A era dos sonhos frustrados: o fim do Império Bizantino

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 167 a 172.

“Os turcos temem acima de tudo nossa união com os cristãos ocidentais …. Por isto, quando quiseres lhes inspirar terror, faze-os saber que vais reunir um concílio para chegar a um entendimento com os latinos. Pensa sempre neste concílio, mas nunca o convoques.” (Manuel II Paleólogo, a seu filho)

Os séculos XIV e XV foram tempos aziagos para o que restava do Império Bizantino. Como já dissemos no volume anterior, em 1204 os cruzados se apossaram da cidade de Constantinopla, e estabeleceram nela um imperador e um patriarca latinos. Em 1261 os gregos puderam novamente se apoderar da sua capital, e assim terminou o Império Latino de Constantinopla. Mas o mal estava feito. O velho Império Bizantino nunca recobrou sua glória perdida, e teve de se contentar em manter uma existência precária entre os ocidentais de um lado e os turcos de outro.

Nestas condições a questão das relações entre a igreja grega e a latina dominou o cenário religioso de Constantinopla. O receio do povo em relação aos latinos se tinha aguçado quando estes usaram a quarta cruzada para tomar Constantinopla, e depois lhe impuseram seus costumes, doutrinas e hierarquia eclesiástica. Os líderes bizantinos, tanto políticos como eclesiásticos, tinham os mesmos receios. Mas eles viam a necessidade de chegar a um entendimento com o cristianismo ocidental, para poder resistir aos ataques dos turcos. Por isto quando alguém propunha uma reunião com Roma, tratava-se sempre do imperador, o patriarca, ou algum outro civil ou clérigo de alto nível. E pelas mesmas razões todas estas propostas sucumbiam diante da firme vontade do povo, dos monges e do clero baixo, para os quais os latinos eram hereges e cismáticos, com os quais não se deveria ter contato algum.

A situação política ficava cada vez mais complicada porque, por ocasião da conquista latina de Constantinopla, tinham sido fundados diversos países que se separaram da antiga capital. Em Nicéia e Trebizonda houve impérios gregos rivais do latino de Constantinopla. No Epiro, na Mésia e em outras áreas do Egeu dos Estados menores tentavam continuar a herança bizantina. Quando Constantinopla voltou a cair nas mãos dos gregos alguns destes Estados se submeteram a ela. Mas muitos outros continuaram tendo sua existência independente, ou uma relação com a capital mais teórica do que real.

Em conseqüência os imperadores bizantinos eram senhores efetivos de pouco mais do que Constantinopla e circunvizinhanças. Pouco a pouco os turcos iam estreitando o cerco. E não parecia haver nenhuma defesa contra eles. Em meados do século XIV a situação piorou. Os turcos otomanos, que já tinham se apossado da Ásia Menor, atravessaram o Mar Negro e começaram a conquistar os Balcãs. Este era o único território que restava a Constantinopla, além de algumas ilhas no Egeu. Os genoveses se aproveitaram desta conjuntura e se apoderaram das principais destas ilhas, enquanto os turcos conquistavam toda a península balcânica, exceto o Epiro e o Peloponeso. O primeiro destes dois territórios seguiu um curso independente, até que foi conquistado primeiro pelos albaneses e depois, no século XV, pelos turcos. O segundo foi tomado pelos turcos em 1460, sete anos depois da queda de Constantinopla.

Privada de quase todos os seus territórios, e dividida por questões de sucessão ao trono, Constantinopla somente pôde resistir como Estado vassalo dos turcos, aos quais se via obrigada a pagar tributo. E esta situação também era extremamente precária, pois assim que os turcos se viram livres dos seus conflitos com os húngaros e os albaneses, era de se esperar que se voltassem contra Constantinopla. Já rodeada totalmente de territórios otomanos, como uma ponte entre a Ásia e a Europa, a velha capital de Constantino era um enclave nas possessões do sultão Baiaceto. No começo do século XV parecia que os turcos tomariam Constantinopla a qualquer momento.

Então aconteceu o imprevisto. Durante várias décadas os imperadores bizantinos tinham estado rogando ao Ocidente cristão que acudisse em sua defesa. Seus rogos não mereceram nenhuma resposta concreta. Mas no Oriente, entre os pagãos, se levantou o conquistador que, sem querer, prolongaria a vida de Bizâncio por mais meio século. Tamerlão, o terrível mongol que se propôs reconstruir o império de Gengis Cã, derrotou os turcos na batalha de Angora, na Ásia Menor, em meados de 1402. Isto deteve o avanço dos turcos. E apesar de Tamerlão ter logo abandonado a Ásia Menor, os turcos se viram depois disto divididos por uma guerra civil entre os filhos de Baiaceto. Quando por fim o sultão Maomé I saiu vencedor ele teve de dedicar seus esforços à consolidação do seu poder e a impor a ordem em seus territórios. Seu filho, Murad ll, sitiou Constantinopla em 1422. Mas um novo ataque mongol, e a rebelião de um de seus irmãos, o obrigaram a levantar o cerco. Do outro lado os húngaros e os albaneses também obtiveram vitórias importantes sobre os turcos. Assim, salva por acontecimentos inesperados, Constantinopla conseguiu prolongar sua existência. Mas em 1451 Maomé II sucedeu a Murad, quando este morreu. E seu grande sonho era fazer de Constantinopla uma cidade muçulmana, capital do império.

Enquanto isto os imperadores de Bizâncio não tinham outro recurso que recorrer ao Ocidente latino, na esperança de que talvez desse ouvidos ao seu clamor. Foi então que teve lugar a reconciliação entre os dois ramos da cristandade, no concílio de Ferrara-Florença, em julho de 1439. Mas isto não trouxe nada de proveitoso para a assediada Constantinopla, pois o papado não tinha o poder necessário para obrigar as potências ocidentais a enviar reforços à cidade assediada, e os gregos viram na ação de seu imperador e seus líderes eclesiásticos uma traição e uma capitulação diante da heresia. Em 1443 os patriarcas de Jerusalém, Antioquia e Alexandria, talvez em parte por pressão dos turcos, repudiaram o que tinha sido feito no concílio. Os russos reagiram da mesma forma. E assim Constantinopla se viu completamente só, dividida e assediada pelos turcos. A Constantino XI, que reinava na época na cidade de seu homônimo, o Grande, não restava outro aliado que o ocidente cristão, e por isto ele insistiu em seus planos de união. Em dezembro de 1452 foi celebrado em Santa Sofia a missa romana.

Resultado de imagem para Catedral de Santa SofiaOs dias de Constantinopla estavam contados. No dia 7 de abril de 1453 Maomé II sitiou a cidade. Para derrubar as muralhas ele usou peças de artilharia que engenheiros cristãos tinham feito para ele. Os sitiados se defenderam valentemente, mas sua situação era desesperadora, pois as muralhas não resistiam ao ataque da artilharia turca. No dia 28 de maio houve um culto solene na catedral de Santa Sofia. No dia 29 ocorreu o último assalto dos turcos. O imperador Constantino XI Paleólogo morreu defendendo a cidade. (Cinco séculos mais tarde este autor encontrou no cemitério de uma pequena igreja anglicana de uma ilha do Caribe uma lápide que dizia: “Aqui jaz o último descendente por linha direta de Constantino Paleólogo, o último imperador de Constantinopla“.) Os turcos irromperam através da muralha, e por três dias e três noites, como o sultão tinha prometido, a velha capital foi saqueada. Depois Maomé tomou formalmente posse dela, e Constantinopla foi transformada em Istambul, capital do Império Otomano. Na catedral de Santa Sofia, onde séculos antes João Crisóstomo tinha pregado, ressoava agora o nome de Maomé. O grande sonho de Constantino, de fundar uma nova Roma cristã, tinha terminado.

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