A era dos dogmas e das dúvidas (IX): a opção espiritualista

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GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 144 a 155.

“Alegrei-me por me mandarem chamar as pessoas à esta luz interior… e tirá-las de suas comunhões mundanas, de suas orações e seus hinos, que eram formas vazias. Minha tarefa era tirá-las das cerimônias judias, de fábulas pagãs, das invenções humanas e dos dogmas detalhados.” (Jorge Fox)

As discussões, aparentemente intermináveis, sobre os dogmas e a intolerância que os cristãos de diversas confissões mostravam entre si, levaram muitos a buscar refúgio em uma religião puramente espiritual. Acontecimentos tais como a Guerra dos Trinta Anos davam a entender que ambos os lados haviam se esquecido da caridade, que é parte essencial dos ensinamentos de Jesus. Ao mesmo tempo, a ênfase excessiva na reta doutrina tendia a dar-lhes maior poder na igreja para as classes abastadas, que tinham melhores oportunidades de educação. Aqueles que precisavam de tais oportunidades eram vistos como crianças que necessitavam de alguém que os guiasse através dos despenhadeiros dos dogmas, para não caírem no erro. Por isso, o movimento espiritualista dos séculos XVII e XVIII atraiu tanto as pessoas cultas cuja amplitude intelectual não podia tolerar as limitações dos teólogos da época, como as outras de escassa educação formal, para quem esse movimento era uma oportunidade de expressão.

Assim se explica o fato de que, embora alguns dos fundadores dos diversos grupos e escolas fossem pessoas relativamente incultas, logo se contavam entre seus seguidores outras pessoas mais letradas e de posição social mais elevada.

Pela própria natureza do tema, a história do movimento espiritualista é difícil de se narrar. Trata-se de um sem número de correntes e de mestres cujas doutrinas e discípulos se entrelaçam e confundem-se entre si, de tal modo que nem sempre é possível distinguir entre uns e outros, ou determinar quem foi o primeiro proponente de uma ou outra ideia. Portanto, no presente capítulo, nos limitaremos a dar urna ideia da natureza do movimento, dirigindo nossa atenção a três de seus principais mestres: Boehme, Fox e Swedenborg.

Jacob Boehme

Jacó Boehme nasceu em 1575 na região alemã da Silésia. Seus pais eram de origem humilde e luteranos convictos. No meio daquela família piedosa, o jovem Jacó se interessou desde o início pela fé cristã, mas rapidamente as pregações dos pastores, que haviam dirigido seus discursos sobre as diversas questões teológicas que estavam sendo debatidas na época, começaram a desgostá-lo. Aos quatorze anos de idade, seus pais o fizeram aprendiz de sapateiro e esse foi seu ofício por toda a vida. Seu espírito inquieto não se contentava com a religiosidade fácil de quem se limitava a frequentar a igreja e sua mente requeria outra ocupação que a de remendar sapato. Pouco tempo depois de começar a aprender a profissão de sapateiro, começou a ter visões e, por último, o patrão o despediu da casa, dizendo que queria um aprendiz e não um profeta.

Boehme tornou-se sapateiro ambulante, indo de um lado para o outro remendando sapatos. Nessas idas e vindas, foi se convencendo de que os dirigentes eclesiásticos haviam criado uma verdadeira “torre de Babel”, com suas intermináveis discussões sobre toda classe de dogmas. Em consequência, dedicou-se a cultivar sua vida interior e a estudar todos os escritos que caíam em suas mãos sobre os temas espirituais.

Assim chegou a uma série de convicções acerca da natureza do mundo e da vida humana. Essas convicções foram confirmadas mediante visões e outras experiências espirituais. Mas, de início não fez grande coisa para dar a conhecer o que cria haver recebido em um “relâmpago” de iluminação do alto. Quando contava com uns vinte e cinco anos, colocou fim às suas andanças. Casou-se e estabeleceu uma sapataria no povoado de Goerlitz, onde chegou a gozar uma vida relativamente cômoda.

Ainda que não se sentisse chamado a pregar, Boehme estava se convencendo de que Deus lhe havia ordenado escrever sobre suas visões. O resultado foi o livro Brilhante Amanhecer, no qual o visionário afirmava repetidamente que o que escrevia era o que Deus lhe havia ditado, letra por letra e que ele não era mais que uma pena ou um instrumento nas mãos de Deus. Boehme não publicou seu livro, mas, apesar disso, uma cópia manuscrita foi parar nas mãos do pastor do lugar, que o acusou diante das autoridades. Ameaçado de ser deportado, Boehme prometeu não voltar a escrever ou ensinar sobre as questões religiosas e durante cinco anos manteve silêncio. Em 1618, impulsionado por novas visões e por alguns de seus admiradores, começou a escrever novamente. Quando um desses admiradores publicou três de suas obras, estas caíram nas mãos do pastor que o levou de novo perante as autoridades. Boehme viu-se obrigado a abandonar a cidade.

Foi então para a corte do Eleitor da Saxônia, onde vários teólogos o examinaram sem chegar a decisão alguma, pois confessavam-se incapazes de entender a totalidade do que aquele sapateiro dizia. Sua recomendação foi que dessem a Boehme mais tempo para aclarar suas ideias. Mas o tempo não lhe seria dado, pois o visionário sentia-se muito doente e decidiu regressar a Goerlitz, onde morreu entre os seus, pouco antes de cumprir cinquenta anos de idade.

A informação dos teólogos da Saxônia, no sentido de que não entendiam o que Boehme dizia, não deve ser interpretada como um subterfúgio. O fato é que os escritos de Boehme são difíceis de se entender. Neles há uma mescla de ideias tradicionalmente cristãs com muitos outros elementos tomados do ocultismo, a magia, a alquimia e a teosofia. O modo como tudo isto se relaciona entre si não está claro e, portanto, é possível interpretar o que Boehme disse de diversos modos, uns mais ortodoxos que outros. O que quer dizer Boehme, por exemplo, ao referir-se à “a matriz eterna” ou a “mãe de todos os partos”? Trata-se, simplesmente, de outros nomes para o Deus dos cristãos ou trata-se de outro modo de entender a natureza divina?

Em todo caso, a diferença daqueles teólogos, o que aqui nos interessa, não é o conteúdo exato dos ensinamentos de Boehme, mas sua direção fundamental. Essa direção resultou-se clara. Trata-se de uma reação contra o dogmatismo frio dos teólogos e contra a liturgia aparentemente vazia da igreja. Frente a isso, Boehme contrapõe a liberdade do espírito, a vida interior, a revolução direta e individual. Às vezes, chega até a dizer que, como “a letra mata”, o guia do crente não há de ser a Bíblia, mas o Espírito Santo, que inspirou os escritos bíblicos e ainda segue inspirando os crentes. Segundo ele mesmo disse, Basta-me o livro que sou eu. Se tenho em mim o Espírito de Cristo, toda a Bíblia está em mim. Para que quero mais um livro? Por que discutir sobre o que está fora, sem haver aprendido o que está dentro de mim?“.

À princípio, Boehme não teve muitos seguidores. Mas, pouco a pouco, através de seus escritos, foi aumentando o número de seus admiradores. Na Inglaterra, a leitura desses escritos deu lugar à seita dos “boehmenistas” que logo se chocaram com os quakers de Jorge Fox. Logo, torna-se interessante notar que o movimento espiritualista, nascido em protesto contra as contendas dos teólogos tradicionais, não conseguiu exterminá-las, mas finalmente se viu envolvido nelas.

Jorge Fox e os quakers

Resultado de imagem para jorge foxJorge Fox nasceu em uma pequena aldeia da Inglaterra, em 1624, no mesmo ano em que morreu Boehme. Seus pais, também de origem humilde, o fizeram aprendiz de sapateiro. Aos dezenove anos, aborrecido com os costumes de alguns de seus companheiros, sentindo-se impulsionado pelo Espírito de Deus, abandonou seu ofício e dedicou-se a vagar pelo país, assistindo as assembleias religiosas de diversas seitas, buscando a iluminação do alto, ao mesmo tempo em que se dedicava a estudar as Escrituras, até o ponto que declarava que as sabia de memória. Pouco a pouco, foi se convencendo de que não só a religião tradicional dos católicos, mas também a de muitos grupos protestantes deixavam muito a desejar e que boa parte delas repugnava a Deus. Andando de lugar para lugar, às vezes passando fome, outras em meio de angústias internas e outras alentado e inspirado por suas experiências religiosas, Fox foi formando suas convicções contra todas as diversas seitas existentes então no país.

Se Deus não habita em casas feitas por mãos, por que chamar de igrejas esses edifícios onde as pessoas se reúnem? Fox os chamava então de “casas com campanários”. Todos os pastores que recebiam salários eram apenas “sacerdotes”, por muito protestantes que fossem e “assalariados”, ainda que se chamassem pastores. Os hinos, a ordem do culto, os sermões, os sacramentos, os credos, os ministros, tudo era um obstáculo humano à liberdade do Espírito.

Frente a estas coisas, Fox coloca a “luz interior”. Esta luz é uma semente que existe em todos os seres humanos; é o verdadeiro caminho que devemos seguir para encontrar a Deus. A doutrina calvinista da corrupção total da humanidade, lhe parecia uma negação do amor de Deus e de sua própria experiência. Ao contrário, dizia ele, em toda pessoa fica uma luz interna, por mais obscurecida que esteja no momento. Por sua vez, isto quer dizer que, graças a ela, os pagãos podem salvar-se. Contudo, essa luz não deve confundir-se com o intelecto nem com a consciência. Não se trata de uma razão natural, como a dos deístas, nem tão pouco de uma série de princípios de consciência que apontam para Deus. Trata-se de algo melhor que existe em nós e nos permite conhecer e aceitar a presença de Deus. É pela luz interna que reconhecemos Jesus Cristo como quem é; é, também, graças a ela que podemos crer e entender as Escrituras. Assim, em certo sentido, a comunicação com Deus, mediante a luz interna, é anterior a todo meio externo.

Apesar de seus mais íntimos conhecerem um pouco do fogo interno que consumia Fox, durante vários anos este se absteve de proclamar o que acreditava ter descoberto acerca do verdadeiro sentido da fé cristã. Era a época em que existia na Inglaterra uma multidão de seitas a que nos referimos anteriormente e Fox assistia muitas de suas reuniões sem se sentir à vontade em nenhuma. Por fim, em uma assembleia de batistas, sentiu-se movido pelo Espírito e começou a expor suas opiniões. Prontamente, teve vários seguidores e não faltou quem tivesse visões acerca da grande missão que Deus tinha reservado para o novo profeta. Repetidamente, Fox se sentiu movido pelo Espírito a falar e orar em alguma assembleia religiosa. Frequentemente, surgiam debates, em tais convenções, nos quais mostrava-se firme e convincente. Em certas ocasiões, suas palavras não eram bem recebidas e o golpeavam, atirando-lhe pedras. Mas isto não o afastava e logo encontrava-se em outra “casa com campanário”, interrompendo o culto e proclamando sua mensagem.

O número de seus seguidores cresceu rapidamente. No começo, davam-se a si mesmos o nome de “filhos da luz”. O próprio Fox preferia dar-lhes simplesmente o título de “amigos”. O povo, vendo que sua exaltação religiosa era tal que tremiam, deu-lhe o nome de “quakers” (do inglês quake, tremer) e por fim esse foi o seu nome mais comum.

Posto que Fox e os seus criam que toda estrutura no culto podia ser um obstáculo à obra do Espírito, o culto dos “amigos” se celebrava em silêncio. Se alguém se sentia chamado a falar ou orar, o fazia. Quando o Espírito as impulsionava, as mulheres tinham tanto direito de falar ou orar em voz alta como os homens. O próprio Fox não ia a tais reuniões preparado a fazer um discurso, mas simplesmente desejava que o Espírito o movesse. Certa ocasião, mesmo havendo numerosas pessoas reunidas para ouvi-lo, negou-se a falar ou orar em voz alta, porque não se sentia movido pelo Senhor. De igual modo, os quakers não criam nos sacramentos, pois diziam que a água do batismo, e o pão e o vinho da comunhão, faziam a atenção centralizar-se sobre o material, ocultando a Deus em lugar de revelá-lo. Este foi o principal ponto de conflito entre os quakers e os boehmenistas, que continuavam usando os sacramentos, ainda que os chamassem de “ordenanças”.

Ao mesmo tempo, Fox sabia que sua ênfase na liberdade do Espírito podia levar a um individualismo excessivo. Repetidamente, na história do cristianismo, aconteceram movimentos que se destacaram até ao ponto da liberdade do Espírito para falar em cada pessoa, que por fim se dissolveram, pois seus membros insistiam em ir cada um para o seu lado. Diante desse perigo, Fox respondeu destacando a importância da comunidade e do amor. Nas reuniões dos amigos não se submetiam à votação os assuntos discutidos. Se não se chegava a um acordo, propunha-se a decisão, às vezes voltando ao silêncio até que alguém recebesse uma inspiração que resolvesse a dificuldade ou deixando o assunto para outra ocasião. Desse modo, quando havia algum desacordo, o que se fazia não era ver que lado conseguia mais votos, mas, sim, buscava-se uma solução aceitável para todos.

As pregações e práticas de Fox e os seus, não eram do agrado de muitos. Os Iíderes religiosos não gostavam destes “fanáticos” capazes de interromper seus serviços religiosos para discutir sobre as Escrituras ou para orar em voz alta. Os poderosos viam a necessidade de castigar a estes “amigos” que se negavam a pagar dízimos, a prestar juramentos, a inclinar-se entre seus “melhores” ou a revelar-se diante de qualquer cousa que não fosse Deus. Além disso, diziam os quakers, se tratamos de “Tu” a Deus, por que mostrar mais respeito para com nossos semelhantes? A dificuldade estava em que muitos desses semelhantes estavam acostumados a receber homenagens e a ausência delas lhes parecia uma falta de respeito e uma insubordinação intolerável.

Em consequência, Fox foi maltratado repetidamente e passou um total de seis anos na prisão. A primeira vez foi encarcerado por interromper um pregador que dizia que a verdade última estava nas Escrituras argumentando que estava mais no Espírito Santo, que as havia inspirado. Outras vezes foi preso por blasfêmia e acusação de conspirar contra o governo. Em alguns casos, tentaram livrá-lo mediante um perdão por parte das autoridades e, nessas ocasiões, negou-se a aceitá-lo, dizendo simplesmente que não era culpado e aceitar o perdão seria, portanto, faltar com a verdade. Em outra oportunidade, quando estava a ponto de cumprir uma condenação de seis meses por blasfêmia, convidaram-lhe a unir-se ao exército republicano. Fox negou-se, pois não acreditava que um cristão devia apelar a outras armas que as de índole espiritual. A consequência foi uma pena de seis meses de prisão. A partir daí, os quakers ficaram distinguidos pela firmeza de suas convicções pacifistas.

Quando não estava preso, Fox passava parte do tempo em sua casa de Swarthmore, que veio a ser o quartel general dos amigos. No restante, passava viajando pela Inglaterra e exterior, visitando assembleias de quakers e levando sua mensagem a novas regiões. Primeiro foi à Escócia, onde o acusaram de sedição; depois à Irlanda; mais tarde passou dois anos no Caribe e América do Norte e, por último, fez duas visitas ao continente europeu (Holanda e Alemanha). Em todos os lugares, o movimento se estendia e, na morte de Fox, em 1691, seus seguidores atingiam dezenas de milhares.

Esses seguidores foram também perseguidos. Repetidamente, os encarceravam, acusando-os de serem vagabundos, blasfemos, de incitarem motins e de não pagarem os dízimos. Quando, em 1664, Carlos II proibiu as assembleias religiosas, outros grupos continuaram reunindo-se em secreto. Mas os quakers resolveram fazê-lo em público e milhares deles foram presos. Quando, em 1689, Jaime II promulgou a tolerância religiosa, os quakers contavam com várias centenas de mártires, que haviam morrido na prisão.

Resultado de imagem para o quaker Guilherme PennO mais famoso dos seguidores de Fox foi Guilherme Penn, de onde se originou o nome do atual Estado norte-americano da Pensilvânia. Penn era filho de almirante britânico, que se esforçou em proporcionar-lhe a melhor educação possível. Enquanto era estudante, o jovem Guilherme tornou-se puritano. Depois, seu pai o mandou à França, onde estudou com célebres mestres huguenotes. De volta à Inglaterra, tornou-se quaker em 1667. Algum tempo mais tarde, seu enfurecido pai o colocou para fora de casa. Penn não retrocedeu, mas continuou dando mostras de suas convicções quakers e até teve que passar sete meses preso na Torre de Londres. Dizem que nessa ocasião fez chegar ao Rei uma mensagem no sentido de que a Torre era o pior dos argumentos para tratar de convencê-lo, já que não importa quem tem a razão, aquele que usa de força por motivos religiosos está necessariamente errado. Por fim, graças à intervenção de seu pai e de outras pessoas de prestígio, foi libertado e, então, passou vários anos viajando pela Europa, escrevendo tratados em defesa dos amigos e estabelecendo um lar.

Embora seus argumentos em prol da tolerância religiosa não fossem bem recebidos e até se chegasse a dizer que, na verdade, era jesuíta, o que desejava era simplesmente devolver aos católicos os privilégios que haviam perdido.

Foi então que Penn concebeu a ideia que chamou seu “experimento santo”. Alguns amigos lhe haviam falado de Nova Jersey, na América do Norte. Posto que a coroa lhe devia uma grande soma e não estava intencionada em pagar-lhe com dinheiro, Penn conseguiu que Carlos II lhe concedesse territórios que hoje formam a Pensilvânia. Seu propósito era fundar uma nova colônia, onde houvesse completa liberdade religiosa. Anteriormente, outros ingleses tinham fundado várias colônias na América do Norte. Exceto em Rhode Island, a intolerância reinava por toda parte. Em Massachusetts, a mais intolerante de todas, perseguiam os quakers, os condenavam a desterros, mutilações e até a morte. O que agora Penn propunha era uma nova colônia onde cada um poderia adorar como melhor lhe parecesse. Mas havia outro elemento desse “experimento santo” que o fazia parecer mais despropositado. Ainda que a coroa inglesa lhe houvesse concedido essas terras, Penn se propunha a comprá-las dos índios, que, segundo ele cria, eram seus legítimos donos e estabelecer com eles relações tão cordiais que não houvesse necessidade de forças armadas para defender os colonos. A capital do santo experimento levaria o nome de “Filadélfia”, que quer dizer “amor fraternal”. Por muito despropositado que alguns dissessem ser o experimento de Penn, logo havia grande número de pessoas, não só na Inglaterra, mas também em outros países da Europa, dispostos a tomar parte nele. Muitos deles eram quakers e, portanto, os seguidores de Fox dominaram a vida política da nova colônia por algum tempo. Mas não faltaram outras pessoas de diversas persuasões. Sob a direção de Penn, que foi o primeiro governador da nova colônia, as relações com os índios foram excelentes. Durante longo tempo pôde-se cumprir o sonho de Penn, de uma colônia sem forças armadas. Quando, três quartos de século depois de fundada a colônia (isto é, em 1756), o Governador declarou guerra aos índios, os quakers retiraram-se de seus cargos públicos. A tolerância religiosa, que era parte fundamental do “santo experimento” de Penn, passou a formar, depois, parte da Constituição norte americana e também das de muitas outras nações.

Emanuel Swedenborg

Resultado de imagem para Emanuel SwedenborgJorge Fox nasceu no mesmo ano em que Boehme morreu e Emanuel Swedenborg, de quem nos ocuparemos agora, nasceu apenas três anos antes da morte de Fox. Logo, as vidas dos três grandes mestres do movimento espiritualista cobrem quase a totalidade dos dois séculos que narramos neste volume.

As doutrinas de Swedenborg eram parecidas com as de Boehme e Fox. Mas, em outros aspectos, Swedenborg era muito diferente dos outros dois. Enquanto Boehme e Fox eram pessoas de origem humilde, Swedenborg provinha de uma família aristocrata. Em contrastes com aqueles, este recebeu a melhor educação disponível, pois estudou na Universidade de Upsala e depois passou cinco anos viajando pela Inglaterra, Holanda, França e Alemanha, em busca de sabedoria. Além do mais, enquanto Fox e Boehme mostravam profundas inquietudes religiosas e tendências místicas desde muito jovens, Swedenborg interessou-se principalmente pelas questões científicas e foram esses estudos que, afinal, levaram a buscar as experiências e conhecimentos que fizeram dele um dos principais porta-vozes e mestres do movimento espiritualista.

Após longos anos de investigações científicas, Swedenborg teve uma visão em que, segundo ele, penetrou no mundo espiritual e pôde assim ver as realidades. A partir daí, escreveu várias obras volumosas sobre o verdadeiro sentido da realidade e das Escrituras. Segundo Swedenborg, tudo quanto existe é reflexo dos atributos de Deus e, portanto, o mundo visível “corresponde” ao invisível. O mesmo é certo com as Escrituras, nas quais tudo corresponde à realidade que só pode ver aquele que penetrou no mundo espiritual.

Swedenborg estava convencido de que seus escritos seriam o começo de uma nova era na história do mundo e da religião. Ainda mais, dizia que o que havia sucedido ao receber suas revelações, era o que a Bíblia prometia ao falar da segunda vinda de Cristo. Como era de se esperar, tais ideias não foram bem recebidas pela maioria de seus contemporâneos. Portanto, o círculo de seus discípulos sempre foi reduzido. O próprio Swedenborg não se sentia chamado a fundar uma nova igreja, mas, no máximo, a chamar a antiga a uma nova percepção da realidade de sua mensagem. Em 1784, doze anos depois de sua morte, seus discípulos fundaram a Igreja da Nova Jerusalém, cujo número de membros nunca foi grande, mas conseguiu subsistir até o século XX. Além disso, no começo do século XIX, fundou-se a “Sociedade Swedenborgiana” com o propósito de publicar e divulgar suas obras.

As três personagens que temos estudado neste capítulo diferem entre si. Dois deles eram de origem humilde e, desde muito cedo, se inclinaram para as visões e experiências religiosas. O terceiro, aristocrata, dedicou-se primeiro às ciências e foi só mais tarde que começou sua carreira teológica. Ainda que os três tivessem seguidores e, no final, comunidades de discípulos formadas ao redor das doutrinas de cada um deles, somente Fox mostrou as atitudes necessárias para dirigir e organizar um grande movimento. Isto se deveu, em parte, a que, em contraste com Boehme e Swedenborg, Fox estava convencido de que a comunidade dos crentes era absolutamente necessária para a vida religiosa.

Fox e os quakers se distinguiram do resto do movimento espiritualista por seus interesses nos problemas sociais e por sua participação ativa nesse âmbito. Fora do exemplo dos quakers, o movimento espiritualista estava destinado a ter pouco impacto na vida da igreja e da sociedade, porque seus interesses eram demasiado individualistas e ultramundanos. Esse impacto estava reservado a outro movimento de protesto contra o dogmatismo frio da época. É para ele que dirigiremos nossa atenção no capítulo seguinte.

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