A era dos novos horizontes (XI) – Horizontes Ecumênicos

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 205 a 212.

“Em meio às tristes discórdias e divergências que alienaram e separaram os corações, não apenas de indivíduos crentes entre nós, mas também de comunidades inteiras, a evangelização dos pagãos frequentemente exerceu a sua influência suavizadora, saneadora e reunificadora.” (Alexander Duff)

Um dos fenômenos mais notáveis do século XIX foi o modo pelo qual os cristãos começaram a se preocupar com aquilo que separava as denominações. Desde a época da Reforma, houve quem procurasse unir os diversos grupos que surgiram dela. Recorde-se, por exemplo, o Colóquio de Marburgo, entre Lutero e Zuínglio. Essas tentativas continuaram através dos séculos, embora com resultados quase nulos. Foi no século XIX, e depois no século XX, que o impulso em direção à unidade cristã adquiriu novas forças. Isto se deveu em grande parte às novas circunstâncias em que os cristãos se encontraram, em que muitas das antigas divisões perdiam importância.

Nos Estados Unidos, onde se misturavam imigrantes de vários países, e onde, portanto, presbiterianos, metodistas, batistas e episcopais viviam em constante contato, as divisões do velho continente, embora tenham continuado, foram sobrepujadas por outras questões aparentemente mais urgentes. O debate acerca da escravidão cruzou as barreiras denominacionais, de tal modo que os abolicionistas de diversas denominações se consideravam aliados, diante da aliança oposta dos escravagistas. Algo semelhante ocorreu mais tarde no conflito entre fundamentalistas e liberais. Portanto, ao mesmo tempo que apareciam nos Estados Unidos novas denominações surgidas de questões como a escravidão, a Guerra Civil e a autoridade da Bíblia, aumentavam os laços entre as denominações que adotavam posturas semelhantes diante dessas questões.

Por outro lado, também os avivamentos e as muitas organizações dedicadas a causas benéficas cruzaram as barreiras denominacionais. Quando um pregador chegava a uma aldeia para dirigir cultos de avivamento, poucos eram os que perguntavam a que denominação ele pertencia. E o mesmo acontecia com as reuniões da Sociedade Antiescravagista, da Liga da Temperança etc.

Um bom indicador deste estado de coisas foi a fundação da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo) que, como já dissemos, surgiu precisamente com a esperança de pôr fim à divisão existente entre as diversas denominações, criando uma igreja que seguisse os padrões do Novo Testamento, e na qual todos pudessem se unir.

Na Europa, onde os contatos entre pessoas de diversas tradições cristãs eram menos constantes, o sentimento ecumênico demorou mais a aparecer. Mas também ali se foi chegando à conclusão de que havia questões mais urgentes do que os velhos debates que haviam separado, por exemplo, presbiterianos de congregacionais, e que essas questões transcendiam as barreiras denominacionais. Assim surgiram várias sociedades interdenominacionais, com objetivos como a abolição do tráfico de escravos, a proteção das crianças que trabalham, a educação cristã mediante escolas dominicais etc.

Porém, o que deu verdadeiro ímpeto ao movimento ecumênico foi o movimento missionário. Muitas das sociedades fundadas na Europa e nos Estados Unidos, com o objetivo de alcançar as nações que ainda não haviam ouvido a mensagem cristã, incluíam membros de diversas denominações. Exemplos notabilíssimos disso foram a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira e a Sociedade Bíblica Americana, principais promotoras da distribuição da Bíblia e fortes aliadas dos missionários que se dedicavam a traduzir as Escrituras para diversos idiomas. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos os eruditos bíblicos se aproximavam uns dos outros em torno de seus estudos, nos campos missionários a tradução e a distribuição da Bíblia foram empreendimentos conjuntos de diversas denominações. Quando uma denominação havia traduzido a Bíblia, as outras empregavam a mesma tradução e, por isso, desde o princípio, precisavam reconhecer a sua dívida de gratidão a cristãos de outra confissão.

Ao mesmo tempo, as divisões que na Europa ou nos Estados Unidos podiam parecer perfeitamente explicáveis, não o eram tanto ou até de forma alguma na China, na Índia ou em Fiji. Ao apresentar o evangelho a pessoas que não o conheciam, a questão de a igreja dever ser governada por presbíteros ou por bispos era, de qualquer prisma que se considerasse, secundária. O que é mais importante, tais questões tendiam a ocultar a própria mensagem, e assim acabavam sendo pedra de tropeço para alguns crentes e interessados.

Ademais, devido aos recursos limitados do empreendimento missionário e à enorme tarefa a ser realizada, era necessário administrar esses recursos com sabedoria, sem esbanjá-los, duplicando o que outros já estavam fazendo, ou competindo com outros projetos missionários. Por que ter duas ou mais igrejas de denominações diferentes em uma aldeia, quando havia centenas de aldeias sem nenhuma igreja? Por que competir uns com os outros na evangelização de uma ilha, de uma província, quando havia tantas outras onde era necessário pregar?

Por tudo isso, desde estágio bem inicial, alguns missionários verificaram a necessidade de colaborar mais estreitamente entre si. E o mesmo fizeram alguns dos seus convertidos, que, pouco a pouco, foram ocupando posições de maior importância nas novas igrejas. É verdade que houve missionários que insistiram com firmeza em suas posições denominacionais, havendo também convertidos que seguiram o seu exemplo. Também é verdade que as novas igrejas se dividiram com lamentável frequência. Mas, em termos gerais, o consenso dos que mais se preocupavam com a obra missionária e com a conversão de seus vizinhos era a urgente necessidade de que os cristãos se aproximassem mais, se não para unir-se em uma única igreja, pelo menos para projetar em conjunto a sua obra missionária.

O grande precursor de tudo isto, como em tantas outras coisas, foi Carey. Desde logo cedo, no início do século XIX, este grande missionário havia sonhado com uma conferência missionária internacional, que deveria se reunir na Cidade do Cabo, no extremo sul da África, em 1810. Essa cidade parecia ideal, por se achar no meio do caminho entre a Europa e os Estados Unidos, por um lado, e o Oriente, por outro. Ali deviam se reunir, segundo a proposta de Carey, representantes das sociedades missionárias que apoiavam o trabalho no Oriente e na África, juntamente com grande número de missionários que trabalhavam nessas regiões. O que fariam seria intercambiar experiências, para aprender uns dos outros e, além disso, discutir os seus planos, de modo que os projetos de uma sociedade não repetissem desnecessariamente os de outra. Em uma época em que as divisões denominacionais eram ainda extremamente importantes, e quando os missionários de um país frequentemente competiam abertamente com os de outro, a proposta de Carey não encontrou receptividade. Os próprios chefes da sociedade que apoiava a sua obra na Índia declararam que a sua ideia, embora tivesse algum mérito, não poderia ser levada a efeito. Portanto, o sonho de Carey ficaria em suspenso por mais de cem anos.

Enquanto isso, tiveram lugar muitas conferências semelhantes em menor escala. Nos países em que trabalhavam missionários, houve inúmeras reuniões onde se projetou a tradução da Bíblia, se repartiram experiências e frustrações e se planejaram empreendimentos conjuntos. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha houve uma série de conferências missionárias: em Nova Iorque e em Londres em 1854, em Liverpool em 1860, de novo em Londres em 1878 e 1888, e por fim em Nova Iorque em 1900. Esta última foi chamada Conferência Ecumênica Missionária, usando ainda o termo “ecumênico” no seu sentido original de incluir “toda a terra habitada”, ou seja, de ser uma conferência mundial. Pouco a pouco esse termo chegaria a ser usado para se referir ao movimento de colaboração e unidade entre os cristãos.

Resultado de imagem para edimburgo 1910Por fim, cem anos depois da conferência projetada por Carey, reuniu-se em Edimburgo, na Escócia, a Conferência Mundial Missionária, conhecida em círculos ecumênicos como “Edimburgo, 1910“. Ao contrário das outras conferências anteriores, esta seria constituída por representantes oficiais das sociedades missionárias, cada uma das quais nomearia um determinado número de delegados em proporção à sua participação (em termos econômicos) no empreendimento missionário total. Além disso, estipulou-se que a conferência trataria unicamente das missões entre os não-cristãos, e que, portanto, estavam excluídas as missões protestantes entre católicos na América Latina, ou as que algumas igrejas tinham na Europa ou entre as antigas igrejas orientais. Por muito tempo antes de se reunir essa conferência, realizaram-se estudos preliminares de que participaram centenas de pessoas em todo o mundo, especialmente mediante correspondência e reuniões regionais ou locais. Ao mesmo tempo, foram excluídas desses estudos, tanto como dos debates da própria conferência, todas as questões de fé e ordem. Excluindo esse tema, assim como as missões entre católicos e outros cristãos, os organizadores tornaram possível a participação de alguns grupos que, de outra forma, não teriam participado, como os anglicanos, que se opunham às missões na América Latina, e os alemães, que se opunham às missões batistas e metodistas entre luteranos.

Quando a assembléia se reuniu, a maioria dos participantes era de britânicos e norte-americanos. Havia também um bom número, embora menor, de representantes procedentes de outros países europeus. Das igrejas que haviam resultado das missões, havia somente dezessete membros – e estes, não nomeados por suas igrejas, mas sim quatorze por sociedades missionárias e três convidados especiais da Comissão Executiva. Assim, as limitações da conferência eram numerosas. Apesar disso, essa assembleia marca o começo do movimento ecumênico contemporâneo.

A principal contribuição positiva da assembleia para o movimento ecumênico foi que, pela primeira vez, houve uma reunião de tal magnitude de representantes oficiais de sociedades missionárias. Até então, haviam assistido às conferências as pessoas que assim o desejassem. Mas nesta conferência, os que assistiram a ela haviam sido nomeados por suas sociedades missionárias e, portanto, de certo modo eram representantes de suas igrejas, ou pelo menos de seu empreendimento missionário. O êxito da conferência abriu o caminho para outras reuniões semelhantes, algumas sobre missões e outras sobre diferentes assuntos.

Ademais, a conferência não se contentou em se reunir, tomar resoluções e dissolver-se, mas nomeou uma Comissão de Continuação, da qual surgiram outros estudos, conferências e, posteriormente, no século XX, o Conselho Missionário Internacional.

John Raleigh Mott.jpgOutro resultado positivo da conferência foi dar realce mundial a alguns personagens que por muito tempo seriam os principais propulsores do movimento ecumênico. Provavelmente, o principal deles foi o leigo metodista John R. Mott, produto do despertamento religioso evangélico nos Estados Unidos, que havia participado ativamente do movimento estudantil cristão, e que fez parte da comissão que organizou a conferência, assim como da Comissão de Continuação. No século XX, Mott seria o grande promotor e estadista do movimento ecumênico.

Resultado de imagem para congresso do panamá 1916Por outro lado, mesmo naquilo que excluiu, a Conferência de Edimburgo causou impacto sobre o movimento ecumênico. Visto que as missões na América Latina haviam sido excluídas, as principais agências que se ocupavam dessas missões sentiram a necessidade de se reunirem para discutir assuntos de sua incumbência. Já em Edimburgo, de maneira extraoficial, várias pessoas se reuniram para dar forma a esse projeto, e três anos depois ficou organizado o Comitê de Cooperação na América Latina. Em 1916, depois de uma série de estudos preliminares, teve lugar no Panamá um Congresso sobre a Obra Cristã na América Latina, que pela primeira vez reuniu os evangélicos de todo o continente. O Comitê de Cooperação ficou encarregado de levar a cabo o que havia sido projetado pelo Congresso.

 Outro tema excluído da Conferência de Edimburgo foi toda questão de fé e de ordem. Desse modo se evitava qualquer discussão que pudesse dividir a assembleia, sem chegar a resultado positivo algum. Mas alguns dos presentes em Edimburgo sentiram a necessidade de se reunirem com outros cristãos para discutir esses temas que, afinal de contas, eram os que mais profundamente separavam as igrejas. Assim surgiu o Movimento de Fé e Ordem, que posteriormente seria uma das fontes do Conselho Mundial de Igrejas.

Enquanto isso, as tensões internacionais iam aumentando, e os cristãos sentiram-se chamados a se reunir, não somente para discutir os problemas das relações entre as diversas denominações, mas também para procurar formas pelas quais se pudessem resolver os conflitos internacionais. Em 2 de agosto de 1914, na cidade de Constanza, organizou-se a Aliança Universal para a Amizade Internacional através das Igrejas. Nesse mesmo dia estourou a Primeira Guerra Mundial.

Esta entrada foi publicada em História, Teologia e marcada com a tag , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.