A reconquista espanhola

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), páginas 085 a 107.

“O rei ia tão fraco, Nada mais já sentia; (…) / Ia tão tinto de sangue Que uma brasa parecia (…). / ‘Ontem eu era rei da Espanha, / Hoje nem de uma vila’. / Ontem, vilas e castelos; / Hoje, nada possuía.”

Romance de Dom Rodrigo

Em 711 as hostes muçulmanas cruzaram o estreito de Gibraltar e se puseram a conquistar o reino visigodo. Em poucos anos se apossaram de toda a península ibérica, exceto dos rincões mais remotos da Galícia e das Astúrias, que não foram conquistados não porque os muçulmanos não podiam fazê-lo ou porque houvesse neles fortes núcleos de resistência, mas porque o reino dos francos, além dos Pirineus, era mais apetecível. Quando os invasores foram derrotados por Carlos Martel em 732, seu primeiro ímpeto conquistador tinha passado, e por isto os pequenos centros cristãos do norte do país puderam conservar sua independência. Foi daqueles núcleos que partiu a reconquista do setor ocidental da península, enquanto que a das regiões orientais teve lugar com o apoio dos francos.

Os primeiros séculos

A lenda posterior faz com que os oito séculos que transcorreram entre a queda do reino visigodo e a tomada de Granada pareçam ser uma guerra santa constante contra os mouros, mas a realidade histórica é outra. Boa parte da reconquista não passou de expansão da crescente população cristã para regiões quase totalmente despovoadas. Os conflitos armados entre cristãos e muçulmanos raras vezes parecem ter tido razões religiosas. Houve com frequência alianças entre governantes mouros e cristãos; e em muitos casos estas alianças eram seladas com casamentos. Só ocasionalmente estes casamentos requeriam a conversão de uma das partes. Além disto, sempre houve nas terras dos mouros bom número de cristãos, que eram chamados de “moçárabes”. E da mesma forma, à medida que a reconquista avançava, houve muçulmanos que permaneciam em suas antigas terras. Estes muçulmanos que viviam em territórios cristãos receberam o nome de “mudejares”.

Os primeiros anos de domínio árabe na Espanha foram turbulentos. A maior parte das tropas que tinham invadido o país compunha-se de soldados marroquinos. Por esta razão na Espanha o termo “mouro” veio a ser sinônimo de “muçulmano”. Mas acima destes soldados estava a antiga aristocracia islâmica, formada por árabes, sírios e egípcios. Entre estes diversos grupos havia tensões cujo resultado foi a instabilidade política. De Damasco os califas se esforçavam por manter a ordem. Mas a distância e outras circunstâncias condenavam seus esforços ao fracasso. A consequência da desordem, e da escassez econômica, foi que muitos mouros regressaram para a África.

A situação era esta quando houve uma grande revolução no mundo islâmico. A velha dinastia dos om fadas foi derrotada pelos abássidas, que mataram quase todos os omíadas e estabeleceram sua capital em Bagdá. Um sobrevivente da família deposta, Abderraman, conseguiu escapar da Síria e, depois de peripécias novelescas, chegou à Espanha. Ali ele se aproveitou da confusão reinante, e da sua estirpe ilustre, para se apossar do poder e assim fundar o Emirado de Córdoba, independente do Califado de Bagdá. Foi ele quem começou a construção da grande mesquita de Córdoba, que ainda hoje é um dos grandes monumentos arquitetônicos da Espanha. Em 929 um dos seus sucessores, Abderraman III, tomou o título de califa, fundando assim o Califado de Córdoba.

Enquanto isto os cristãos tinham consolidado seu poder em uma faixa de território ao norte da península. O extremo ocidental desta faixa constituía o reino das Astúrias, fundado em 718 pelo nobre visigodo Pelágio. Foi sob o reinado de Pelágio que teve lugar o que a tradição chama de “batalha” de Covadonga, que aparentemente para os muçulmanos não passou de escaramuça fronteiriça. Em todo o caso, a partir de então o reino das Astúrias foi se expandindo para o sul e o leste. As fronteiras estavam mal definidas, e repetidamente os mouros penetraram em território asturiano, chegando a tomar e destruir as cidades de Oviedo e Leão.

Durante o reinado de Afonso I, neto de Pelágio, teve lugar um acontecimento de grande importância para a história da Espanha: o “descobrimento” do sepulcro de São Tiago. Pelo menos é isto que cronistas posteriores dão a entender, pois foi mais tarde, no século IX, que as peregrinações ao sepulcro de São Tiago começaram a aumentar. Através de todo o resto da Idade Média somente Roma e Jerusalém podiam rivalizar com Santiago de Compostela como centros de peregrinação.

Isto teve importância enorme para aquele pequeno reino das Astúrias, pois a suposta presença nele dos restos do apóstolo Tiago lhe dava certa independência eclesiástica em relação a Toledo, que na época estava em poder dos muçulmanos. Sob o regime visigodo, Toledo tinha sido a sede primaz da Espanha. Seus arcebispos exerciam autoridade sobre todo o país. Só que agora a cidade era dominada pelos muçulmanos, e os asturianos não queriam se submeter a um arcebispo que por sua vez estava sob o regime islâmico. Em parte devido ao suposto sepulcro de São Tiago, as Astúrias chegaram a ter seu próprio arcebispado.

reis-das-asturiasAlém disto, as peregrinações a Santiago voltaram a unir a Espanha com o restante da Europa. O constante fluxo de peregrinos trouxe à península a arquitetura, as letras, a teologia e as ordens monásticas dos países que ficavam além dos Pirineus. O caminho para Santiago, conhecido às vezes simplesmente como “o Caminho”, foi a artéria que manteve vivos os pequenos reinos cristãos, que de outro modo teriam ficado ilhados do restante da cristandade.

Imagem relacionadaNa imagem, São  Tiago Matamouros. A lenda posterior está convicta que a Reconquista pôde ser levada a bom termo graças à intervenção milagrosa de São Tiago. Símbolo disto é a suposta batalha de Clavijo, onde se diz que o apóstolo desceu do céu montado em um brioso corcel, e dirigiu os cristãos em uma grande vitória sobre os mouros. Daí vem o nome de “São Tiago Matamouros”. Tudo isto não passa de uma fábula religiosa. Mas o que é certo é que as peregrinações para Compostela, para onde acudiam devotos dos cantos mais remotos da Europa, foram um dos principais fatores que deram origem à Espanha de hoje.

A expansão do reino das Astúrias foi tal que Garcia I, filho e sucessor de Afonso III, se transferiu para Leão. A partir de então o que hoje é Galícia, Astúrias, Leão e parte de Castela pertenceu a este novo reino de Leão, cujos soberanos logo tomaram o título de “imperadores” em oposição ao título igualmente universal de “califas” tomado por Abderraman III e seus sucessores.

A região de Castela recebeu este nome por causa dos muitos castelos que foi necessário construir nela. Tratava-se de uma região fronteiriça escassamente povoada. Para assegurar sua posse, os reis de Leão facilitaram a construção de castelos ali, e estimularam a migração para lá, outorgando “forros” ou direitos especiais aos que ali se estabelecessem. O resultado foi que os castelhanos logo começaram a evidenciar um espírito insubmisso. Sob Fernando González, personagem histórico a quem a lenda atribui toda sorte de feitos, o condado de Castela proclamou sua independência. Mesmo não havendo dúvida de que Fernando Gonzáles foi um grande personagem, e o fundador da posterior grandeza de Castela, suas principais lutas não foram contra os mouros, mas contra os soberanos de Leão e Navarra. Uma vez mais, o processo de reconquista não se baseou sobre um grande sentimento de que o grande inimigo era o poderio islâmico, mas sobre a força expansiva do condado de Castela.

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Enquanto tudo isto acontecia nas Astúrias, Leão e Castela, outro reino cristão tinha aparecido mais a leste, o de Navarra. No princípio ali não houve mais que outro foco de resistência contra o invasor muçulmano, e por isto a história daqueles primeiros anos é incerta. Mas em princípios do século X, com Sancho I, o reino de Navarra aparece na história da Espanha como uma região que, sem conseguir conquistar grandes faixas de terra dos mouros, mesmo assim se transforma em uma potência, devido a toda uma complexa série de enlaces matrimoniais, o contato com os francos, e a suas armas, que se impõem sobre outros territórios cristãos. No ano 1000 subiu ao trono de Navarra Sancho III, o Maior, que conseguiu reunir sob seu governo também Castela, Aragão e vários outros territórios que antes tinham pertencido aos francos. Quando ele morreu Navarra, Castela e Aragão foram divididos entre seus três filhos, recebendo cada um o título de rei. Foi assim que os condados de Aragão e Castela passaram a ser reinos.

Fernando, o rei de Castela, logo se apossou também de Leão (1037), e depois declarou guerra a seu irmão Garcia, que governava em Navarra. Este morreu no campo de batalha, e seu reino se declarou vassalo de Fernando. Portanto pela primeira vez os territórios cristãos desde a Galícia até os Pirineus estavam unidos sob um só governo. Mas a leste, em Aragão, reinava o irmão de Fernando, Ramiro. E ainda mais a leste, ao longo da costa do Mediterrâneo, havia vários condados de origem franca, dos quais o mais importante era o de Barcelona.

Foi então que a reconquista recobrou novas forças.

A reconquista depois da morte de Almançor

De 711 até 1002 os muçulmanos constituíram o principal poder na península ibérica. Unidos sob a direção de Abderraman I, eles tinham conseguido se estabelecer nos melhores territórios do país, e ali tinham desenvolvido uma civilização e uma economia florescentes. Mesmo que as lutas dinásticas sempre continuaram, estas não debilitaram o califado a ponto de os cristãos poderem se apoderar dos territórios. As aparentes conquistas até princípios do século XI na maior parte eram terras escassamente povoadas, às quais os mouros não davam a menor importância. Em outros lugares, como na região da Catalunha, foi o poderio franco, e não os descendentes dos antigos visigodos, que obrigou os mouros a se retirarem.

Em fins do século X a situação começou a mudar. As dificuldades dinásticas entre os mouros aumentavam, enquanto os cristãos começavam a se unir sob o comando de reis como Sancho III de Navarra e seu filho Fernando I de Leão e Castela. Por algum tempo o ministro Almançor, sem tomar o título de califa, regeu os destinos do califado, e dirigiu várias campanhas que causaram grande inquietação entre os cristãos. Em 997, por exemplo, seus exércitos saquearam Santiago de Compostela. E suas tropas participaram das diversas guerras que os cristãos encetavam uns contra os outros.

Depois da morte de Almançor, em 1002, a situação mudou radicalmente. O califado se desintegrou. Os mouros, cansados da dominação árabe, dividiram seus territórios em um grande número de estados independentes, os chamados “reinos de taifas” (de uma palavra árabe que quer dizer “grupo” ou “facção”). Ao mesmo tempo, primeiro sob Sancho III de Navarra e depois sob seu filho Fernando I de Leão e Castela, os cristãos puderam apresentar uma frente relativamente unida. O resultado foi uma nova etapa na reconquista.

Os reinos de taifas, apesar da sua divisão e da consequente debilidade, eram na maior parte centros de riqueza e cultura. A civilização muçulmana da época estava muito mais desenvolvida que a cristã, e nos reinos de taifas eram produzidas grandes obras de arte, assim como mercadorias de alto valor. Por isto, aproveitando sua superioridade política, os soberanos cristãos impuseram tributos aos seus vizinhos do sul. Em vez de conquistar suas terras, obrigavam-nos a pagar grandes somas anuais. Suas guerras e conquistas se limitavam ao necessário para garantir o pagamento deste tributo. Fernando I, por exemplo, conquistou algumas pequenas áreas dos mouros. Mas seu interesse principal era obrigar os reis de taifas a pagar tributo, como o fez com os de Toledo, Saragoça e Sevilha.

As novas riquezas que os cristãos espanhóis conseguiram desta forma lhes serviu para travar relações mais estreitas com o restante da Europa. No campo eclesiástico, foi introduzida na região a reforma monástica de Cluny, para seguir em termos gerais o caminho de Santiago. O mesmo sucedeu com a arquitetura, que sofreu ao mesmo tempo a influência da Europa cristã e a dos muitos artistas e artesãos mudejares que se puseram a serviço dos senhores cristãos. Assim foi criada uma arte tipicamente espanhola, diferente tanto da puramente europeia quanto da muçulmana.

Fernando dividiu seus territórios entre seus três filhos, Sancho, Afonso e Garcia. Logo ressurgiram as lutas fratricidas, pois Sancho destronou seus irmãos, que se refugiaram entre os mouros. Enquanto Sancho sitiava a cidade de Samora, que era fiel a Afonso, foi assassinado, e seu irmão passou a ocupar o trono de Castela e o título de Afonso VI.

Era a época de Rui Dias de Vivar, mais conhecido como EI Cid, cuja história ilustra as condições reinantes. Se tentamos separar a verdade da lenda, encontramos em Rui Dias um personagem característico da época. Soldado valente e hábil, seus inimigos, tanto mouros como cristãos, o temeram e respeitaram. Seu sentimento de lealdade fica manifesto no episódio de Santa Gadea de Burgos, onde ele obrigou o rei Afonso VI a jurar que era inocente do fratricídio de que era acusado. Mas o mesmo episódio também mostra o alto grau de independência que os grandes senhores tinham, com um poderio militar tal que se podiam negar a aceitar a autoridade do rei. O nome “Cid” é de origem árabe, e quer dizer “senhor”. Este nome assinala outro fato da vida de El Cid: apesar de ser um dos grandes heróis do período da reconquista, ele passou boa parte da sua carreira a serviço dos mouros, e não faltaram ocasiões em que lutou contra os cristãos. O que hoje para nós, com uma perspectiva de séculos, nos parece ter sido um grande empreendimento de reconquista, estava oculto às pessoas daquele tempo em meio a intermináveis contendas, alianças e questões dinásticas.

Na época de Afonso VI teve lugar a primeira grande conquista de um reino de taifa. Em 1085 os castelhanos tomaram a cidade de Toledo. A notícia comoveu os mouros, pois Toledo, a antiga capital dos visigodos, ainda era uma cidade de relativa importância. E ainda mais, Afonso ao entrar em Toledo declarou que era capaz de conquistar qualquer reino de taifa, e imediatamente exigiu tributo aos de Sevilha, Saragoça e Granada. Nestas circunstâncias, ao ver perigar a pouca independência que lhes restava, alguns dos chefes mouros apelaram aos almorávidas.

Almorávidas e almoadas

Enquanto os territórios muçulmanos na Espanha tinham estado sob o domínio dos pequenos reinos de taifas, tinha surgido no norte da África o movimento dos almorávidas. Estes, de origem berbere, tinham conseguido impor sua autoridade sobre Marrocos, Tunísia e boa parte da África central, até o Senegal. Seu islamismo era mais fanático e intolerante que o dos regimes anteriores, e para eles suas conquistas tinham o caráter de guerra santa.

O rei mouro de Sevilha apelou ao chefe destes almorávidas, Iusuf, para que viesse à Espanha para conter o avanço das tropas de Afonso VI. lusuf cruzou o estreito de Gibraltar em 1086 e derrotou os cristãos na batalha de Salaca. Já dois anos depois os reis mouros se viram obrigados a pedir novamente sua ajuda. Então Iusuf regressou à Espanha e se dedicou não só a conter o avanço cristão, mas também a conquistar os diversos reinos de taifas em que o país estava dividido. Em 1090 ele tornou Granada, e no ano seguinte Córdoba se entregou. Depois seguiram Sevilha, Badajoz, Valência (onde EI Cid tinha morrido três anos antes), Saragoça e outras cidades menores.

Apesar de todas estas conquistas os almorávidas nunca chegaram a conquistar Toledo, cuja queda tinha sido o sinal de alarma que lhes abriu o caminho para a Espanha. Os cristãos reorganizaram seus exércitos, e estabeleceram alianças entre si. E também apelaram ao restante da Europa.

O resultado de tudo isto foi que a guerra assumiu um caráter religioso. Como dissemos anteriormente, até este momento a expansão dos reinos cristãos em geral não tinha se baseado em um espírito de reconquista religiosa. Mas agora, diante do fanatismo dos almorávidas, os cristãos começaram a desenvolver um fanatismo semelhante. De outras regiões da Europa vieram cavaleiros dispostos a lutar no que parecia ser uma cruzada ocidental. O espírito de uma “reconquista” consciente se apossou da Espanha cristã, e por seu lado o conflito também assumiu o caráter de guerra santa que tinha para os almorávidas.

Esta situação teve outro resultado interessante para a vida da igreja espanhola. Na guerra de reconquista os espanhóis precisavam do apoio do restante da Europa cristã. Por isto estreitaram os laços com a França e com Roma, e tomaram medidas para que a igreja espanhola se adaptasse totalmente à cristandade ocidental. Uma destas medidas foi a influência crescente da reforma monástica de Cluny. Depois de pouco tempo a maioria dos bispos seguiu a inspiração cluniacense. A outra medida importante foi a supressão crescente da “liturgia moçárabe”. Esta era na realidade a antiga liturgia ou ordem de culto que a igreja espanhola tinha seguido desde antes das conquistas muçulmanas. Depois destas conquistas os cristãos submetidos ao regime islâmico continuaram utilizando a mesma liturgia. Já que estes cristãos eram chamados de “moçárabes”, esta ordem de culto logo recebeu o nome de “liturgia Moçárabe”. Nas terras reconquistadas pelos cristãos este ritual continuara a ser utilizado, pois ele estava profundamente arraigado entre o povo. Agora, com relações cada vez mais chegadas com Roma, a tendência foi de suprimir esta ordem de culto, e impor a romana. Além do ressentimento que isto causou houve outra consequência menos imediata, mas não menos notável. A liturgia moçárabe fazia muito mais uso do Antigo Testamento do que a latina. Por isto sua supressão teve a tendência de cortar cada vez mais o contato dos cristãos com o Antigo Testamento, e pode ter sido uma das razões por que mais tarde prevaleceram na Espanha as mesmas atitudes contra os judeus que tinham existido muito tempo antes em outras regiões da Europa.

O regime almorávida não durou muito. Em 1118 o rei de Aragão, Afonso I, o Batalhador, conquistou Saragoça. Pouco depois Afonso VII de Castela começou novamente a empurrar as fronteiras para o sul. Tudo isto era possível porque dentro do mundo muçulmano, na África, um novo grupo tinha se levantado, que tentava tirar o poder dos almorávidas. Tratava-se dos almoadas, tão fanáticos como os anteriores. Já em 1145 os almoadas fizeram sentir sua presença na Espanha, e em 1170 expulsaram definitivamente os almorávidas.

Os almoadas não conseguiram unificar os diversos partidos maometanos que existiam na Espanha, e por isto logo apareceram pequenos reinos no estilo dos do período dos taifas. Apesar disto eles conseguiram derrotar Afonso VIII de Castela em Alarcos, e os cristãos se viram fortemente pressionados em diversas frentes. Mas o fato de que a guerra passara a ser uma questão religiosa uniu os soberanos de Leão, Castela, Navarra e Aragão, que na batalha de Navas de Tolosa, em 1212, derrotaram definitivamente os almoadas.

A partir de então a reconquista fez rápidos progressos. Em 1230 os reinos de Leão e Castela se uniram definitivamente sob Fernando III. Este rei, conhecido como São Fernando, tomou Córdoba em 1236 e Sevilha em 1248. Pouco antes, entre 1160 e 1180, tinham sido fundadas as grandes ordens militares de Calatrava, Alcântara e Santiago, no estilo das ordens semelhantes que já vimos quando tratamos das cruzadas. Algumas destas ordens chegaram a ser poderosíssimas, e a possuir grandes extensões de terreno. A partir de 1248 o único estado islâmico que restava na Espanha era o reino de Granada. Este talvez poderia ter sido conquistado então; mas os reis de Castela se limitaram a lhe exigir tributo. Os territórios recém-conquistados eram muito extensos, e o processo de sua assimilação demasiado complexo para que eles se pudessem lançar imediatamente à conquista de Granada. Quase completa, a reconquista se deteve, para ser empreendida novamente, quase dois séculos e meio depois, por Isabel de Castela. Neste período intermediário os cristãos guerreavam entre si, permitindo aos mouros que se fortificassem em Granada. É nesta época que se queixa o poeta Pedro López de Ayala:

Esqueceram-se das guerras contra os mouros por fazer, Aqui em outras terras planas se puseram a comer. Alguns já são capitães; fazem os outros correr. Sobre os pobres sem culpa se acostumaram a se manter. Os cristãos têm as guerras, os mouros estão folgados; Em todos os seus reinos já têm reis dobrados. E tudo isto vem por causa de nossos pecados; Nós somos contra Deus, em todas as coisas errados.

O impacto da Espanha na teologia cristã

Enquanto todos estes acontecimentos estavam tendo lugar, e enquanto alguns cristãos diziam que os mouros não passavam de infiéis ignorantes, a verdade é que em muitos sentidos a civilização muçulmana do sul da Espanha estava mais adiantada que a do restante da Europa. Havia lá grandes médicos, arquitetos e matemáticos, dos quais os cristãos tinham muito a aprender. Mas principalmente, para o que nos interessa aqui, havia filósofos notabilíssimos, cujo impacto se faria sentir em toda a teologia cristã ocidental. Entre estes os mais importantes foram o muçulmano Averróis e o judeu Maimônides, os dois de Córdoba.

Averróis nasceu em Córdoba em 1126. Apesar de ter estudado medicina, jurisprudência e teologia, foi no campo da filosofia que ele mais se destacou. Dedicou-se a estudar e comentar as obras de Aristóteles, e teve tanto êxito que a posteridade o conheceu como “o Comentarista”. Para ele o conhecimento filosófico estava acima do religioso, pois o primeiro se baseava na razão, e o segundo na fé. Isto queria dizer que quem quisesse compreender o Corão adequadamente teria de fazê-lo “filosoficamente”. O que ele queria dizer com isto nunca ficou bem claro, pois Averróis sempre tentou aplacar a ira das autoridades muçulmanas. Em todo caso ele aparentemente quis dar a entender que a fé era o meio de conhecimento dos ignorantes ou de escassa capacidade intelectual, enquanto os mais privilegiados deveriam preferir a razão.

Outra área em que Averróis se chocou com os Iíderes religiosos do seu tempo era a doutrina da eternidade do mundo. Os muçulmanos, assim como os cristãos. acreditavam que Deus tinha feito o mundo do nada. Averróis, com base nos seus estudos de Aristóteles, chegou à conclusão de que a matéria era eterna.

Também no que se refere à vida depois da morte, Averróis diferia da ortodoxia maometana. Para ele, também com base em Aristóteles, todas as almas humanas (que ele chama de “intelecto ativo”) não passam de manifestações de uma única alma universal. Por isto, quando o indivíduo morre, sua alma se reintegra neste grande oceano que é a alma universal.

Maimônides era contemporâneo de Averróis, se bem que alguns poucos anos mais jovem. Quando os almoadas se apossaram de Córdoba e trouxeram consigo uma atitude intolerante em relação aos judeus, Maimônides e sua família partiram da Espanha. Mas apesar disto suas obras foram muito lidas no país. Na sua opinião não há um verdadeiro conflito entre a fé e a razão. O que acontece é que há certos temas que a razão não consegue investigar adequadamente. Assim, por exemplo, no que refere à eternidade do mundo ou da matéria, a razão não pode chegar a uma conclusão segura. Mas com base na fé sabemos que o mundo foi feito do nada.

As obras destes filósofos, e de muitos outros de menor importância, passaram da Espanha para o restante da Europa. Contribuiu para isto uma grande escola de tradutores fundada em Toledo. Ali as obras dos grandes filósofos da antiguidade grega, e de seus comentaristas e rivais muçulmanos e judeus, foram traduzidas para o latim. Mais adiante veremos o grande impacto que estas obras tiveram sobre a Europa, onde boa parte da discussão teológica do século XIII girou ao redor delas.

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Uma resposta a A reconquista espanhola

  1. Avides disse:

    Bem interessante os conteúdos do seu site/blog!!
    Vou seguir, tem em ajudado bastante…

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