A era dos conquistadores (XI): os portugueses na África

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 175 a 183.

“Há aqui clérigos e canónicos tão negros como o piche, porém tão educados, com tanta autoridade, tão instruídos, tão bons músicos, tão discretos e tão justos, que bem merecem a inveja dos de nossas próprias catedrais” (António Vieira)

Foi no século XIII, mais de duzentos anos antes de Castela, que Portugal completou seu processo de reconquista contra os mouros. A partir de então, o único caminho da expansão que restava era o mar, pois os castelhanos logo deram mostras de não estarem dispostos a permitir que o reino vizinho estendesse seu território às custas deles. Portanto, Portugal lançou-se ao mar. Na primeira metade do século XV, o príncipe Henrique, o Navegante, deu grande impulsão a exploração da costa ocidental africana. Sob seus auspícios, e depois de quatorze tentativas falidas, marinheiros portugueses conseguiram passar além do Cabo Bojador, e explorar a costa até Serra Leoa. Embora o que tenham conseguido conhecer não fosse mais que uma margem do continente africano, isto deu motivação para novas explorações, que continuaram ainda depois da morte de Henrique em 1460.

Os motivos que impulsionavam essa empresa eram vários. Um deles a esperança de chegar à Índia, e aos demais territórios onde se podia obter especiarias, navegando assim ao redor da África, ou encontrando uma rota através desse continente, porém além dos limites do poder dos mulçumanos, que nessa época dominavam quase toda a costa africana. Outro motivo propulsor de tais experiências era o desejo de estabelecer contatos e alianças com a Etiópia. Repetidamente chegavam a Europa informações vagas de um grande reino cristão que se encontrava do outro lado dos mulçumanos, e isto criava esperanças de que, estabelecendo contato com esse reino, fosse possível lançar uma grande cruzada conjunta que de uma vez por todas pusesse fim à ameaça do Islã. A tudo isso se somava a curiosidade, pois as notícias que chegavam com os exploradores sobre uma terra em que abundavam aves vistosas e bestas selvagens, e na qual os seres humanos tinham costumes extravagantes, despertavam os portugueses a perguntar ainda mais sobre as regiões distantes. Por último, logo somou-se o nefando motivo do tráfico de escravos, o ouro negro manchado de sangue.

Em 1487 Bartolomeu Dias contornou o Cabo da Boa Esperança, e entre 1497 e 1499 Vasco da Gama subiu pela costa oriental do continente, atravessou o Oceano Índico até a Índia, e regressou a Portugal com provas concretas de que era possível chegar às Índias por esse rumo. Como temos dito, quando os reis católicos confiaram a Colombo a busca do suposto caminho marítimo para as índias que hoje é a América Central, deram-lhe uma carta para Vasco da Gama, com quem ele esperava reunir-se nas Índias.

O Congo

Em 1483 o marinheiro português Diego Cão descobriu a desembocadura do Congo, e recebeu notícias de que esse território, e boa parte do interior do país, pertencia a Manicongo, cujo nome era Nzinga Nkuwu. A esperança de estabelecer contato com a Etiópia o fêz tratar os súditos do Manicongo com todo respeito. Ali ficaram quatro portugueses, porém Cão levou consigo quatro africanos, em parte como hóspedes e em parte como reféns para garantir a vida dos quatro portugueses que tinham ficado. Em Lisboa, o governo lusitano tratou os africanos com todas as honras, e quando estes regressaram a seu país pouco mais de um ano depois contavam maravilhas sobre os portugueses. Manicongo ofereceu aliança à corte portuguesa, e esta respondeu enviando um contingente de missionários e artesãos. No mesmo mês, Nzinga Nkuwu fez-se batizar, e tomou o nome de João, que era o nome do rei de Portugal. Ao mesmo tempo, os portugueses ajudavam seus aliados a derrotar seus vizinhos mais belicosos.

Essa aliança se fortaleceu nos tempos do filho de João, Afonso, que havia sido educado por missionários e era cristão sincero. Afonso foi um governante cujo principal erro foi confundir a pregação cristã com a vida real dos portugueses, e consequentemente confiar em demasia nestes últimos.

Diante dos domínios do Manicongo estava a ilha de São Tomé, colonizada pelos portugueses sob a direção de Fernão de Melo. Os colonos dessa ilha tinham descoberto que seu terreno era muito propício para o cultivo da cana de açúcar. Porém para dedicarem-se a esse cultivo necessitavam de mão-de-obra barata, que obtinham tomando escravos do continente africano. Nos territórios do Manicongo, por outro lado, sempre tinha existido a escravidão, porém de um modo menos sub-humano da que era praticada pelos brancos. Em todo caso, Melo fêz o quanto pode para minar as boas relações entre o Congo e os portugueses, pois desse modo se beneficiaria com seu tráfico de escravos. Repetidamente os de São Tomé se interpuseram nas mensagens de Manicongo para Lisboa, e fizeram ver aos europeus que os africanos não eram senão selvagens, indignos de qualquer crédito.

Às dificuldades surgidas dessa situação somou-se a má qualidade dos missionários enviados ao Congo para ajudar a substituir os que foram enviados primeiro. Muitos se dedicaram ao tráfico de escravos. Outros se negaram a viver nas casas monásticas construídas para eles, e insistiram em viver em suas próprias casas, onde tinham concubinas e filhos. O que sucedera foi que nos últimos anos Portugal tinha conseguido, por fim, estabelecer contato comercial com o Oriente, e tanto o governo como a igreja perderam seu interesse no Congo.

Finalmente, o novo rei de Portugal, Manuel, respondeu às queixas de Afonso com um Regimento no qual dava instruções detalhadas sobre o modo pelo qual os portugueses deveriam se comportar no reino aliado. Porém ninguém lhe prestou grande atenção, pois o tráfico de escravos e o cultivo da cana de açúcar eram negócios deveras lucrativos.

Apesar de tudo isso, Afonso continuava firme tanto em sua fé cristã como em sua confiança na boa vontade dos europeus. Em 1520, depois de longas gestões, o papa Leão X consagrou como bispo para o Congo, Henrique, irmão de Manicongo. Porém, de regresso a seu país, o novo prelado se encontrou com a triste situação dos clérigos europeus que não lhe faziam caso algum. Henrique morreu em 1530, e dois anos mais tarde São Tomé foi feito bispado, com jurisdição sobre o Congo.

Tudo isso foi aceito por Afonso. Porém com sua morte surgiram longas guerras de sucessão do trono, e parte do que estava em jogo nelas era o papel dos portugueses no país. Em 1572, o manicongo Álvaro declarou-se vassalo da coroa portuguesa, e desse modo o país continuou tendo uma certa autonomia até 1883.

Enquanto isso, aquela aliança que tinha começado de maneira tão prometedora, e a missão que a acompanhou, tinham caído em ruínas. Os portugueses não estavam já tão interessados em chegar à Etiópia através do Congo, pois tinham contornado o Cabo da Boa Esperança e estabelecido contato direto com o Oriente. A partir de então, a África mudou de aspecto para eles, e começaram a vê-la, não já como um objetivo digno de atenção, mas como um obstáculo que era necessário saltar para chegar ao Oriente, e como uma fonte de escravos para as novas colônias do Brasil.

Angola

Em parte devido as dificuldades com Manicongo, os portugueses começaram a interessar-se pelos territórios de Ngola, um pouco mais para o sul. Nessas terras, conhecidas hoje como Angola, os lusitanos seguiram um plano de campanha distinto do que tinham seguido no Congo, pois se dedicaram a impor sua vontade na região. Parte do que sucedia era que os traficantes de escravos, buscando maiores lucros, utilizavam o território de Angola para burlar o monopólio que Manicongo tinha sobre o comércio humano que passava por seus domínios. Por essa razão, fortes interesses faziam todo o possível para evitar que se estabelecesse uma aliança com Ngola. Posteriormente, o território foi transformado em uma colônia portuguesa.

Porém ainda assim Portugal não tinha grande interesse nessas terras. Só aspirava obter delas escravos para a América, e refúgio para seus barcos que comerciavam com o Oriente. Para Angola, como para o Congo, foi o pior de Portugal, tanto em termos do governo civil, como do religioso. O interior do país não era visto senão como o lugar de onde procediam os escravos, de modo geral capturados e trazidos até perto da costa por outros africanos. Consequentemente, foram poucos os brancos que penetraram na região com essa finalidade, e muito menos os que o fizeram com algum propósito altruísta.

Moçambique

Embora Bartolomeu Dias tivesse rodeado o Cabo da Boa Esperança há mais de dez anos antes, não foi senão em 1498 que Vasco da Gama e os seus ancoraram na baía de Moçambique. O que tinha sucedido era que o governo português tinha esperado ter notícias de outra expedição enviada ao Oriente por via terrestre. Os resultados desse experimento convenceram a corte de Lisboa de que a via marítima era melhor, e foi por isso que enviaram Vasco da Gama.

Quando ele chegou a Moçambique, encontrou boa parte da costa oriental da África nas mãos dos muçulmanos. Depois de bombardear a cidade, seguiu caminho até Mombasa, onde fêz o mesmo. Por fim, mais ao norte, encontrou boa acolhida em Malindi, rival das outras duas cidades, e estabeleceu com ela uma aliança que perduraria por muito tempo.

Depois de receber as informações de Vasco da Gama as autoridades lusitanas decidiram que era necessário enviar uma forte esquadra para a região, para estabelecer a hegemonia portuguesa e assim garantir a segurança de seu comércio. Em 1505 enviaram Francisco de Almeida com vinte e três navios e ordens no sentido de que, a caminho da Índia, estabelecesse o poderio português na costa oriental da África. Em cinco anos, toda essa costa reconhecia a hegemonia portuguesa. Quando, em 1528, Mombasa começou a duvidar dessa hegemonia, foi arrasada uma vez mais, e a partir daí a resistência foi pouca.

Em 1506 chegaram os primeiros sacerdotes a Moçambique, e desde então sempre os houve nessa colônia portuguesa. Porém, de modo geral não se tratava de missionários, mas de capelães cuja principal função era servir o contingente português que servia de guarnição nos diferentes fortes. Quando, em 1534, foi fundado o episcopado de Goa, na Índia, toda a costa oriental da África ficou debaixo de sua jurisdição.

Pouco a pouco, os missionários, especialmente os jesuítas e os dominicanos, penetraram pelo país. O mais famoso herói dessa empresa foi o jesuíta Gonçalo da Silveira, que se aprofundou até Zimbabwe em busca de seu rei, o monomotapa, ao qual converteu e batizou. Porém, certos comerciantes africanos, temendo o impacto do sacerdote, disseram ao rei que o missionário não era senão um espião e um feiticeiro, e o recém batizado resolveu matar seu mestre. Este soube da trama que se fazia contra ele, e apesar disso decidiu permanecer no país, onde foi estrangulado enquanto dormia. Depois dele foram muitos os missionários que perderam a vida nos próximos cinquenta anos. Porém apesar disso, o fato é que a maioria do clero não se interessava pelos africanos, e que com isso refletia a atitude do próprio Portugal, cujo interesse se concentrava no Oriente mais do que na África.

Como em tantos outros lugares, aquela igreja não soube distinguir entre sua fé e os interesses coloniais. Se bem que logo se ordenassem sacerdotes, e até um bispo, africanos, e que muitos deles se mostraram digníssimos de seus ministérios, também é certo que, se esperava de tais sacerdotes africanos que tudo fosse conduzido segundo os interesses comerciais e políticos de Portugal. Na África como na América, a cruz chegou com a espada e, com demasiada frequência, a espada foi usada de modo mais sutil possível, para dominar ou contentar aos que, de outro modo, possivelmente teriam se sublevado.

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