A era dos reformadores (X): a Reforma nos Países Baixos

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 157 a 168.

“Sabei que temos dois braços e que se a fome chegar a tal ponto, nós comeremos um deles para poder continuar lutando com o outro.” (Combatente protestante no sítio de Leyden)

Como no resto da Europa, o protestantismo ganhou adeptos nos Países Baixos desde uma data bem cedo. Em 1523, na cidade de Amberes, foram queimados os dois primeiros mártires da causa. Porém, apesar de haver penetrado na região desde o começo e ter numerosos seguidores, o protestantismo não conseguiu impor-se senão à custa de grandes sacrifícios e muitas guerras. Isso se deveu particularmente às condições políticas que ocorriam nos Países Baixos.

A situação política

Resultado de imagem para Carlos VPerto da desembocadura do Reno, existia um complexo grupo de territórios que eram conhecidos como as “Dezessete Províncias”, e que compreendia aproximadamente o que hoje são a Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Estes diversos territórios tinham caído unidos sob o senhorio da casa de Áustria, e portanto Carlos V os herdou de seu pai Felipe, o Formoso. Visto que Carlos V tinha nascido e tinha se educado na região, gozava de simpatia muito grande entre os moradores e, sob seu governo, as Dezessete Províncias chegaram a ter uma unidade como nunca tinha o ocorrido antes.

Porém, essa unidade política era de certo modo fictícia. Se bem que Carlos V se esforçou por produzir instituições comuns, durante todo seu reinado cada território conservou boa parte de seus velhos privilégios e forma particular de governo. Além disso, não existia entre eles unidade cultural, pois embora no sul se falasse o francês, o holandês era o idioma do norte e entre ambos existia uma ampla zona de língua flamenga. No campo eclesiástico, a situação era, todavia mais complexa, pois a jurisdição das diversas dioceses não concordava com as divisões políticas, e boa parte dos Países Baixos estava sujeita a sedes fora da região.

Quando, em 1555, Carlos V abdicou em Bruxelas em favor do seu filho, Felipe, esperava-se que este continuasse sua política de unificação da região. E foi exatamente isso o que tentou Felipe. Porém, o que seu pai havia começado não era fácil de continuar. Carlos V era visto nos Países Baixos como flamengo e, de fato, foi esse o idioma que sempre falou com mais naturalidade. Felipe por sua parte, tinha se educado na Espanha e, tanto sua linguagem como suas perspectivas, eram essencialmente espanholas. Quando, em 1556, recebeu de seu pai a coroa de seus bisavós, os reis católicos, começou-se a prestar maior atenção a ela. Os Países Baixos e seus interesses caíram então sujeitos à Espanha e aos seus. Isto por sua vez criou um profundo ressentimento entre os habitantes da região, que se opuseram tenazmente aos intentos de Felipe de terminar a unificação das Dezessete Províncias e fazê-las parte hereditária da coroa espanhola.

A pregação da Reforma

Já muito antes de estourar a Reforma protestante, tinha havido nos Países Baixos um forte movimento reformador. Não se deve esquecer que ali tiveram sua origem os Irmãos de Vida Comum, e que Erasmo era natural de Rotterdam. Um dos temas característicos dos Irmãos de Vida Comum era a leitura das Escrituras, não só em latim, como também nos idiomas regionais. Portanto, ao surgir, a Reforma protestante encontrou o solo dos Países Baixos bem preparado.

Logo que os pregadores luteranos chegaram à região, conseguiram numerosos convertidos. Pouco depois, os anabatistas, particularmente os que seguiam os ensinos de Melchor Hoffman, tomaram passo no país. Deve-se ter em conta que os chefes da Nova Jerusalém, em Münster, eram originários dos Países Baixos. Outros trataram de unir-se, porém foram interceptados pelas forças de Carlos V e muitos deles foram mortos. Depois houve várias intentonas por parte dos anabatistas mais radicais de apoderar-se de diversas cidades, ainda que nenhuma delas teve bom êxito. Por último, chegaram os pregadores calvinistas, procedentes tanto da França como de Genebra e do sul da Alemanha. Posteriormente, o calvinismo seria a forma característica do protestantismo da região.

Carlos V tomou fortes medidas contra o protestantismo. Repetidamente fez promulgar editos contra esse movimento e, em particular, contra os anabatistas, que foram os que mais perseguição sofreram. A frequência de tais editos é prova contundente disso. Os mortos se contavam por dezenas de milhares. Os chefes eram queimados, os seguidores eram decapitados e, para as mulheres anabatistas, se reservava a terrível sorte de serem enterradas vivas. Porém apesar de tudo isso o protestantismo seguia avançando.

Há indícios de que, pelo final do reinado de Carlos V, começou uma forte corrente de oposição a tais crueldades. Porém o imperador era um soberano popular e, em todo caso, a maioria da população estava convencida de que os protestantes eram hereges e mereciam os castigos que se lhes aplicavam.

Aumenta a Oposição

Felipe, que desde o princípio foi impopular, aumentou essa impopularidade mediante uma política que combinava a necessidade com a obstinação e a hipocrisia. Com o propósito de fazer valer sua autoridade no país, especialmente depois que marchou para a Espanha e deixou como regente sua meia irmã Margarida de Parma, aquartelou ali tropas espanholas. Tais tropas tinham que se sustentar com recursos do país e, além disso, causavam irritações constantes aos habitantes, que se perguntavam porque era necessário ter ali exércitos estrangeiros. Visto que o país não estava em guerra, a única explicação razoável era que Felipe duvidava da lealdade dos seus súditos.

A isso somou-se a nomeação de novos bispos, com poderes inquisitoriais. Não resta dúvida de que era necessário reorganizar a igreja nas Dezessete Províncias, porém o procedimento e o momento que Felipe escolheu não foram os mais apropriados. Parte da explicação oficial que se deu para a formação de novos bispados foi a de que se precisava extirpar a heresia. Os habitantes dos Países Baixos sabiam que na Espanha a Inquisição tinha se tornado um instrumento nas mãos do estado, e temiam, não sem razão, que o rei pretendesse fazer o mesmo nas Dezessete Províncias.

Para complicar ainda mais, Felipe e a regente não pareciam prestar muita atenção aos mais fiéis de seus súditos no país. O príncipe de Orange, que havia sido amigo íntimo de Carlos V, e o conde de Egmont, que lhe tinha prestado distintos serviços no campo militar, foram feitos membros do Conselho de Estado; porém não eram consultados sobre as questões mais importantes, que eram decididas pela regente e seus conselheiros forenses. Deles o mais destacado era o bispo Granvella, a quem os naturais do país culpavam de todas as injustiças e vexames de que eram objeto.

Filipe II e a Invencível Armada Espanholaomo os protestos iam aumentando, Felipe II retirou Granvella. Porém logo os que protestavam se deram conta de que o deposto ministro nada fazia senão obedecer às ordens de seu amo, e que era o rei mesmo quem estabelecia as práticas e políticas ofensivas. Enviaram então a Madrid o conde de Egmont, a quem Felipe recebeu amavelmente e fez toda classe de promessas. O embaixador regressou complacente, até que leu no Conselho a carta selada que o rei lhe tinha dado, na qual contradizia todas as promessas feitas. E, ao mesmo tempo, o rei enviava à regente instruções no sentido de que fossem promulgados os decretos do Concílio de Trento contra o protestantismo e que fossem executados todos os que se opusessem.

As ordens reais causaram grande revolta. Os chefes e magistrados das Dezessete Províncias não estavam dispostos a condenar o crescente número de seus concidadãos aos quais o rei decretara a pena de morte. Várias centenas de nobres e burgueses se uniram então num “Compromisso” contra a Inquisição, e marcharam para apresentar suas demandas à regente. Quando esta se mostrou perturbada, um de seus conselheiros lhe disse que não tinha porque temer a “esses mendigos”.

Os mendigos

Aquelas palavras cativaram a imaginação dos habitantes do país. Visto que seus opressores os chamavam de mendigos, tal seria o nome pelo qual seriam chamados. A bolsa de couro que levavam os mendigos transformou-se numa bandeira da rebelião. Sob aquele símbolo o movimento, que no princípio tinha conquistado adesões principalmente entre os nobres e os grandes burgueses, se estendeu para a população. Por toda parte se via o estandarte da rebeldia, e as autoridades não sabiam mais o que fazer.

Antes de chegar ao campo de batalha, o movimento foi um protesto religioso. Por todas as partes se produziam reuniões ao ar livre nas quais se pregava a doutrina protestante ao amparo de mendigos armados, a quem as autoridades não se atreviam atacar por temor de causar confusões ainda maiores. Depois apareceram pequenos grupos de iconoclastas que visitavam as igrejas e destruíam os seus altares, imagens e demais símbolos da velha religião, ao mesmo tempo que o povo deixava que o fizessem. Ao que parece, aqueles que eram simpáticos a eles gostavam de suas andanças, e enquanto isso os católicos se maravilhavam de que o céu não os fulminasse pelos “sacrilégios”.

Diante de tais fatos, o Conselho de Estado não teve mais remédio senão apelar aos que antes havia desprezado, em particular a Guilherme de Orange, e pedir-lhe que tratasse de deter os excessos que se cometiam. Com sua lealdade de sempre, e com risco de vida, Guilherme conseguiu acalmar os ânimos. Cessou a onda iconoclasta, e o Conselho suspendeu a Inquisição e permitiu certa liberdade de culto. Por sua vez, os mendigos declararam que enquanto se cumprissem as novas disposições sua liga não teria vigência.

Porém, Felipe II não era homem que se deixava convencer pela oposição dos seus súditos. Além disso, tinha declarado com veemente sinceridade, que não tinha intenção alguma de ser “senhor de hereges”. E ao mesmo tempo que se declarava disposto a perdoar os sediciosos e a aceitar suas demandas, estava reunindo tropas para invadir o país. Guilherme de Orange, que se apercebeu da duplicidade do soberano, tratou de persuadir seus amigos, os condes de Egmont e de Horn, a que se unissem em resistência armada. Porém quando seus companheiros se mostraram confiantes na sinceridade do rei, Guilherme decidiu retirar-se para suas possessões na Alemanha.

A tormenta não se fez esperar. Repentinamente se apresentou no país o duque de Alba, com uma força de soldados espanhóis e italianos. Suas ordens eram tais que, a partir de então, a regente o foi só de nome, porque era ele quem, de fato, governava. Alba vinha disposto a afogar a rebeldia em sangue. Uma de suas primeiras medidas foi organizar um Conselho das Desordens, que o povo logo deu o nome de Conselho de Sangue. Este tribunal estava por cima de todos os limites legais, pois, segundo o próprio Alba escreveu ao rei, os processos legais não permitiam condenar senão aqueles cujos crimes fossem provados, e as “questões de estado” requeriam que se procedesse de maneira mais drástica. Os protestantes foram condenados como hereges e os católicos por não haver resistido à heresia. O expressar dúvidas sobre a autoridade do Conselho das Desordens era alta traição. Também era assim considerado o haver-se oposto a criação de novos bispados, ou o haver sustentado que as províncias tinham direitos e privilégios que o rei não poderia violar. Os mortos foram tantos que os cronistas da época falam do mau-cheiro no ar, e de centenas de cadáveres dependurados nas árvores à beira do caminho. Os condes de Egmont e de Horn que, com cândida lealdade haviam permanecido em seus territórios, foram aprisionados e iniciou-se o julgamento deles. Visto que Orange não estava ao seu alcance, Alba se contentou em prender seu filho mais velho, de quinze anos, que foi levado para a Espanha.

Guilherme I de OrangeGuilherme de Orange reuniu seus recursos econômicos e, com um exército na maioria alemão, invadiu o país. Porém tanto essa tentativa como outra semelhante pouco tempo depois resultaram falidas, pois Alba o derrotou. E como represália, fez executar a Egmont e a Horn.

Tudo parecia perdido quando as coisas começaram a mudar. Orange havia dado patentes piratas a uns poucos navios que se propunham resistir no mar. Estes “mendigos do mar” que no início eram pouco menos que piratas, foram se organizando paulatinamente, e as forças navais de Felipe II não foram suficientes para contê-los. Durante algum tempo, até que a pressão espanhola a obrigou a mudar de política, Isabel da Inglaterra lhes prestava asilo e lhes permitiu vender suas prendas em portos ingleses. Quando essa política mudou, os “mendigos do mar” eram já demasiado poderosos para serem facilmente eliminados. Pouco depois, mediante um golpe de mão, se apoderaram da cidade de Brill, e a partir daí seus êxitos foram notáveis. Várias cidades se declaravam partidárias de Guilherme de Orange, que voltou a invadir o país contando com a ajuda francesa. Porém quando se aproximava de Bruxelas, soube da matança de São Bartolomeu, violento acontecimento de que trataremos no próximo capítulo, e que marcou o fim de toda possibilidade de entendimento entre os protestantes e a coroa francesa. Com a falta de fundos e de todo apoio militar, Guilherme viu-se obrigado a despedir seus soldados, muitos dos quais eram mercenários.

A vingança de Alba foi terrível. Seus exércitos tomaram cidade por cidade e, em todas elas, violaram os termos da rendição. Os prisioneiros foram mortos contra o direito que tinha pela lei, sem julgamento algum, e várias cidades foram incendiadas. Em alguns casos, não só os combatentes, mas também suas mulheres e filhos e os anciãos, acharam a morte.

Somente no mar restavam esperanças aos rebeldes. Os “mendigos” continuavam derrotando repetidamente aos espanhóis, até fazerem prisioneiro o seu almirante. Isto por sua vez tornava muito difícil para Alba receber provisões e pagamento para seus soldados, que logo começaram a amotinar-se. Foi então que Alba, cansado dessa longa luta e talvez amargurado porque a Espanha não parecia prestar todo o apoio necessário, pediu que se nomeasse outro em seu lugar.

O novo general espanhol, dom Luiz de Zuniga e Requesens, tratou de ganhar os habitantes católicos do país, cujo número era maior nas províncias do sul, e separados assim dos protestantes do norte, contra os quais continuou a guerra. Até então, a questão religiosa tinha sido somente um elemento a mais no que em realidade era uma rebelião nacional contra o jugo estrangeiro. Guilherme de Orange, o chefe da rebelião, tinha sido católico liberal pelo menos até seu exílio na Alemanha, e somente em 1573 se declarou calvinista. A política de Requesens contribuiu para destacar o motivo religioso do conflito, e assim, as províncias do sul, em sua maioria católicas, começaram a separar-se dos protestantes.

Isto por sua vez fazia mais desesperançosa a causa protestante, que parecia ser vencedora apenas no mar, enquanto em terra era derrotada repetidamente. A crise veio por fim no sítio de Leyden, importante cidade comercial que se tinha declarado protestante e que estava agora sitiada pelas tropas espanholas. Um exército enviado por Guilherme de Orange para romper o cerco foi vencido pelos espanhóis, e na batalha morreram dois irmãos de Guilherme. Tudo estava perdido quando este chefe, a quem os inimigos chamavam de “o Taciturno” pelo que era em realidade, sugeriu que se abrissem os famosos diques holandeses, e que se alagasse a planície que rodeava Leyden. Isto significava a destruição de muitos anos de paciente trabalho, porém os cidadãos concordaram, enquanto os sitiados continuavam oferecendo heroica resistência, em meio a uma fome espantosa. Mesmo depois de tomada tão drástica decisão, a água demorou quatro meses para chegar a Leyden. Porém os defensores resistiram. Com as ondas, chegaram os “mendigos do mar”, gritando: “Antes turcos, que papistas!” e obrigaram os espanhóis a retirarem-se.

Nisto morreu Requesens. E os soldados espanhóis, sem chefe e sem pagamento, se amotinaram e se dedicaram a saquear as cidades do sul, que eram sua presa mais fácil. Isto por sua vez uniu todos os habitantes das diversas províncias, que se reuniram em Gante em 1576 e firmaram um tratado, a Pacificação de Gante, que estabelecia uma aliança entre as províncias, apesar de todas as diferenças religiosas. Nisto viu Guilherme de Orange um grande triunfo, pois tinha sempre a opinião de que a intolerância e o partidarismo religioso eram um obstáculo ao bem-estar das províncias.

O próximo regente, dom João de Áustria, meio-irmão bastardo de Felipe, só pode entrar em Bruxelas depois de aceitar a Pacificação de Gente. Felipe II, porém, não se dava por vencido. Um novo exército invadiu o país e, uma vez mais, as províncias do sul se mostraram dispostas a capitular. Então as do norte, contra a vontade de Orange, formaram uma liga a parte, para a defesa de suas liberdades e de sua fé.

A luta continuou por muitos anos. Donos das províncias do sul, os espanhóis não podiam tomar as do norte. Em 1581 Felipe II publicou um proclama prometendo enorme recompensa a quem assassinasse Guilherme, o Taciturno. Este e os seus responderam com uma Ata de Abjuração, na qual por fim se declaravam completamente independentes de toda autoridade real. Porém três anos mais tarde, depois de várias tentativas fracassadas, Guilherme caiu morto por um assassino que buscava a recompensa. Como era de se esperar, dado o caráter de Felipe II, o rei da Espanha negou-se a cumprir o prometido e depois pagou somente uma parte da recompensa.

A morte de Guilherme, o Taciturno pareceu, por um momento, pôr a rebelião em perigo. Porém, seu filho Maurício, de dezessete anos quando seu pai morreu, tornou-se melhor general e dirigiu suas forças em uma série de campanhas sumamente vitoriosas.

Finalmente, em 1607, a Espanha deu sinais de considerar-se vencida e foi firmada uma trégua que posteriormente levou ao reconhecimento da independência da nova nação protestante, que naquela época era calvinista em sua maioria.

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