A era dos dogmas e das dúvidas (I): os dogmas e as dúvidas (Introdução)

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 017 a 019.

“Ainda que uma religião seja muito razoável em si mesma, isto não basta para provar que vem de Deus… porque poderia ser o produto da razão humana. E, embora pareça provar-se por muitos milagres, se sua doutrina for absurda, indigna de Deus e contrária ao que nossa natureza nos diz acerca da Deidade, por muitos milagres que produza não há de ser crida.” (John Tilloston)

No sexto volume desta história, vimos como a cristandade europeia foi sacudida por diversos movimentos reformadores. Os que viveram naquela época foram arrastados pelos fortes ventos de uma renovada vitalidade religiosa. Não somente os teólogos, mas também príncipes e imperadores como Frederico, o Sábio e Carlos V, estavam convencidos de que as questões religiosas que se debatiam eram a causa suprema pela qual deveria se sacrificar todo interesse pessoal e político. Tanto Lutero como Loyola, viveram anos de profunda angústia antes de chegarem às conclusões e atitudes que os fariam famosos; e, depois, seus ímpetos e o de seus seguidores, levariam o selo daquelas experiências. Até Henrique VIII, com tudo o que se poderia dizer de defeitos de seu caráter, era um homem sincero em matéria de religião, decididamente preocupado em cumprir as exigências divinas. Em consequência, a aspereza com que os cristãos de diversas crenças lutavam entre si, devia-se em parte à firmeza imutável de suas convicções e a profundidade das experiências que os haviam levado a elas. Contudo, com o correr dos anos, foi aumentando o número dos que, em meio a amargas lutas religiosas, não participavam do entusiasmo e às vezes tampouco das convicções das gerações anteriores. Quem sabe, o exemplo mais claro que aparece como o protótipo dos políticos de épocas posteriores, seja Henrique IV, da França. Como vimos, este rei trocou várias vezes de filiação religiosa. A frase que a ele se atribui – “Paris bem vale uma missa“, embora não venha diretamente de seus lábios, reflete sua atitude em questões teológicas. O que importava a Henrique era reinar na França e reinar bem. Para conseguir esse objetivo, estava disposto a mostrar-se flexível em matéria religiosa. E quando chegou a ocupar o trono francês, sua política de tolerância religiosa foi um dos pilares sobre o qual se edificou a prosperidade do país.

Na época que agora começamos a relatar houve um número crescente de políticos que seguiram o exemplo de Henrique IV. A Guerra dos Trinta Anos, que narraremos no capítulo seguinte, teve na Alemanha resultados semelhantes aos que tiveram antes na França as guerras de religião. Cada vez mais, os príncipes alemães e muitos de seus conselheiros, utilizaram as diferenças religiosas como desculpa para conseguir seus próprios propósitos políticos. Isto impedia a unidade nacional da Alemanha em meio a um crescente sentimento nacionalista e, em conseqüência, foi generalizando-se a opinião de que os desentendimentos doutrinários não deviam levar à luta armada e que a tolerância era a política mais sábia.

Como parte e resultado de tudo isto, o espírito do racionalismo foi se posicionando na alma europeia. Por que preocupar-se com detalhes acerca da doutrina cristã, sobre os quais é impossível colocar-se de acordo, quando há uma razão natural que nos leva a conhecer o mais importante em relação a Deus e ao destino humano? Não seria melhor construir uma “religião natural” com base em tal razão e deixar os detalhes e tudo o que é proveniente da revelação, aos espíritos mais crentes, fanáticos e obscurantistas? Daí as dúvidas que caracterizaram a vida intelectual dos séculos dezessete e dezoito.

Por outro lado, durante todo este período, continuaram existindo aqueles que se preocupavam com o conteúdo da doutrina cristã com um zelo semelhante ao de Lutero, Calvino e Loyola. Mas, os teólogos destas novas gerações já não viviam na época dos novos descobrimentos teológicos. Embora convencidos de que se propuseram a defender as doutrinas dos antigos reformadores, sua teologia precisava da vibrante tranquilidade de espírito de um Lutero, Calvino ou um Loyola. Cada vez mais seu estilo ia tornando-se rígido, acadêmico e frio. Seu propósito por mais que se mostrasse aberto para a Palavra de Deus foi manter e defender o que outros antes haviam proposto. O dogma vinha a ocupar o lugar da fé viva e a ortodoxia parecia tornar o da caridade. Daí os dogmas que se contrapuseram às dúvida~ da época e que deram lugar às ortodoxias rígidas tanto entre católicos como entre luteranos e reformados.

Contudo, nem todos se contentaram com tais ortodoxias. Já mencionamos a opção racionalista. Outros, às vezes porque suas próprias doutrinas se chocavam com as dos países em que viviam decidiram emigrar para novas terras. Houve quem buscasse uma alternativa destacando a dimensão espiritual do evangelho, às vezes em diminuição de suas dimensões físicas e políticas. Os metodistas na Inglaterra e os pietistas no Continente tomaram o caminho de organizar grupos que, sem abandonar a igreja em que viviam, dedicaram-se a cultivar a fé e a piedade de um modo mais intenso e pessoal.

De tudo isto, segue o esboço que acompanharemos no presente volume. Primeiro, trataremos dos grandes conflitos religiosos que tiveram lugar na Alemanha (capítulo 2); França (capítulo 3) e Inglaterra (capítulo 4). Depois passaremos a descrever as ortodoxias católica (capítulo 5), luterana (capítulo 6) e reformada (capítulo 7). Adiante, o capítulo 8 tratará acerca do crescente racionalismo da época. Logo veremos o curso que seguiram aqueles que buscaram refúgio em uma interpretação espiritualista do evangelho (capítulo 9). O pietismo alemão e o metodismo inglês ocuparão nossa atenção no capítulo 10. E tudo terminará com aqueles que decidiram buscar uma alternativa nas novas colônias além do Atlântico.

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