A era dos sonhos frustrados: a alternativa mística

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 123 a 128

“A contemplação é um conhecimento superior aos diversos tipos de conhecimento …. É uma ignorância iluminada, um belo espelho onde brilha a eterna luz de Deus.” (João de Ruysbroeck)

Os séculos XIV e XV foram um período de muita atividade religiosa, mesmo em meio às suas muitas frustrações, e talvez em parte por causa delas. Tanto na Espanha como na Inglaterra e na Itália houve místicos notáveis cujas obras serviram de inspiração para várias gerações. Mas foi na Alemanha, nas margens do Reno em particular, que este movimento floresceu e realizou seus maiores feitos.

Durante toda a sua história o cristianismo contou com homens e mulheres cuja relação com Deus foi tal que receberam o título de “místicos”. Nesta história; porém, apareceram dois tipos diferentes de misticismo, entre os quais convém fazer distinção. Um é essencialmente cristocêntrico. Não pretende chegar a Deus através da contemplação direta, ou através de uma iluminação divina, mas através de Jesus Cristo. Sua contemplação tem por alvo os sofrimentos de Jesus, ou sua ressurreição e triunfo final. Exemplos deste tipo de misticismo são o Apocalipse, São Bernardo de Claraval e São Francisco de Assis. O outro tipo de contemplação se deriva principalmente da tradição neoplatônica. O propósito dos que seguem este caminho é ascender através da contemplação interna, até chegar à união com o Um inefável. Plotino, o grande mestre pagão deste tipo de misticismo, dizia que nesta união a alma chegava a um estado de êxtase. Mais tarde alguns dos seus seguidores foram inimigos encarniçados do cristianismo. Mas outros aceitaram esta fé, e desta forma este segundo tipo de misticismo foi introduzido na tradição cristã. Através do falso Dionísio, o Aeropagita, Gregório de Nissa, Agostinho e outros, o neoplatonismo se uniu a tal forma ao cristianismo que muitos chegaram a confundi-los. A partir de então grande parte dos místicos cristãos escolheu o segundo caminho, em lugar do cristocêntrico. Em alguns casos, como no de Boaventura no século XIII, os dois elementos se uniram, e este místico dedica belíssimos escritos à contemplação da paixão de Cristo, e outros ao processo de subir espiritualmente pelos degraus da hierarquia das coisas criadas, até chegar à contemplação do criador.

O grande mestre do misticismo alemão foi Eckhart de Hochheim, conhecido geralmente como Mestre Eckhart. Em fins do século XIII, quando tinha uns quarenta anos de idade, Eckhart foi enviado por sua ordem – a de São Domingos – para a universidade de Paris. Depois de completar ali os seus estudos ele foi nomeado provincial da Saxônia, e mais tarde vigário-geral da Boêmia. No exercício destes cargos ele demonstrou que seu misticismo não impedia que ele fosse um administrador prático e eficiente. Durante seus últimos anos coube-lhe viver na época do papado de Avignon, e ele sofreu muito com as circunstâncias que a igreja atravessava.

A doutrina mística de Eckhart é essencialmente neoplatônica. Seu ponto de partida é a contemplação da divindade, do Um inefável. Tudo que podemos dizer de Deus é inexato, e por isto, em certo sentido, falso. “Se eu digo: Deus é bom, isto não é verdade. Eu sou bom, Deus não”. Uma afirmação como esta pode ser mal interpretada, e de fato o foi. Naturalmente o que Eckhart queria dizer não era que Deus fosse mau, mas que qualquer linguagem que descreve Deus é analógica, e por isto inexata. Mas no fim das contas suas palavras deixam claro a direção em que ia seu pensamento, cujo propósito era exaltar Deus, mostrando que ele está acima de todo conceito humano, razão pela qual o verdadeiro conhecimento de Deus não é racional, mas intuitivo. Não podemos conhecer Deus estudando-o, mas vendo-o em contemplação mística.

Em Deus estão desde a eternidade todas as ideias de todas as criaturas. Já antes de criar o mundo Deus, como artífice supremo, tinha em sua mente a ideia de cada coisa que iria criar. Este é outro tema característico do cristianismo de tendência platônica. E com base nisto Eckhart chega a dizer:

Nesta verdadeira essência da divindade, que está além de todo ser e de toda distinção, eu não existia; desejei estar ali; conheci-me ali; quis criar ali o homem que sou. Por isto eu sou minha própria causa de acordo com meu ser, que é eterno, mesmo que não de acordo com minha origem, que é temporal.

Esta afirmação, e muitas outras semelhantes, fizeram com que Eckhart fosse acusado de ser herege. Dizia-se que ele estava ensinando a eternidade do mundo e das criaturas, e confundia Deus com o mundo de tal forma que incorria em panteísmo – a doutrina que as criaturas são parte da divindade. Ele era acusado particularmente de ter dito que a alma, ou parte dela, não é criada, mas eterna. Repetidamente Eckhart declarou que isto se baseava em interpretações falsas dos seus ensinos. A verdade parece ser que ele.

Mesmo sendo as acusações feitas contra Eckhart exageros ou interpretações erradas dos seus ensinos, não resta dúvida de que o misticismo deste mestre alemão era bem diferente do misticismo cristocêntrico de São Bernardo e São Francisco. Prova disto é que para Eckhart os lugares santos não tinha a importância que tinham tido para aqueles. Ele dizia que “Jerusalém está tão próxima da minha alma como o lugar em que estou neste momento”. Para isto não era necessário dirigir o olhar em direção a Jerusalém, nem para os acontecimentos que tiveram lugar ali. O importante é se dedicar à contemplação interna, “deixar-se levar”, e chegar a ver Deus “sem nenhum intermediário”.

Mesmo acusado de herege em vida, Mestre Eckhart teve muitos seguidores, especialmente entre os dominicanos. Os mais famosos destes foram João Tauler e Henrique Susso. Estes dois, apesar de serem menos eruditos que seu mestre, sabiam expor suas doutrinas de maneira que podiam ser compreendidas e seguidas por pessoas muito menos estudadas em questões teológicas, e por isto sua obra consistiu mormente em propagar os ensinos místicos de Eckhart.

Seguindo o curso do Reno mais para baixo, encontramos o lugar onde viveu o místico flamengo João de Ruysbroeck. É muito provável que Ruysbroeck tenha lido as obras de Eckhart, e as seguido em alguns aspectos, mas o misticismo do flamengo é muito mais prático que o do mestre alemão. Esta tendência foi levada mais além por Gerardo de Groote, outro místico flamengo sobre quem Ruysbroeck teve um forte impacto. Por causa da obra destes dois o que é chamado de “devoção moderna” tomou forma e se popularizou. Esta devoção consistia em levar uma vida de meditação disciplinada, orientada principalmente em direção à contemplação da vida de Cristo, e a imitá-lo. O escrito mais famoso desta escola é Imitação de Cristo, que até hoje continua sendo uma das obras de devoção mais lidas, tanto por católicos como por protestantes.

Parte da obra de Ruysbroeck e de seus discípulos consistiu em mostrar os erros dos “irmãos de espírito livre”. As doutrinas deste movimento não estão bem claras. Mas parece que se tratava de pessoas com tendências místicas que diziam que, por causa da sua experiência direta com Deus, eles não precisavam de meios como a igreja ou as Escrituras. Alguns chegavam a dizer que, como eram pessoas espirituais, podiam dar liberdade ao corpo para que seguisse suas próprias inclinações.

Uma conseqüência notável da obra de Gerardo de Groote foi o surgimento dos Irmãos da Vida Comum. De Groote renunciou ao rendimento eclesiástico que recebia, e passou a pregar contra os abusos eclesiásticos, e a exortar seus seguidores para que levassem uma vida de santidade e devoção renovadas. Em contraste com os que antes dele tinham pregado a mesma coisa, no entanto, de Groote não exigia de seus seguidores que se dedicassem à vida monástica, mas lhes dizia que deveriam continuar sua vida normalmente, e nela se dedicar à devoção, a não ser que tivessem uma vocação monástica. Apesar disto mais tarde muitos dos seus discípulos se dedicaram à vida monástica, seguindo a regra agostiniana. Mas nunca perderam seu interesse pela vida comum, e por isto os Irmãos da Vida Comum fundaram escolas que não tinham igual. Nestas escolas não educavam só os que queriam ser monges, mas também pessoas que tencionavam abraçar carreiras bem diferentes. Assim, ao mesmo tempo que estimulavam o estudo, promoviam a “devoção moderna”. Estas escolas foram um centro de renovação da igreja, pois nelas se formaram pessoas de espírito crítico e reformador. O mais famoso de seus alunos foi Desidério Erasmo, a quem voltaremos mais adiante.

A não ser em alguns poucos casos o misticismo alemão e flamengo dos séculos XIV e XV evitou os excessos do entusiasmo. A contemplação mística não tinha o propósito de produzir grandes emoções, mas uma paz interna. E a maneira utilizada não era tanto o estímulo das emoções, mas a meditação. Na opinião destes místicos chegava-se a Deus não pelos sentimentos, mas através do intelecto.

Este movimento não tinha a intenção de se opor à igreja, nem à sua hierarquia. Alguns dos seus líderes criticaram os abusos dos prelados, em particular o seu espírito de ostentação, mas com o passar do tempo a maioria encontrava uma resposta para esta situação, em termos de não mais atacá-la abertamente, mas se retirar para meditar. Se a igreja estava corrompida, o cristianismo ainda podia se sobrepor a esta corrupção seguindo o caminho da devoção moderna, e dedicando-se a imitar a Cristo. Por estas razões o movimento místico pôde continuar seu caminho sem que fosse perseguido como o foram reformadores no estilo de Huss e de seus seguidores.

Mas por outro lado o misticismo era uma ameaça, em um sentido mais profundo, não mais para os prelados corruptos, mas para a própria noção de igreja hierárquica como a conheceu a Idade Média. De fato, se o cristão chega ao nível supremo da vida espiritual chegando-se diretamente a Deus, a conclusão óbvia é que os sacramentos, a pregação e a comunhão com a igreja têm um valor secundário, ou pelo menos passageiro. O místico, em seu estado de contemplação perfeita, não precisa de sacerdotes que lhe ofereçam os sacramentos, nem de uma igreja que lhe mostre que caminho deve seguir, nem mesmo das Escrituras para lhe mostrarem qual é a vontade de Deus. Os místicos dos séculos XIV e XV poucas vezes chegaram a estas conclusões. Mas em suas doutrinas havia um fermento que mais tarde despedaçaria a autoridade da hierarquia eclesiástica, e em alguns casos até mesmo a da Escritura.

Podemos ver no misticismo, assim como já vimos no nacionalismo de que já falamos, os primeiros sinais da ruptura da unidade hierárquica que a igreja medieval presenciou.

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