A era dos reformadores (XII): a Reforma Católica

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 183 a 200.

“Nada te perturbe; Nada te espante; Tudo se passa, Deus não muda. A paciência a tudo alcança. Aquele quem tem a Deus, de nada tem falta. Deus somente lhe basta.” (Santa Teresa de Jesus)

Como vimos no tomo anterior e no princípio deste, os impulsos reformadores que corriam pela Europa eram demasiado fortes e amplos para que o protestantismo pudesse contê-los a todos. Desde antes do protesto de Lutero, existiam muitos que sonhavam com uma reforma eclesiástica e tomavam medidas nesse sentido. Particularmente na Espanha, e graças a obras de Isabel a Católica e de Ximenes de Cisneros, a corrente reformadora ganhou impulso, apesar de não abandonar as linhas do catolicismo romano.

Em termos gerais, a reforma católica, ainda depois de aparecer o protestantismo, seguiu as linhas traçadas por Isabel. Tratava-se de um intento de reformar a vida e os costumes eclesiásticos, de empregar a melhor erudição disponível para purificar a fé e de fomentar a piedade pessoal. Porém tudo isso sem afastar-se nada da ortodoxia, muito pelo contrário. Os santos e os sábios da reforma católica, como Isabel, foram puros, devotos e intolerantes.

A ideia da tradição que sustentava o catolicismo romano do século XVI pode ser vista nesta página de rosto de um livro impresso nesta época. O monge escreve copiando dos livros que sustentam um papa, um cardeal, e um bispo, atrás dos quais há uma hoste de crentes. Ao redor de todos, cinco dos autores do Antigo Testamento (Moisés, Jó, Davi, Isaías e Jeremias), cinco autores do Novo Testamento (João, Mateus, Lucas, Marcos e Paulo) e os quatro grandes doutores da igreja ocidental (Jerônimo, Agostinho, Ambrósio e Gregório).

A polêmica contra o protestantismo

Ainda que, como temos demonstrado no primeiro capítulo do presente volume, a reforma católica remonte aos tempos de Isabel, o surgimento do protestantismo deu-lhe um novo tom. Não se trata simplesmente de reformar a igreja por causa de uma necessidade interna, nascida da vida da mesma igreja, mas muito mais, com a obrigação de responder àqueles que propunham uma reforma que afastasse boa parte da religião medieval. Em outras palavras, depois do protesto de Lutero, a reforma católica, ao mesmo tempo que continuou o curso traçado anteriormente por Isabel, Cisneros e outros, dedicou-se também a refutar as doutrinas protestantes.

Já nos referimos a João Eck, o teólogo que no debate de Leipzig levou Lutero a declarar-se hussita. Ainda que muitos historiadores protestantes tenham pretendido que Eck era um obscuro que não tinha mais interesses que perseguir os protestantes, isto não é certo. Pelo contrário, Eck foi um pastor consciencioso, e um erudito que em 1537 publicou uma tradução alemã da Bíblia.

Entretanto, nem todos os chefes da reforma católica eram do mesmo espírito. Jacobo Latomo, por exemplo, que era reitor da Universidade de Lovaina, dedicou-se a atacar tanto os protestantes como os humanistas, argumentando que para entender a Bíblia bastava lê-Ia em latim, à luz das tradições da igreja, e que o estudo dos idiomas originais de nada servia.

Assim, entre os católicos que se dedicaram a refutar os protestantes, existiam tanto personalidades eruditas como outras de espírito obscuro. Com o tempo, foram os primeiros os que se mostraram mais capazes de responder às questões do momento. Deles, talvez os de maior importância foram Roberto Belarmino e Cézar Barônio.

Belarmino foi o principal sistematizador dos argumentos católicos contra o protestantismo. A partir de 1576, e por doze anos, ocupou em Roma a recém-fundada cátedra de Polêmica e, ao fim desse período, começou a publicar a sua magna obra, As Controvérsias da Fé Cristã, que concluiu em 1593 e, a partir de então, tornou-se a principal tonto católica de argumentos contra o protestantismo. De fato, quase todos os argumentos que escutamos até o dia de hoje já se encontravam na obra de Belarmino.

Um dos episódios mais famosos da vida deste polemista foi o julgamento de Galileu, no qual tomou parte, e que concluiu declarando herética a ideia de que a Terra se move ao redor do Sol. Porém, ainda que a polêmica anticatólica sempre destacou este incidente, o fato é que Belarmino sempre sentiu e demonstrou grande respeito para com Galileu.

Cézar Barônio foi o grande historiador do catolicismo. Os protestantes da Universidade de Magdeburgo tinham começado a publicar uma grande história da igreja, na qual tratavam de mostrar que o cristianismo original era muito diferente do catolicismo romano, e de explicar como tinham se introduzido as diversas inovações que os protestantes agora tratavam de eliminar. Visto que essa história se publicava com um volume para cada século (nunca passou do século XIII) chamava-se As Centúrias de Magdeburgo. Em resposta a elas, Barônio escreveu seus Anais Eclesiásticos, que marcaram o começo da história da igreja como disciplina moderna.

As novas Ordens

Ao iniciar-se a “era dos reformadores”, eram muitos os que se doíam pelo triste estado a que haviam chegado as ordens monásticas. Erasmo e os humanistas criticavam sua ignorância. Isabel e Cisneros tratavam de reformar as casas existentes, instando-as a voltar à estreita observância de suas regras. Quando os reformadores alemães começaram a fechar os conventos e os mosteiros, houve bons católicos que não se preocuparam grandemente com isso. O mesmo aconteceu na Inglaterra, quando Henrique VIII se apoderou das casas monásticas.

Porém isto não quer dizer que toda vida monástica estava corrompida. Havia inúmeros monges e freiras que estavam convencidos de que era necessário reformar a vida monástica, e que dedicavam-se a fazê-lo. Assim começaram a aparecer em diversas partes da Europa novas ordens. Algumas delas eram um esforço de voltar às antigas observâncias, entretanto outras iam mais longe, e tratavam de criar novas organizações que pudessem responder melhor às necessidades da época. Aliás, o melhor exemplo das primeiras foi a ordem das carmelitas descalças, fundada por Santa Tereza; e das segundas, a dos jesuítas, que devem sua existência a São Inácio de Loyola.

Resultado de imagem para Teresa de ÁvilaTereza passou a maior parte de sua juventude em Ávila, onde seu pai e seu avô tinham se estabelecido depois de terem sido condenados pela Inquisição de Toledo. Desde pequena sentiu-se atraída pela vida monástica, ainda que ao mesmo tempo a temesse. Quando finalmente uniu-se às freiras do convento carmelita da Encarnação, nos arredores de Ávila, fê-lo contra a vontade de seu pai. Ali se tornou uma freira popular, pois seu gênio e seu encanto eram tais que o melhor da inteligência anciã vinha sempre conversar com ela. Fastiada com essa vida, que não lhe parecia ser um verdadeiro cumprimento de seus votos monásticos, dedicou-se a ler obras de devoção. Quando a inquisição proibiu a leitura dos livros que lhe tinham sido ajudadores, teve uma visão na qual Jesus lhe disse: “Não temas, eu te serei como um livro aberto“. A partir daí suas visões foram cada vez mais frequentes.

Levada por tais visões, decidiu abandonar o convento de Encarnação, e fundar, também nos arredores de Ávila, o convento de São José. Depois de muita oposição, conseguiu que sua missão fosse reconhecida e, a partir daí, dedicou-se a fundar conventos por toda Castela e Andaluzia, o que lhe valeu o nome de “andarilha feminina”. Símbolo de sua reforma e da antiga ordem das carmelitas eram as sandálias que levavam ela e suas freiras, e pelas quais foram conhecidas como “carmelitas descalças“.

São João da Cruz colaborou estreitamente com Santa Tereza, que através dele pôde estender sua reforma às casas dos varões. Portanto, Santa Tereza foi a primeira mulher em toda história da igreja a fundar, não somente uma ordem feminina, mas também uma ordem para homens, a dos “carmelitas descalços“.

Ao mesmo tempo que se ocupava com estas funções que requeriam grande gênio administrativo e sensibilidade pastoral, Tereza foi uma mística dedicada à contemplação de Jesus, que numa visão contraiu com ela núpcias espirituais. Suas obras místicas, entre as quais se contam: Caminho de Perfeição e Moradas do Castelo Interior, têm chegado a gozar de tamanha autoridade que em 1970 Paulo VI a declarou “doutora da igreja universal”. Foi a primeira mulher a receber tal título, que também foi conferido a Santa Catarina de Siena.

“Nada te perturbe; Nada te espante; Tudo se passa, Deus não muda. A paciência a tudo alcança. Aquele quem tem a Deus, de nada tem falta. Deus somente lhe basta.” (Teresa de Jesus, de Ávila)

Resultado de imagem para Inácio de LoyolaEnquanto a reforma de Santa Tereza era dirigida à vida monástica, e a observância mais estrita da velha regra dos carmelitas, a de São Inácio de Loyola, algo anterior, ia dirigida para fora, num esforço de responder aos desafios que sua época fazia à igreja.

Inácio era filho menor de uma velha família aristocrática e tinha sonhado em alcançar a glória através da carreira militar quando, no sítio de Pamplona, foi ferido numa perna, que nunca sarou definitivamente. No seu leito de dor e amargura, dedicou-se a ler obras de devoção, até que teve uma visão que ele mesmo conta em sua Autobiografia, escrita na terceira pessoa:

Estando uma noite acordado, viu claramente uma imagem de nossa Senhora com o santo menino Jesus, e com esta visão recebeu por notável espaço de tempo, uma consolação muito excessiva, e ficou com tanto nojo de toda sua vida passada, e especialmente de coisas da carne, que parecia haver-se tirado da alma todas as espécies que antes tinha nela pintadas.

Então caminhou em peregrinação à ermita de Monserrate, onde, em um ritual parecido com as antigas práticas da cavalaria, dedicou-se à Virgem e confessou todos os seus pecados. Dali se retirou para Manresa, para dedicar-se à vida eremita. Porém tudo isso não bastou para acalmar seu espírito atormentado, como antes fora o de Lutero, por um profundo sentido de seu próprio pecado.

Deixemos que ele mesmo nos conte sua experiência:

Mas nisto veio a ter muitos escrúpulos. Porque, ainda que a confissão geral que fizera em Monserrate tinha sido feita com toda diligência e toda por escrito, (…) todavia lhe parecia, às vezes, que não havia confessado algumas coisas, e isto lhe dava muita aflição, porque ainda que confessasse aquilo, não ficava satisfeito.

Mas (…) o confessor veio pedir-lhe que não confessasse mais nenhuma coisa passada, se não fosse algo bem claro. Mas como ele tinha todas aquelas coisas por muito claras, não adiantou nada essa ordem e assim sempre davam-lhe muito trabalho. (…) Estando com esses pensamentos, vinham-lhe muitas vezes tentações, com grande ímpeto para jogar-se dentro de um grande buraco que tinha junto ao seu quarto, e estava junto do lugar onde fazia oração. Mas conhecendo que era pecado matar-se, tornava a gritar: “Senhor, não farei qualquer coisa que te ofenda”. (…)

Tais eram os tormentos pelos quais passou o futuro fundador da ordem dos jesuítas antes que, sem que ele mesmo nos explique como, nem porquê, conheceu a graça de Deus, e assim daquele dia em diante ficou livre daqueles escrúpulos, tendo por certo que nosso Senhor o tinha querido livrá-lo por sua infinita misericórdia.

Tudo isto mostra que há um paralelismo entre a experiência de Lutero e a de Inácio de Loyola. Porém, enquanto o monge alemão se lançou por um caminho que posteriormente o levou a romper com a fé católica, o espanhol fez exatamente o contrário. A partir de então dedicou-se, não a uma vida monástica de quem busca sua própria salvação, mas ao serviço da igreja e sua missão. Primeiro foi a Palestina, o lugar que durante séculos tinha sido o centro de atenção da alma europeia, com a esperança de ser missionário entre os turcos. Porém os franciscanos que na ocasião trabalhavam lá temeram os problemas que poderia criar aquele espanhol de espírito fogoso e o obrigaram a abandonar a região. Então decidiu que era necessário estudar teologia para poder servir melhor a igreja. Mesmo sendo já maior, regressou às aulas, e estudou em Barcelona, Alcalá, Salamanca e Paris. Logo congregou ao seu redor um pequeno grupo de companheiros, atraídos pela sua fé fervente e seu entusiasmo. Finalmente, em 1534,regressou a Monserrate com seus companheiros e ali todos fizeram votos de pobreza, castidade e obediência ao papa.

O propósito inicial da nova ordem era trabalhar entre os turcos na Palestina. Porém quando o papa Paulo III a aprovou em 1540, a ameaça do protestantismo era tal que a Sociedade de Jesus (que assim se chamava) veio a ser também um dos principais instrumentos da igreja católica para fazer frente ao protestantismo. Ao mesmo tempo, os jesuítas não abandonaram seu interesse missionário, e no próximo volume desta história nos encontraremos novamente com eles, trabalhando nos mais remotos rincões do globo.

Como resposta ao protestantismo a Sociedade de Jesus foi uma arma poderosa. Sua organização quase militar e sua obediência absoluta ao papa, lhe permitiram responder rápida e eficientemente a qualquer desafio. Além disso, os jesuítas se distinguiram por seus conhecimentos e muitos deles mostraram-se dignos contra-atacantes dos melhores polemistas protestantes.

O Papado Reformador

Quando Lutero cravou suas teses em Wittenberg o papado estava nas mãos de Leão X, que tinha mais interesse em embelezar a cidade de Roma e aumentar o prestígio e poderio de sua família (os Médicis), que nos assuntos religiosos. Para ele, Lutero e seu protesto não foram mais que uma moléstia e uma interrupção no meio de seus planos. Portanto, não só os protestantes, mas também os católicos de espírito reformador estavam convencidos de que a reforma religiosa que tanto se necessitava não viria de Roma. Enquanto alguns esperavam que fossem os senhores leigos os que por fim interviriam para pôr os assuntos eclesiásticos em ordem, outros reviviam as velhas ideias conciliares, e pediam que se convocasse um concílio universal que tratasse tanto das questões doutrinais abordadas por Lutero e os seus como da corrupção e do abuso que reinava na igreja, e como se poderia dar-lhe fim.

O breve pontificado de Adriano VI (o último papa não italiano até João Paulo II, no século XX) ofereceu algumas esperanças de reforma, pois o pontífice, que antes tinha sido mentor de Carlos V, era um homem de vida pura e altos ideais. Porém o novo papa mostrou-se incapaz de sobrepor-se às intrigas e interesses da cúria e em todo caso morreu antes de poder pôr a caminho seus principais projetos de reforma.

O próximo papa, Clemente VII, era primo de Leão X, e sua política foi semelhante à de seu parente. Uma vez mais o sumo pontífice dedicou-se principalmente a embelezar Roma, e foi só nesse empenho que teve êxito, já que durante seu reinado a Inglaterra separou-se da obediência a Roma, e as tropas de Carlos V tomaram e saquearam a cidade.

Paulo III, que sucedeu a Clemente, é um personagem ambíguo. Em certas ocasiões deu mostras de confiar mais na astrologia que na teologia. Como os dois papas anteriores, seu reinado foi manchado pelo nepotismo, pois fez cardeais a seus netos, que eram adolescentes, e também fez arranjos para fazer seu filho duque de Parma e Piacenza. Também de igual modo que os papas renascentistas, dedicou boa parte de seus esforços no embelezamento de Roma, para o qual era necessário continuar os velhos sistemas mediante os quais a riqueza da Europa fluía para Roma, e que era um dos motivos de queixa dos reformadores. Porém, apesar de tudo isso, foi também um papa reformador. Foi ele que reconheceu os jesuítas, e começou a utilizá-los tanto no campo missionário como na polêmica contra os protestantes. Em 1536, nomeou uma comissão de distinguidos cardeais e bispos para que lhe apresentassem um informe sobre a reforma eclesiástica. Este informe, que mostrava até que ponto havia chegado a corrupção, chegou de algum modo nas mãos dos inimigos do papado, e logo se converteu numa das principais fontes de materiais para os protestantes em seus ataques contra essa instituição. Porém é necessário que se diga, para honra de Paulo III, que o informe em questão foi escrito por solicitação sua, com o propósito de descobrir os abusos e eliminá-los. Porém, por outra parte, o informe serviu para fazer ver ao papa até que ponto seus recursos econômicos dependiam de práticas injustas, e qual seria então o custo de uma verdadeira reforma. O resultado imediato foi que Paulo III postergou seus projetos reformadores, ou ao menos os abrandou. Em todo caso, Paulo III merece a distinção de haver finalmente convocado o tão ansiado concílio reformador, que começou suas reuniões em Trento em 1545, e do qual trataremos na próxima seção deste capítulo.

O papa seguinte, Júlio III, teve todos os vícios do anterior, e poucas de suas virtudes. Uma vez mais o nepotismo imperou em Roma, e a corte pontifícia tornou-se um centro de festas e jogos, como qualquer outra corte europeia. A morte de Júlio III, trouxe à tiara papal Marcelo II, que cancelou todas as festas que se costumava celebrar na ocasião da coroação de um novo papa, e levou seu repúdio ao nepotismo até o exagero. Porém seu pontificado terminou com sua morte prematura.

Finalmente, em 1555, o cardeal João Pedro Carafa [Paulo IV] foi eleito papa e, a partir daí, o movimento reformador ganhou profundas raízes em Roma. Carafa era um dos membros da comissão que tinha feito o informe para Paulo III sobre o estado deplorável da igreja, e tão logo foi eleito dedicou-se a corrigir os males que antes tinha assinalado. Foi um homem de extrema austeridade e até rígido, que confundiu a necessidade de reforma com seus desejos de impor uma exagerada uniformidade de critérios. Por isso sob o seu governo os poderes e a atividade da Inquisição aumentaram até as raias do terror, e o índice de Livros Proibidos prescreveu algumas das melhores literaturas católicas. Porém, apesar de tais excessos, Paulo IV merece crédito por haver limpado a cúria romana, e haver posto o papado à frente do movimento reformador católico. Em diversos graus e de distintas maneiras, essa política foi seguida por seus sucessores, pelo menos até o fim do período do qual nos ocupamos.

O Concílio de Trento

O leitor deve recordar que Lutero e vários outros reformadores apelaram repetidamente para que ocorresse um concílio universal. Sem dúvida, durante os primeiros anos da “era dos reformadores”, os papas se opuseram à convocação de tal assembleia, pois temiam que renascesse o velho espírito do conciliarismo do século XV, que sustentava que a autoridade de um concílio universal era superior à do papa. Em consequência disto, não foi senão nos tempos de Paulo III, depois do rompimento definitivo entre os protestantes e os católicos, que se começou a pensar seriamente na possibilidade de um concílio universal convocado pelo papa.

Depois de muitas idas e vindas, que não é necessário relatar aqui, o Concílio reuniu-se finalmente em Trento em dezembro de 1545. Carlos V tinha insistido que a assembléia ocorresse em lugar que lhe pertencia, e foi por isso que se escolheu essa cidade do norte da Itália, que era parte do Império. A princípio a assistência foi pouquíssima, pois, além dos 3 legados papais, reuniram-se em Trento 31 prelados. E até o final do concílio, em 1563, os prelados presentes eram somente 213.

Até então, os grandes concílios da igreja tinham-se dedicado a resolver uns poucos problemas, ou a discutir e condenar uma determinada doutrina. Porém as questões levantadas pelos protestantes eram tão fundamentais, e a igreja estava com tal necessidade de uma reforma, que o Concílio não se limitou a condenar o protestantismo, mas em discutir toda a classe de doutrinas, ao mesmo tempo que se dedicou a reformar costumes do clero.

A história desse sínodo, considerado pelos católicos romanos o décimo nono concílio ecumênico, foi rica em acidentes. Quando Paulo III se sentiu forte, e suas relações com Carlos V se tornaram mais tensas que de costume, ele ordenou à assembléia que se mudasse para as regiões papais. Porém, o imperador proibiu-lhes que saíssem de Trento, e posteriormente o concílio teve que ser suspenso em 1547. Quatro anos depois, em maio de 1551, reuniu-se de novo, porém teve de ser suspenso de novo no ano seguinte, quando explodiram as hostilidades entre Carlos V e os protestantes alemães. O próximo papa, Paulo IV, estava interessado em levar adiante a reforma, porém não queria deixar-se dominar pelos espanhóis e lhe pareceu sábio não tornar a convocar o sínodo. Finalmente, em 1562, os bispos se reuniram outra vez, e terminaram suas seções em 1563. Logo, o Concílio durou de 1545 até 1563, embora estivesse em recesso durante a maior parte deste tempo.

Resultado de imagem para Concílio de TrentoOs decretos do Concílio de Trento são demasiadamente numerosos para resumi-los aqui. Por uma parte, se ocupou de reformar a igreja, exigindo que os bispos vivessem em suas sedes, proibindo o pluralismo, regulando as obrigações do clero, e estabelecendo seminários para a melhor preparação do ministério. Por outro lado dedicou-se a condenar as doutrinas protestantes. Nesse sentido, o Concílio declarou que a tradução latina da Bíblia, conhecida como “Vulgata” era suficiente para qualquer discussão dogmática, que a tradição tinha uma autoridade paralela à das Escrituras, que os sacramentos são sete, que a missa é um verdadeiro sacrifício que pode oferecer-se em benefício dos mortos, que nela não é necessário que todos recebam tanto o pão como o vinho, que a justificação é o resultado da colaboração entre a graça e o crente, mediante os méritos das boas obras, etc.

Esse concílio, apesar de sua história acidentada, do escasso número de prelados que o assistiram e dos obstáculos que vários soberanos puseram antes de permitir que os decretos fossem promulgados em seus territórios, marcou o nascimento da igreja católica moderna. Esta não era exatamente igual à igreja medieval contra cujos costumes Lutero protestou, mas era um novo fenômeno, produto em parte de uma reação contra o protestantismo. Durante os próximos quatro séculos, essa reação seria tal que a igreja romana se veria impossibilitada a aceitar o fato de que muitos dos elementos da reforma protestante, refutados em Trento, tinham profundas raízes na tradição cristã. Como veremos mais adiante, talvez seja essa a descoberta mais importante que o catolicismo romano tem feito no século XX.

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