A era dos dogmas e das dúvidas (III): a igreja do deserto

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 037 a 049.

”Um Espírito de santificação, de poder… e sobretudo de martírio, ao mesmo tempo que nos ensina a morrer diariamente em nosso interior… nos prepara e nos dispõe a ofertar valorosamente a vida nos suplícios e no cadafalso, se a ele nos chama a Divina Providência.” (Antoine Court)

O assassinato de Henrique IV pelo fanático Ravaillac, em 14 de Maio de 1610, causou grande consternação entre os protestantes franceses. Ainda que Henrique tivesse trocado de religião por razões de conveniência política, mostrando com isso ser mau protestante, ao menos havia se mostrado amigo fiel de seus antigos companheiros de religião e de armas, cuja causa protegeu ao promulgar o Edito de Nantes. Os protestantes sabiam que muitos dos chefes do partido católico deploravam a paz e a tolerância que o falecido Rei havia propugnado e que, portanto, na sua morte, tratariam de desfazer essa política.

Luís XIII

Posto que o novo rei, Luís XIII, tinha somente oito anos de idade, o governo ficou nas mãos da regente Maria de Médicis, mãe do Rei. A fim de acalmar os ânimos, Maria confirmou o Edito de Nantes e, em consequência, na próxima assembléia geral dos huguenotes jurou fidelidade ao Rei.

Mas Maria começou a rodear-se de conselheiros italianos que não compreendiam a situação religiosa na França, nem a dor e o sangue que havia custado o equilíbrio existente. Além disso, a regente e seus conselheiros casaram o jovem rei com a infanta espanhola Ana de Áustria, e a irmã de Luís, Isabel, com o futuro Felipe IV da Espanha. Logo, a política da regência consistiu em aliar-se estreitamente com a Casa de Áustria, em especial com a linhagem espanhola que se distinguia por seu catolicismo e sua perseguição de todo vestígio do protestantismo.

Isto deu lugar a uma série de levantes por parte dos huguenotes, sem outro resultado senão a morte e a prisão de muitos deles e a perda de várias praças fortes que eram sua principal proteção.

Resultado de imagem para cardeal Armand de RichelieuEm 1622, no tempo em que o poder de Maria de Médicis diminuía, começou a ganhar ascendência na corte o cardeal Armando de Richelieu que dois anos mais tarde chegou a ser o principal conselheiro do Rei. Richelieu era um político de grande habilidade, cujos principais objetivos eram o engrandecimento da coroa francesa e do seu próprio poder pessoal. Ainda que cardeal da igreja romana, sua política religiosa não se baseava em considerações teológicas ou confissões, mas sim nas conveniências. Assim, uma vez convencido que o principal inimigo dos Bourbons que reinavam na França era a Casa de Áustria, interveio na Guerra dos Trinta Anos, a favor dos protestantes e contra o Imperador que era dessa casa.

Mas essas mesmas considerações políticas levaram Richelieu a seguir na França uma política muito distinta. Era bom dividir a Alemanha apoiando o partido protestante frente ao Imperador. Mas na França tinha que destruir o partido huguenote, considerado um quisto [tumor maligno] dentro do Estado. Isto se devia tanto a doutrina dos protestantes, como ao ato de Henrique IV, para garantir-lhes a paz, lhes havia concedido várias praças fortes e, graças a elas, os huguenotes, ao tempo em que se declararam fiéis súditos da coroa, estavam em condições de oporem-se a ela, caso seus direitos fossem quebrados. O espírito centralizador de Richelieu não podia tolerar a existência desse “estado dentro do estado”.

Imagem relacionadaOs esforços de Richelieu por desfazer-se do “quisto protestante” culminaram com o cerco de La Rochelle, a principal praça forte dos huguenotes. O cerco durou um ano, durante o qual os defensores enfrentaram valentemente o melhor do exército francês. Quando, por fim, a cidade se rendeu, não restaram mais que 1.500 dos seus 25.000 habitantes, muitos deles enfermos e esqueléticos. Após a rendição da cidade, suas defesas foram destruídas e o culto católico celebrou-se em todas as igrejas. Então, várias outras cidades protestantes levantaram suas armas. Mas nenhuma delas pôde defender-se como o fez La Rochelle e, em vários lugares, as tropas do Rei dedicaram-se a uma guerra de extermínio.

Todavia, o que preocupava Richelieu não era a existência do cuIto protestante em terra francesa, senão o poderio político do qual os huguenotes haviam gozado. Portanto, uma vez tomada suas praças fortes em 1629, o Primeiro Ministro promulgou um edito de tolerância para os protestantes, tanto no campo religioso como no civil. Sem suas praças fortes, os huguenotes já não eram uma ameaça à coroa e Richelieu queria evitar que o país se desgastasse em guerras internas quando era necessário garantir o poderio da França frente à Casa de Áustria. Em consequência, durante os últimos anos de seu governo, os protestantes gozaram de relativa tranquilidade.

Luís XIV

Richelieu morreu em 1642 e, no ano seguinte, Luís XIII o seguiu. Luís XIV tinha então cinco anos e a Regente, sua mãe Ana de Áustria, confiou os assuntos de Estado ao cardeal Mazarino, antigo colaborador de Richelieu, que continuou a política do falecido ministro. Assim, por espaço de vários anos, os huguenotes foram tolerados. Ainda que durante o regime de Mazarino tenha havido várias revoltas, os protestantes não se envolveram e seu número cresceu rapidamente em todos os níveis sociais. Nos campos havia fortes núcleos huguenotes, tanto entre os camponeses como entre os senhores. E na capital os intelectuais dessa fé tomavam parte das mais distintas reuniões parisienses.

Resultado de imagem para Luís XIVLuís XIV tinha vinte e três anos quando morreu Mazarino e negou-se a nomear um sucessor, pois estava disposto a governar por conta própria. Aquele soberano, a quem o chamavam “O Rei Sol“, não queria permitir que nada lhe fizesse sombra. Por isso, chocou-se com o Papa que intrometia-se nos assuntos da França, frente ao qual promulgou e defendeu as “liberdades da igreja galicana”. Mas, pela mesma razão o Rei Sol não teve paciência para com os hereges e dissidentes de qualquer classe e fez todo o possível para acabar com todo o protestantismo francês.

As medidas do Rei para conseguir a “reunião” dos protestantes foram diversas. Aos intentos de persuasão, seguiram as ofertas para comprar as consciências. Para isso deduzia-se que o protestante que se fizesse católico, se fosse pastor, perderia seu meio de vida e, se fosse leigo, muitos de seus clientes, em qualquer negócio em que estivesse envolvido. Logo, para compensar tais perdas, oferecia-se dinheiro aos que se convertessem. Mas, essa política deu pouco resultado e então o Rei apelou a medidas mais severas. Quando, em 1684 a França gozou de um período de descanso em meio as incessantes guerras em que o Rei assumiu, este utilizou suas tropas para forçar a “reunião” dos protestantes ao catolicismo.

As medidas violentas tiveram resultados surpreendentes. Em algumas regiões foram dezenas de milhares os que decidiram abandonar a fé protestante. Animado por tais êxitos, o Rei fez com que suas tropas redobrassem seus esforços. Ainda que na teoria permitia-se, todavia, aos protestantes continuarem com suas crenças e seu culto, em muitas partes os templos foram arrasados e as tropas tomavam por quartéis as casas dos huguenotes mais obstinados, onde destruíam tudo quanto podiam.

Por fim, em 1685, o Rei promulgou o Edito de Fontainebleau que revogava o de Nantes. A partir de então, seria ilícito ser protestante na França. Imediatamente, ocorreu um grande êxodo de huguenotes rumo à Suíça, Alemanha, Inglaterra, os Países Baixos e América do Norte. Posto que muitos deles eram artesãos e comerciantes, já se falou que a perda econômica da França foi enorme e que esta foi uma das causas do desajuste que por último conduziu à Revolução Francesa.

Um Povo Subterrâneo

Oficialmente, a partir de então, não havia protestantes na França. Mas, o fato é que muitos dos supostamente convertidos seguiam sustentando suas crenças e buscavam um modo de continuar reunindo-se para celebrar o culto protestante. Para muitos deles, tais reuniões se faziam tanto necessárias porquanto levavam uma pesada carga na consciência por haver renunciado a sua fé. À falta de templos, os bosques e os campos tornaram-se lugares de adoração. De noite, às escondidas, por todas as partes do país, congregavam-se dezenas e até centenas de pessoas para escutarem a Palavra. O zelo com que se guardava o segredo de tais reuniões era admirável, pois raramente os agentes do governo descobriam o lugar e a hora marcados. Mas, quando conseguiam surpreender um culto, todos os presentes eram agarrados e enviava-se os homens para remarem nas galeras e as mulheres à prisão pelo resto de seus dias. Os pastores recebiam sentença de morte e seus filhos eram arrebatados do seio de suas famílias para serem educados como católicos. Mas, apesar disso, o movimento continuava e, repetidamente, chegavam notícias do mesmo aos ouvidos dos agentes reais, cujo redobrado zelo não conseguiu afogar os “cristãos do deserto”, como passaram a ser chamados.

Resultado de imagem para pastor Pierre JurieuComo sucede frequentemente em tais casos, logo surgiu entre aqueles protestantes perseguidos uma ala visionária que cria que o fim do mundo estava perto. Desde seu exílio em Rotterdam, o pastor Pierre Jurieu publicou um estudo do Apocalipse em que mostrava que todas as profecias estavam se cumprindo ao pé da letra e que o triunfo final viria em 1689. Estimulados pelo anúncio, alguns dos protestantes tornaram-se mais audazes com o resultado de que muitos foram mortos e condenados às galeras. Mas as visões proféticas e as experiências místicas continuavam e, com elas, a exaltação do povo, disposto a morrer por uma causa que estava a ponto de triunfar. Alguns ouviam vozes. Outros falavam em estado de êxtase. Mas poucos estavam dispostos, quando as autoridades os capturavam e os submetiam às mais horríveis torturas, a pronunciar as fatídicas palavras “reúno-me” isto é, regresso ao seio da Igreja Católica. Prontamente, esse espírito profético voltou-se à rebelião armada. Não se tratava, como nas guerras de religião, de exércitos dirigidos por nobres protestantes, senão de camponeses e montanheses, que, durante a semeadura e a colheita, trabalhavam nos campos e, durante o resto do tempo, formavam grupos armados que atacavam as tropas reais. Antes de saírem ao combate, liam as Escrituras e, no campo de batalha, cantavam salmos. Ainda que não passassem de algumas centenas, foi necessário um exército de 25 mil homens para por-lhes fim. Por último, os soldados do Rei recorreram a medidas extremas. Nos territórios em que operavam os “camisards” (nome de origem obscura que se deu aos rebeldes), tudo foi arrasado. Cerca de quinhentas aldeias e vilas foram destruídas. Isto serviu somente para aumentar as filas dos rebeldes, aos que se somaram os muitos que ficaram sem lar.

Resultado de imagem para camisardsA luta continuou por longos anos. Os oficiais do Rei conseguiram afastar da causa protestante alguns “camisards”, a quem fizeram promessas que jamais se cumpriram. Mas a resistência continuou até 1709, quando os últimos chefes da rebelião foram aprisionados e executados. Um ano depois, os ingleses intentaram acudir em apoio daqueles heroicos rebeldes. Mas era muito tarde. A causa estava perdida.

Entretanto, havia surgido entre os protestantes outros elementos que desconfiavam das visões (que, em todo caso, não se haviam cumprido) e pediam um retorno da tradição reformada, com um culto centralizado na exposição clara e cuidadosa das Escrituras. O mais notável chefe deste grupo foi Antoine Court, que, em 1715, organizou o primeiro sínodo da Igreja Reformada da França. Seu conselho era resistir as autoridades enquanto requeriam uma obediência ilícita, porém sem violência.

Dez dias depois daquele primeiro sínodo, morreu Luís XIV e o sucedeu seu bisneto de cinco anos de idade, Luís XV. Entretanto, a morte do Rei Sol, não trouxe alívio algum para os protestantes, pois o novo governo, debaixo do Regente Felipe de Orleans, continuou a política religiosa do falecido rei.

Apesar disso, Court e os seus continuaram no caminho que se havia traçado. Quando um dos seus pastores foi aprisionado, Court proibiu seus partidários de apelarem à violência para livrá-lo do cadafalso. Em 1726, com o propósito de que houvesse quem pudesse expor fielmente as Escrituras, fundou-se em Lausanne, Suíça, um seminário no exílio, onde os huguenotes franceses mandavam seus candidatos ao ministério da Palavra. O próprio Court foi à Suíça em 1729 e ali veio a ser o principal mestre de toda uma geração de pregadores clandestinos, aos quais visitou na França, quando tal cousa se fez necessária. Ao morrer, Court, com oitenta e três anos de idade, em 1767, a Igreja Reformada da França havia voltado a deixar profundas raízes.

A perseguição continuou até 1787, quando o neto e sucessor de Luís XV, Luís XVI, decretou a tolerância religiosa. Durante todo esse tempo, foram milhares os homens enviados às galeras e as mulheres condenadas à prisão perpétua. Mas, os que pronunciaram as palavras “reúno-me” não foram mais que um punhado. Entre os muitos pastores condenados à morte, somente dois abandonaram sua fé. A “igreja do deserto” havia conseguido sobreviver.

Resultado de imagem para VoltaireAquela luta, como a que aconteceu na Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos, produziu em muitos uma profunda desconfiança frente aos dogmas e ao dogmatismo. Entre eles contava-se Voltaire, que defendeu a causa protestante, não porque esta lhe era simpática, mas porque a intolerância lhe parecia absurda e criminosa. Durante aqueles anos de perseguição e resistência, de horror e de glória, forjaram-se os espíritos que, mais tarde, dariam ímpeto à Revolução Francesa.

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