A era dos conquistadores (X): o vice-reinado da Prata

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 165 a 173.

“… o ódio que têm (os encomendadores) aos padres da Companhia; pela razão de terem entendido e estarem persuadidos de que por eles estão privados das encomendas e serviços que poderiam ter para suas chácaras e fazendas com os índios do Paraná.”  (Juan Blásquez de Valverde)

Os territórios que hoje constituem as repúblicas da Argentina, Uruguai e Paraguai foram os últimos de toda Hispano-América em que os conquistadores se estabeleceram permanentemente. Em busca de um estreito que o levasse ao Pacífico, Juan Diaz de Solís descobriu o Rio da Prata em 1516, porém sua expedição terminou tragicamente quando foi morto pelos índios. Quatro anos mais tarde, Magalhães deteve-se na região antes de continuar sua viagem para o estreito ao qual deu seu nome. E em 1526 Sebastião Caboto recolheu os sobreviventes da expedição de Díaz de Solís, que foram os primeiros a contar lendas das riquezas fabulosas que, segundo os índios, se encontravam para o oeste. Logo se formou o mito da “cidade encantada dos Césares”, onde o ouro abundava e havia um rei branco. Igual às lendas do EI Dorado e das Sete Cidades de Ouro, atraíram os aventureiros de outras regiões, neste caso a busca pela cidade dos Césares impulsionou a exploração para o interior do país. Em 1535 Pedro de Mendoza fundou a cidade de Buenos Aires, porém logo teve de abandonar a empresa devido à falta de suprimentos e a hostilidade dos nativos, que os espanhóis mesmo haviam provocado.

Assunção

Domingo Martínez de Irala.jpgEnquanto a expedição de Mendoza começava a sofrer dificuldades, um de seus lugar-tenentes, Domingo Martínez de Irala, penetrou no interior, e em 1537 fez construir um forte ao redor do qual foi fundada mais tarde a cidade de Assunção. Em 1541, os restos da expedição de Mendoza abandonaram Buenos Aires e foram estabelecer-se em Assunção, sob o comando do mesmo Alvar Núríez Cabeça de Vaca a quem temos visto caminhar desde a Flórida até o México. Porém, a guarnição se amotinou, depondo Cabeça de Vaca, e tomando por chefe Martínez de Irala.

Ao que parece, Irala e os seus foram muito mais benévolos com os índios que a maioria de seus compatriotas em outras partes do continente. Talvez isso se deva, em parte, porque sabiam que dependiam deles para sua subsistência, e que estavam isolados de toda ajuda possível no caso de um ataque por parte dos nativos. Em todo caso, o caráter pacífico daquela primeira expedição em terras do Paraguai foi um fator do bom êxito que, posteriormente, tiveram as missões jesuítas nesse país. Assim, os espanhóis viveram em relação relativamente amistosa com os índios, e as raças foram-se misturando com o nascimento de um grande número de mestiços. Logo, quase todos os crioulos de Assunção sabiam tanto o espanhol como o guarani, que era a língua dos nativos daquela região.

Apesar do episcopado de Assunção ter sido criado em 1547, por diversas razões o primeiro bispo não chegou senão somente em 1556. A nova diocese ficou sob a jurisdição da arquidiocese de Lima.

Os espanhóis que se estabeleceram em Assunção trataram de marchar para o Ocidente em busca da cidade dos Césares, porém constataram que os territórios que se achavam nessa direção, que hoje pertencem à Bolívia, já eram parte das terras conquistadas a partir do Peru e que, portanto, lhes estavam vedadas.

Tucumán

Resultado de imagem para Diego de RojasEnquanto isso, Vaca de Castro, o governador do Peru sugeriu a Carlos V, como um modo de desfazer-se dos muitos aventureiros que tinham invadido o país, que se empreendesse uma nova expedição para o sudeste (o que é hoje o ocidente argentino). Com a licença do rei, a empresa foi confiada a Diego de Rojas, que contornou o lago Titicaca e desceu pela ladeira oriental dos Andes. Apesar de Rojas ter encontrado a morte em 1544, por uma flecha envenenada, o resultado dessa expedição foi o descobrimento e colonização de Tucumán.

Pouco depois houve conflitos de jurisdição entre os espanhóis procedentes do Peru e os que vinham do Chile, pois ambos reclamavam a região. Por esta razão, e por ser um lugar afastado, Tucumán foi por um longo tempo um território violento, no qual vigorava a lei do mais forte.

Quando finalmente se fundou a diocese de Tucumán, sob a jurisdição da arquidiocese de Lima, seu primeiro bispo, o dominicano Francisco de Vitória (que não deve ser confundido com o outro dominicano de mesmo nome que foi professor na universidade de Salamanca) tornou-se um digno pastor da grei, pois foi este o bispo violento de quem falamos anteriormente, que estava mais interessado no ouro que no seu pastorado, e que arrebatou um expediente de Santo Toríbio de Mogrovejo, e o jogou no forno de uma padaria.

Quando frei Francisco renunciou em 1587, sucedeu-o o franciscano Hernando de Trejo, pessoa digníssima que se esforçou em aplicar as medidas reformadoras que tinham-se estabelecido, em Lima, sob a inspiração de Santo Toríbio.

Foi também em Tucumán que trabalhou entre os índios São Francisco Solano, de quem já temos tratado.

Buenos Aires

Resultado de imagem para Juan de GarayEmbora tenha sido fundada muito antes do que Tucumán e Assunção, Buenos Aires foi logo abandonada, e teve de ser fundada de novo em 1580, agora com tropas procedentes de Assunção sob o comando de Juan de Garay. Pouco depois chegou um forte contingente de franciscanos capitaneados por Juan de Ribadeneyra. A partir de então, os franciscanos ficaram com a responsabilidade da vida eclesiástica da recém-fundada cidade.

Entretanto, Buenos Aires não estava destinada a prosperar rapidamente. Durante muito tempo não passou de uma pequena população, pois não tinha riquezas capazes de competir com os atrativos do México ou do Peru. Em 1617 Felipe III separou-a da jurisdição do Paraguai, e três anos mais tarde foi criada a diocese da Santíssima Trindade do porto de Buenos Aires. Porém, durante todo esse tempo a cidade continuou vivendo em grande parte do contrabando e do tráfico de escravos. Em 1725 contava somente com dois mil habitantes.

Foi pelos fins do século XVIII, com a criação do vice-reinado da Prata (1776), que Buenos Aires começou a ganhar importância, pois foi convertida em capital de um vasto território.

As missões do Paraguai

O mais interessante capítulo da história da igreja em toda essa região durante a “era dos conquistadores” foi o referente às missões jesuítas no Paraguai.

Já vimos que, em outros lugares, tais como o norte do México, adotou-se a política missionária de reunir os índios em povoados onde viviam sob a direção dos missionários. Em alguns casos isto se fêz à força, e em outros mediante a persuasão. Porém, em nenhum lugar atingiu o êxito conseguido no Paraguai.

O precursor das missões jesuítas no Paraguai foi o franciscano Luís de Bolarios, Este chegou à Assunção em 1574, e dedicou-se a aprender os costumes e línguas nativas. Quatro anos mais tarde fundou o primeiro povoado missionário, onde reuniu meio milhar de índios. Pouco a pouco, com o apoio do governo civil, fundou cinco povoados ao redor da cidade de Assunção, cada um com várias centenas de índios. Seu propósito era utilizar a presença espanhola como exemplo e estímulo para os índios, mantendo, porém, suficiente distância entre estes e os colonizadores para evitar os abusos e desavenças que haviam ocorrido em outras tentativas semelhantes.

A obra dos jesuítas inspirou-se na de Bolaños e um dos principais instrumentos foi a tradução guarani do catecismo de São Toríbio, produto dos trabalhos de Bolaños.

Porém diferentemente do franciscano, os jesuítas estavam convencidos de que os colonos e soldados espanhóis eram um verdadeiro impedimento para sua obra missionária, e, portanto, decidiram enfronhar-se mais para o interior do país, para regiões onde o europeu fosse quase desconhecido. Essa política ficou confirmada quando a missão entre os guaycurúes, que eram os índios que mais pareciam ameaçar a cidade espanhola, tornou-se a mais difícil e menos frutífera. Posteriormente os jesuítas entregaram suas missões entre estes índios aos sacerdotes diocesanos, e dirigiram-se mais para o interior do país.

O principal promotor dessas missões foi o padre Roque Gonzáles, natural de Assunção, que falava o guarani com a mesma fluência do espanhol. Seu caráter, as vezes doce e ousado, permitiu-lhe penetrar em regiões onde antes nunca tinha sido visto um rosto branco. Em mais de uma ocasião, quando soube que os índios eram hostis, simplesmente dirigia-se à região e pedia para falar com o cacique. Desse modo ele e outros jesuítas foram ganhando a confiança dos nativos, e quando os convidaram a viver em povoados eles aceitaram.

Os povoados assim fundados eram, na verdade, pequenas teocracias. Embora os índios elegessem seus chefes, todos eram supervisionados pelo missionário, que tinha a última palavra, não só em questões de moral e religião, mas também nos assuntos práticos da comunidade.

O plano básico destes povoados era geralmente o mesmo. No centro havia uma grande praça, onde tinham lugar as reuniões, as procissões e as festas. Defronte à praça estava a igreja, com a residência do missionário. Havia, além disso, um armazém onde se guardavam os bens comuns, e um edifício à parte para as viúvas e os órfãos. Além dos edifícios necessários para oficinas, escolas, havia um bom número de construções enfileiradas pelas ruas, e em cada uma delas pequenos apartamentos para cada família.

Boa parte da propriedade era tida como comum, se bem que era permitido aos índios ter pequenos terrenos particulares. Os animais, os aparelhos de lavoura, as sementes, etc., eram propriedade de todo o povoado. Ainda que todos tivessem de trabalhar certo número de horas nos campos comuns, sempre havia tempo para os que se interessavam em artesanatos especiais, e os nativos chegaram a se tornar hábeis artesãos. Nalguns daqueles povoados, foram os índios que construíram os órgãos para suas igrejas.

Porém, nem tudo era cor de rosa. Cada povoado estava rodeado de grupos de índios que se negavam a abandonar a vida anterior, e que incitavam os outros a voltar para ela. Os desertores foram muitos, porém a maior parte deles voltava finalmente à “redução”. Em outros casos, os índios indômitos provocaram os outros à rebelião, e foi assim que perderam a vida Roque Gonzáles (que foi canonizado [beatificado] em 1934) e vários companheiros seus.

Os piores inimigos das reduções, sem dúvida, não eram os índios, mas os brancos, tanto espanhóis como portugueses. Estes últimos temiam que as missões jesuítas fossem um modo de extensão do poderio espanhol para terras brasileiras. Além do mais, a zona em que estavam as missões era precisamente o território que estavam acostumados a invadir para buscar escravos. Os espanhóis, por sua parte, se queixavam de que as missões lhes tiravam os índios que, de outro modo, trabalhariam em encomendas. Logo, ainda que aparentemente houvesse um conflito de fronteiras entre espanhóis e portugueses, o fato é que ambas as partes coincidiam em sua malquerença para com as aldeias dos jesuítas.

Em 1628 os portugueses de São Paulo começaram a atacar as missões. Arrasavam povoados indefesos e levavam milhares de índios, para vendê-los como escravos. Em alguns casos os missionários acompanharam seus rebanhos em seu infortunado êxodo, até que os portugueses os obrigassem a regressar. O primeiro remédio que se buscou foi transferir as reduções para territórios que estavam claramente fora das fronteiras com o Brasil. Apesar do enorme trabalho que isso acarretou, não resolveu a situação, pois os paulistas [bandeirantes] simplesmente se enfronhavam ainda mais em territórios espanhóis.

Diante dessa situação, os missionários decidiram armar seus paroquianos. As oficinas dos povoados se dedicaram a fabricar armas, e o irmão jesuíta Domingo de Torres, com um tiro de arcabuz, matou a um dos chefes paulistas. Então os portugueses se queixaram diante da corte espanhola, com o apoio mal dissimulado dos encomendadores. Porém o papa Urbano VIII excomungou os caçadores de índios, e Felipe IV declarou que eles eram livres e não eram sujeitos à escravidão. Além do mais, os jesuítas organizaram um exército índio de quatro mil homens que colocaram sob o comando do aguerrido irmão Torres. Em 1641, os jesuítas e seus índios derrotaram decisivamente os paulistas. Nesse mesmo ano, o rei rejeitou as queixas dos que acusavam os jesuítas de haver armado os índios, e declarou que tinham o direito de fazê-lo, sempre que fosse em defesa própria. O futuro das missões parecia assim assegurado.

A partir de então, o número e população dos redutos jesuítas aumentaram prodigiosamente, e em 1731 chegou a contar com 141.242 índios batizados. Tratava-se da mais vitoriosa tarefa missionária levada a cabo naquela “era dos conquistadores”, e teve lugar graças ao valor e a firmeza de um grupo de conquistadores espirituais que se negaram a deixar levar-se pelo atrativo do apoio militar espanhol.

Porém a oposição às missões não cessou. Comentava-se que os jesuítas escondiam grandes quantidades de ouro em seus povoados. Uma longa série de investigações sempre provou o contrário, porém repetidamente havia quem revivesse a história e desse lugar a novas suspeitas e pesquisas. Além do mais, dizia-se que os jesuítas pretendiam criar uma república independente, e até se disse que eram governados por um rei, “Nicolas I do Paraguai”. Além do mais, essa era a época em que os jesuítas tinham caído em desgraça na corte espanhola e noutras. Finalmente, em 1767, foi decretada a expulsão dos jesuítas de todas as colônias espanholas. O governador Francisco de Paula Bucarelli tomou consigo um forte batalhão, temendo levantes ao fazer cumprir essa ordem. Porém os jesuítas fizeram todo o possível para que seus povoados passassem aos outros missionários em paz e harmonia.

Supostamente, os franciscanos e dominicanos deveriam continuar aquele trabalho. Porém, eram poucos os missionários que essas ordens podiam dispor, sobretudo porque os jesuítas haviam deixado vazios por todos os lados. Pouco a pouco, os povoados foram se despovoando. Os administradores nomeados pelas autoridades civis começaram a explorar os índios, que perderam sua confiança nos novos missionários. Os índios se queixaram diante da coroa, porém ninguém lhes deu atenção. Assim, começaram novamente as incursões escravagistas dos paulistas, e não faltaram outras por parte dos espanhóis. Já em 1813, as antigas missões estavam reduzidas a um terço do que tinham sido na época de sua maior glória.

Assim foi desaparecendo aquele empreendimento que, em seus melhores momentos, escreveu belas páginas na história da obra da igreja em prol dos desapossados e perseguidos.

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