A era dos reformadores (VIII): a Reforma na Grã-Bretanha

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 121 a 143.

“São Paulo chama a congregação de ‘o corpo de Cristo’, com o qual indica que nenhum membro pode sustentar-se nem alimentar-se sem ajuda e o apoio dos demais. Por isso creio que é necessário, para a compreensão das Escrituras, uma reunião dos irmãos.” (João Knox)

Durante todo o século XVI, a Grã-Bretanha esteve dividida em dois reinos: o da Inglaterra, sob o regime dos Tudor, e o da Escócia, cujos soberanos pertenciam à dinastia dos Stuart. Ainda que as duas casas fossem aparentadas e posteriormente uma delas regesse ambos os impérios, as relações entre os dois países tinham sido muito tensas por longo tempo e, consequentemente, a Reforma seguiu na Escócia um curso distinto do que tomou na Inglaterra. Por isso, e para simplificar nossa narrativa, trataremos primeiro da Reforma na Inglaterra, e depois focalizaremos a Reforma na Escócia.

Henrique VIII

Resultado de imagem para Henrique VIIIAo começar o século XVI, a Escócia era aliada da França, e a Inglaterra da Espanha, a tal ponto, que as tensões políticas entre os dois grandes reinos do continente se refletiam nos seus dois congêneres insulares. Com a finalidade de fortalecer sua aliança com a Espanha, Henrique VIII que reinava na Inglaterra, contratou um casamento entre seu filho e presumido herdeiro, Artur, e uma das filhas dos Reis Católicos, Catarina de Aragão. O matrimônio aconteceu com grande pompa quando Catarina tinha só quinze anos, selando assim a amizade entre a Espanha e a Inglaterra. Porém, quatro meses depois Artur morreu e os Reis Católicos propuseram uma aliança entre a jovem viúva e o irmão mais novo de Artur, Henrique, que agora era o herdeiro do trono. O rei da Inglaterra, ansioso em conservar tanto a amizade da Espanha como o dote da princesa, venceu suas dúvidas. Diante do fato de que a lei canônica proibia que alguém se casasse com a viúva de seu irmão, se obteve uma dispensa papal e tão logo o jovem Henrique alcançou a idade necessária, casou-se com Catarina.

Este casamento não foi feliz. Mesmo que o Papa tivesse dado a dispensa, restavam dúvidas sobre se a proibição de casar-se com a viúva do seu irmão era da alçada da jurisdição pontifícia e, consequentemente, sobre a validade do casamento. Quando só um dos rebentos dessa união, a princesa Maria, conseguiu sobreviver, isto pareceu ser um sinal da ira divina. Era necessário que o Rei tivesse um herdeiro varão e, depois de muitos anos de casamento com Catarina, ficou claro que tal herdeiro não procederia desta união.

Diante de tal situação, foram propostas várias soluções. Uma delas, sugerida pelo Rei, era declarar legítimo seu filho bastardo, a quem dera o título de duque de Richmond. Roma não aceitou esse arranjo, e o cardeal que tratava com tais assuntos sugeriu a Henrique que casasse Maria com o bastardo. Porém tal matrimônio, entre meio irmãos, repugnava a Henrique, que decidiu solicitar a Roma a anulação do seu matrimônio com Catarina, para poder casar-se com outra. Segundo o que parece, ao fazer sua primeira petição de anulação, o Rei não estava enamorado de Ana Bolena e, portanto, o que o motivava eram razões do Estado e não do coração.

Tais anulações eram relativamente frequentes e o papa podia concedê-las por diversas razões. Neste caso, o que se argumentava era que, apesar da dispensa papal, o matrimônio de Henrique com a viúva de seu irmão não era lícito e, portanto, tinha sido sempre nulo. Mas havia outros fatores que nada tinham a ver com o direito canônico e que pesavam muito mais em Roma. O principal deles era que Catarina era tia de Carlos V, que, na época, tinha o papa praticamente em seu poder, e a quem sua tia já tinha recorrido para que a salvasse da desonra. Clemente VII não podia declarar nulo o matrimônio de Henrique com Catarina sem irar o poderoso Carlos V. Por esse motivo, deu tempo ao tempo, e até chegou a sugerir-lhe que ao invés de repudiar sua esposa, tomasse outra secretamente. Mas isso também não era aceitável para o Rei, que necessitava de ter um herdeiro publicamente reconhecido. Tomás Cranmer, o principal conselheiro do Rei nas matérias religiosas, sugeriu que se consultasse as principais universidades católicas, e as de maior prestígio – Paris, Orleans, Tolosa. Oxford, Cambridge, e até as italianas – e todas elas declararam que o matrimônio não era válido.

A partir de então Henrique VIII seguiu um caminho que não podia levar a outro lugar senão a um rompimento definitivo com Roma. Cada vez se insistia mais nas velhas leis que proibiam que se apelasse para tribunais estrangeiros. Ameaçando o papa com a retenção dos fundos que deveriam ir para Roma, conseguiu que esse aceitasse a nomeação de Tomás Cranmer, homem de espírito reformador, como arcebispo de Canterbury.

O Rei não sentia a mínima simpatia para com os protestantes. De fato, uns poucos anos antes tinha composto um trabalho contra Lutero, e havia recebido de Leão X o título de “defensor da fé”. Porém as ideias luteranas, unidas ao remanescente que vinha das de Wycliff, circulavam por todo o país, e os que as sustentavam se alegravam [alegavam?] dever o distanciamento progressivo entre o Rei e o papa. Deve ser lembrado também que o programa de Wycliff incluía uma igreja nacional, debaixo da direção das autoridades civis e também veremos até que ponto o que estava acontecendo na Inglaterra concordava com essas ideias. Além do mais, era conhecido de todos que Canmer participava do mesmo sonho de uma igreja reformada debaixo da autoridade real.

O rompimento definitivo deu-se em 1534, quando o Parlamento, seguindo os desejos do Rei, promulgou uma série de leis proibindo o pagamento das anuidades e de outras contribuições a Roma, declarando que o matrimônio de Henrique com Catarina não era válido e que Maria, consequentemente, não era herdeira do trono, fazendo do Rei a “cabeça suprema da Igreja da Inglaterra”, e declarando traidor todo o que se atrevesse a dizer que o Rei era cismático ou herege.

Hans Holbein, the Younger - Sir Thomas More - Google Art Project.jpgO personagem mais célebre que se opôs a tudo isso foi Sir. Thomas Moore, que havia sido chanceler do reino e amigo íntimo de Henrique VIII. Moore negou-se a jurar fidelidade ao Rei como “cabeça da igreja”, e por isso foi encarcerado. Durante seu aprisionamento, foi visitado por uma de suas filhas, a quem havia feito educar com melhores conhecimentos do humanismo de sua época. Conta-se que, quando sua filha insistiu para que ele se retratasse e aceitasse o Rei como o “cabeça da igreja”, citando muitos homens ilustres que o haviam feito, Moore lhe disse: “Não me é dado carregar minha consciência às custas de outro“.

Levado a juízo, o ex-chanceler se defendeu dizendo que ele nunca havia negado que o Rei fosse cabeça da igreja, mas que simplesmente se tinha negado a afirmá-lo, e que ninguém lhe poderia condenar por deixar de dizer algo. E quando então foi condenado à morte declarou abertamente que, para desafogar sua consciência, desejava deixar bem claro de que não cria que um leigo pudesse ser cabeça da igreja ou que houvesse reino humano algum com autoridade para estabelecer leis em matérias eclesiásticas. Cinco dias depois foi executado na torre de Londres, depois de anunciar: “Morro sendo servo do Rei, mas antes de tudo sou servo de Deus“. Em 1935, quatrocentos anos depois de sua morte, Thomas Moore foi declarado santo pela Igreja Católica.

O que estava acontecendo até agora não era mais que um cisma, sem nenhum conteúdo reformador e sem mais doutrinas que as necessárias para justificar o cisma em si mesmo. Mas havia muitos na Inglaterra que criam que era necessário reformar a igreja e que viam em todos esses acontecimentos uma grande oportunidade para fazê-lo. O principal deles, e certamente não o único, era Tomás Cranmer.

A atitude de Henrique VIII para com as questões religiosas era essencialmente conservadora. Ele mesmo parecia estar bem convencido de boa parte das doutrinas tradicionais. Porém não resta dúvida de que seus motivos últimos eram principalmente políticos. Assim é que, durante todo o seu reinado, as leis sobre matérias religiosas variavam segundo as necessidades do momento.

Naturalmente, tão logo foi feito “cabeça da igreja” Henrique declarou nulo seu casamento com Catarina e legalizou o que tinha secretamente com Ana Bolena. Mas Ana não lhe deu senão uma filha e posteriormente foi acusada de adultério e executada. O rei então se casou com Jane Seymour, que finalmente lhe deu um herdeiro varão. Quando Jane morreu, o Rei utilizou seu novo casamento para tratar de estabelecer uma aliança com os luteranos alemães, pois nesse momento se sentia ameaçado tanto pela França como por Carlos V. Casou-se então com Ana de Cleves, cunhada do príncipe protestante João Frederico, da Saxônia. Porém quando ficou claro que os luteranos insistiam nas suas posições doutrinais, e que Carlos V e Francisco I não chegavam a um acordo, Henrique se divorciou de Ana, e mandou decapitar o ministro que havia feito os acordos para o casamento. A nova rainha, Catarina Howard, pertencia ao partido conservador, e assim esse casamento trouxe um novo período de dificuldades para o partido reformista. Além do mais, Henrique fez um pacto com Carlos V para uma invasão conjunta da França. Visto que não tinha que temer o imperador, rompeu todas as suas negociações com os protestantes alemães e tratou uma vez mais de fazer com que a igreja da Inglaterra fosse semelhante à romana, exceto com referência à obediência ao papa, e os mosteiros, cujas propriedades o Rei tinha confiscado pouco antes e não tinha intenção alguma de devolver. Porém, Catarina Howard caiu em desgraça e foi decapitada e Carlos V, por razões de sua própria conveniência, rompeu sua aliança com a Inglaterra. A próxima e última esposa de Henrique VIII, Catarina Parr, era partidária da reforma. Os conservadores se viam numa situação cada vez mais difícil quando o Rei morreu no princípio de 1547.

Durante todo esse tempo, umas vezes com o apoio real, outras vezes sem ele, as ideias reformadoras iam-se posicionando no país. Cranmer tinha feito traduzir a Bíblia para o inglês e por mandado real uma grande Bíblia foi colocada em cada igreja, onde todos pudessem lê-Ia. Esta era uma arma poderosa nas mãos dos propagandistas da reforma, que iam de lugar em lugar assinalando os pontos nos quais as Escrituras lhes pareciam dar razão. A dissolução dos mosteiros privou o partido conservador de um de seus mais fortes baluartes. E os humanistas, que eram numerosos e influentes no país, viam na política real uma oportunidade de chegar a uma reforma sem os aparentes excessos dos protestantes alemães. O resultado foi que a morte de Henrique VIII trouxe ao partido reformador forte apoio em todo país.

Eduardo VI

Eduardo VI por Guillim Scrots em c.1547O sucessor de Henrique VIII foi seu único herdeiro varão, Eduardo, que era um menino muito enfermo. Sob a regência de seu tio, o duque de Somerset, que durou três anos, a Reforma marchou rapidamente. Começou-se a administrar a ceia de ambas as espécies, permitiu-se o matrimônio do clero, e foram retiradas as imagens das igrejas.

Porém, a medida mais notável deste período foi a publicação do Livro Comum de Oração, cujo principal autor foi Cranmer, que deu ao povo inglês, pela primeira vez, uma liturgia em seu próprio idioma. Ao mesmo tempo regressaram ao país muitas pessoas que se haviam exilado por questões religiosas, e que agora traziam ideias teológicas procedentes do Continente, em sua maioria calvinistas ou zwinglianas.

O duque de Somerset foi substituído pelo duque de Northumberland, homem menos escrupuloso que seu antecessor, mas que pareceu-lhe conveniente continuar o processo reformador. Sob sua regência foi publicada uma edição revisada do Livro Comum de Oração. A tendência zwingliana desta nova versão pode ser vista quando se comparam as palavras que o ministro deve dizer ao repartir o pão. No primeiro livro, essas palavras eram: “O corpo do nosso Senhor Jesus Cristo, que foi dado por ti, preserve teu corpo e alma para a vida eterna“. No segundo, o que se dizia era: “Toma e come isto em memória de que Cristo morreu por ti e alimenta-te dele em teu coração pela fé e com ações de graças“. Enquanto a primeira frase reflete um modo de entender a ceia que tanto pode ser católico como luterano, a segunda se inspira na posição de Zwínglio.

Essa diferença entre os dois livros de oração era o indicador do rumo em que estavam as coisas na Inglaterra. Os chefes do partido reformador, que se inclinavam cada vez mais para a teologia reformada, tinham amplas razões para esperar que sua causa triunfaria sem maior oposição.

Maria Tudor

Mas então, morreu Eduardo VI, que sempre gozou de pouca saúde, e o trono passou para Maria, a filha de Henrique VIII e de Catarina de Aragão. Maria tinha sido sempre católica, e para ele [ela?] o movimento reformador havia começado com a desonra que tinha sido objeto em sua juventude, quando foi declarada filha ilegítima. Logo, em sua mente sempre esteve o propósito de restaurar a velha fé. Para isso contava com o apoio de vários dos bispos conservadores, que tinham sido destituídos nos dois reinados anteriores e de seu primo Carlos V. Porém logo apercebeu-se que era necessário proceder com cautela e, assim, durante os primeiros meses de seu reinado se contentou com uma série de medidas relativamente leves, enquanto consolidava sua posição casando-se com Felipe, da Espanha.

Tão logo se sentiu segura sobre o trono, a rainha começou a tomar medidas cada vez mais repressivas contra os protestantes. Em fins de 1554, a Inglaterra regressou oficialmente à obediência ao papa. Todavia deveria ser desfeito aquilo que fora feito por seu pai e seu meio irmão e assim se ditaram várias leis ab-rogando as ações do Parlamento sob Henrique VIII e Eduardo VI, obrigando os sacerdotes casados a separarem-se de suas esposas, ordenando que se guardassem todos os dias santos e demais datas tradicionais, etc.

Imagem relacionadaDe tais medidas se passou à repressão aberta. Diz-se que durante o reinado de Maria, 288 pessoas foram queimadas por manter suas posições protestantes, além de muitos outros que morreram nos cárceres ou no exílio. Tudo isto lhe valeu o epíteto pela qual ela é conhecida: “Bloody Mary”, ou seja, Maria, a Sanguinária.

De todos os mártires do reinado de Maria, o mais ilustre foi sem dúvida alguma o arcebispo Cranmer. Por ser arcebispo de Canterbury, seu caso foi enviado a Roma, onde foi condenado a morrer queimado. Porém o propósito da rainha era obrigar o célebre chefe do partido reformador a retratar-se. Com cruel intenção, se lhe permitiu presenciar desde a prisão até o martírio de dois dos seus mais importantes companheiros na causa reformadora, os bispos Latimer e Ridley. A seguir, Cranmer assinou uma série de retratações. Até o dia de hoje os historiadores não concordam se ele fez isso por temer a fogueira ou porque foi forçado pela rainha, pois ele sempre havia dito que era necessário obedecer aos soberanos. O mais provável é que nem o próprio Cranmer conhecesse seus reais motivos. O fato é que se retratou por escrito e, apesar disso, foi condenado de qualquer maneira a ser queimado, “para que sirva de exemplo“, e se fizeram apelos para que se retratasse publicamente antes do suplício. Na igreja de Santa Maria tinham construído uma plataforma de madeira defronte ao púlpito e, depois do sermão, deu-se oportunidade a Cranmer para retratar-se. Começou falando de seus pecados e fraquezas, e todos esperavam que terminaria dizendo que havia pecado ao apartar-se da igreja romana. Porém para surpresa de seus verdugos, o que fez foi retirar sua retratação:

– Há um escrito contrário a verdade que tem sido publicado, e que agora repudio porque foi escrito por minha mão contra a verdade que meu coração conhecia. (…) E diante do fato-que foi minha mão que a ofendeu, ao escrever contra meu coração, minha mão será castigada primeiramente. Quando eu estiver na pira será ela que primeiro arderá.

Diante daquele ato de valor do bispo ancião, que de fato sustentou a mão no fogo até que se carbonizou, foram esquecidas as fraquezas de seus últimos dias e Cranmer foi considerado um herói nacional. Apesar do poder já estar nas mãos dos católicos, que se esforçavam por afogar o movimento protestante, já não havia mais dúvidas de que este já havia criado raízes profundas no país e seria difícil extirpá-lo.

Isabel I

Maria morreu em fins de 1558 e foi sucedida por sua meia irmã Isabel, filha de Ana Bolena. Carlos V havia sugerido repetidamente a Maria que fizesse executar Isabel. Porém a sanguinária rainha não se atreveu a tanto.

Da mesma forma que Maria tinha sido católica por convicção e por necessidade política, Isabel era protestante. Se o papa, e não o rei, era o cabeça da igreja na Inglaterra, seguia-se que o matrimônio de Henrique VIII com Catarina de Aragão era válido; e Isabel, nascida de Ana Bolena em vida de Catarina, era ilegítima. O papa, na ocasião, Paulo IV, deu mostras de estar disposto a declarar Isabel filha legítima de Henrique, se ela continuasse na fé romana. Porém, logo teve de abandonar essa esperança, pois a nova rainha nem sequer se dignou notificar-lhe da sua ascensão ao trono, e deu instruções ao embaixador inglês em Roma que regressasse ao seu país.

Entretanto Isabel não era uma protestante extremista. Seu ideal era uma igreja cujas práticas religiosas fossem uniformes, de modo que o reino ficasse unido, porém nas quais ao mesmo tempo fosse permitida uma boa liberdade de opiniões. Dentro dessa igreja, não teriam lugar nem o catolicismo romano nem o protestantismo extremo. Porém qualquer outra forma de protestantismo seria aceitável, sempre que se ajustasse ao culto comum da igreja anglicana.

Além da Lei da Uniformidade, o principal instrumento dessa política era o Livro Comum de Oração, que Isabel fez revisar e reeditar. Como sinal de sua política de inclusivismo teológico, é notável o modo pelo qual esta nova edição combina as duas formas que o ministro devia usar ao repartir o pão nos dois livros publicados sob Eduardo VI. Anteriormente citamos essas fórmulas, que neste livro isabelino foram combinadas, dizendo:

– O corpo de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi dado por ti, preserve teu corpo e alma para a vida eterna. Toma e come isto em memória de que Cristo morreu por você e alimenta-te dele em teu coração pela fé e com ações de graças.

Naturalmente, o propósito dessa dupla fórmula era acomodar as diversas opiniões dos que criam que a comunhão era simplesmente um ato de comemoração e dos que criam que nela se participava realmente do corpo de Cristo.

A mesma política pode ser vista nos Trinta e Nove Artigos, promulgados em 1562 para servir de base doutrinal à igreja Anglicana. Ainda que neles se repilam várias práticas e doutrinas católicas, não se faz esforço algum para tomar posições entre as alternativas protestantes. Pelo contrário, esses artigos são mais um intento de produzir uma “via média” da qual pudessem participar todos, menos os católicos mais recalcitrantes e os protestantes mais radicais.

Durante o reinado de Isabel o catolicismo continuou levando uma existência precária na Inglaterra. Alguns católicos tomaram por estandarte a causa de Maria Stuart, rainha exilada da Escócia, de quem trataremos na próxima seção deste capítulo, e que seria a herdeira do trono inglês se Isabel fosse considerada filha ilegítima de Henrique VIII. Ao redor dela se urdiram numerosas conspirações por parte dos católicos, a quem o papa havia declarado livres de toda obrigação de obedecer à rainha. Fora da Inglaterra, os chefes católicos exilados chamavam Isabel de herege e usurpadora, e sonhavam com sua queda e a coroação de Maria Stuart. Ao mesmo tempo, se fundavam seminários no exílio, cujos graduados regressavam clandestinamente à Inglaterra para administrar os sacramentos aos fiéis católicos. Muitos dos implicados nas diversas conspirações contra a rainha foram capturados e executados. A seguir, Isabel aceitou o conselho de seus achegados e ordenou que sua prima fosse executada. No total, o número de católicos justiçados durante o reinado de Isabel foi tão alto quanto o de protestantes que morreram debaixo de “Maria, a Sanguinária”. Porém deve-se ter em conta que Isabel reinou quase meio século e sua meia irmã pouco mais de três anos. Em todo caso, lá pelo final da vida de Isabel, os católicos davam sinais de estar dispostos a distinguir entre sua obediência religiosa ao papa e sua lealdade política à rainha. Essa foi finalmente a postura que lhes permitiu conviver na Inglaterra com seus concidadãos anglicanos.

Também nos fins do reinado de Isabel começaram a ganhar força os “puritanos”, pessoas de convicções reformadas ou calvinistas, que receberam esse nome porque insistiam na necessidade de restaurar as práticas e doutrinas do Novo Testamento em toda sua pureza. Visto que foi numa outra época que adquiriram verdadeira força, deixaremos sua discussão para outro volume de nossa história.

A Reforma na Escócia

O reino da Escócia, ao norte da Inglaterra, tinha seguido tradicionalmente a política de aliar-se à França para resistir aos ingleses, que desejavam apoderar-se de seus territórios. No século XVI, sem dúvida, o país se dividiu entre aqueles que seguiam essa política tradicional e aqueles que sustentavam que as circunstâncias haviam mudado e que era aconselhável estabelecer laços mais estreitos com a Inglaterra. Essa nova política ganhou um de seus maiores triunfos em 1502, quando Jaime IV, da Escócia, casou-se com Margarida Tudor, filha de Henrique VII da Inglaterra. Portanto, quando Henrique VIII chegou a ocupar o trono inglês, existia a esperança de que ambos os reinos pudessem por fim viver em paz. O próprio Henrique ofereceu a Jaime V, filho de Jaime IV e de Margarida e, portanto, sobrinho do rei da Inglaterra, a mão de Maria Tudor (a que mais tarde receberia o nome de “Maria, a Sanguinária”). Porém o rei da Escócia decidiu regressar à política

tradicional de aliar-se à França diante das pretensões inglesas, e por isso casou-se com a francesa Maria de Guisa. A partir de então, sua política se opôs constantemente à de Henrique, sobretudo no que se referia a suas relações com o papa e a reforma eclesiástica.

Enquanto tudo isso sucedia, o protestantismo ia penetrando no país. Desde muito antes, as ideias dos lolardos e dos hussitas haviam-se difundido na Escócia, de onde havia sido impossível desarraigá-las. Entre aqueles que sustentavam essas ideias, o protestantismo encontrou campo fértil. Assim, havia escoceses que, depois de estudar por algum tempo na Alemanha, regressavam a seu país e se dedicavam a divulgar as doutrinas e os escritos dos reformadores alemães. O parlamento escocês promulgou leis contra essas obras e contra os propagandistas protestantes. Em 1528, aconteceu o primeiro martírio de um desses pregadores itinerantes e, a partir de então, os justiçados foram cada vez mais. Porém tudo isso foi em vão. Apesar da perseguição, a nova doutrina se expandia cada vez mais pela Escócia.

Essa pregação protestante contava com poderosos aliados em muitos dos nobres, zelosos de suas velhas prerrogativas que a coroa tratara de usurpar, e nos estudantes das universidades escocesas, onde circulavam constantemente os livros e as ideias dos reformadores protestantes.

A morte de Jaime V em 1542, produziu uma luta pela regência, pois a herdeira do trono era a pequena Maria Stuart, filha do defunto rei, que contava com apenas uma semana de idade quando do falecimento de seu pai. Henrique VIII pretendia casá-Ia com seu filho Eduardo, herdeiro da coroa inglesa. Esses planos contavam com o apoio de certos nobres protestantes, que eram também anglófilos. Diante disso os católicos, francófilos, desejavam que a pequena rainha fosse enviada para a França para ali receber educação e contrair matrimônio com um príncipe francês.

O chefe do partido católico era o cardeal David Beaton, arcebispo de Santo André, que perseguia os protestantes e que enviou para a fogueira o famoso pregador Jorge Wishart. Diante disso um grupo de protestantes tramou uma conspiração e, em maio de 1546, apoderou-se do castelo de Santo André e matou Beaton. Dividido como estava, o governo pouco pôde fazer. Depois de sitiar o castelo por um breve tempo, e ver que era impossível tomá-lo, as tropas se retiraram, e os protestantes de todo o reino começaram a ver em Santo André o baluarte de sua fé.

Resultado de imagem para João KnoxEntão entrou em cena João Knox. É pouco o que se sabe da infância e juventude deste fogoso reformador, que logo se tornou o símbolo do protestantismo escocês. Nascido por volta de 1515, fez estudos de teologia, e foi ordenado sacerdote antes de 1540. Pouco depois era tutor dos filhos dos nobres que conspiravam a favor do protestantismo e estava em contato com Jorge Wishart (o mesmo que foi morto pelo cardeal Beaton). Quando os protestantes se apoderaram de Santo André, recebeu ordens de ir para o castelo com os jovens que estavam sob seu cuidado. Ainda que seu propósito fosse chegar à Alemanha, e ali dedicar-se ao estudo da teologia, ao chegar em Santo André viu-se cada vez mais envolvido nos acontecimentos que sacudiam a Escócia. Contra sua vontade, foi feito pregador da comunidade protestante, e a partir daí foi o principal porta-voz da causa reformadora na Escócia.

Os protestantes de Santo André puderam sustentar-se porque tanto a Inglaterra como a França passavam por momentos difíceis. Porém tão logo a França mandou reforços para o governo escocês, este enviou contra Santo André tropas bem armadas e o castelo teve que se render. Contra o que se estabelecera nos termos da rendição, Knox e vários outros foram condenados a remar nas galeras e, durante dezenove meses o futuro reformador sofreu os mais cruéis rigores. Por fim foi libertado graças à intervenção da Inglaterra, na época em que reinava Eduardo VI, e onde Knox foi ministro.

Esse interlúdio inglês terminou quando a morte de Eduardo VI colocou no trono inglês Maria Tudor, e começou à repressão contra o protestantismo nesse país. Knox partiu então para a Suíça, onde pode passar algum tempo com Calvino, em Genebra e em Zurich, com Bullinger, o sucessor de Zwínglio. Além disso fez visitas a Escócia, para fortalecer os crentes que havia deixado no país.

Enquanto isso, a vida política da Escócia tinha seguido seu curso normal. A pequena Maria Stuart tinha sido enviada à França onde gozava da proteção de seus parentes, os Guisa. Sua mãe da mesma família permaneceu na Escócia como regente. Em abril de 1558, Maria Stuart casou-se com o delfim, que pouco mais de um ano após foi coroado como Francisco II, da França. Assim, a jovem Maria com apenas dezesseis anos, era a rainha consorte da França e a rainha titular da Escócia. Porém tais títulos e honras não lhe bastavam, pois pretendia ser também a rainha legítima da Inglaterra. Maria Tudor, “a sanguinária”, tinha morrido em 1558, e fora sucedida por sua meia irmã Isabel. Porém se, como pretendiam os católicos, Isabel era ilegítima, o trono seria dela, Maria Stuart, bisneta de Henrique VII. Portanto, tão logo morreu Maria Tudor, Maria Stuart tomou o título de rainha da Inglaterra. Na Escócia, governada pela rainha mãe como regente, o partido católico e francófilo ocupava o poder e isso por sua vez obrigou os chefes protestantes a unirem-se mais estreitamente entre si, e nos fins de 1557 os principais estabeleceram um pacto entre si, um pacto solene. Visto que se comprometeram a “promover e estabelecer a mui bendita Palavra de Deus, e sua congregação”, se lhes deu o nome de “lordes da congregação”. Estes lordes ao mesmo tempo perceberam que sua causa era paralela à dos protestantes ingleses; portanto, aproximaram-se deles. A regente deu instruções para que apertasse a perseguição contra os “hereges”, porém eles não se deixaram amedrontar, e em 1558 se organizaram como igreja. Pouco antes disso haviam escrito à Suíça, pedindo o regresso de Knox.

No exílio, Knox tinha escrito um ataque violento contra as mulheres que na ocasião governavam na Europa: a regente Maria de Lorena, na Escócia; a sanguinária Maria Tudor, na Inglaterra e a temida Catarina de Médicis, na França. Sua obra O primeiro toque de clarim contra o regime monstruoso das mulheres, apareceu em mau momento, pois apenas começava a circular na Inglaterra quando morreu Maria Tudor e lhe sucedeu Isabel. Mesmo que o livro fosse dirigido contra sua meia irmã, muito do que se dizia nele, num tom marcadamente antifeminino, poderia aplicar-se igualmente à nova rainha. Isto dificultou a aliança natural que deveria haver existido desde o princípio entre Isabel e Knox, que repetidamente se desculpou e se retratou do que havia escrito em seu livro.

Enquanto isso, a situação estava cada vez mais difícil para os protestantes na Escócia. A regente pediu e obteve tropas da França para esmagar os lordes da congregação. Estes obtiveram vitórias contra os invasores. Porém seus exércitos, carentes de recursos econômicos, não poderiam sustentar-se por muito tempo. Os protestantes apelaram repetidamente para a Inglaterra, fazendo-lhes ver que, se os católicos conseguissem esmagar a rebelião religiosa na Escócia, esse país cairia em mãos católicas e estreitamente ligadas à França, assim a coroa de Isabel perigaria. Knox que havia regressado um pouco antes, sustentava os protestantes com seus sermões e a força de sua convicção. Por fim, no começo de 1560, Isabel decidiu enviar tropas à Escócia. O exército inglês uniu-se ao dos protestantes escoceses, e a luta prometia ser árdua quando a regente morreu e os franceses decidiram que convinha retirarem-se do país. Mediante um tratado, decidiu-se que tanto os ingleses como os franceses abandonariam o solo escocês e que os naturais desse país seriam donos do seu próprio destino.

Logo começaram aparecer diferenças entre Knox e os lordes que, até então, haviam apoiado a causa reformadora. Apesar de frequentemente, se colocarem outras razões, a principal delas era a econômica. Os lordes aspiravam enriquecer-se com as possessões eclesiásticas e Knox e os ministros que o apoiavam queriam que esses recursos fossem empregados para estabelecer um sistema de educação universal, para aliviar as penúrias dos pobres e para sustentar a igreja.

No meio de tais lutas, os nobres decidiram convidar Maria Stuart a regressar ao país e reclamar o trono que lhe pertencia como herança de seu pai. Visto que seu esposo, o rei da França, tinha morrido pouco antes, Maria se mostrou disposta a aceitar a petição. Chegou à Escócia em 1561 e apesar de nunca ter sido popular, contentou-se, no princípio, em seguir o conselho de seu meio irmão bastardo, Jaime Stuart, lorde de Moray, que era um dos principais chefes do protestantismo, e que evitou que sua política molestasse os lordes protestantes.

Quanto a Knox, sempre pareceu haver estado convencido de que o conflito com a rainha era inevitável. E neste ponto Maria parecia ter a mesma opinião. Desde o princípio a rainha insistiu em celebrar a missa em sua capela privada e o reformador começou a bradar contra a “idolatria” desta “nova Jezabel”. Houve várias entrevistas entre ambos, cada vez mais tormentosas. Porém os lordes, satisfeitos com a situação existente, não estavam dispostos a deixar-se levar pelo extremismo do pregador e se contentavam em assegurar a garantia de liberdade para adorarem a Deus segundo suas próprias convicções.

Enquanto isso, Knox e seus colaboradores se ocupavam em organizar a igreja reformada da Escócia, que tomou uma forma de governo semelhante ao presbiterianismo posterior. Em cada igreja se elegiam anciãos, e também o ministro, mesmo que este não pudesse ser empossado antes de ser examinado pelos demais ministros. O Livro de Disciplina, o Livro da Ordem Comum, e a Confissão Escocesa, foram os pilares sobre os quais Knox construiu sua nova igreja.

Posteriormente, Maria Stuart foi a causa de sua própria queda. Seu sonho sempre foi ocupar o trono da Inglaterra, e por causa dele, perdeu tanto o da Escócia como a própria vida. Com a finalidade de afiançar seu direito a coroa inglesa, casou-se com seu primo Henrique Stuart, lorde Darnley, que também tinha certo direito de sucessão. Moray opôs-se a essa união, que era parte de um pacto com a Espanha para desfazer-se do protestantismo, e tomou das armas. Maria apelou ao lorde Bothwell, um hábil soldado que derrotou a Moray e o obrigou a refugiar-se na Inglaterra, ao mesmo tempo em que Maria declarava que logo tomaria posse do trono de Londres.

A perda dos conselhos de Moray levou Maria ao desastre. Logo decidiu que Darnley não era o esposo que desejava, e o fez saber a Bothwell e a outros. Pouco tempo depois, Darnley foi assassinado, e as suspeitas caíram sobre Bothwell, que foi absolvido num julgamento no qual não se admitiram testemunhos de acusação. Pouco depois de três meses da morte de Darnley, Maria se casou com Bothwell.

Entretanto, Bothwell era odiado pelos lordes escoceses que logo se rebelaram contra ele. Quando a rainha tratou de sufocar a rebelião, descobriu que suas tropas não estavam dispostas a defender sua casa, e caiu nas mãos dos lordes, que apresentavam provas de sua participação na morte de Darnley e lhe exigiram que, se não abdicasse, seria acusada de assassinato. Maria abdicou então em favor de seu filho de um ano Jaime VI, que tinha tido com Darnley, e Moray regressou da Inglaterra para ser regente do reino. Pouco depois Maria escapou e organizou um exército. Porém, foi derrotada pelas tropas de Moray, e não teve mais recursos senão fugir para a Inglaterra, e solicitar a proteção da sua odiada prima Isabel.

Sobre o cativeiro e morte de Maria Stuart a imaginação romântica tem urdido uma lenda que faz dela uma mártir nas mãos da ambiciosa e zelosa Isabel. O fato é que Isabel recebeu sua prima com mais cortesia do que a esperada, visto que Maria durante tantos anos a chamara de bastarda e a acusara de tentar apropriar-se da coroa. Apesar de ser prisioneira, no sentido de que não se lhe permitia abandonar o castelo, foi-lhe permitido conservar o seu dote, e ter um corpo de trinta servos escolhidos por ela, além de sempre ser tratada como uma rainha. Porém, em meio a tudo isso, Maria continuava conspirando, não só para obter sua liberdade, como também para apoderar-se do trono inglês. Visto que Isabel era o seu principal obstáculo, e visto que a Espanha era uma grande potência que defendia a causa católica, o elemento comum de todas as conspirações que se descobriram era um plano que incluía o assassinato de Isabel e a invasão da Inglaterra pelas tropas espanholas. Quando a terceira conspiração desta índole foi descoberta, com provas irrefutáveis, Maria foi levada a juízo e condenada à morte. Porém, ainda depois do veredito, Isabel demorou três meses até confirmar a sentença. Quando finalmente foi levada ao verdugo, Maria enfrentou a morte com régia compostura.

Na Escócia, o exílio de Maria não pôs fim às contendas entre os diversos partidos. Knox apoiou o regente Moray. Porém a luta estava muito árdua, quando Knox sofreu um ataque de paralisia e teve que retirar-se da vida ativa. Quando ficou sabendo da matança de São Bartolomeu na França (da qual trataremos mais adiante) fez um esforço sobre-humano para regressar ao púlpito, de onde avisou a seus compatriotas que igual sorte lhes aguardava se fraquejassem na luta. Depois de poucos dias morreu.

Pouco depois, não havia mais dúvidas de que a Escócia seria um país reformado.

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