A era dos conquistadores (V): a serpente emplumada

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 076 a 101.

“Que deixeis vossos sacrifícios e não comais carne dos vossos próximos, nem façais sodomias nem as coisas feias que costumais fazer, porque assim ordena nosso Senhor Deus, que é o que adoramos e cremos e nos dá a vida e a morte e nos há de levar aos céus.” (Hernán Cortés)

As Antilhas não saciaram muito tempo as ânsias de ouro e de glória dos conquistadores. Logo começaram a dirigir sua atenção para novas terras, que prometiam ser mais ricas e mais difíceis de conquistar. Para isso contribuíram os próprios índios que, num esforço em desfazer-se dos invasores, lhes diziam que para oriente, ou para o norte, ou para o sul, existiam grandes reinos nos quais abundava o ouro. Em 1517 (o mesmo ano que Lutero pregou suas famosas noventa e cinco teses), Francisco de Córdoba descobriu a península de Yucatán, onde encontrou forte resistência por parte dos índios. No seu regresso, trouxe informações sobre a rica civilização maia, da qual um dos deuses era a serpente emplumada, Cuculcán. Pouco depois, movido pelas informações de Francisco de Córdoba, Juan de Grijalva explorou as costas do México, e regressou com notícias do grande e rico império asteca.

Tudo isto inspirou a Diego Velásquez, governador de Cuba, a organizar uma expedição para explorar e conquistar a região. Para dirigi-la, nomeou a Hernán Cortés, um tabelião que o havia acompanhado na conquista de Cuba. Quando a expedição estava pronta, Velásquez pensou tirar o comando de Cortés. Porém este, inteirado dos planos do governador, zarpou sem esperar permissão.

Primeiros encontros com os índios

Cortés e sua força de uns quinhentos homens e dezesseis cavalos se dirigiram antes de tudo a ilha de Cozumel, onde tiveram a sorte de encontrar um espanhol, Jerônimo de Aguilar, que tinha sido feito cativo pelos índios, e vivido com eles por algum tempo. Aguilar seria um valioso instrumento de Cortés, pois servia de intérprete. Havia também outro espanhol a quem os índios tinham aprisionado. Porém este outro, depois de ganhar sua liberdade, conquistou o favor do cacique, casou-se e tinha família e, consequentemente, preferiu ficar com os índios.

Cortés estimulou os índios a aceitarem o cristianismo. Quando eles se negaram, dizendo que seus deuses lhes tinham servido bem e que não tinham porque abandoná-los, Cortés ordenou que os ídolos fossem destruídos e lançados de cima da pirâmide. Depois, no lugar em que antes estavam os deuses, puseram um altar com uma cruz e a imagem da Virgem, e o sacerdote Juan Diaz disse a missa. Aquele foi o primeiro indício dos métodos que Cortés projetava implantar na conversão dos índios.

Resultado de imagem para malincheDe Cozumel, os conquistadores navegaram a Tabasco, onde encontraram forte resistência por parte dos índios. Porém, depois de três dias de luta a artilharia e a cavalaria espanholas se impuseram, e os índios se declararam vencidos. Trouxeram então presentes a Cortés, entre os quais se contavam vinte mulheres para os chefes da expedição. Uma delas, Malinche, a quem depois os espanhóis batizaram com o nome de dona Marina, servia a Cortés como intérprete, e posteriormente também seria sua concubina. Também ali os espanhóis ergueram uma cruz e um altar, e celebraram a missa.

Resultado de imagem para a serpente emplumadaFoi provavelmente em Tabasco que Cortés se inteirou de uma velha lenda índia, que lhe serviu de instrumento em sua tarefa conquistadora. Era a lenda de Quetzalcoatl, a serpente emplumada que também era adorada pelos maias sob o nome de Cuculcán. Segundo a tradição, cujos detalhes não estão de todo claros, Quetzalcoatl tinha partido para o oriente numa embarcação feita de serpentes, dizendo que tinha que regressar a seu senhor, e que algum dia voltaria para as terras mexicanas, a fim de reclamá-las para si e para seu senhor. A lenda dizia que esse regresso teria lugar no ano designado no calendário mexicano como ce acatl, “uma cana”. Para sorte de Cortés, seu desembarque tinha ocorrido precisamente no tal ano, e assim o conquistador decidiu explorar a lenda fazendo correr a notícia de que ele era Quetzalcoatl que regressava reclamando suas possessões.

Na lenda de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, era adorada também pelos maias sob o nome de Cuculcán.

De Tabasco, Cortés e os seus seguiram uma rota que posteriormente os levou a região de Tlascala, o mais poderoso e guerreiro dos estados vassalos dos astecas. No caminho, apesar das admoestações do padre Bartolomeu de Olmedo, que dizia que aquele não era o procedimento correto na conversão dos índios, Cortés ia destruindo os ídolos, e exortando aos naturais a abandonar os sacrifícios humanos e todos os seus maus costumes. A ironia estava que, apesar dos sacrifícios humanos, não havia razão para pensar que os costumes em questão eram menos dignos do que os dos espanhóis, que roubavam o quanto podiam, violavam as mulheres, e tratavam os índios como se não fossem seres humanos.

A marcha para Tlascala foi mais difícil que as anteriores pois se tratava de uma região com meio milhão de habitantes e fortes exércitos. Freqüentemente os espanhóis viam-se em difíceis situações militares nas quais só puderam salvar-se graças às suas armaduras, sua artilharia e seus cavalos. Posteriormente, convencidos de que não poderiam vencê-los, os tlascaltecas decidiram estabelecer uma aliança com Cortés e os seus. Visto que a inimizade entre os astecas e os tlascaltecas era velha e profunda, a partir de então estes últimos foram os melhores aliados dos conquistadores. Nesse caso, Cortés deixou-se convencer pelas súplicas de Olmedo e, quando seus novos aliados se negaram a destruir seus ídolos, não se atreveu a derrubá-los. O apoio dos tlascaltecas era demasiado importante, e o conquistador sabia que o perderia se não ouvisse os conselhos do sacerdote.

Tenochtitlán

Durante toda essa longa marcha, Cortés tinha recebido embaixadores e mensagens de Montezuma, o imperador asteca. Essas embaixadas que lhe rogavam que não continuasse sua marcha para Tenochtitlán, também perguntava-lhe se de fato era Quetzalcoatl, a quem os astecas esperavam. Assim, os próprios embaixadores deram a Cortés indícios de que sua política de aplicar a velha lenda estava tendo bons resultados. Em Tenochtitlán, Montezuma não se atrevia a dar a ordem que poderia ter liquidado os espanhóis, por temor de que verdadeiramente se tratasse de Quetzalcoatl.

Quando ficou claro que nada poderia dissuadir o suposto Quetzalcoatl de seu propósito de visitar Tenochtitlán, o imperador saiu para recebê-lo. Junto com ele, e acompanhado de enorme séquito, os conquistadores entraram na capital mexicana.

A situação de Cortés era precária. Se bem que tinha conseguido encontrar Tenochtitlán com um contingente de aliados tlascaltecas, ele se encontrava no meio de uma enorme cidade da qual só era possível sair por calçadas que atravessavam o lago, e nas quais havia pontes que os astecas poderiam destruir facilmente. Além do mais tinha partido de Cuba sem a permissão de Velásquez, de modo que a corte espanhola, diante da qual certamente o governador de Cuba protestaria, poderia considerá-lo rebelde. O único modo de evitar tal ação por parte da coroa era assegurar-se do êxito do empreendimento, tanto nos campos político, econômico, militar, como no religioso.

Depois de poucos dias de chegar a Tenochtitlán Cortés recebeu um convite da parte de Montezuma para que se unisse a ele para uma visita ao templo do deus Huichilopochtli, a quem os espanhóis chamavam de “Huichilobos”. As palavras de Cortés no templo foram cheias de falta de respeito para com a religião dos índios e o imperador, agravado, pediu-lhe que se retirasse enquanto ele ofereceria sacrifícios de arrependimento aos deuses por ter trazido o espanhol ao recinto sagrado.

Aquele incidente, e vários outros, convenceram os espanhóis de que a hospitalidade com que tinham sido recebidos não continuaria por muito tempo. Montezuma continuava tratando-os como se fossem visitantes que logo abandonariam seus territórios. Naturalmente, os espanhóis não estavam dispostos a partir tão facilmente. E posteriormente, seguindo o conselho de alguns de seus capitães, Cortés decidiu dar o golpe fatal. Ele e um grupo de seus soldados se apresentaram no palácio imperial, capturaram a Montezuma, e o “convidaram” a estabelecer sua residência com eles.

De posse da pessoa do imperador, Cortés julgou-se suficientemente forte para destruir os ídolos. Porém seus primeiros atos dessa índole causaram tal revolta na população, que o conquistador desistiu por algum tempo.

Chegaram então notícias de que Velásquez tinha enviado a Pánfilo de Narváez para castigar o rebelde Cortés, e que ele marchava para Tenochtitlán com uma forte coluna. Cortés saiu inesperadamente de Tenochtitlán, e caiu de surpresa sobre Narváez, derrotou-o e recrutou quase todos seus seguidores.

De regresso a Tenochtitlán, Cortés percebeu que a situação tinha-se deteriorado sobremaneira. Quando os principais chefes índios estavam reunidos numa festa em honra de Huichilopochtli, os espanhóis caíram sobre eles e os mataram sem misericórdia alguma. Diante de tal atrocidade, o povo se rebelou. Cortés tratou de acalmar os ânimos fazendo aparecer a Montezuma. Porém este já havia perdido o respeito dos seus, que o Imagem relacionada

A situação dos espanhóis era insustentável, pois se achavam sitiados no meio de uma enorme cidade, Por fim, em 30 de junho de 1520, decidiram abandonar a capital. Naquela noite triste perderam boa parte de seus soldados e cavalos, além de quase todo ouro que tentavam carregar. Na batalha de Otumba, Cortés, e os seus, puderam por fim reorganizar-se e derrotar os astecas que os perseguiam.

Resultado de imagem para sacrifícios humanos nos cultos astecasEntão começou para os espanhóis a difícil tarefa de conquistar Tenochtitlán. Com a ajuda de seus aliados tlascaltecas, dedicaram-se a atacar várias cidades vizinhas, ao mesmo tempo em que traziam desde a costa alguns navios, desmontados em peças. Com aquela frota, montada de novo no lago, começou o assédio. Foi uma longa batalha. Os espanhóis e seus aliados tiveram que tomar a cidade de edifício em edifício e de canal em canal. Com os escombros iam enchendo os canais. Quando estavam suficientemente perto, puderam ver alguns de seus companheiros, feitos prisioneiros pelos astecas, sacrificados no alto da pirâmide onde estava o altar de Huichilopochtli. Finalmente, apesar da valorosa resistência dirigida por Cuauhtémoc, sobrinho de Montezuma, a cidade e o próprio Cuauhtémoc caíram nas mãos dos espanhóis. A conquista tinha terminado.

Os sacrifícios humanos foram um dos elementos da cultura asteca que maior repugnância causaram aos europeus e, conseqüentemente, serviram para justificar muitos dos desmandos dos conquistadores.

A partir de então, os outros caciques do México, temerosos de que sucedesse em seus territórios o mesmo que tinha sucedido nos do poderoso Montezuma, foram-se dobrando diante dos espanhóis, e declarando-se seus vassalos. Em 1525, diz-se que os astecas projetaram uma sublevação, e Cuauhtémoc e seu principal comandante foram enforcados. A conquista de Yucatán levou mais tempo, porém se completou por volta de 1541.

Quanto a Cortés, seu enorme triunfo valeu-lhe o esquecimento pela corte espanhola de sua rebelião contra Velásquez, e lhe conferiu o título de Marquês do Vale de Oaxaca. Porém logo depois, seguindo sua política de não permitir que nenhum conquistador se fizesse demasiadamente poderoso, a coroa começou a limitar seus poderes. Em parte para escapar de uma situação que se fazia cada vez mais apertada, Cortés dirigiu outras expedições a Honduras (1524) e a Baixa Califórnia (1535). Finalmente regressou a Espanha, onde morreu em 1547.

Os doze apóstolos

Embora dois sacerdotes acompanhassem Cortés desde o princípio de sua expedição, é claro que não foram suficientes para a obra de conversão de tão grande império. Outros três chegaram depois, entre eles o famoso Pedro de Gante, que se dedicou ao ensino e mediante ele fez um verdadeiro impacto no país. Porém Cortés, que apesar de todas suas violências era católico sincero e até fanático, escreveu a Carlos V rogando-lhe que lhe enviasse frades, e não sacerdotes seculares nem prelados, pois os frades viviam na pobreza, e seriam um exemplo para os nativos, enquanto que os seculares e os prelados se ocupariam mais com luxos e pompas, e nada ou pouco fariam em prol da conversão dos índios.

Em resposta as petições de Cortés, chegaram a Nova Espanha (que assim se chamou o México) doze franciscanos aos quais depois se deu o título de “os doze apóstolos”. Eram pessoas dignas, que conservavam rigorosamente o ideal da pobreza de seu fundador São Francisco. Conta-se que um deles, Toríbio de Benavente, escutou que, quando os franciscanos passavam os índios repetiam a palavra “motolinea” e, quando lhe disseram que queria dizer “pobre”, decidiu que este seria seu nome. É por isso que a história conhece o frade Toríbio, que depois se destacou pelas suas crônicas da época, como Motolinía. Outro deles, Martín de Valencia, a quem os franciscanos elegeram chefe, foi tido como santo, e sua adoração continuou por muito tempo.

Ao receber aqueles franciscanos, Cortés ajoelhou-se diante deles e lhes beijou as mãos, diante do que os índios começaram a perguntar-se que poder tinham aqueles pobres pregadores que o próprio Cortés se ajoelhava diante deles.

O trabalho daqueles franciscanos, e dos muitos outros frades e sacerdotes que os seguiram, não foi fácil. De um lado, o ressentimento dos índios contra os espanhóis era grande, pois lhes haviam tomados as terras, muitos deles violaram suas mulheres, e todos eles depreciavam as mais altas conquistas de sua cultura, tratando-os como bárbaros. De outro lado, o triunfo dos cristãos parecia demonstrar que seu Deus era mais poderoso que os dos vencidos, e consequentemente eram muitos os índios que se apressavam em pedir o batismo, com a esperança de conquistar desse modo a boa vontade de tão poderoso Deus.

O principal método que seguiram os franciscanos, e os outros depois, foi estabelecer escolas onde ensinavam os filhos dos caciques e dos índios mais importantes, com a ideia de que depois essas crianças voltassem para seus lares e convertessem a seus familiares. No princípio, muitos dos caciques trouxeram, não os seus filhos, mas outros, porque temiam o mal que os sacerdotes pudessem fazer-lhes, ou que tomassem para escravos. Porém, pouco a pouco, foi aumentando o prestígio dos franciscanos, e assim foram aumentando os que estavam dispostos a enviar seus próprios filhos às escolas. Através desses alunos, um conhecimento rudimentar do cristianismo foi se estendendo por todo o país.

Em alguns casos, a popularidade dos frades foi tal que quando as autoridades decidiram mandá-los a outros lugares e substituí-los por sacerdotes seculares, os índios se revoltaram, tomaram a igreja e obrigaram as autoridades a mudar de política.

Como em toda a América, este fato trouxe conflitos tanto com os sacerdotes seculares como com os colonizadores, que não queriam senão explorar os desventurados índios. Enquanto os frades os defendiam, os colonizadores se aproveitavam do sistema de encomendas, que logo foi estabelecido também na Nova Espanha. Além do mais os sacerdotes seculares se mostravam enciumados com a boa vontade que os frades tinham conseguido ganhar entre os índios, sem considerar que isso se devia, pelo menos em parte, ao que Cortés já havia dito em sua carta ao imperador, isto é, que os frades viviam com o povo e compartilhavam com ele, enquanto muitos seculares não queriam senão o prestígio e a pompa de seus ofícios. Estas lutas entre os frades, os seculares e os conquistadores duraram por várias gerações.

Uma das primeiras controvérsias na igreja mexicana teve a ver com os batismos em massa celebrados pelos primeiros missionários. Depois da derrota dos astecas, e ao que parece também de seus deuses, os índios corriam para receber o batismo em grandes números. Os missionários pensavam que bastava conhecer algo do monoteísmo cristão, da doutrina da redenção em Cristo, o Pai Nosso e a Ave Maria. Alguns que pareciam tímidos, e por isso não podiam repetir o que se lhes ensinava, também foram batizados. O resultado foi que os novos cristãos eram contados aos milhões. Segundo os cálculos de Motolinía, nos primeiros anos foram batizados entre cinco e nove milhões de índios. Quase todos os missionários contam terem batizado centenas deles num só dia, e terem repetido essa prática durante vários anos.

Tudo isso produziu certa controvérsia, sobretudo porque existiam outros motivos de ciúmes. Os missionários foram acusados, particularmente os franciscanos, não de batizar as pessoas sem a devida preparação, como era de se pensar, mas de simplificar em demasia o rito batismal. Posteriormente a questão chegou ao papa Paulo III, que exonerou de todo pecado os que até então haviam oficiado um rito de batismo demasiadamente simplificado, porém deu instruções de que a partir de então se cumprisse o ritual que, sem ser tão complicado como o que se praticava na Europa, não se limitava à água e à fórmula batismal, mas também incluía várias das cerimônias que através dos anos se haviam somado ao rito da lavagem. Contudo, visto que o papa tinha dito que isto podia ser esquecido em casos urgentes, houve, todavia casos em que alguns missionários batizaram grandes multidões num só dia, se bem que não se repetiu o que havia chegado a ter lugar antes da controvérsia, de batizar a vários de uma só vez aspergindo-lhes com um hissopo.

Frade Juan de Zumárraga

Resultado de imagem para Frade Juan de ZumárragaPouco depois da conquista do império asteca, deram-se os passos necessários para o estabelecimento da hierarquia eclesiástica no país. A primeira diocese fundada foi a de Tlascala, encomendada ao dominicano Julián Garcés, e que uns anos mais tarde se transferiu para Puebla. Em 1527, um ano depois da fundação do episcopado de Tlascala, a corte espanhola começou a conseguir com Roma a fundação de outra diocese na cidade do México, e propôs para ela o franciscano Frade Juan de Zumárraga. Apesar da bula papal ter sido dada em 1530, e Zumárraga ter sido consagrado em 1533, desde 1527 ele esteve a cargo do clero diocesano do México. Em 1547, quando se reorganizou a hierarquia das novas terras, se designaram três arquidioceses, que seriam sedes metropolitanas dos demais bispados. (Até então, todos os bispados americanos estavam sob a jurisdição metropolitana de Sevilha). Essas três arquidioceses foram as de São Domingo, a do México e a dos Reis (Lima). Zumárraga foi feito então o primeiro arcebispo do México, se bem que ocupou esse cargo por pouco tempo, pois morreu durante o primeiro ano.

A personalidade de Zumárraga na Nova Espanha nos recorda a do Cardeal Cisneros na velha Espanha. Como Cisneros, Zumárraga foi um erasmista convencido, e tratou de que a igreja neo-hispânica fosse fundada com as mesmas bases da reforma que Erasmo havia inspirado.

Semelhante a Cisneros na Espanha, Zumárraga ocupou-se do estudo das letras. Foi em parte devido a sua iniciativa que se levou ao México a primeira impressora que funcionou no Novo Mundo, e na qual se imprimiram numerosas obras para a instrução dos índios. Entre as primeiras obras impressas se contava, como temos exposto, a Suma da doutrina cristã de Constantino Ponce da Fonte, que a Inquisição condenou em Sevilha como protestante. Ainda que naquela suma, que Zumárraga publicou sem mencionar seu autor, se encontravam doutrinas de inspiração erasmista mais que protestante, o fato mesmo de escolhê-la para a instrução dos índios é sinal do espírito de Zumárraga.

Como parte desse espírito erasmita, Zumárraga deu os primeiros passos para a fundação da universidade do México. Entrementes, apoiou decididamente a obra do colégio franciscano de São Tiago de Tlatelolco, que muitos pensavam deveria ser a base da universidade. E uma vez mais este arcebispo neo-hispânico nos recorda o Cardeal Cisneros, que ocupou um papel de grande importância nos primeiros anos da universidade de Alcalá.

Zumárraga recebeu também o título de “protetor dos índios”, e o recebeu tão seriamente que quando os ouvidores do rei se mostraram injustos para com os índios, e começaram a explorá-los em benefício de seus parentes e amigos, o arcebispo os admoestou. Quando os ouvidores responderam com palavras e ações mais fortes Zumárraga deu parte à corte, e os fez depor.

Todavia, semelhante a Cisneros, Zumárraga combinava seu espírito erasmita com um fanatismo inquisitorial. Quando, em 1536, se estabeleceu a Inquisição no México, Zumárraga recebeu o título de “inquisitor apostólico”. Entre essa data e 1543, sob sua direção, houve cento e trinta e um processos, dos quais a maioria foi contra espanhóis, e treze contra índios. O mais famoso destes processos foi o de dom Carlos Chichimectecotl, um cacique de Texcoco que tinha estudado no colégio de Tlatelolco, e a quem se acusava de conservar ídolos, de falar desrespeitosamente dos sacerdotes e viver em concubinato. O acusado confessou que vivia com sua sobrinha, e que na sua casa se encontravam alguns manuscritos índios e ídolos que ele disse conservar por curiosidade. Ninguém testemunhou tê-lo visto adorando os ídolos. Porém o que no final das contas fêz com que ele fosse condenado foi que alguém declarou haver escutado ele dizer que os cristãos tinham várias mulheres que se embriagavam, que seus sacerdotes não podiam contê-los, e que por isso seu Deus e sua religião não eram dignos de crédito. Sobre essa base, Chichimectecotl foi levado à fogueira.

Este fato serviu de argumento para aqueles que diziam que não se devia instruir aos índios, pois era perigoso. Entre eles se contava o conselheiro do vice-rei, Jeronimo López, que dizia, num escrito que se conservou, que os índios não deviam receber instruções, pois eram inteligentes, e ao aprender a escrita poderiam comunicar-se entre si de um oceano a outro, coisa que não podiam fazer antes. Além disso, dizia o mesmo autor, ensinar-lhes a ler e pôr suas mãos na Bíblia era abrir as portas a todas classes de heresias. Os índios deviam permanecer ignorantes, e o colégio de São Tiago devia ser fechado.

Este era o início do temor que se escondia por detrás da opinião das autoridades religiosas sobre se os índios deviam ordenar-se ou não. Em 1539, numa assembleia presidida por Zumárraga declarou-se que poderiam receber as quatro ordens menores, porém não as que tinham funções sacramentais. Em 1544, numa comunicação a Carlos V, os dominicanos argumentaram que os índios eram incapazes de serem ordenados e que, consequentemente, tampouco deviam estudar. Às vezes se apresentava, além do argumento da suposta incapacidade dos índios, a velha lei espanhola que não permitia que fossem ordenados os descendentes dos infiéis, até a quarta geração.

O mesmo espírito prevalecia nos mosteiros, apesar de que os frades franciscanos estavam mais dispostos a conviver com os índios. O mais que se lhes permitia era viver no mosteiro, onde usavam batina cor de café atada com uma corda. Porém não se lhes admitia a ordem nem sequer como irmãos leigos, nem se lhes permitia fazer votos. Se algum deles não se comportava como os demais criam que deveria fazer, simplesmente o expulsavam do mosteiro. Tal política foi seguida até no caso das conversões mais sinceras, como a de um cacique que ao ler a vida de São Francisco desfez-se de todos seus bens e passou o resto de seus dias tentando ser admitido no mosteiro. Ainda que, por fim, pela insistência do arcebispo, os franciscanos de Michoacán o admitiram, nunca lhe permitiram fazer os votos permanentes.

Em 1588 uma ordem real declarou que tanto as ordens sacerdotais como a vida monástica deviam estar abertas aos mestiços. Porém em 1636 o rei se queixou de que no México estavam-se ordenando demasiados “mestiços, ilegítimos e outros defeituosos”. Não foi senão muito tempo depois que se começou a ordenar livremente aos índios.

A Virgem de Guadalupe

A lenda da Virgem de Guadalupe, objeto de devoção de boa parte do povo mexicano até o dia de hoje, teve suas origens pouco depois da conquista, e parece ser um modo em que a consciência indígena protestou contra a violação que contra ela se fazia. Segundo a lenda, em 1531 o índio Juan Diego passava perto da colina de Tepeyac quando ouviu uma música, e a voz da Virgem que o chamava, dando-se a conhecer, e dando instruções para o arcebispo Zumárraga no sentido de que desejava que se construísse uma capela naquele lugar. O índio foi ao arcebispo, que não lhe deu crédito. Depois de uma segunda aparição, e de uma segunda entrevista com Zumárraga, este continuava incrédulo. Finalmente, na terceira aparição, a Virgem disse a Juan Diego que seu tio Juan Bernardino, que estava enfermo, sararia, porém que ele deveria recolher umas flores e levá-las ao arcebispo. Assim fêz o índio, e quando desembrulhou a manta em que trazia embrulhadas as flores, apareceu nela a imagem da Virgem de Guadalupe. Nesse mesmo dia, continua a lenda, Juan Bernardino sarou. Zumárraga, convencido pelo milagre da túnica pintada, fêz construir um templo em Tepeyac, para onde todos acudiram em devoção e gratidão.

Uma das dificuldades que esta história apresenta é que não se conserva testemunho algum de Zumárraga sobre todos esses acontecimentos que, se verídicos, deveriam ter comovido o incrédulo bispo. Porém há mais, pois o frade Bernardino de Sahagún, bom historiador dos acontecimentos daquele tempo, conta que o monte de Tepeyac era o lugar em que se rendia culto a mãe dos deuses mexicanos, cujo nome era Tonantzin, isto é, “nossa mãe”. Segundo diz Sahagún, iam para o local multidões para oferecer sacrifícios à deusa, e depois que se construiu o templo cristão continuavam chamando-a Tonantzin, dando a entender que esse nome queria dizer “Mãe de Deus”. Para o cronista piedoso, o ocorrido ali é uma “invenção satânica, para encobrir a idolatria debaixo do equívoco deste nome Tonantzin“. Em outras palavras, Sahagún, que viveu naquele tempo, dá a entender que o que aconteceu foi simplesmente que o velho culto indígena recebeu um verniz cristão.

Imagem relacionadaSeja qual for a verdade neste caso, o fato é que o culto à Virgem de Guadalupe parece ao historiador de hoje como um protesto, talvez inconsciente, de um povo oprimido. A lenda de Juan Diego afirma que a Virgem apareceu ao humilde índio, e não ao letrado e poderoso bispo espanhol. Depois, o bispo teve que aceitar o que dizia o índio. Além do mais, a relação entre Guadalupe e Tonantzin aponta para o fato de que, ainda que os espanhóis pudessem derrubar os templos, os senhorios e as instituições dos índios, sempre restava um centro de resistência, que permitia ao índio conservar sua dignidade e seu orgulho em sua própria história. Desde seus primórdios a lenda da Virgem de Guadalupe pode ser vista como protesto de um povo oprimido. E não é então por pura coincidência que quando o povo mexicano se rebelou contra o regime espanhol a Virgem de Guadalupe foi seu estandarte.

A Virgem de Guadalupe teve suas origens pouco depois da conquista, e parece ser um modo pelo qual a consciência indígena protestou contra a violação de que era objeto.

Novos horizontes

Quase tão rápido como foi conquistado o império asteca, os espanhóis começaram sonhar com novas conquistas. O cacique de Michoacán, em vista do sucedido em Tenochtitlán, se fêz vassalo do rei da Espanha em 1525, e para lá foram os franciscanos fundar missões e converter os índios. Depois, durante o resto do século XVI, os franciscanos se estabeleceram nos atuais estados mexicanos de Durango, Sinaloa e Chihuahua. Em vários desses lugares seguiu-se o método de juntar os índios num povoado, chamado de “missão” ou “redutos”, no qual viviam sob a tutela dos frades. Ali aprendiam tanto o catecismo como as artes agrícolas e, às vezes, algumas letras. Desse modo os frades tratavam de protegê-los tanto dos índios que não se submetiam como dos espanhóis que buscavam uma maneira de explorá-los.

A expansão espanhola para o norte recebeu o impulso de dois sonhos. Um deles, a esperança de encontrar uma passagem marítima entre o Pacífico e o Atlântico, levou à exploração do Golfo da Califórnia, pois por muito tempo pensou-se que a Baía da Califórnia fosse uma ilha, e que de algum modo se poderia passar do Golfo da Califórnia para o Atlântico. O outro sonho foi o das “Sete Cidades de Ouro”, que algum índio falou aos espanhóis, e que os impulsionou quase diretamente para o norte, nas regiões do Novo México. Mais tarde, a ameaça dos franceses na Luisiana, e dos russos no Norte da Califórnia, inspirou aos espanhóis o estabelecimento de bases e missões no Texas e penetrar ainda mais na Califórnia.

Os primeiros intentos de colonização e evangelização na Baía da Califórnia foram falidos. Mais tarde, foram os jesuítas que conseguiram estabelecer-se, primeiro, na costa oriental do Golfo e, por último, na península mesma. O mais destacado missionário nessa obra de expansão foi Eusébio Francisco Kino, de origem italiana, que fundou uma cadeia de missões muito além do domínio espanhol. Para essas missões de Kino e aos demais jesuítas que trabalharam sob suas ordens levaram gado e sementes de várias plantas europeias. Foi Kino quem primeiro descobriu que a Baía da Califórnia era na verdade uma península. Posteriormente suas missões chegaram até o Arizona, se bem que o próprio Kino viajou muito mais além de sua mais remota missão, e sonhava converter os apaches quando morreu em 1711. Outros continuaram a obra, porém em 1767 a corte decretou que todos os jesuítas fossem expulsos dos territórios espanhóis. Várias das missões foram ocupadas pelos franciscanos, dominicanos e outros. Muitas ficaram abandonadas.

Os franciscanos se interessaram pela região da Alta Califórnia (o atual estado da Califórnia dos Estados Unidos) no século XVIII. Quando o governo espanhol organizou uma expedição para explorar e colonizar a região, o frade franciscano Junípero Serra uniu-se a eles, e se dedicou a fundar missões por todo o sul da Alta Califórnia. Frade Junípero foi um incansável missionário, que muitas vezes chegou mais adiante dos territórios em que se podia contar com a proteção das armas espanholas, e que se destacou por sua defesa dos índios diante dos abusos dos colonizadores.

Porém o maior esforço dos franciscanos dirigiu-se diretamente para o norte, onde os conquistadores buscavam as sonhadas Sete Cidades. Umas vezes junto com os conquistadores, outras vezes depois deles, e outras vezes antes, os franciscanos foram abrindo caminho pelo centro do México, até o Novo México, onde os espanhóis fundaram em 1610 a Vila Real da Santa Fé de São Francisco de Assis, conhecida hoje simplesmente por Santa Fé. Vinte anos depois, cinquenta missionários cuidavam de mais de sessenta mil índios batizados no Novo México. Porém em 1680 houve uma grande revolta dos índios. Entre os quatrocentos espanhóis mortos se contavam trinta e dois franciscanos. Obrigados a recuar para o sul, os espanhóis empreenderam a reconquista da região em 1692, e logo os missionários trabalhavam de novo entre os índios, onde continuaram depois apesar de repetidas insurreições.

A presença dos franceses na Luisiana foi o que levou o governo espanhol a interessar-se pelo Texas, se bem que antes Alvar Núnez Cabeça de Vaca tinha atravessado a região. Em fins do século XVII se estabeleceram as primeiras missões franciscanas no Texas, e nos próximos cem anos foram fundadas mais de vinte.

Enquanto tudo isso sucedia no norte, e muito antes do que acabamos de relatar, no sul da Nova Espanha os espanhóis marcharam para os territórios maias de Yucatán, Guatemala e Honduras. A conquista de Yucatán demorou várias décadas para completar-se e não foi senão em 1560 que por fim se nomeou um bispo para a região. Porém, ali já tinham trabalhado missionários, principalmente os franciscanos. Em muitos casos permitiu-se aos caciques yucatecos manter algo de sua autoridade, se bem que sob a tutela dos espanhóis. A Guatemala foi conquistada em 1524 por Pedro de Alvarado, lugar-tenente de Hernán Cortés, e em 1534 o papa Júlio III estabeleceu a diocese da Guatemala. Honduras, sem dúvida, foi motivo de conflitos entre os espanhóis procedentes do norte, enviados por Cortés, e os do sul, mandados por Pedrarias Dávila, governador do Panamá. Depois de longas contendas, Pedro de Alvarado conseguiu impor-se e estabelecer seu governo, sob o de Nova Espanha, na nova cidade de São Pedro Sula. Além do mais, a resistência dos índios sob o comando do cacique Lempira, foi valente e prolongada. Em 1540 Alonso de Cáceres fundou a cidade de Comayagua (a Nova Valadolid), que veio a ser a sede da primeira diocese de Honduras. Em todas essas expedições havia clérigos encarregados de cristianizar os índios, porém apesar disso a obra missionária nesses territórios marchou mais lentamente que no México.

Finalmente, foi também a partir do México que se empreendeu a conquista das Filipinas. Magalhães tinha visitado esse arquipélago em 1521, e depois houve várias expedições organizadas no México. Finalmente, a expedição de Miguel López de Legazpi, que chegou às Filipinas em 1565, iniciou a conquista. Em 1572 foi fundada a cidade de Manilha. Visto que havia naquele arquipélago um bom número de tribos convertidas ao Islamismo, os espanhóis deram aos naturais o nome de “mouros”, pelo qual são conhecidos até o dia de hoje. Aparte dos mouros, e do forte contingente chinês que habitava o país, os espanhóis não tiveram maiores dificuldades em conquistá-lo.

Os motivos da conquista das Filipinas não foram os mesmos do empreendimento americano, pois o que se buscava não era ouro nem grandes riquezas, mas sim uma base para o comércio com o Oriente, e para as missões nessa região. Por isso, e porque os missionários gozavam de maior poder, os abusos cometidos contra os filipinos, ainda que frequentes, não foram tantos como os que se cometeram na América.  Porém também ali existiu a luta entre colonos e missionários, e entre as diversas autoridades religiosas. Além do mais, porque os missionários espanhóis pensavam que os filipinos eram seres inferiores, incapazes de governar suas próprias vidas ou de cumprir com as responsabilidades do ministério ordenado, as Filipinas não se tornaram o centro missionário que se esperava. Se bem que alguns missionários espanhóis partiram desse arquipélago para trabalhar na China e no Japão, suas obras não tiveram bom êxito, e posteriormente foram suspensas.

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