A era dos sonhos frustrados: a teologia acadêmica

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 129 a 133.

“Todos têm um desejo natural de saber. Mas de que serve o conhecimento sem o temor de Deus? Sem dúvida um lavrador humilde que serve a Deus é melhor que um filósofo orgulhoso que … tenta entender o rumo do céu.”

(Imitação de Cristo)

A teologia acadêmica teve duas características principais depois de seu apogeu com Tomás de Aquino. A primeira foi uma tendência constante para as distinções cada vez mais sutis, as questões rebuscadas e escabrosas, e o estilo condensado e carregado. A segunda foi uma crescente separação entre a filosofia e a teologia, entre o que a razão pode descobrir e o que somente sabemos depois de Deus revelá-lo.

São Tomás de Aquino e seus contemporâneos tinham afirmado que entre a fé e a razão havia uma continuidade fundamental, de maneira que certas verdades reveladas – como a da existência de Deus – podiam ser conhecidas também através do uso correto da razão. Mas pouco depois da morte do grande mestre dominicano foi se abrindo um abismo cada vez mais profundo entre os dois tipos de adquirir conhecimento.

João Duns Escoto, o mais famoso dos mestres franciscanos desde o tempo de Boaventura, recebeu com toda a justiça o título de Doctor sutil. Este título lhe foi conferido como uma honra, mas na verdade é testemunho do maior defeito das suas obras. Sua sutileza e suas distinções constantes são tantas e tais que seus escritos somente podem ser compreendidos pelos especialistas que dedicaram longos anos ao estudo da teologia e da filosofia desta época. Em meio a todo o emaranhado de seus escritos, entretanto, uma coisa fica clara: Duns Escoto não concorda com os teólogos da geração anterior à sua, que criam que doutrinas como a da imortalidade da alma, ou da onipresença divina, podiam ser provadas de maneira racional. Escoto não nega estas doutrinas. Nem sequer nega que sejam compatíveis com a razão. Mas nega que a razão seja capaz de demonstrá-las. No máximo a razão pode chegar a provar que estas coisas são possíveis, mas não que são necessárias.

occamEsta tendência ficou mais clara na teologia de Guilherme de Occam e de seus contemporâneos e discípulos, nos séculos XIV e XV. Partindo da onipotência divina estes teólogos chegaram à conclusão de que a razão natural não pode provar absolutamente nada relacionado com Deus, nem com seus propósitos.

Quase todos estes teólogos estabelecem uma distinção entre o poder de Deus “absoluto” e seu poder “ordenado”. Se Deus é verdadeiramente onipotente isto quer dizer que ele pode fazer o que lhe agrada, de acordo com seu poder absoluto. Não existe nada que possa limitar este poder. Tanto a razão como a distinção entre o bem e o mal estão subordinadas a ele. Se ocorresse o contrário teríamos de dizer que o poder de Deus é limitado pela razão, ou pela ideia do bem. É somente por causa do seu poder ordenado que Deus age razoavelmente, e que Deus faz o bem.

Falando em termos estritos, na opinião destes teólogos, não se deve dizer que Deus sempre faz o que é bom, mas que tudo o que Deus faz é bom, seja o que for. É Deus quem determina o que é bom, e não vice-versa.

Da mesma forma não podemos dizer que Deus age de maneira razoável. Não é a racionalidade que faz com que Deus aja desta ou daquela maneira. Pelo contrário, é Deus, em sua vontade soberana, que determina em que consistirá a razão, e então, através do seu poder ordenado, age seguindo as diretrizes desta razão.

Em consequência, os antigos argumentos através dos quais os teólogos tentavam demonstrar que esta ou aquela doutrina era razoável ou “conveniente” perdiam todo seu valor. Tomemos como exemplo o problema da encarnação. Anselmo, e quase toda a tradição teológica a partir dele, tinha dito que a encarnação de Deus em um ser humano era razoável, porque a humanidade tinha uma dívida para com Deus que, por ser infinita, somente podia ser paga por Deus, e que, por ser humana, somente podia ser paga por um ser humano. Mas agora os teólogos dos séculos XIV e XV afirmam que tudo isto, que pode parecer muito racional do nosso ponto de vista, não o é se levamos em conta o poder absoluto de Deus. Com seu poder absoluto Deus poderia ter decretado que a dívida fosse cancelada, ou simplesmente declarado que o ser humano não era pecador, ou ter contado como mérito qualquer outra coisa que escolhesse, bem diferente dos méritos de Cristo. Por isto, o fato de sermos salvos por estes méritos não é porque tinha de ser assim, ou que a encarnação e os sofrimentos de Cristo tenham sido o meio mais apropriado, mas simplesmente porque Deus assim o determinou.

De igual modo também não podemos pensar que na criatura humana haja algo que a torne particularmente apta para a encarnação. A presença de Deus na criatura é sempre um milagre.  É um milagre tão grande que nada tem a ver com a capacidade do ser humano de receber o Criador. Por esta razão, continuando nesta linha de pensamento, houve discípulos de Occam que chegaram a dizer que, se Deus quisesse, poderia ter se encarnado em um burro.

Tudo isto não deve nos levar a pensar que estes teólogos fossem pessoas incrédulas que tinham prazer em fazer perguntas sutis só pelo prazer de fazê-las. Ao contrário, tudo que sabemos de suas vidas parece indicar que eram pessoas devotas e sinceras. Seu propósito era exaltar a glória de Deus. O Criador está a uma distância infinita da criatura. A mente humana é incapaz de penetrar os mistérios de Deus. A onipotência divina é tal que todos os nossos esforços de penetrar nela se deterão diante dela. Pretender que a maneira com que Deus age é eminentemente racional equivaleria a limitar a Deus, colocando a razão acima dele. Este era o teor da teologia da época.

Não se tratava, portanto, de uma teologia incrédula, disposta a crer somente o que a razão pudesse demonstrar, mas exatamente do contrário. Tratava-se de uma teologia que, depois de provar que a razão tem pouca serventia, colocava tudo nas mãos de Deus, e estava disposta a crer em tudo o que o Senhor tinha revelado; e crer não por ser racional, mas por ter sido revelado.

Disto concluímos que a questão da autoridade é de suma importância para a teologia dos séculos XI V e XV. Se não podemos provar pela razão que esta ou aquela afirmação é correta, deve haver autoridades infalíveis que nos deem a conhecer a doutrina verdadeira. Occam cria que tanto o papa como um concílio universal podiam errar, e que somente as Escrituras eram infalíveis. Mas algum tempo depois, à medida que o Grande Cisma do Ocidente levou o movimento conciliar ao seu auge, muitos teólogos começaram a pensar que um concílio universal era a autoridade suprema, e que qualquer oposição deveria cessar diante dele. Por esta razão no concílio de Constança os grandes teólogos Gerson e Ailly insistiam na necessidade de Huss se submeter ao concílio. Se ele tivesse oportunidade de demonstrar que a grande assembleia estava equivocada ao condená-lo, a autoridade do concílio cairia por terra. E como eles mesmos tinham dito que o poder da razão é muito pequeno, não restaria nenhuma alternativa para subsanar o cisma, reformar a igreja, ou determinar qual era a reta doutrina.

Por outro lado, esta doutrina dava muita importância à fé, não só como crença, mas também como confiança. Deus ordenou seu poder para nosso bem. E isto quer dizer que devemos confiar nas promessas de Deus, mesmo quando todas as considerações da razão nos levarem a duvidar delas. A onipotência divina é tal que está acima dos nossos inimigos. Os que confiam nela não serão desamparados. Este foi o tema característico de alguns teólogos anteriores à Reforma, e o veremos aparecer novamente em Martinho Lutero.

Mas por mais devotos que estes pensadores tenham sido, suas sutilezas e sua insistência em definições precisas e sutis não podiam deixar de provocar uma forte reação entre os que viam o contraste entre a complexidade da teologia acadêmica e a simplicidade do evangelho. Parte desta reação foi a “devoção moderna”, de que falamos no capítulo anterior. Desta devoção surgiu a Imitação de Cristo, livro que logo ficou muito popular, e que expressa no primeiro capítulo o que parece ter sido uma reação muito comum contra a teologia da época:

De que te adianta poder debater com profundidade sobre a Trindade, se te falta a humildade, e com isto ofendes a Trindade? As palavras altissonantes não fazem com que alguém seja santo e justo. A vida virtuosa é que faz com que sejamos agradáveis a Deus. É melhor sentir o arrependimento que saber defini-lo. Se soubesses de cor a Bíblia toda e tudo o que os filósofos têm dito, de que te adiantaria isto, sem o amor de Deus e sem a graça? Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade, exceto amar a Deus e servir somente a ele.

Em resumo, nos últimos séculos da Idade Média a escolástica seguiu um caminho que não podia deixar de provocar uma reação negativa por parte de pessoas devotas, que viam neste tipo de teologia um obstáculo à piedade, e não uma ajuda. Com sempre crescente insistência e urgência se fez ouvir o grito angustiado dos que pediam um retorno à simplicidade evangélica.

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