A era dos novos horizontes (X) – Horizontes Geográficos: América Latina

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 186 a 204.

“A suprema necessidade da América Latina é a proclamação, a cada república e a cada indivíduo, do evangelho em sua pureza, simplicidade e poder, e o cumprimento das funções de igrejas evangélicas bem organizadas.” (Congresso do Panamá)

No capítulo III, ao tratar das novas condições políticas da América Latina, assinalamos as consequências que estas condições tiveram para o catolicismo, mas pouco ou nada dissemos acerca do protestantismo. Fizemos isto para dedicar um capítulo separado ao desenvolvimento do protestantismo na América Latina. Agora, ao colocar o presente capítulo depois dos que falam dos “horizontes geográficos”, fazemo-lo com um duplo propósito: em primeiro lugar, deste modo assinalamos que a penetração do protestantismo na América Latina, durante o século XIX, fez parte da grande expansão protestante ocorrida naquela época, produto dos mesmos fatores que verificamos ao falar da Ásia ou da África; em segundo lugar, ao colocar este capítulo depois dos que falam acerca dessas outras regiões, fazemo-lo para indicar que o interesse dos protestantes da Europa e dos Estados Unidos, em relação à América Latina, foi menor do que o demonstrado para com outras regiões, e, em muitos casos, posterior a ele. Para muitos protestantes europeus e norte-americanos, os novos-horizontes geográficos que se abriam para as missões não incluíam a América ibérica, descoberta e colonizada por cristãos, séculos antes.

Por outro lado, ao projetar este capítulo, consideramos duas alternativas. Uma seria repassar país por país, apresentando os nomes dos principais missionários, e resumindo resultado de sua obra. Descartamos esta alternativa, que não nos permitiria nada mais do que dar uma longa lista de nomes e datas, e que em todo caso foi feito em um trabalho anterior, para seguir outro caminho. Este consiste em escolher alguns exemplos ou episódios que mostram as diferentes formas pelas quais o protestantismo penetrou e se desenvolveu na América Latina. Estas são principalmente três: a imigração, as missões e o cisma, seja dentro do catolicismo, seja dentro de alguma outra igreja.

A imigração

Durante a época colonial, Espanha e Portugal procuraram manter as suas colônias fechadas para todo contato estrangeiro. Esta política servia para proteger o monopólio do comércio que tanto beneficiava a metrópole, mas era levada a efeito também para proteger os habitantes das colônias do “contágio” com ideias como o protestantismo. Portanto, ao terminar a época colonial, muitos dos dirigentes das novas nações seguiram uma política diametralmente oposta. Conforme viam as coisas, era necessário fomentar o contato com outros países, especialmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, cujo desenvolvimento industrial e econômico devia ser imitado pelas novas nações. Ao mesmo tempo, esses mesmos dirigentes seguiram o princípio estabelecido pelo estadista que declarou que “governar é povoar”. Para que o país possa ser industrializado, pensavam eles, é necessário povoar o interior, abrir caminhos, estabelecer contatos com as nações industrializadas e introduzir as ideias e a experiência dessas nações. Por isso, durante todo o século XIX, os governos mais progressistas da América Latina fomentaram a imigração europeia e norte-americana, embora nem sempre o resultado tenha sido de que os imigrantes eram as pessoas mais progressistas de seus países de origem, como se pode ver no caso dos sulistas norte-americanos que emigraram para o Brasil, depois da Guerra Civil, nos E.U.A., e ali se opuseram mais uma vez à abolição da escravatura.

Para fomentar a imigração, era necessário levar em conta o fato de que muitos dos possíveis imigrantes eram protestantes que não estavam dispostos a abandonar a sua fé. Por isso, era necessário garantir-lhes a liberdade de culto, mesmo em países onde a religião católica era até então a única permitida para o resto dos habitantes. Mas logo se verificou a incongruência de se dar aos imigrantes direitos que os nativos não tinham e, por isso, em uns países antes que em outros, chegou-se à liberdade de culto para toda a população. Portanto, a política de estimular a imigração teve como consequência posterior a disseminação do protestantismo em meio à população.

Os primeiros imigrantes eram em sua maioria britânicos, mais particularmente escoceses. A Grã-Bretanha era um país cujo desenvolvimento muitos de nossos países desejavam imitar, e por isso se estimulou em particular a imigração britânica. Assim, por exemplo, o primeiro contingente notável de imigrantes na Argentina foi um grupo de escoceses que chegou ao país em 1825, mediante um contrato com o governo. Em Valparaíso, que veio a ser a base de operações para uma esquadra britânica, desde muito cedo houve um grupo de oficiais navais, a que depois se somaram alguns comerciantes. Depois dos escoceses, chegaram os alemães, que se estabeleceram em vários países no sul do continente. A imigração norte-americana durante todo o século XIX foi escassa, se excluirmos os que se assenhorearam dos territórios anteriormente mexicanos, porque era a época em que os Estados Unidos estavam se estendendo para oeste, e essas terras atraíam a quem de outro modo poderia ter pensado em emigrar para a América Latina. O outro grupo que teve muita importância foi o dos negros procedentes das colônias britânicas, que se estabeleceram no Panamá e nas costas do Caribe, na América Central.

Normalmente, os contingentes de imigrantes continuavam em seus novos países as suas antigas práticas religiosas. Muitos traziam consigo os seus pastores, ou os mandavam buscar em seus países de origem. O seu objetivo, ao virem para novas terras, não era pregar aos naturais do país e, por isso, a maioria dos imigrantes contentou-se em guardar para si a fé de seus antepassados.

Resultado de imagem para james theodore hollyEm alguns casos, porém, os imigrantes também tinham o objetivo de transmitir a sua fé aos seus novos vizinhos. Um episódio notável a esse respeito foi o que deu origem à Igreja Episcopal do Haiti. Depois de Guerra Civil norte-americana, manifestou-se entre os negros dos Estados Unidos certo interesse e admiração para com o Haiti, que havia se tornado independente da tutela branca, e agora era governado por aqueles que antes haviam sido escravos. Em 1855, o negro norte-americano James Theodore Holly visitou o país, tendo em vista começar nele uma missão, e voltou convencido de que o melhor método seria estabelecer-se no país com um núcleo de imigrantes. De volta aos Estados Unidos, convenceu a outros, e por fim, em 1861, um grupo de cento e dez negros norte-americanos partiu para o Haiti, onde esperavam encontrar melhores condições de vida e, ao mesmo tempo, pregar o evangelho. O chefe deles era Holly, que havia sido ordenado sacerdote episcopal.

Os primeiros meses foram trágicos. Em um ano e meio, quarenta e três dos cento e dez imigrantes haviam morrido, vítimas da malária e da febre tifoide. Entre os mortos contavam-se cinco dos oito membros da família Holly. A maior parte dos que restaram com vida resolveu abandonar o projeto. Alguns se mudaram para a Jamaica, e outros simplesmente voltaram para os Estados Unidos. No Haiti, ficaram o pastor Holly e um punhado de acompanhantes.

Tal firmeza teve recompensa. Quando um bispo da Igreja Episcopal visitou o país, por convite de Holly, encontrou um bom número de haitianos prontos para serem confirmados, e alguns a quem Holly havia estado treinando para serem pastores. A partir de então, a obra continuou crescendo, até que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos decidiu que a do Haiti devia ser uma igreja independente. Em 1876, Holly foi consagrado pela Igreja Episcopal para ser o primeiro bispo da Igreja Apostólica Ortodoxa Haitiana. Quando Holly morreu, em 1911, essa igreja havia lançado fortes raízes em várias regiões do país, embora as condições e as circunstâncias do momento a tivessem levado a renunciar à sua independência e a tornar-se um distrito missionário da igreja norte-americana.

 Embora não se tratem de imigrantes, no sentido mais restrito, também cabe mencionar aqui outro fenômeno que causou o desenvolvimento do protestantismo em alguns países: o retorno de exilados que se haviam tornado protestantes no estrangeiro. Isto aconteceu de maneira particularmente notável no caso de Cuba, visto que as constantes guerras, e as mudanças políticas ocorridas na Espanha, fizeram com que, a partir de 1868, se tivessem estabelecido nos Estados Unidos colônias de cubanos exilados, e que alguns deles pudessem voltar à sua pátria, mesmo antes da independência. Em 1890, os dirigentes da Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos surpreenderam-se, ao receber uma carta assinada pelo presbiteriano Evaristo Collazo, informando-lhes que ele e sua esposa haviam fundado em Cuba três congregações e uma escola para meninas, e pedindo-lhes o seu apoio. Pouco antes, o episcopal Pedro Duarte havia fundado em Matanzas a igreja Fieles a Jesús (Fiéis a Jesus) e outras em toda a porção ocidental da ilha. Fatos semelhantes se repetiram em várias outras denominações e lugares.

As missões

Quando as novas condições políticas tornaram possíveis as missões protestantes para a América Latina, nem todos os protestantes europeus e norte-americanos estavam convencidos de que era lícito empreender essa obra. Particularmente os anglicanos e episcopais pensavam que o continente já era cristão, por ser católico, e que era um erro empreender missões entre os católicos, quando havia tantas pessoas na Ásia e na África que nem sequer haviam ouvido o nome de Jesus. A ala anglo-católica da Igreja Anglicana não deseja ofender os católicos começando missões entre eles, e dando a entender com isso que os católicos não eram cristãos. Quase todos concordavam em que o catolicismo latino-americano deixava muito a desejar. Mas os que se opunham às missões arguíam que, em lugar de debilitar esse catolicismo, criando igrejas rivais, eles deviam procurar meios pelos quais se pudessem estabelecer melhores contatos com ele, para ajudá-lo a renovar-se segundo as diretrizes bíblicas.

Por estas razões, quando os anglicanos empreenderam missões na América Latina, o fizeram entre tribos que mal haviam sido alcançadas pelos católicos, como as que habitavam na costa de Misquitia, na América Central, ou as da Patagônia e Terra do Fogo.

Resultado de imagem para Charles DarwinA missão anglicana à Terra do Fogo é um exemplo do sacrifício e do valor que algumas dessas obras requereram. Em 1830, chegaram à Inglaterra, levados como reféns por uma expedição científica, quatro fueguinos, a quem foram ensinados o idioma inglês e os princípios da fé cristã. Em 1833, três deles – o quarto havia falecido – desembarcaram em seu país de origem, acompanhados por um catequista britânico. (É interessante notar que Charles Darwin, na época ainda um jovem de vinte e dois anos, fazia parte da expedição que os levou a essas terras). Pouco depois, ao ver passar em canoas alguns fueguinos com roupas europeias, os ingleses que haviam transportado os missionários suspeitaram que algo corria mal, e voltaram ao posto da missão. Ali encontraram, quase louco, o catequista britânico, que contou que os índios o haviam maltratado e roubado tudo quanto possuía, e rogou que o levassem de volta à Inglaterra, pois temia por sua vida. Pouco depois, os três fueguinos que haviam sido a esperança da missão retornaram para os seus, e só de um deles voltou-se a ter notícia.

Resultado de imagem para Allen F. GardinerFoi então que entrou em cena o personagem heroico do empreendimento missionário realizado no extremo sul do continente: o capitão Allen F. Gardiner. Ele havia sido capitão da marinha de guerra britânica e, em 1834, junto ao leito de morte de sua esposa, havia se consagrado à obra missionária. Ele fracassou repetidamente em seus intentos missionários na África, Nova Guiné, entre os araucanos no Chile, e em outros lugares. Os seus contatos com alguns caciques da Patagônia o levaram a sonhar com a sua dedicação ao trabalho nessa região, e depois de muito esforço conseguiu que um grupo de amigos e admiradores fundasse a Sociedade Missionária para a Patagônia. De volta à Patagônia, ele descobriu que a situação havia mudado, e que não se materializou o apoio dos caciques com que antes havia contado. Então realizou um trabalho missionário na Bolívia durante algum tempo, até que o deixou a cargo de obreiros espanhóis.

Por fim, depois de outra viagem à Inglaterra e outra prolongada campanha para conseguir apoio econômico, empreendeu a sua missão definitiva à Terra do Fogo. A tripulação do barco que o levou permaneceu ali, ajudando-o a se estabelecer, por vinte dias, e ao zarpar ficaram para trás Gardiner, um catequista, um médico metodista, um carpinteiro e três marinheiros. Nem bem o navio desaparecera no horizonte, quando os missionários descobriram que, por erro, não havia sido desembarcada a sua reserva de pólvora, com a qual esperavam conseguir a maior parte de sua alimentação, caçando. Além disso, os naturais da terra mostraram-se hostis, e só se aproximavam dos missionários para lhes roubar do pouco que tinham. Por fim, eles tiveram que abandonar aquele lugar.

Os seus amigos na Inglaterra e em Montevideo haviam prometido enviar-lhes provisões dali a seis meses. Mas o primeiro barco naufragou. Quando se receberam notícias desse naufrágio, outro barco foi enviado, mas o capitão desse segundo navio faltou com sua palavra, e não apartou onde eles estavam. Por fim, com um ano e meio de atraso, chegaram as provisões. Os que as levavam encontraram uma inscrição em uma pedra: “Cavem aqui / Vão a Puerto Español / Março 1851“. Debaixo da pedra estava enterrada uma garrafa com indicações de como chegar onde se haviam refugiado os missionários, e com uma comovedora descrição do péssimo estado em que se encontravam quando haviam abandonado aquele lugar. Seguindo as instruções encontradas na garrafa, os que levavam as provisões chegaram por fim ao último refúgio dos exilados. Todos haviam morrido. Pelo diário de Gardiner, que sobreviveu aos demais, e que até poucos dias antes de morrer estivera escrevendo instruções acerca de como evangelizar os naturais, soube-se que as provisões haviam chegado tarde demais, por uma diferença de vinte dias. A última coisa que Gardiner escreveu foi: “Com quão grande e maravilhoso amor Deus me ama! Até aqui ele me tem conservado por quatro dias, sem sentir fome nem sede, apesar de estar sem alimentos!”

Thomas Bridges.jpgA tragédia despertou redobrado interesse nas missões ao extremo sul do continente. Depois de um novo período de preparação, iniciou-se de novo a missão. Esta estabeleceu o seu quartel nas Malvinas, como antes o havia sugerido Gardiner. Entre os que participaram desse novo empreendimento estava Allen W. Gardiner, filho do falecido capitão. Em uma visita à Patagônia e à Terra do Fogo, encontraram eles um dos antigos reféns fueguinos, que ainda se lembrava do inglês e que concordou em trasladar-se para as ilhas Malvinas com sua família. Depois outros fueguinos fizeram o mesmo, e assim criou-se um pequeno grupo de fueguinos que aprendiam inglês, ensinavam o seu idioma aos missionários e se fizeram cristãos. Por fim, os missionários decidiram que havia chegado o momento de estabelecer uma ponta de lança na Terra do Fogo. Para lá foram, entre outros, Gardiner e o antigo refém, agora, ao que parecia, genuinamente convertido. Contudo, poucos dias depois de estabelecidos, os missionários foram atacados e mortos, aparentemente graças à cumplicidade com o antigo refém e com outros que haviam estudado nas Malvinas. Somente sobreviveu o cozinheiro da expedição, e pôde contar o que aconteceu. Desalentados, os chefes da missão nas Malvinas decidiram voltar para a Inglaterra. O jovem Thomas Bridges [foto] ficou encarregado do posto; ele tinha 18 anos, e recusou-se a regressar. Por algum tempo, Bridges dedicou-se a travar uma amizade mais estreita com os fueguinos que viviam no posto missionário das Malvinas. Assim, ele chegou a aprender o idioma. Em particular, ele se fez muito amigo do fueguino Jorge D. Okoko, que se havia tornado um cristão de profundas convicções.

Quando chegou o novo superintendente, W. H. Stirling, Bridges e Okoko prepararam-se para uma nova visita ao lugar de tantas tragédias. Ali os esperavam os índios, temerosos das represálias que porventura iriam ser tomadas por causa da morte dos outros missionários. Mas tanto Okoko como Bridges lhes falaram em seu próprio idioma, e os naturais se surpreenderam com o espírito de perdão de pessoas tão estranhas. Assim, finalmente teve início uma obra que logo lançou raízes entre todos os habitantes da região. Okoko e outros treinados nas Malvinas estabeleceram centros missionários. No princípio de 1869, Stirling ordenou que o deixassem só, com provisões para algum tempo, em uma cabana junto ao litoral. Quando seus amigos voltaram seis meses depois, verificaram que Stirling havia ganho o respeito dos índios, lançando as bases para uma missão permanente. Chamado para a Inglaterra para ser consagrado bispo das Malvinas, Stirling encontrou-se em Montevideo com Bridges, que voltava de Londres, depois de ter sido ordenado diácono. Em seguida ao regresso de ambos, a missão continuou, pois Stirling sempre se interessou por ela, e Bridges introduziu na região a criação de gado e o cultivo de várias espécies vegetais. (Além disso, antes de passar a outro tema, é interessante observar que um dos mais fiéis contribuintes para essa missão foi Charles Darwin, que havia visitado aquele país quando jovem, e a quem mais tarde muitas pessoas consideraram inimigo da fé.)

Diego Thompson.jpgOs primeiros missionários protestantes que trabalharam entre a povoação de fala espanhola e portuguesa não procuraram fundar igrejas, mas difundir a Bíblia, lançar a semente e preparar o caminho para os que viriam depois. O mais notável desses precursores foi o escocês James Thomson, conhecido na América Latina como Diego Thomson. Como pastor batista na Escócia, ele se dedicou ao estudo do espanhol e do método lancasteriano de educação, que fazia uso de leituras da Bíblia para que os alunos tomassem parte ativa na sua própria educação. Em 1818, ele chegou a Buenos Aires como representante da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. Visto que o governo argentino sentia a urgente necessidade de estabelecer a educação pública sobre novas bases, ele foi muito bem recebido, e o governo o nomeou Diretor Geral de Escolas, com a responsabilidade específica de fundar uma escola modelo e treinar outros professores. Por dois anos Thomson se dedicou a isto e à difusão da Bíblia. Além disso, ele reuniu uma pequena congregação de protestantes de fala inglesa. Em 1821, depois de uma breve visita ao Uruguai, ele partiu para o Chile, não antes de ter sido declarado cidadão argentino pelo governo nacional, deixando organizada uma Sociedade Bíblica Auxiliar em Buenos Aires. Depois de um ano de estada no Chile, ele prosseguiu para Peru, Equador, Colômbia, México, Cuba e Porto Rico, estas duas últimas ainda colônias espanholas. Na Colômbia, fundou uma Sociedade Bíblica. Em todos esses países, evitou de todas as formas possíveis o conflito com o clero, e em alguns casos, como na Colômbia, encontrou entre os padres progressistas alguns de seus melhores aliados. Depois continuou para outros continentes, onde prosseguiu sua obra. Na América Latina, seguiram-se a ele outros representantes da Sociedade Bíblica. Um deles, Lucas Matthews, depois de percorrer Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Colômbia, desapareceu neste último país sem que jamais se tenha sabido o que lhe aconteceu.

Logo surgiram outros colportores bíblicos latino-americanos. O mais notável deles foi Francisco Penzotti, que se havia convertido durante um dos primeiros cultos em castelhano celebrados em Francisco Penzott. Penzotti foi enviado ao Peru para fazer circular a Bíblia, mas decidiu que era necessário realizar cultos como o que havia dado lugar à sua própria conversão. Visto que era proibido celebrar cultos públicos, antes da reunião ele distribuía folhetos aos que demonstravam interesse em assistir e, desse modo, pelo menos legalmente, o culto não era público. Ele foi encarcerado e mantido preso, apesar de ser repetidamente absolvido, por mais de oito meses. Por fim, o jornal New York Herald publicou a sua história, e o governo peruano, que desejava atrair imigrantes, precisou colocá-lo em liberdade. Dessa forma abriu-se uma brecha para que o protestantismo entrasse no Peru.

Enquanto isso, por todas as partes começavam a aparecer pequenas congregações de fala espanhola. Algumas dessas, como as fundadas pelo escocês J. F. Thomson, em Buenos Aires e Montevidéu, surgiram devido ao interesse de alguns imigrantes em compartilhar a sua fé com os naturais do país. Thomson pregou o seu primeiro sermão em castelhano, na Argentina, em 1867, e pouco depois começou a pregar também em Montevidéu. Mais ou menos à mesma época, um missionário norte-americano, David Trumbull, organizava a primeira igreja protestante de fala espanhola no Chile, com quatro membros chilenos, igreja que mais tarde se uniu à presbiteriana. Quase ao mesmo tempo, os metodistas norte-americanos começaram a sua obra na região. Na Colômbia, surgiu uma congregação em Cartagena, fundada pelo ex-frade catalão Ramon Montsalvage, por volta de 1855. Na mesma época chegava ao país o primeiro missionário presbiteriano. No Brasil, a principal força missionária nos meados do século foi um grupo de portugueses que se havia convertido na ilha portuguesa de Madeira, e que foram obrigados a se exilar no Brasil, devido a perseguições em sua terra natal. No México, embora também houvesse protestantes antes disso, só na década de 1870 é que as principais denominações norte-americanas começaram a trabalhar. Em resumo, embora seja possível citar antecedentes vários e até heroicos, foi por volta de 1870 que se estabeleceu na América Latina a maior parte do trabalho protestante permanente. Para isso haviam aberto o caminho os agentes das Sociedades Bíblicas, alguns imigrantes, e um bom número de latino-americanos que, de uma forma ou outra, haviam chegado a conhecer o protestantismo.

Também é importante indicar que, desde o princípio, a maior parte dos missionários protestantes procurou dar testemunho de uma mensagem que se ocupava não apenas da salvação eterna, mas também dos outros aspectos da vida. Por isso, o protestantismo destacou-se devido às escolas, hospitais e outras instituições que fundou. Muitas pessoas que nunca abraçaram o protestantismo foram educadas em escolas metodistas, atendidas em hospitais presbiterianos ou abrigadas em albergues congregacionais.

Os cismas

Em alguns casos, as novas condições e as ideias que começavam a circular produziram cismas dentro da Igreja Católica, da qual se separaram grupos que, posteriormente, se uniram às igrejas protestantes.

O mais notável desses cismas foi o iniciado pelo sacerdote mexicano Ramon Lozano, que, em 1861, se separou do catolicismo e fundou a Igreja Mexicana, com estatutos provisórios. Poucos depois, o sacerdote Aguilar Bermúdez deu passos semelhantes. O presidente Benito Juárez, que não gostava das atitudes políticas do catolicismo, prestou a esse movimento o seu apoio moral, assistindo aos seus cultos. Depois, um famoso dominicano, Manuel Aguas, dedicou-se a refutar os cismáticos, e acabou por concordar com eles. Enquanto isso, a nova igreja solicitou ajuda dos episcopais norte-americanos, e se organizou com o nome de Igreja de Jesus. Seu primeiro bispo, que morreu antes de ser consagrado, foi Manuel Aguas. Posteriormente, em 1909, a Igreja de Jesus uniu-se à Igreja Episcopal dos Estados Unidos, e veio a ser parte integrante desse corpo.

Em outros casos, os cismas aconteceram dentro das fileiras do protestantismo. Às vezes, o grupo que se separou chegou a se tornar maior do que sua igreja mãe. Foi esse o caso do cisma que teve lugar entre os metodistas chilenos, em 1910. Anos antes, na igreja de Valparaíso, o culto havia começado a assumir características do movimento pentecostal, e em 1910 a Conferência Anual do Chile condenou essas práticas. O resultado foi a formação da Igreja Metodista Pentecostal, que inicialmente tinha apenas três congregações, mas logo se tornou muito maior do que a Igreja Metodista. Em outros lugares ocorreram cisões semelhantes, embora nem sempre o ponto de atrito tenha sido a questão das práticas pentecostais. No Brasil, por exemplo, produziu-se um cisma oriundo de atritos entre os missionários e alguns dirigentes nacionais. E seria possível narrar episódios semelhantes em diversos países.

O que expusemos acima não pretende de forma alguma ser uma história das origens do protestantismo na América Latina. Para fazer justiça a esse tema, seria necessário um espaço maior do que o que temos aqui. Antes, o que procuramos foi dar ao leitor uma visão panorâmica dos múltiplos meios pelos quais o protestantismo penetrou na América Latina, e levá-lo a ver que o panorama é muito mais amplo do que a história de uma denominação ou de um tipo de missões. Imigrantes, transeuntes, missionários internacionais como Diego Thomson, heróis como Gardiner e os que o seguiram, missionários europeus e norte-americanos, exilados latino-americanos que regressavam à sua pátria, católicos sinceros que acabavam convencidos de que algo faltava à sua religião, todos esses e muitos outros foram os introdutores do protestantismo na América Latina.

Por outro lado, não devemos nos esquecer do fator comum que durante todo o século XIX e boa parte do século XX contribuiu para o sucesso alcançado pelo protestantismo. Esse fator foi o liberalismo político e econômico que nessa época chegou ao seu apogeu. Os mesmos crioulos que sonhavam com o estabelecimento de repúblicas alicerçadas sobre os ideais da Revolução Francesa, e que criam na livre empresa econômica, que é a base do capitalismo, eram os que estavam mais dispostos a colaborar com a introdução do protestantismo em seus países. Embora eles mesmos não estivessem dispostos a se tornar protestantes, não obstante criam que a pregação protestante, e certamente a imigração protestante, abririam o caminho para as promessas do mundo moderno. Portanto, o que faltava ver é o que aconteceria quando esse liberalismo começasse a perder sua vigência.

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