A era dos reformadores (XIV): uma Idade em Convulsão

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 215 a 219.

“Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne, e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem, e na sua fúria os montes estremeçam.” (Salmo 46: 1 a 3)

A era que acabamos de narrar foi uma das mais convulsivas de toda história do cristianismo. Em pouco menos de um século, o edifício da cristandade medieval começou a desmoronar. O velho ideal de uma só igreja com o papa como cabeça, que nunca tinha sido aceito no Oriente, perdeu também sua vigência no Ocidente. A partir daí, o cristianismo ocidental viu-se dividido em várias tradições que, apesar de posteriormente, se aproximarem entre si, refletiam enormes diferenças.

No começo do século XIV, apesar da corrupção que existia na igreja e das muitas pessoas que se doíam por isso e sonhavam com uma reforma, todos iam pensando que a igreja era essencialmente uma e que essa unidade devia refletir em sua estrutura e hierarquia. De fato, os principais reformadores partiram dessa posição e foram poucos os que chegaram a negá-Ia enfaticamente. Para os chefes do protestantismo, a unidade da igreja era uma de suas características essenciais e, portanto, ainda que momentaneamente fosse necessário quebrá-la com o fim de ser fiéis ao ensino bíblico, essa mesma fidelidade exigia que se continuasse fazendo todo o possível por ter de volta a unidade perdida.

Também se dava por certo, no início da “era dos reformadores”, que um estado dividido por questões religiosas não poderia subsistir. Desde pouco depois da conversão de Constantino, os cristãos tinham se acostumado a pensar, como antes o haviam feito os pagãos, que um estado tinha que se decidir por uma religião e que dentro dele todos tinham que se submeter a ela. Com a única exceção dos judeus (e na Espanha, os muçulmanos), os que viviam num estado cristão deviam ser cristãos e fiéis filhos da igreja.

Este modo de entender a unidade nacional, ou a relação entre a fé e o estado, foi a causa fundamental das repetidas guerras religiosas que sacudiram todo o século XVI (e também o seguinte). Posteriormente, e em alguns lugares antes que outros, foi-se chegando à conclusão que tal unidade de crenças não era necessária para a segurança do estado, ou pelo menos que, ainda que desejável, seu preço seria demasiado elevado. Isto foi o que sucedeu, por exemplo, na França, onde o edito de Nantes pôde manifestar o fracasso da política anterior que tratava de forçar a todos os franceses a aceitar a mesma linha teológica. Com isso iniciou-se um amplo processo que teria enormes consequências, pois pouco a pouco os diversos estados da Europa foram obrigados a adotar uma política de tolerância religiosa, na qual se permitia a existência de diversas opiniões teológicas. E daí se passou à ideia, mais moderna, do estado leigo, que foi deplorada por algumas igrejas, segundo veremos mais adiante, porém que era consequência da diversidade que começou a manifestar-se no século XVI.

Também nesse século acabou de derrubar-se o sonho de um império universal. O último imperador que, ainda que de um modo bem limitado, pôde abrigar tais ilusões foi Carlos V. A partir de então os chamados “imperadores” não foram mais que reis da Alemanha, e ainda assim seu poder era um tanto precário pelo seu caráter eletivo.

Por fim, a ideia conciliarista também veio ao chão. Durante várias décadas os reformadores estiveram esperançosos de que um concílio universal lhes daria razão, e poria em ordem a casa do papa. O que sucedeu foi totalmente o contrário, pois o papado pôs em ordem seus próprios assuntos e, quando por fim se reuniu o Concílio de Trento, ficou claro que aquela assembleia era um instrumento nas mãos dos papas e não um verdadeiro tribunal internacional e imparcial.

É necessário ter-se em mente tudo isso para compreender a vida, os atos e a têmpera daqueles que viveram nessa época, e nela foram fiéis ao mandado de seu Senhor. Tanto entre os protestantes como entre os católicos houve gigantes, comparáveis somente àqueles da que temos chamado “era dos gigantes”. Ao seu redor o mundo convulso se derrubava e às vezes se agigantava (não se deve esquecer que, cronologicamente, a “era dos reformadores” coincidiu com a “era dos conquistadores”, que vamos narrar no próximo volume). Os velhos pontos de apoio – papado, o Império, a tradição – cambaleavam. Como dizia Galileu, a Terra mesma se movia.

Resultado de imagem para A Tera é redonda - o julgamento de Galileu
Galileo diante do Santo Oficio, pintura do século
XIX, por Joseph-Nicolas Robert-Fleury.

E pur si muoveDiz a lenda que (…)  Galileu Galilei murmurou esta frase depois de ter sido obrigado a renegar em 1633, diante da Inquisição, sua crença de que a Terra se move em torno do Sol. [1]

As comoções sociais e políticas eram frequentes. O velho feudalismo ficou de lado, para dar passagem ao nascente capitalismo. Numa época supostamente brilhante, foram cometidas terríveis atrocidades em nome do Crucificado. E eram cometidas com toda a sinceridade e absoluta convicção.

Tal foi a época em que viveram Lutero, Calvino, Knox, Menno Simons e todos os demais reformadores de quem temos tratado aqui. E o mais notável é a confiança que esses reformadores tiveram na Palavra de Deus, não só para lhes dar razão e vitória, mas também para produzir a reforma que a igreja necessitava, e da qual eles não seriam mais que preâmbulo. Lutero e Calvino, por exemplo, sempre creram que o poder da Palavra de Deus, era tal que, enquanto a igreja romana continuasse a tê-la em seu seio, e por mais que se negasse a escutá-la, sempre restava nela um “vestígio de igreja” e esperavam o dia quando a velha igreja se voltaria para ouvir essa Palavra e começasse a produzir reformas semelhantes a que eles empreenderam. Foi tal confiança no poder da Palavra, que lhes permitiu, em meio a essa idade convulsa, e ainda quando suas vidas perigavam, continuar cantando e vivendo o Salmo: “Portanto não temeremos ainda que a terra se transforme, e os montes se abalem no seio dos mares“.

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[1] In: <https://pt.wikipedia.org/wiki/E_pur_si_muove!>. Acesso em 02/06/2018.

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