A era dos sonhos frustrados: João Wycliff

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 081 a 091.

“Fui acusado de esconder, sob uma máscara de santidade, a hipocrisia, o ódio e o rancor. Temo, e com dor confesso, que isto me tenha acontecido com muita frequência.” (João Wycliff)

O curso ininterrupto da nossa narrativa levou-nos a continuar a história do papado e do movimento conciliar até princípios do século XV. Nesta narrativa nos referimos repetidamente às tentativas de reforma que caracterizaram o movimento conciliar. Vimos que esta reforma não era dirigida contra questões de doutrina, mas mais contra a vida religiosa na prática, em particular contra abusos como a simonia, o absentismo, etc. Mas ao mesmo tempo que ocorriam os acontecimentos que acabamos de narrar havia outro movimento de reforma muito mais radical, que não se contentava com atacar as questões referente à vida e aos costumes, mas que queria corrigir também as doutrinas da igreja medieval, ajustando-as mais à mensagem bíblica. Dos que seguiram este caminho os que mais se destacaram foram João  Wycliff e João Huss. Wycliff viveu durante a época do “cativeiro babilônico” do papado, e do início do Grande Cisma. Huss, a quem dedicaremos o próximo capítulo, terminou a carreira no concílio de Constança.

Vida e obra de Wycliff

Imagem relacionadaWycliff foi um destes autores cujos livros dão a entender muito pouco sobre eles mesmos. A citação que encabeça este capítulo é uma das poucas janelas que Wycliff abre para as profundezas do seu coração. E também ela nos diz somente o que poderíamos adivinhar facilmente: que seus sinceros esforços reformadores não estiveram isentos totalmente de pecado.

Por isto sabemos muito pouco da sua juventude. E mesmo se soubéssemos mais, este conhecimento talvez não fosse tão interessante, pois o pouco que sabemos parece indicar para uma infância típica em uma pequena aldeia da Inglaterra, e para uma juventude dedicada quase exclusivamente ao estudo.

A maior parte da sua vida transcorreu na universidade de Oxford, onde ele chegou a ser famoso por sua lógica e erudição. Revelou-se como homem dotado de uma mente privilegiada, disposto a se ater aos seus argumentos até as últimas consequências, e carente de humor. Um dos seus seguidores nos fala disto, contando que anos depois o arcebispo de Canterbury lhe disse que na sua opinião Wycliff era “um grande erudito, e muitos o consideravam um fígado perfeito“.

Wycliff saiu da universidade em 1371, para se colocar a serviço da coroa. Na época, como dissemos no nosso primeiro capítulo, havia tensões entre o trono inglês e o pontificado romano, particularmente com referência aos impostos que uma ou outra parte tentavam impor ao clero. Wycliff saiu em defesa da coroa, atacando a teoria que dizia que o poder temporal se deriva do espiritual. Dentro deste contexto ele começou a desenvolver suas teorias do “senhorio”, que abordaremos mais adiante. Ele participou também de uma embaixada que discutiu com os legados pontifícios os pontos em questão. Parece que sua lógica inflexível e sua falta de senso da realidade política o faziam pouco apto para a diplomacia, e por isto ele não voltou a ser enviado em missões semelhantes. A partir de então ele foi usado principalmente como o polemista demolidor que o poder secular empregava contra seus inimigos eclesiásticos.

Esta polêmica, porém, o rigor da sua lógica, seus estudos bíblicos, e o escândalo do Grande Cisma, que começou em 1378, o conduziram a posições cada vez mais atrevidas. Muitas das suas doutrinas sobre o “senhorio”, à medida que iam se desenvolvendo, atacavam não só o papa e os poderosos senhores da igreja, mas também o estado. Assim como o poder espiritual tinha seus limites, o temporal também os tinha. Por causa disto os nobres que antes o apoiavam foram se separando dele, deixando-o cada vez mais só.

Wycliff então se contentou com voltar para sua querida Oxford, onde tinha muitos seguidores e admiradores. Mas também ali o cerco se fechava. Suas doutrinas sobre a santa ceia se opunham aos ensinos oficiais da igreja. Seus ataques contra os frades, que tinham começado anos antes, lhe valeram muitos inimigos. Em 1380 o reitor da universidade convocou uma assembléia para discutir os ensinos de Wycliff sobre a ceia, e esta assembleia o condenou por estreita margem. Mesmo assim muitos em Oxford ainda o defendiam, e as autoridades não se atreviam a tomar atitudes contra ele. Durante vários meses ele esteve preso em sua casa, privado da liberdade, mas com permissão para continuar escrevendo seus livros, cada vez mais fogosos.

Por fim, em 1381, ele se retirou para sua paróquia de Lutterworth. O fato de Wycliff ter tido uma paróquia mostra até onde chegavam os excessos da época. Ele mesmo, que tanto os atacava, participava deles, se bem que não no grau extremo como muitos outros. Durante muitos anos, em sua mocidade, ele tinha custeado sua estadia em Oxford com o que recebia de um cargo eclesiástico. E mais tarde, quando se viu em dificuldades econômicas, ele trocou este cargo por outro menos lucrativo, recebendo certa quantia como compensação. É difícil ver a diferença entre isto e a simonia que os grandes prelados praticavam, a não ser em termos de quantidade. Quanto à paróquia de Lutterworth, esta lhe tinha sido concedida pela coroa em gratidão pelos serviços prestados. Nesta época este tipo de corrupção tinha chegado a tal ponto que quem não participasse dela, pelo menos em pequena medida, dificilmente poderia ocupar cargos eclesiásticos.

Em 1382, enquanto estava em Lutterworth, Wycliff teve sua primeira embolia. Apesar disto ele continuou escrevendo até sua morte, em 1384, em conseqüência de outra embolia. Já que faleceu estando em comunhão com a igreja, ele foi enterrado em terra consagrada. Anos depois, porém, quando o concílio de Constança o condenou, seus restos foram exumados e queimados, e suas cinzas lançadas no rio Swift.

Suas doutrinas

Wycliff começou sua carreira teológica como teólogo conservador. Em uma época em que, como veremos mais adiante, os teólogos mais modernos começavam a duvidar da síntese medieval da fé e da razão, Wycliff era, e continuou sendo durante toda a sua vida, um adepto firme desta síntese. Na sua opinião tanto a razão como a revelação nos dão a conhecer a verdade de Deus, sem que haja tensão entre as duas. E a razão é capaz de demonstrar a doutrina da Trindade e a necessidade da encarnação. A medida que suas opiniões iam ficando mais radicais, Wycliff foi reafirmando cada vez mais esta relação entre as duas maneiras de adquirir conhecimento, e por isto sua oposição às doutrinas geralmente aceitas se baseava tanto em que se opunham à Bíblia como em argumentos racionais.

Durante os primeiros anos de controvérsias, já que ele estava envolvido com a questão da autoridade do papa para impor tributos ao clero inglês, seu principal tema teológico foi a questão do “senhorio”. Em que consiste o senhorio legítimo? Quais são suas origens? Como é reconhecido? Em resposta a estas perguntas Wycliff declara que não há outro senhorio além do de Deus. Qualquer pessoa tem domínio ou senhorio sobre outra somente porque Deus lho concede. Mas existe também um senhorio falso e ilegal, puramente humano. Este é uma usurpação, em vez de ser senhorio verdadeiro. A Bíblia nos fornece um critério claro para distinguirmos entre os dois: Jesus Cristo, a quem pertence todo domínio, não veio para ser servido, mas para servir. Da mesma forma somente é legítimo o senhorio humano que se dedica a servir, e não a ser servido. Aquele que procura o seu próprio bem e não servir aos seus governados é tirania e usurpação. As autoridades eclesiásticas, portanto, o papado em particular, se empenham em impor impostos para proveito próprio, e não para servir aos que lhes estão subordinados, são ilegítimas.

Também é usurpação exigir poder sobre uma esfera mais ampla do que a que Deus nos conferiu. Por isto, se o papa quer extender sua autoridade além dos limites do espiritual, e aplicá-la em questões temporais, esta pretensão já faz dele um tirano e usurpador.

Naturalmente estas doutrinas foram recebidas com aprovação pelo poder temporal, que estava às voltas com uma amarga polêmica com o papa. Mas assim que os poderosos compreenderam as últimas consequências dos ensinos de Wycliff, eles começaram a abandoná-lo. E de fato os argumentos de Wycliff contra o papado também podiam ser aplicados ao poder temporal. Também este deveria ser medido pelo grau em que servia aos seus súditos. E também este se conteria em usurpador se tentasse extender sua autoridade para o campo espiritual.

Por isto não devemos nos admirar de que no fim da sua vida Wycliff estava totalmente abandonado pelos poderosos que antes tinham se alegrado com seus argumentos. A desculpa que eles deram foi que Wycliff se tornara herege. E não há dúvidas de que o mestre de Oxford se opunha a algumas doutrinas comumente aceitas na época. Mas também não há dúvidas de que os nobres receberam com alívio a oportunidade que Wycliff lhes dava de desculparem sua infidelidade. Isto ficou claramente visível depois da revolta dos camponeses que ocorreu em 1381. Apesar de Wycliff não ter tomado parte da revolta, nem sequer a incentivando, não faltaram os que viram nas exigências dos camponeses a relação com muitas coisas que ele tinha dito.

Com o passar dos anos, Wycliff foi dando cada vez mais ênfase na autoridade das Escrituras, em detrimento da do papa e da tradição eclesiástica. Ele concordava com o que Tertuliano tinha escrito, de que as Escrituras pertencem à igreja, e por isto devem ser interpretadas dentro dela e por ela. Mas não concordava que a igreja era a hierarquia eclesiástica. Acompanhando Agostinho, e se baseando em textos do apóstolo Paulo, ele chegou à conclusão de que a igreja era o conjunto de predestinados. A verdadeira igreja é invisível, pois na visível e institucional há perdidos ao lado dos que foram predestinados para a salvação. Isto está claro, porque apesar de ser impossível saber com certeza absoluta quem pertence a cada grupo, há indícios que podemos seguir, como a obediência à vontade de Deus. Com base nestes indícios podemos dizer com certeza que há muitos perdidos na hierarquia da igreja, que não fazem parte da verdadeira igreja, e a quem, portanto, as Escrituras não pertencem. Até o fim de seus dias Wycliff afirmou que o papa era um destes perdidos, e chegou a chamá-lo de anticristo.

Se a verdadeira igreja é composta de predestinados, e não de poderosos eclesiásticos, e se as Escrituras pertencem a esta igreja, conclui-se que é necessário traduzir a Bíblia ao vernáculo, à língua comum do povo, devolvendo-a assim a este. Foi por inspiração de Wycliff que a Bíblia foi traduzida para o inglês, depois de sua morte. E foi também pela mesma inspiração que em pouco tempo o país se viu invadido pelos “pregadores pobres”, ou lolardos, de quem falaremos na próxima secção.

O ponto em que os ensinos de Wycliff deram a seus inimigos a oportunidade de declará-lo herege, porém, foi sua doutrina sobre a presença de Deus na comunhão. Como já falamos, através dos séculos a ceia tinha sido o culto cristão por excelência, desde o início. Pouco a pouco ela foi adquirindo um sentido mágico, que no começo não tinha. No sentimento religioso popular surgiu a ideia de que o pão e o vinho se transformavam literalmente no corpo e no sangue de Cristo. Falamos desta controvérsia no volume III, quando tratamos da época carolíngia. Naquela época as superstições populares foram refutadas pelos melhores eruditos. Mas apesar disto elas continuaram se espalhando, e no século XIII o quarto concílio de Latrão promulgou a doutrina da transubstanciação, de acordo com o qual desaparece a substância do pão, quando é celebrada a ceia, e o corpo de Cristo ocupa seu lugar, apesar de continuar com a aparência de pão – tamanho, cor, sabor, etc. A mesma coisa era dita do vinho e do sangue do Senhor.

Wycliff rejeitou esta doutrina, não porque quisesse diminuir a importância da ceia, nem porque não cresse que houvesse nela um verdadeiro milagre, mas porque ela lhe pareceu contradizer a doutrina cristã da encarnação. Quando o Verbo se encarnou, ele se uniu a um homem. Esta união não destruiu a humanidade de Jesus Cristo. Afirmar o contrário seria cair em docetismo. De igual modo ocorre na ceia que o corpo de Cristo se une ao pão, sem que este deixe de ser o que era anteriormente. O corpo de Cristo está verdadeiramente presente, de um modo “sacramental” e “misterioso”; mas o pão também está presente. Sobre se o corpo do Senhor está também presente para os que participam da ceia sem ter fé, ou se, pelo contrário, esta presença depende da fé, Wycliff não se pronunciou com clareza. Como veremos mais adiante, no que se refere à maneira com que Cristo está presente na comunhão, as opiniões de Wycliff se assemelham muito às que manteria mais tarde Martinho Lutero.

Os lolardos

As doutrinas de Wycliff tiveram sua expressão no movimento dos “lolardos” – termo pejorativo que seus inimigos aplicavam para eles, e que se deriva de uma palavra holandesa que quer dizer “murmuradores”. Não há provas conclusivas de que o próprio Wycliff os tenha encaminhado à pregação. Mas de qualquer forma vários dos seus discípulos se dedicaram a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda em vida do mestre de Oxford. No começo, os principais lolardos eram pessoas que tinham estudado em Oxford, com Wycliff. Por causa disto sua pregação naturalmente estaria dirigida mais para a aristocracia do que para as classes populares. Parte da obra destes primeiros lolardos consistiu em traduzir as Escrituras para o inglês, como Wycliff tinha recomendado, e em percorrer o país, pregando. Mas em 1382 o arcebispo Guilherme Courtenay conseguiu que a universidade de Oxford condenasse o lolardismo, e a partir de então diversos dos primeiros membros do movimento o abandonaram. Alguns deles chegaram a persegui-lo. O resultado foi que o lolardismo, em suas origens um movimento acadêmico, se tornou cada vez mais popular. Apesar de contar ainda com adeptos entre a nobreza e o clero, a maior parte dos seus seguidores pertencia às classes menos letradas.

As doutrinas do lolardismo eram claras, taxativas e revolucionárias. A Bíblia deveria ser colocada à disposição do povo no vernáculo. As distinções entre o clero e os leigos, com base no rito de ordenação, eram contrárias às Escrituras. A principal função dos ministros de Deus deveria ser pregar, e eles deveriam estar proibidos de ocupar cargos públicos, pois “ninguém pode servir a dois senhores”. Além disto o celibato de sacerdotes, monges e monjas era uma abominação que produzia imoralidade, aberrações sexuais, abortos e infanticídios. O culto às imagens, as peregrinações, as orações em favor dos mortos e a doutrina da transubstanciação eram pura magia e superstição. Mais tarde, à medida que o movimento se distanciava das suas raízes acadêmicas, e havia nele menos pessoas capazes de orientá-lo através de estudos bíblicos e teológicos, começaram a surgir dentro dele grupos cujas teorias eram cada vez mais estranhas.

A perseguição não tardou. Os lolardos que ainda havia entre os nobres tentaram fazer com que o Parlamento mudasse as leis com respeito à heresia, mas não o conseguiram, e a maioria deles mais tarde se retratou e voltou ao seio da igreja oficial. Poucos ficaram firmes, e em 1413 e 1414 Sir John Oldcastle dirigiu um movimento rebelde fracassado. Três anos depois Oldcastle foi capturado e executado. A partir de então o lolardismo desapareceu quase completamente entre as classes letradas, mas continuou se espalhando entre os simples. Isto o tornou ainda mais radical. Quando em 1431 foi descoberta uma nova conspiração lolarda, seu propósito não era somente reformar a igreja, mas também derrubar o governo.

Apesar de serem perseguidos constantemente, os lolardos nunca foram totalmente extintos. Em princípios do século XVI o movimento recobrou forças, e o número de mártires executados por defender suas doutrinas aumentou consideravelmente. Mais tarde, o remanescente lolardo, que deve ter sido considerável, se misturou com os primeiros protestantes. Por isto, apesar de os sonhos de Wycliff e de seus primeiros seguidores serem temporariamente frustrados, a longo prazo eles se concretizaram na grande Reforma que comoveu a Inglaterra e toda a Europa no século XVI.

Mas bem antes da Reforma, os ensinos de Wycliff tiveram um eco na distante Boêmia.

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