, permaneceu algum tempo na Terra Santa, onde passou a ser uma figura legendária. Mas seu único feito militar foi obrigar Saladino a levantar o sítio de Jafa. Por fim, por causa das notícias alarmantes que chegavam da França e da Inglaterra, ele decidiu regressar ao seu reino. Antes ele fez um acordo com Saladino, em que este se comprometia a respeitar os peregrinos cristãos que viessem com intenções pacíficas. E deixou a ilha de Chipre, que tinha conquistado, ao deposto rei de Jerusalém, Guido de Lusignan.

O regresso de Ricardo Coração de Leão às suas terras foi cheio de incidentes. Para evitar passar pelos territórios de Felipe Augusto ele tomou um caminho que o levou através da Áustria. Ali ele foi aprisionado, e o imperador não o deixou prosseguir antes que se declarasse seu vassalo e lhe prometesse um resgate enorme.

Se bem que as duas cruzadas anteriores não tiveram grandes resultados positivos, a próxima teve negativos. A quarta cruzada foi convocada por Inocêncio III, em quem, como veremos mais adiante, o poder do papado chegou ao seu apogeu. Neste caso a intenção não era atingir a Terra Santa, mas atacar os muçulmanos no centro do seu poder, o Egito. Esperava-se que desta maneira a reconquista de Jerusalém fosse mais fácil e duradoura. E em vez de deixar o empreendimento em mãos de príncipes o papa se declarou seu único chefe legítimo, mostrando como na terceira cruzada os interesses temporais dos reis tinham levado ao desastre. Como na primeira cruzada os soldados de Cristo marchariam sob as ordens diretas dos legados papais.

O mais famoso pregador desta nova aventura foi Foulques de Neuilly, homem de origem humilde que nos lembra Pedro, o Ermitão. Apesar de sua vestimenta ser mais moderada que a de Pedro, pois ele evitava usar as roupas sujas e grosseiras que tinham feito o Ermitão famoso, em sua pregação Foulques foi muito mais radical. Seu grande tema era a usura. Naquela época o desenvolvimento da economia monetária tinha dado lugar ao sistema, tão comum para nós, em que o dinheiro, além de ser um meio de trocas, era objeto de comércio. Os ricos utilizavam seu dinheiro para ficarem mais ricos, enquanto os que se viam obrigados a tomar emprestado ficavam empenhados para o resto das suas vidas. Contra este crescente costume desumano Foulques arremeteu com valentia. A riqueza mal obtida, conseguida através da exploração dos fracos, deve ser devolvida e repartida entre os pobres, que são os eleitos de Deus.

Aquela pregação inflamada poderia ter causado a condenação do pregador em qualquer outro tempo. Mas uma das características mais notáveis de Inocêncio III era saber reter no seio da igreja, e utilizar para seus propósitos hierárquicos, os elementos aparentemente mais anarquistas. Como veremos mais adiante, foi isto que ele fez com São Francisco de Assis. No caso de Foulques o papa lhe pediu que pregasse a nova cruzada. Isto era do agrado de Foulques, que imediatamente se dedicou a anunciar um grande empreendimento em que os pobres, por causa da eleição divina, eram os únicos que poderiam derrotar os infiéis. Para sustentá-los Foulques arrecadou o “tesouro da cruzada”. E assim qualquer guerreiro hábil, por mais pobre que fosse, poderia participar diretamente daquele projeto. E os que não pudessem ir pessoalmente poderiam oferecer seu apoio econômico, mesmo se fosse tão pequeno como a oferta da viúva.

Assim ele reuniu um grande exército, tanto de pobres como de nobres, disposto a marchar sob a direção do papa. Para providenciar transporte foi negociado com a República de Veneza, cuja frota deveria levá-los para o Egito. Como pagamento por este serviço os venezianos pediam que, a caminho do Egito, os cruzados se detivessem em uma cidade que os húngaros lhes tinham tirado, e a devolvessem a Veneza. A princípio Inocêncio se opôs ao uso dos soldados de Cristo contra os húngaros, que também eram cristãos. Mas mais tarde, temeroso que o exército se desfizesse antes de embarcar, ele concordou. Os cruzados reconquistaram a cidade, devolveram-na aos venezianos, e se preparavam para prosseguir em seu caminho.

Enquanto isto, porém, outras negociações secretas estavam tendo lugar. O trono de Constantinopla estava em disputa, e um dos pretendentes tinha pedido a Inocêncio que o ajudasse, prometendo-lhe que assim que cingisse a coroa colocaria a igreja grega sob a autoridade papal. Inocêncio lhe prometeu ajuda, mas rejeitou seu plano de que os cruzados, antes de ir para o Egito, passassem por Constantinopla e pusessem no trono o protegido do papa. Apesar da negativa do pontífice as negociações continuaram com os cruzados. O pretendente, que se chamava Aleixo, prometeu participar com eles da cruzada, e manter na Terra Santa um destacamento de pelo menos quinhentos cavaleiros. Além disto, parece que boa quantidade de ouro bizantino passou às mãos dos vários chefes da cruzada. O fato é que esta, em vez de se dirigir diretamente para o Egito, foi para Constantinopla, onde fez coroar Aleixo IV. Só que este não foi capaz de se manter no poder, nem de cumprir as promessas feitas. Depois de poucos meses ele foi deposto por Aleixo V. Os cruzados aproveitaram esta conjuntura para tomar a cidade de uma vez, depor o novo imperador, dedicar-se ao saque, e por fim eleger outro imperador. Este soberano, eleito por um colégio de seis venezianos e seis franceses, era Balduíno de Flandres.

Assim foi fundado o Império Latino de Constantinopla, que pretendia ser a continuação do Império Bizantino. Imediatamente foi nomeado também um patriarca latino, e deste modo, pelo menos em teoria, as igrejas do Ocidente e do Oriente ficaram unidas sob a obediência ao papa. A princípio este não recebeu com agrado as notícias do que os cruzados tinham feito. Mas mais tarde aceitou os fatos consumados, e chegou a pensar que a divina providência, em sua inescrutável sabedoria, tinha usado este meio para reunir a igreja sob um só cabeça.

Mas os bizantinos não aceitaram aquela surpresa como um fato consumado. Balduíno e seus seguidores puderam exercer sua autoridade somente na parte europeia do Império. E também ali o Epiro se fez independente sob o “déspota” – entenda-se “soberano” – Miguel I. Seu sucessor, Teodoro, tomou Tessalônica em 1224 e ali se fez coroar imperador. Este Império Bizantino de Tessalônica durou até 1246. Enquanto isto os bizantinos da Ásia Menor, sob a direção de Teodoro Láscaris, fundaram o Império Bizantino de Niceia. Apesar de ter de lutar contra os turcos do sultanato de Icônio a leste e contra os latinos a oeste, este império perdurou e a longo prazo se impôs. Em 1246 ele se apossou de Tessalônica e em 1261 de Constantinopla.

A aventura latina em Constantinopla tinha terminado. Mas seu preço foi altíssimo, pois a partir de então os bizantinos encaravam com muito receio os ocidentais. Além disto, seu poder foi quebrantado, o que facilitou a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453.

A quinta cruzada foi dirigida pelo “rei de Jerusalém” João de Brienne. Os cristãos tinham perdido Jerusalém já muitos anos antes, mas este título ainda era conservado. Com o propósito de recuperar sua suposta capital, João comandou esta cruzada, que atacou primeiro o Egito. Sua única conquista foi a fortificação de Damieta, em 1220.

A sexta cruzada foi dirigida por um imperador excomungado, e apesar disto deu melhores resultados que quase todas as anteriores. O imperador Frederico II tinha feito o voto de partir em uma cruzada. Sua demora e outros motivos de tensão levaram Gregório IX a excomungá-lo e a declarar que qualquer expedição dirigida por ele estaria desobedecendo ao papa. A resposta do imperador foi empreender então o que por tanto tempo tinha sido postergado. Na Terra Santa fez com o sultão um tratado mediante o qual o imperador recebia Jerusalém, Belém, Nazaré e os caminhos que uniam estas cidades com São João de Acre. Em troca disto Frederico se comprometeu a respeitar a vida e os bens dos muçulmanos, e evitar que os cristãos enviassem novas expedições contra o Egito. Depois o imperador entrou na Cidade Santa e, por não encontrar ninguém que se dispusesse a fazê-lo, ele mesmo se coroou rei de Jerusalém. Quando recebeu notícias do que tinha acontecido Gregório se enfureceu, e protestou contra o que para ele era uma conspiração satânica entre um soberano cristão e um infiel. Mas as massas da Europa viram em Frederico o “libertador de Jerusalém”, e o receberam como tal.

A sétima cruzada foi empreendida por Luís IX da França (São Lu (s) e era dirigida contra o Egito. Seu único resultado foi a reconquista de Damieta, que tinha sido perdida. Mas em Mansura o rei e boa parte do seu exército foram feitos prisioneiros, e obrigados a pagar um alto resgate.

A oitava cruzada, dirigida também por São Luís, terminou quando este morreu de peste em Túnis, em 1270. Em resumo, as cruzadas foram um grande movimento em que o fervor popular se mesclou com as ambições dos grandes. Julgadas à luz dos seus próprios objetivos, podemos dizer que, exceto a primeira e a sexta, todas fracassaram. Poucos anos depois o único vestígio da passagem dos cruzados pela Terra Santa era algum castelo ou templo em ruínas. Mas apesar disto as cruzadas tiveram grandes consequências.

As ordens militares

Uma das consequências mais notáveis das cruzadas foi a formação das ordens militares. Estas eram ordens monásticas, com os votos tradicionais de pobreza, obediência e castidade. Mas sua característica peculiar era que, seguindo o espírito das cruzadas, dedicavam-se à guerra. Vemos; portanto, neste fenômeno mais um exemplo da incrível flexibilidade do monasticismo. O antigo movimento dos ascetas do Egito tomou funções muito variadas em diversos tempos.

Às vezes se transformou no braço missionário da igreja; outras, seu cérebro; mas neste caso se transformou no braço que tomou a espada para defender os peregrinos. A ordem de São João de Jerusalém começou quando um grupo de monges que estava encarregado de um hospital decidiu se dedicar também à proteção dos peregrinos que viajavam de Jafa para a Cidade Santa. São conhecidos também como “hospitalários” e como “cavaleiros de Malta”, porque depois que caiu a última fortaleza cristã na Terra Santa, em 1291, eles se transferiram para Rodes e dali para Malta. Sobre o talar monástico, cortado de maneira que facilitasse cavalgar, levavam a cruz que é conhecida como “cruz de Malta”.

A ordem dos templários e a dos cavaleiros teutônicos seguiram um padrão semelhante. Em fins do século XII os cavaleiros teutônicos se transferiram para a Alemanha, e desta base se dedicaram a forçar a conversão dos eslavos e de outros povos vizinhos.

Cada uma destas ordens tinha um “grão-mestre”, que era ao mesmo tempo ministro geral da ordem monástica e general em chefe dos seus exércitos. Depois de terminadas as cruzadas muitas destas ordens militares passaram a fazer intrigas políticas na Europa. Por esta razão, e porque tinham muitas riquezas, vários reis as suprimiram em seus países, e confiscaram seus bens.

Outras consequências das cruzadas

As cruzadas tiveram consequências importantes para a vida da igreja e da Europa. A primeira destas consequências foi a crescente inimizade entre o cristianismo latino e o orientaI. Em seus inícios as cruzadas surgiram, pelo menos em parte, do desejo de acudir em auxílio do Império Bizantino, ameaçado pelos turcos. Mais tarde ficou provado que os latinos também eram uma ameaça séria para este Império. Esta inimizade não se limitou ao plano político. Os cristãos gregos, vendo os abusos cometidos centra eles por seus supostos irmãos do Ocidente, ficaram convencidos ele que não queriam união alguma com este tipo de gente. Até então muitos gregos tinham suspeitado que o cristianismo ocidental tivesse alguma coisa de herético. A partir das cruzadas eles não tinham mais a menor dúvida.

As cruzadas também serviram para prejudicar a vida dos cristãos que viviam em terras de muçulmanos. Quase todos os governantes islâmicos se tinham mostrado relativamente tolerantes para com os cristãos e os judeus. Mas durante as cruzadas muitos cristãos atraiçoaram seus governantes muçulmanos, e ainda mais se uniram aos cruzados nas matanças de turcos e árabes nas cidades conquistadas. Em consequência, quando o poder islâmico ficou restaurado, e as cruzadas perderam seu ímpeto, os seguidores do Profeta se mostraram muito menos tolerantes do que antes. Em vários lugares houve matanças de cristãos, e em todo o Oriente Próximo as leis que os colocavam em desvantagem em relação aos muçulmanos foram aplicadas com maior rigidez. A longo prazo o resultado de tudo isto foi que as antigas igrejas da região perderam muito do seu contato com o restante da cristandade, e se transformaram em pequenos núcleos cuja preocupação principal era sobreviver e conservar suas tradições.

Na Europa ocidental as cruzadas contribuíram para aumentar ainda mais o poder do papa. Como, pelo menos teoricamente, estes grandes empreendimentos militares estavam sob o comando do papa, que as convocava e cujos líderes deveriam ser seus representantes, o papado se converteu cada vez mais em uma autoridade internacional, capaz de julgar entre os soberanos das diversas nações. Quando Urbano II convocou a primeira cruzada sua autoridade estava sendo posta em dúvida, principalmente na Alemanha, onde continuavam os conflitos entre o papado e o Império. Quando a quarta cruzada tomou Constantinopla Inocêncio III, que na época ocupava o trono de São Pedro, gozava de um poder nunca antes alcançado por papa algum.

No que se refere à devoção, as cruzadas também tiveram grandes consequências para a cristandade ocidental. As viagens constantes para a Terra Santa, e as histórias cheias de prodígios que de lá vinham, despertaram no povo o desejo de saber mais sobre a realidade física de Jesus, dos profetas, e dos grandes heróis do Antigo Testamento. Não é por pura coincidência que Bernardo de Claraval, o pregador da segunda cruzada, foi também um grande místico dedicado à contemplação da humanidade de Cristo. A partir de então boa parte da devoção voltou-se para esta contemplação. Foram escritas meditações, poemas e sermões em que cada um dos episódios da paixão era narrado com todos os detalhes. Pela mesma razão o culto de relíquias, que tinha raízes antigas, aumentou. Da Terra Santa vinham supostos pedaços da Santa Cruz, ossos dos patriarcas, dentes de João Batista, leite da Virgem, etc.

Também a vida intelectual sofreu o impacto das cruzadas. Do Oriente chegaram novas ideias. Algumas delas consistiam em velhas heresias que de alguma maneira tinham sobrevivido no Oriente, e contra as quais a igreja ocidental teve de lutar. Destas a mais notável foi a dos albigenses. Durante séculos existira na Bulgária um forte grupo de hereges cujas doutrinas eram semelhantes às dos antigos maniqueus, e que recebiam o nome de “bogomiles”. Estes eram dualistas, crendo que o espírito era bom e a matéria má, razão pela qual rejeitavam tanto o Antigo Testamento como a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Para eles Jesus era um mensageiro celestial que, sem ter carne humana, tinha vindo para trazer a mensagem da salvação. Na Bulgária os bogomiles tinham seus próprios bispos, cultos e ordenações. Através do contato que os cruzados estabeleceram entre eles e a Europa Ocidental o bogomilismo afluiu para esta. Ali seus principais centros foram o norte da Itália e o sul da França. Como a cidade de Albi foi o mais famoso destes centros, os bogomiles foram chamados de “albigenses”, além de “cátaros”, que quer dizer “puros”.

Os albigenses aparentemente apelaram ao entusiasmo religioso popular da época. Muito do ímpeto que antes levara os “patares” em sua oposição ao matrimônio eclesiástico agora se derramou a favor do catarismo, principalmente porque os cátaros, por causa da sua aversão à matéria, rejeitavam o matrimônio. Entre as classes baixas do sul da França, exacerbadas pelos ideais da reforma gregoriana, porém ao mesmo tempo excluídas de qualquer participação ativa na vida da igreja, o movimento avançou com passos gigantescos. O conde Raimundo IV de Toulouse saiu em sua defesa.

A reação contra os albigenses não se fez esperar. Esta reação se apresentou principalmente sob três formas. As duas primeiras são de tal importância que temos de tratar delas separadamente em outras seções desta história. Trata-se da Inquisição e das ordens mendicantes. A terceira, dado o espírito da época, era de se esperar. Esta consistiu na grande cruzada que Inocêncio III promulgou. Em 1209 os ambiciosos nobres do norte da França, sob o pretexto de suprimir a heresia, se lançaram sobre o sul do país. A matança, tanto de albigenses como de cristãos ortodoxos, foi enorme. Várias cidades foram totalmente destruídas. A partir de então o catarismo perdeu seu impulso inicial, se bem que continuaram existindo albigenses dispersos por diversas regiões da Europa ocidental, pelo menos até o século XV.

O impacto intelectual das cruzadas não se limitou à introdução da heresia. Também chegaram à Europa ideias filosóficas, princípios arquitetônicos ou matemáticos, costumes e gostos de origem muçulmana. Mas neste sentido o impacto islâmico se fez sentir mais através da Espanha que como consequências das cruzadas. Sobre isto falaremos no próximo capítulo.

Por último, as cruzadas têm relações complexas com uma série de mudanças econômicas e demográficas que ocorreram na Europa ao mesmo tempo. As cruzadas contribuíram para elas, mas houve muitos outros fatores, e os historiadores não concordam sobre a importância relativa de cada um. Em todo caso a época das cruzadas também é o do crescimento das cidades e da economia mercantil. Até então a única fonte importante de riqueza era a terra, e por isto os nobres e prelados que a possuíam eram os únicos donos do poder econômico. O desenvolvimento da economia mercantil, no entanto, deu lugar a novas fontes de riqueza: a manufatura e o comércio. Isto, por sua vez, contribuiu para o crescimento das cidades, onde apareceu a nova classe dos “burgueses”, ou seja, os habitantes dos burgos. Estes em sua maioria eram comerciantes cujo poder econômico e político os foi fazendo cada vez mais capazes de enfrentar a nobreza e, em certa medida, a igreja. Séculos depois, através da Revolução Francesa e de outros acontecimentos, a burguesia acabou triunfando sobre a nobreza.

Por enquanto, as cruzadas foram mais uma expressão dos altos ideais que dominaram a vida da igreja durante os séculos XI, XII e XIII. E a maioria dos seus contemporâneos não encarou seu fracasso como um revés destes ideais, mas como o resultado inevitável da sua própria falta de fé e fidelidade. No seu parecer a culpa dos reveses não era que os altos ideais estavam errados, mas a baixeza dos seres humanos a quem cabia pô-los em prática.

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