A era dos conquistadores (VI): Castela do ouro

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 102 a 109.

“Nossos convertedores tomaram-lhes o ouro e as mulheres e os filhos e os demais bens, e deixaram-lhes com o nome de batizados.” (Gonçalo Fernández de Oviedo)

Em 1509 concedeu-se a Diego de Nicuesa o comando de uma expedição que deveria colonizar a região de Veragua. Este era o nome que se dava a uma região de limites mal definidos, que incluía parte da América Central e do Panamá. A expedição, todavia, não teve bom êxito, e posteriormente os sobreviventes tiveram que receber a duvidosa hospitalidade de seus compatriotas que pouco antes tinham fundado a colónia de Santa Maria de Antigua, no Golfo de Urabá. Estes outros colonos não receberam bem a Nicuesa, e finalmente lhe deram um velho navio para que ele e os seus regressassem à Espanha ou à Espanhola. Mas todos eles se perderam no alto mar.

Vasco Núñez de Balboa

Resultado de imagem para Vasco Núñez de BalboaA colônia de Santa Maria de Antigua, onde se refugiou Nicuesa, e que também o recebeu mal tinha sido fundada em 1510 por uma expedição sob o comando do bacharel Martín de Enciso. Ali também houve discórdias, em parte pela má administração de Enciso, que parecia incapaz de organizar a vida da pequena comunidade e prover-lhe de alimentos. Posteriormente, Vasco Núñez de Balboa, um intrépido aventureiro que tinha-se unido ilegalmente à expedição, conseguiu chegar ao poder. Enciso foi deposto e enviado de volta à Espanha, onde se dedicou a solapar na corte a autoridade de Balboa.

Entretanto, Balboa demonstrou ser um dos melhores dirigentes de todo o empreendimento colonizador. Logo ganhou a amizade dos índios da região vizinha, com os quais pode obter alimentos para sua gente e, sobretudo, ouro para enviar à Espanha para assim conseguir a simpatia da coroa. Depois de poucos meses de tomar o poder na colônia, na primavera de 1511, iniciou uma viagem de exploração para o oeste. Sua marcha foi pausada, pois em cada novo cacicado detinha-se para estabelecer boas relações com o cacique e os seus. Nas poucas vezes em que usou a força, foi muito comedido, e se assegurou de fazê-lo como aliado de algum dos chefes índios cujos territórios eram atacados pelos outros. Rapidamente conquistou grande respeito e afeto por parte dos índios. Fosse por medo, ou por qualquer outra razão, o fato é que a expedição de Balboa contou com abastecimentos, ouro e mulheres providenciadas pelos índios. Quando algum chefe índio se mostrava disposto a isso, Balboa o fazia batizar junto aos de seu povo, ainda que quase sempre com pouquíssima preparação ou explicação do significado do rito. Quando muito, se lhes dizia que por ele se tornariam cristãos e, consequentemente, é provável que muitos caciques entenderam que o que estavam fazendo era comprometer-se numa aliança com Balboa, a quem chamavam de Tiba, que quer dizer, “cacique cristão”.

No ano seguinte, depois de enviar para a Espanha o ouro obtido até à ocasião e de receber de Fernando a confirmação de seu cargo como governador da província de Darién, Balboa dirigiu outra campanha de exploração, agora não mais para o oeste, e sim para o sul do Golfo de Urabá, embrenhando-se pelos seus rios. Ali encontrou também muito ouro lavrado. Porém ao indagar do lugar de onde vinha, os índios lhe disseram que era lavrado nas terras do cacique Dabeiba, perto dali um pouco para o leste, e que esse cacique não tinha minas, mas que obtinha-o de outros índios mais guerreiros e moradores mais distantes que ele. Diante de tais notícias, Balboa desistiu do empreendimento e se dedicou a projetar outro de maior envergadura.

Resultado de imagem para Pedrarias DávilaNa sua expedição de 1511, para o oeste, Balboa tinha recebido repetidas notícias de um grande mar que se extendia ao sul do istmo, e no qual navegavam barcos tão grandes como os dos espanhóis, segundo as informações do filho do cacique Conagre. De tudo isso o governador de Darién mandou informar ao rei, dizendo-lhe que a terra era rica em ouro, que havia todo um mar para explorar e reinos para conquistar, e que para isso lhe pedia que enviasse-lhe um contingente de mil homens. Porém o que recebeu foram notícias de que Fernando e seus conselheiros, ao aperceberem-se da magnitude da operação, não criam que deveria tal operação ficar nas mãos de um aventureiro como Balboa, e que tinham nomeado a Pedrarias Dávila [Pedro Aria Dávila]  para dirigir a nova expedição, e substituir Balboa. Em tudo isso se via também a mão do bacharel Enciso, que se preparava para regressar com Pedrarias.

Diante de tais notícias, não restava a Balboa outro recurso além de mostrar sua habilidade. Com um punhado de homens e com a ajuda de muitíssimos índios dirigiu-se ao “Mar do Sul”. Mesmo que fosse época de chuvas, e que o aconselhável era esperar mais uns meses, o arrojado aventureiro e os seus puseram-se em marcha. Uma vez mais a amizade e o apoio dos índios foram de grande valor, pois a expedição não se extraviou nem uma só vez, mas, sim, marchou diretamente para seu objetivo. O único ato bélico foi a tomada de uma aldeia que poderia oferecer resistência, e que pertencia a um grupo de inimigos dos índios que os ajudava. Em fins de setembro de 1513, Balboa viu pela primeira vez o Oceano Pacífico, a quem chamou de “Mar do Sul” por tê-lo encontrado marchando nessa direção. Pouco depois, numa cerimônia formal, tomou posse dele em nome da coroa espanhola.

No regresso deu-se um incidente que manchou a carreira de Balboa. O cacique de Pacra, que segundo outros índios tinha minas de ouro, negou-se a dizer aos espanhóis onde estavam. De fato, não haviam tais minas. Porém os espanhóis mandaram cachorros para enfrentar o cacique e vários de seus lugar-tenentes, e depois queimaram seus corpos.

Castela do Ouro

A comissão real entregue a Pedrarias Dávila dava à região o nome de “Castela do Ouro”, pelo qual pode ver-se o impacto produzido pelos informes de Balboa e pelo ouro que havia mandado (deve-se lembrar que nessa época não se conheciam os tesouros do México e do Peru). Tão seguros e prometedores eram os planos do rei e seus conselheiros, que obtiveram do papa a promessa que Santa Maria e Antiga fosse feita cabeça da diocese, e nomearam para ocupar seu episcopado o frade franciscano Juan de Quevedo.

Entretanto, os resultados da expedição de Pedrarias, e o posterior governo dele, foram totalmente o contrário do que se esperava. O próprio Pedrarias era um homem enfermo que raras vezes marchava com suas tropas, e que não se preocupava por limitar ou castigar os desmandos das mesmas. Seu lugar-tenente, um tal Ayora, era cruel e cobiçoso. Tão logo chegaram à Santa Maria, muitos dos expedicionários ficaram enfermos, ao mesmo tempo que Ayora destruía os trabalhos diplomáticos de Balboa inimizando-se com os índios. Quando alguns caciques lhe trouxeram comida, e lhe fizeram uma festa, Ayora os fêz prisioneiros e os matou porque não trouxeram suficiente ouro. Muitos índios foram divididos em encomendas. Finalmente, todos os índios vizinhos fugiram e se esconderam. Os espanhóis saquearam suas cabanas e roubaram seus pertences. Porém logo começaram a passar fome. Nenhum espanhol se atrevia a sair de Santa Maria sem um forte contingente armado, porque os índios atacavam. Quando saiam em ataque, os índios se escondiam. Diz-se que mais de quinhentos espanhóis morreram, muitos deles de fome. A prometedora Castela do Ouro tinha-se tornado um inferno.

O bispo Quevedo, que tinha vindo com autoridade de supervisor, decidiu regressar à Espanha com a intenção de informar o rei dos maus manejos de Pedrarias e seus lugar-tenentes. Muitos outros insistiram nos seus desejos de partir para Cuba ou à Espanhola. Devido a escassez de víveres, o governador não pode senão deixá-los ir. Entre os que partiram se encontravam os missionários franciscanos enviados na expedição, que decidiram marchar para Espanhola tanto porque não viam possibilidade alguma de êxito em suas tarefas como em sinal de protesto contra o que estava ocorrendo. Balboa, que estorvava Pedrarias, foi enviado numa missão sem sentido para o Mar do Sul. O aventureiro saiu, se bem que de mau grado, confiando que quando a corte recebesse notícias do que sucedia, Pedrarias seria destituído. Porém o governador conseguiu interceptar algumas das mensagens dirigidas por alguns de seus partidários para a Espanha, e o acusou de traidor, e em 1519 mandou executá-lo. Foi então, em parte para manchar a memória do explorador, que Pedrarias marchou para o Mar do Sul, tomou posse de novo como se Balboa nunca estivesse estado ali, e fundou nas suas costas a cidade do Panamá.

Por muito tempo a antes prometedora Castela do Ouro tornou-se um pesadelo para os colonizadores espanhóis, até que, com a conquista do Peru, transformou-se em importante ponte entre os dois oceanos.

Para a América Central

Fora as visitas às costas centro-americanas por parte de Colombo e de outros navegantes, a primeira exploração desse território foi a da expedição de Gil Gonçalves Dávila, em 1522, sob a jurisdição de Pedrarias Dávila. Era acompanhado pelo sacerdote Diego de Aguero, que foi o primeiro sacerdote a visitar o interior da Costa Rica e Nicarágua. Segundo se conta detalhadamente, foram batizados nesta expedição 9.287 índios, se bem que em seu informe ao rei (na ocasião Carlos V) Gil Gonçalves falava de 32.000 convertidos. Em todo caso, da profundidade de tais conversões poderá o leitor fazer uma ideia, só tendo em conta que na província de Guanacaste, nos territórios do cacique Nicoyz, batizaram-se 6.063 pessoas depois de dez dias de ensinamentos cristãos. Mesmo que os informes dos expedicionários deem a entender o contrário, houve casos de exploração e abusos, e o dito que encabeça o presente capítulo refere-se concretamente a esta expedição.

Nossos convertedores tomaram-lhes o ouro e as mulheres e os filhos e os demais bens, e deixaram-lhes com o nome de batizados.” (Gonçalo Fernández de Oviedo)

No ano seguinte, com base na exploração de Gil Gonçalves, Pedrarias Dávila enviou uma nova expedição sob o comando de Francisco Fernández de Córdoba. Porém o que interessa à história posterior, e que é interessante notar, é que essa expedição foi custeada em parte por Francisco Pizarro e Diego de Almagro, e que Hernando de Soto tomava parte dela. Em 1524 Fernández de Córdoba fundou as cidades de Leão e Granada. Porém, pouco depois, Pedrarias Dávila supôs que seu Iugar-tenente estava em contato com Hernán Cortés, com o propósito de colocar sua colônia sob o comando do conquistador do México. Pedrarias marchou então para a Nicarágua, e fez processar e executar a Fernández de Córdoba na praça pública de Leão. A partir de então Pedrarias ficou como governador da Nicarágua.

Em 1531, foi concedida a Leão a categoria de sede episcopal, e por algum tempo seu bispo foi cabeça da igreja na maior parte da América Central.

Da Nicarágua partiram então outras expedições para a Costa Rica. Uma destas, sob o comando de Diego Gutiérrez, foi atacada pelos índios, e somente escaparam com vida o capelão e outro espanhol que depois relatou os crimes que provocaram a vingança dos índios.

Acontecimentos semelhantes a estes ocorreram repetidas vezes, sobretudo depois da conquista do México. De qualquer lugar aparecia um novo capitão que sonhava ser um outro Cortés, sem aperceber-se de que as circunstâncias na América Central eram bem distintas. Porém, pouco a pouco foram sendo fundadas as que são hoje as principais cidades centro-americanas, e os índios foram se convertendo umas vezes pela força, e outras simplesmente deixando-se levar pelo prestígio e poderio espanhol.

Talvez o mais interessante capítulo da história eclesiástica da América Central naqueles primeiros anos é o que se refere ao padre Juan de Estrada Rávago. Este era uma combinação de franciscano renegado, conquistador ambicioso, missionário benévolo para com os índios, e cortesão fracassado. Estrada estava a ponto de regressar para Espanha, em obediência a um mandato real que ordenava que todos os ex-religiosos que se encontravam nas Índias regressassem à Península, quando se inteirou de que Juan de Cavallón, que tinha sido comissionado pela Audiência da Guatemala para conquistar a Costa Rica, não contava com os fundos necessários para a empresa. Estrada ofereceu os seus, e uniu-se à expedição. Posteriormente, ficou com a responsabilidade da nova colônia, onde, com uma única exceção, evitou toda violência contra os índios. Além disso, aprendeu a língua dos nativos do lugar e percorreu boa parte da região construindo igrejas, catequizando e batizando. Com seus próprios fundos comprou roupas, alimentos e sementes que fez distribuir tanto entre os espanhóis como entre os índios. Por isso logo foram enviados do México doze franciscanos para ajudá-lo na tarefa evangelizadora. Perante a corte, Estrada fazia gestões para que o nomeassem bispo, visto que de fato era o chefe da empresa colonizadora. Porém o máximo que recebeu foi o título de Vigário da Costa Rica. Em 1562, o governo de Costa Rica foi confiado pela corte a Juan Vázquez de Coronado. E logo surgiram diferenças entre este e o sacerdote, que se dedicou a continuar seu trabalho missionário, se bem que há indícios de que obstruiu a obra do governo de Vázquez. Estrada partiu então para a Espanha com intenção de conseguir para si o bispado da Costa Rica. Vázquez de Coronado teve que enfrentar então sérias dificuldades com os índios, a quem os espanhóis exploravam cada vez mais e que repetidamente se revoltavam. Depois da morte de seu rival, Estrada regressou a Costa Rica para continuar seu trabalho missionário, se bem que sem o título de bispo que tanto ambicionava. Em 1572 retornou definitivamente para a Espanha, onde passou seus últimos dias.

Em fins do século XVI, a maioria dos índios da América Central se chamava cristãos. Porém ainda havia grandes regiões que não estavam exploradas, nas quais os índios conservavam sua independência. Além do mais, nas regiões supostamente cristianizadas os sacerdotes eram muito poucos, e seu trabalho se achava obstruído pela enorme má vontade que os conquistadores tinham criado com sua sede de ouro. Castela do Ouro nunca deu à Espanha o precioso metal que seu nome parecia prometer.

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