A era inconclusa (II): o Cristianismo Oriental

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era inconclusa – Vol. 10. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 029 a 038.

“Chegou o momento em que o dever do cristão em todo o mundo é reunir forças a fim de cumprir as palavras do profeta Isaías – ‘… converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras…’ – assim provando, mais uma vez, a exequibilidade e a atualidade permanente do cristianismo no mundo.” (Justiniano, Patriarca Romeno, 1960)

Uma das principais questões enfrentadas por todo cristão no século XX é como viver na “era pós-constantiniana“. O significado desta frase refere-se ao fato de a igreja não poder mais contar com o apoio político desfrutado desde a época de Constantino. A partir da Revolução Francesa, o cristianismo ocidental viu-se obrigado a aceitar o desafio dos estados seculares, que, embora nem sempre hostis, tendem a desconsiderá-lo. Para o cristianismo oriental, por seu turno, esse processo começou quando Constantinopla caiu ante os turcos, em 1453. Foi nesse ponto que deixamos nossa narrativa acerca do curso do cristianismo oriental, e é para onde devemos retornar agora.

O cristianismo bizantino

O apoio que o cristianismo tradicionalmente recebia do Império Bizantino não era uma bênção pura. É verdade que seu relacionamento com o Império trazia grande prestígio à Igreja Grega, mas também é verdade que sua liberdade era profundamente limitada. Enquanto no Ocidente os papas freqüentemente eram mais poderosos que os reis, no Oriente os imperadores dominavam a igreja, e os patriarcas que não obedecessem às suas ordens eram facilmente depostos e substituídos. Quando o imperador chegou à conclusão de que era necessário unir-se a Roma a fim de salvar seu império, a junção aconteceu mesmo contra a vontade explícita da imensa maioria da Igreja Bizantina. Um ano depois, em 1453, Constantinopla caiu nas mãos dos turcos. Muitos cristãos bizantinos interpretaram esse acontecimento como um ato de libertação de um imperador tirano, que os havia forçado a unir-se com a herege Roma.

A princípio, o regime otomano concedeu certa liberdade à igreja. Mohammed II, conquistador de Constantinopla, convidou os bispos a eleger outro patriarca – o anterior havia fugido para Roma –, a quem ele conferiu autoridade civil e eclesiástica sobre os cristãos de seus territórios. Na própria Constantinopla, metade das igrejas tornara-se mesquitas, mas, na outra metade, o culto cristão continuava com a tolerância absoluta do estado. Em 1516, os otomanos conquistaram a Síria e a Palestina, e os cristãos desses territórios também foram submetidos ao governo do patriarca de Constantinopla. Um ano depois, quando o Egito caiu perante os turcos, o patriarca de Alexandria recebeu poderes especiais sobre os cristãos egípcios. Embora essa estratégia política fizesse dos patriarcas os governantes virtuais de um estado cristão dentro do território turco, também significava que um patriarca que não implementasse a política do sultão logo seria deposto.

Resultado de imagem para Cyril LucarisPor vários séculos, a atividade teológica na igreja de língua grega foi dominada por influências ocidentais e reações em sentido contrário. As questões debatidas no Ocidente durante a Reforma Protestante também foram discutidas na igreja de fala grega e, em 1629, Cyril Lucaris, patriarca de Constantinopla, publicou uma “Confissão de Fé”, claramente protestante. Conquanto Lucaris tenha sido deposto e assassinado, muitos veneraram sua memória – alguns alegando que a Confissão de Fé era espúria. Por fim, em 1672, um sínodo condenou-o [como] “se ele de fato tivesse sido um herege calvinista”. No século seguinte, porém, a questão deixava de ser o protestantismo; antes, era a filosofia e a ciência ocidentais e o impacto que deveriam ter sobre a teologia da igreja ortodoxa. No século XIX, quando a Grécia tornou-se independente da Turquia, essa controvérsia assumiu implicações políticas. Em geral, o nacionalismo grego tomava o partido dos que advogavam a introdução de métodos ocidentais de pesquisa e educação – os quais também afirmavam que a igreja grega, agora existindo em uma nação independente, deveria separar-se do patriarca de Constantinopla. Os conservadores, por sua vez, sustentavam que a tradição comumente recebida teria de orientar a educação e que parte dessa tradição consistia na sujeição ao patriarca de Constantinopla, embora estivesse ele sujeito ao sultão turco.

Durante o século XIX e o início do XX, o Império Otomano entrou em colapso, e formaram-se igrejas ortodoxas nacionais não apenas na Grécia, mas também na Sérvia, na Bulgária e na Romênia. Em cada uma dessas regiões, a tensão entre os sentimentos nacionalistas e a natureza transnacional da igreja ortodoxa era uma questão proeminente. No período entre as duas guerras mundiais, o patriarcado de Constantinopla reconheceu a autonomia das diversas igrejas ortodoxas, não apenas nos antigos territórios turcos situados nos Bálcãs, mas também em outras regiões europeias, como a Estônia, a Letônia e a Checoslováquia. Como a maior parte desses territórios foi submetida à hegemonia russa após a Segunda Guerra Mundial, a política religiosa soviética lhes foi aplicada, de forma geral. No início do século, os antigos patriarcados de Jerusalém, de Alexandria e de Antioquia encontravam-se sob domínio árabe. A princípio, esses estados árabes recém-formados desfrutavam da proteção de potências ocidentais. Nessa época, um número significativo de cristãos liderados por esses patriarcados tornou-se ou católico ou protestante. Em seguida, o crescente nacionalismo árabe reagiu contra o poder e a influência ocidentais, o desenvolvimento, tanto do protestantismo quanto do catolicismo, foi reprimido. Já na segunda metade do século XX, a Grécia era a única nação em que o Cristianismo Ortodoxo ainda podia contar com algo semelhante à união tradicional entre igreja e estado.

Todas essas igrejas, porém, mostraram realmente sinais de vitalidade. Durante algum tempo, temia-se que a perda de escolas eclesiásticas e a pressão da propaganda governamental afastassem da igreja as novas gerações. A experiência de várias décadas, porém, parecia indicar que a liturgia, a fonte tradicional de força espiritual para os fiéis ortodoxos, estava à altura da tarefa de transmitir a tradição cristã nos estados hostis. Embora as deficiências civis às quais os cristãos vêm sendo submetidos em vários desses estados, em épocas diversas, realmente tenham resultado num declínio de participação ativa na igreja por parte dos envolvidos no mercado de trabalho, é significativo observar que, depois de aposentadas, inúmeras pessoas voltam à igreja. Evidentemente, o período pós-constantiniano não implicou no fim dessas igrejas que herdaram a antiga tradição bizantina.

A igreja russa

Na Rússia, muitos interpretaram a queda de Constantinopla, em 1453, como um castigo de Deus por terem concordado em unir-se novamente à herege Roma. Por fim, desenvolveu-se a teoria de que, assim como Constantinopla havia substituído Roma como a “segunda Roma”, agora Moscou era a “terceira Roma”, a nova cidade imperial cuja tarefa providencialmente designada era sustentar a ortodoxia. Em 1547, Ivan IV da Rússia assumiu o título de “czar” ou imperador, sugerindo que era o sucessor dos antigos césares de Roma e de Constantinopla. Semelhantemente, em 1598 o metropolita de Moscou assumiu o título de patriarca. Para apoiar esse autoentendimento, a igreja russa elaborou uma série de obras polêmicas contra gregos, católicos e protestantes. Já no século XVII, tais noções encontravam-se tão arraigadas, que uma tentativa de reaproximação dos gregos provocou um cisma na Rússia.

O czar Alexis I Mikhailovich (1645-1676) entendeu essa reaproximação com os cristãos gregos como um passo preliminar para a conquista de Constantinopla e, portanto, encorajou o patriarca Nikon a rever a liturgia, fazendo-a concordar com as práticas gregas. Muitos russos, porém, sobretudo entre as classes mais baixas, reagiram violentamente. Eles suspeitavam de tudo que fosse estrangeiro, ainda mais por parecer que a aristocracia é que estava interessada na promoção das ideias novas. O resultado foi o cisma dos Antigos Fiéis, alguns dos quais se uniram depois à revolta dos camponeses. Essa rebelião foi reprimida com grande derramamento de sangue, e piorou a condição servil dos camponeses. Os Antigos Fiéis subsistiram, embora discordassem acerca de diversas questões – em particular, se aceitariam sacerdotes oriundos da Igreja Ortodoxa ou se não teriam sacerdote algum. Alguns foram levados a extremos apocalípticos, e milhares se suicidaram para provar sua fé. Entretanto, no final os grupos mais radicais desapareceram e os Antigos Fiéis sobreviveram como um grupo minoritário na Rússia até pelo menos o século XX.

Resultado de imagem para Theophanes ProkopovickO czar Pedro, o Grande (1689-1725), empreendeu uma linha de ação diferente. Não lhe interessava reaproximar-se dos cristãos gregos, mas sim abrir seu país para as influências ocidentais. Na vida da igreja, isso levou a um crescente interesse tanto pela teologia católica quanto pela protestante. Em geral, os que seguiam essas escolas de pensamento divergentes não abandonavam sua fé Ortodoxa; antes, procuravam desenvolver uma teologia Ortodoxa usando metodologias católicas ou protestantes. Em questões abertas a debate, alguns seguiam a liderança católica, enquanto outros imitavam o exemplo do protestantismo. A escola de Kiev, cuja figura central era Pedro Mogila, estava associada às tendências católicas, ao passo que Theophanes Prokopovick e seus discípulos achavam que a Ortodoxia russa deveria analisar a crítica protestante à tradição. No início do século XIX, a influência do Iluminismo e do Romantismo fez prevalecer o grupo de Prokopovick. Mais para o fim desse século, porém, houve uma reação nacionalista, com maior destaque ao valor do que era tradicionalmente russo – o movimento eslavófilo. O principal participante desse movimento foi o teólogo leigo Alexis Khomiakov (1804-1860), que aplicou as categorias hegelianas para mostrar que o entendimento Ortodoxo verdadeiro da catolicidade – sobornost – é uma síntese perfeita entre a tese católica acerca da unidade da Igreja e a antítese protestante da liberdade do evangelho.

A Revolução Russa pôs fim em grande parte desse debate. O marxismo, filosofia ocidental diferente, havia obtido proeminência. Em 1918, a igreja foi oficialmente separada do estado, o que ficou ratificado pela constituição de 1936, a qual garantia tanto “liberdade de culto religioso” quanto “liberdade de propaganda antirreligiosa”. Em 1920, o ensino religioso nas escolas foi banido. Dois anos antes foram fechados todos os seminários. Após a morte do patriarca Tikhon, em 1925, a Igreja Ortodoxa Russa não obteve permissão para eleger seu sucessor antes de 1943. Então, em parte por causa da guerra contra a Alemanha, o governo decidiu reconhecer a existência permanente da igreja. Nesse mesmo ano, reabriram-se os seminários. Além disso, concedeu-se permissão para imprimir alguns livros e periódicos e fabricar os utensílios necessários para os cultos.

Como no caso de outras Igrejas Ortodoxas submetidas ao domínio comunista, a igreja russa considerava sua liturgia capaz de sustentar os fiéis e transmitir as tradições às novas gerações. Mais para o final do século XX, após quase setenta anos de domínio comunista, os Ortodoxos da União Soviética ainda eram fortes, e seu número chegava a cerca de 60 milhões.

Outras igrejas orientais

Além das igrejas mencionadas acima, há instituições Ortodoxas em diversas partes do mundo. Algumas, como a Igreja Ortodoxa do Japão e as da China e da Coréia, resultaram da obra missionária da Igreja Russa. Elas são absolutamente nacionais, sendo quase todos os membros e o clero nativos, e celebram a liturgia na língua materna. Outras são resultado do que se conhece por “Diáspora Ortodoxa“. Por diversas razões – convulsões políticas, perseguições, a busca de melhores condições de vida – inúmeros ortodoxos mudaram-se para áreas distantes de suas terras natais. Particularmente na Europa ocidental e no Novo Mundo, há russos, gregos e outros, em quantidade significativa, para quem sua fé e sua liturgia são meios de manter vivos tradições e valores que do contrário seriam perdidos. As relações entre esses diversos grupos geram problemas difíceis para a Ortodoxia, que sempre sustentou que não pode haver mais de uma Igreja Ortodoxa em determinado lugar ou região. De tempos em tempos, isso deu ênfase mais profunda aos laços de união dentro da Comunhão Ortodoxa.

Entretanto, nem todas as igrejas fazem parte da Comunhão Ortodoxa. Desde a época das controvérsias cristológicas do século V, diversas igrejas orientais que discordavam das decisões dos concílios haviam estabelecido uma existência independente. Nos antigos territórios do Império Persa, a maioria dos cristãos recusou-se a chamar Maria a “Mãe de Deus” e, por isso, foram apelidados de “nestorianos” [veja A Igreja Oriental]. Esses cristãos – também conhecidos como “assírios” – têm uma história longa e repleta de altos e baixos. Embora durante algum tempo na Idade Média essa igreja tenha sido numerosa e suas missões tenham-se estendido até a China, em épocas mais recentes ela sofreu duras perseguições, em especial por parte dos vizinhos muçulmanos. No início do século XX, tais perseguições dizimaram seus membros. Muitos dos sobreviventes fugiram para o ocidente – incluindo seus líderes, os “catholicos”, que buscaram refúgio primeiramente em Chipre e por fim em Chicago. Hoje, o número total de seus membros é de aproximadamente cem mil cristãos espalhados pelo Iraque, Irã, Síria e Estados Unidos.

Essas igrejas que se recusaram a aceitar a “Definição de Fé” de Calcedônia, porque parecia fazer uma divisão entre a humanidade e a divindade de Jesus, são usualmente chamadas de “monofisistas”, embora o termo não designe com exatidão sua compreensão cristológica. As maiores desses grupos são a Igreja Copta do Egito e sua filial, a Igreja da Etiópia. Esta foi uma das últimas igrejas orientais a receber o apoio ativo do estado, mas isso terminou com a deposição do imperador Haile Selassie, em 1974. A antiga Igreja Monofisista Síria, também conhecida como “Jacobita”, é forte na Síria e no Iraque. Seu chefe, o patriarca jacobita de Antioquia, mora em Damasco, a capital síria. Tecnicamente sob esse patriarca, mas na realidade autônoma, a Igreja Síria na Índia, que alega ter sido fundada por São Tomé, é inteiramente nativa, contando com cerca de meio milhão de membros.

Como observamos anteriormente, a Igreja Armênia recusou-se a aceitar a Definição de Fé de Calcedônia, basicamente porque ressentiu a falta de apoio do Império Romano quando os persas invadiram a Armênia. Seu território foi conquistado pelos turcos e sua firme recusa de abandonar a fé dos antepassados constituiu uma das diversas causas de inimizade com seus dominadores turcos. À medida que o poder do Império Otomano diminuía, essa inimizade transformava-se em violência. Em 1895, e novamente em 1896 e 1914, foram massacrados milhares de armênios que viviam sob o domínio turco. Cerca de um milhão conseguiram escapar e, consequentemente, existe hoje um número significativo de cristãos armênios na Síria, no Líbano, no Egito, no Irã, no Iraque, na Grécia, na França e no hemisfério ocidental. Na região da Armênia, mais tarde sob o domínio soviético, a igreja subsiste de maneira semelhante à de outras igrejas sob o governo soviético.

Nas primeiras décadas do século XX, a participação das igrejas orientais no movimento ecumênico foi razoavelmente tímida. Elas temiam que sua disposição para discutir as questões de “fé e ordem” fosse interpretada como incerteza quanto às suas próprias crenças ou como disposição para transigi-las. Portanto, embora várias colaborassem com outros cristãos em assuntos de ordem prática, elas se recusavam a qualquer participação oficial em discussões que pudessem ser interpretadas como tentativas de resolver questões relativas à fé por meio de negociações. Quando as igrejas foram convidadas a participar da Primeira Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, ocorrida em Amsterdã em 1948, a maioria das Igrejas Ortodoxas fez uma consulta interna e decidiu ausentar-se. Em 1950, a Junta Central do Conselho Mundial de Igrejas divulgou uma declaração que minorava a maior parte das apreensões da Igreja Ortodoxa. Depois disso, a maioria das Igrejas Ortodoxas tornou-se membro do Conselho Mundial de Igrejas. Semelhantemente, aumentou também a participação de outros grupos orientais. Nesse contexto específico, principalmente pela mediação do Conselho Mundial de Igrejas, têm ocorrido conversações importantes entre as igrejas que aceitam a Definição de Calcedônia e as que a rejeitam –nestorianos e monofisistas. Nesses diálogos, descobriu-se que há um profundo acordo entre essas diversas instituições, sendo que muitas de suas divergências resultam de mal-entendidos. Assim, enquanto possibilita o diálogo entre o cristianismo ocidental e o oriental, o movimento ecumênico também tem promovido uma importante comunicação entre os cristãos orientais.

Ao observar essas diversas igrejas como um todo, pode-se chegar a duas conclusões. A primeira é que tais igrejas, em virtude de sua experiência histórica de ter de passar com rapidez impactante para a era pós-constantiniana, podem ter percepções significativas para oferecer a outros cristãos que hoje experimentam transformações semelhantes. A outra conclusão é que os cristãos ocidentais talvez tenham subestimado o poder da liturgia e da tradição, que possibilitou que essas igrejas continuassem a viver, e até prosperar, nas circunstâncias mais adversas.

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