A era inconclusa (III): o Cristianismo Católico Romano

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era inconclusa – Vol. 10. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 039 a 064.

“Livremo-nos do escândalo de ter algumas nações em que a maioria dos cidadãos se denomina cristã, desfrutando grandes riquezas, ao passo que o restante não possui o mínimo necessário, sofrendo fome, doenças e todo tipo de miséria.” (Concílio Vaticano II)

Quando pela última vez dirigimos nossa atenção para a Igreja Católica Romana, observamos que a reação dela ao mundo moderno era principalmente de temor e condenação. Entre os motivos para tal reação estavam a perda dos estados papais para a recém-formada nação da Itália, o medo de que os novos territórios leigos fossem um obstáculo para a obra da Igreja Católica e a preocupação de que as ideias modernas desviassem algumas mentalidades. Em geral, a história da Igreja Católica até o pontificado de João XXIII, na segunda metade do século XX, foi a continuação dos planos e das atitudes estabelecidas no Concílio de Trento, basicamente em reação ao protestantismo. Ao mesmo tempo, dentro da Igreja Católica havia quem sentisse que tal postura de condenação e de rejeição indiscriminada das tendências modernas era um erro teológico e pastoral. Em princípios do século XX, diversas vezes esses críticos leais expressaram repetidamente suas opiniões e alternativas em vão, pois foram reprimidos ou desconsiderados. Assim, a história do catolicismo romano ao longo do século XX é, em grande parte, a história do conflito entre os que desejavam continuar na direção estabelecida em Trento e no Concílio Vaticano I e os que ansiavam por uma abertura maior na igreja e uma postura mais criativa ante os desafios do mundo moderno.

De Benedito XV a Pio XII

A Primeira Guerra Mundial acabara de irromper quando faleceu Pio X. Benedito XV (1914-1922), que havia sido nomeado arcebispo por Pio X, o sucedeu pretendendo seguir suas diretrizes. Como os três papas anteriores, insistiu em seu direito de reger os estados papais, alegando que a Itália os havia usurpado da Santa Sé. Benedito XV dirigiu a maior parte de seus primeiros esforços à busca da paz; contudo, as potências em guerra repeliam-no vez após vez. Quando finalmente houve paz e estabeleceu-se a Liga das Nações, ele não tinha mais nenhum poder de influência decisiva sobre os acontecimentos. Após a guerra, Benedito XV conseguiu assinar concordatas com diversos dos novos estados resultantes das negociações de paz. Em geral, foi considerado um papa mais aberto que o anterior, mas não muito eficaz.

Pio XI (1922-1939), seu sucessor, era estudioso e administrador capaz. Além disso, tinha profunda consciência da crescente importância do mundo não-europeu e, portanto, fez tudo o que estava a seu alcance para fomentar a obra missionária e ajudar no amadurecimento das igrejas já estabelecidas. Durante seu pontificado, o número de missionários católicos dobrou; e foi ele quem ordenou os primeiros bispos chineses. Como veremos, mais no final do século XX essa ênfase no desenvolvimento do catolicismo em outras terras produziria frutos inesperados e significativos. Pio XI também se interessava em ampliar a atividade dos leigos, ainda que sempre sob a supervisão da hierarquia. Isso foi exposto na primeira de suas encíclicas, que estabeleceu as metas e as regras para a Ação Católica, a mais importante organização católica leiga da primeira metade do século.

Embora estivesse muito preocupado com os perigos do comunismo e sua confessa postura ateísta, Pio XI não manifestou a mesma preocupação perante o fascismo, especialmente quando passou a atuar como o principal inimigo do comunismo. Ademais, o fascismo recorria aos mesmos princípios que Pio IX havia advogado tão intensamente em seu Sílabo de erros: uma compreensão hierárquica da sociedade, um forte sentido de autoridade e um estado voltado para a imposição de padrões morais. Como nas primeiras fases de seu desenvolvimento, o fascismo italiano favorecia o catolicismo, o papa estava bastante satisfeito em tê-lo a seu lado. Em 1929, seu representante assinou com Mussolini um acordo que finalmente resolveu a questão da soberania italiana sobre Roma. A Itália reconhecia a existência de um estado soberano, a “Cidade do Vaticano“, e concedia ao papado o domínio sobre esse território, bem como uma compensação financeira pela perda de outras regiões. Por sua vez, Pio XI reconhecia o reino da Itália como um estado legítimo, tendo Roma por capital. Posteriormente, o papa entrou em conflito com o fascismo italiano e passou a condenar repetidamente Hitler e o nazismo nos primeiros estágios de sua ascensão ao poder. Mais tarde, porém, o papa atenuou sua postura contra o regime nazista e até apoiou a versão fascista de Franco, na Espanha. Na Alemanha, o medo do liberalismo e do comunismo inclinara muitos católicos ao nazismo ascendente. Em 1933, a oposição católica a Hitler entrou em colapso e o partido político liderado por mons. Kaas deu a Hitler a maioria necessária para obter a posse absoluta do governo. Quase na mesma época, os bispos reuniram-se em Fulda e retrataram-se das duras palavras anteriormente proferidas sobre os perigos do nazismo. Em Roma, Pio XI e seu secretário de estado, o cardeal Pacelli – mais tarde, Pio XII – sentiram que chegara o momento de estabelecer um acordo com Hitler e, em alguns meses, foi assinada uma concordata que os círculos internacionais entenderam como a aprovação condicional do Vaticano ao regime nazista. O papa demorou diversos anos para perceber os perigos do nazismo, que, durante muito tempo, ele vira como alternativa aceitável para o comunismo. Por fim, em 1937, Pio XI publicou duas encíclicas, uma contra o nazismo e outra contra o comunismo. A primeira delas, Mit brennender Sorge, declarava que o nazismo era uma nova forma de paganismo e acusava Hitler de desrespeitar a concordata de 1933. Cinco dias depois, Divini Redemptoris, a encíclica paralela, condenava o comunismo, que passara a preocupar seriamente o papa, visto que a Rússia havia intensificado sua propaganda antirreligiosa. O comunismo também estava progredindo rapidamente na Ásia, e o papa temia que a Revolução Mexicana gerasse outro estado comunista. Nessa encíclica, ele condenou a concepção marxista de ser a religião um meio de oprimir as classes mais baixas e declarou que não podia haver motivos justificados para a colaboração cristã. Nesse ínterim, o fortalecimento dos vínculos entre Hitler e Mussolini e os constantes embates com o fascismo italiano levaram o papa a preparar um duro discurso condenando algumas das ações do regime fascista na Itália, sem, contudo, cortar relações. Pio XI não havia terminado de elaborar esse discurso quando morreu.

Resultado de imagem para Pio XIIO conclave precisou de apenas um dia e três escrutínios para eleger o sucessor: o cardeal Pacelli, que manifestou a intenção de continuar as medidas de Pio XI, assumindo o nome de Pio XII (1939-1958). Experiente em negócios diplomáticos, com ligeira tendência ao nepotismo e uma visão profundamente autoritária e clerical da igreja, Pio XII era também um místico que passava horas em preces; um trabalhador incansável, cujos assistentes muitas vezes reclamavam de sua liderança severa, e um homem de magnetismo pessoal, muito respeitado tanto por amigos quanto por inimigos. Os primeiros anos de seu pontificado foram dominados pela Segunda Guerra Mundial, que ele tentara sem sucesso evitar. Quando a guerra se tornou inevitável, o papa tentou – novamente sem êxito algum – manter a Itália fora do conflito, e também apoiou uma conspiração para depor Hitler. Uma vez iniciado o conflito, Pio XII assumiu uma postura de neutralidade, esperando que, ao permanecer acima da desavença, poderia servir de mediador no momento certo. Entretanto, essa neutralidade foi conseguida à custa do silêncio ante as atrocidades nazistas contra os judeus, política que lhe rendeu duras críticas. Nessa altura, até mesmo seus apologistas admitem que ele estaria consciente do que acontecia na Alemanha e defendem sua postura alegando que não adiantaria muito protestar. Tais considerações, porém, não impediram o papa de denunciar as barbaridades nazistas contra os católicos na Polônia – embora os bispos poloneses declarassem que a cada protesto pela Rádio do Vaticano seguiam-se outras medidas contra seu rebanho. Com respeito a tais questões, Pio XII parece ter sido apenas mais um representante da tendência básica do papado desde do Concílio de Trento: proteger a igreja a todo custo, buscando para ela o máximo de liberdade e poder, e submeter todas as outras questões a essa preocupação básica. Também é provável que, embora temesse uma vitória nazista, ele estivesse mais preocupado com o desenvolvimento do comunismo e que, na guerra entre o Eixo e a União Soviética, simpatizasse mais com o primeiro. De qualquer forma, Pio XII insistiu repetidamente nos princípios gerais pelos quais as nações e os governos deveriam ser julgados, embora ele próprio se abstivesse de fazer tais julgamentos.

Embora a reação do papa à perseguição dos judeus na Alemanha e nas áreas ocupadas da Europa deixasse muito a desejar, havia outros católicos arriscando a vida e a liberdade por causa dos irmãos judeus. O próprio sumo pontífice tinha conhecimento dos grupos clandestinos que auxiliavam os judeus a escapar da Alemanha, da França e de diversos países da Europa oriental. E há, entre os “gentios justos”, que a comunidade judaica internacional reconhece terem aceito aquele desafio, muitas vezes chegando ao heroísmo, diversos católicos.

Após a guerra, a política internacional do papa dirigiu-se basicamente à ameaça do comunismo. Em 1949, ele decretou a excomunhão automática de todos os que apoiassem os comunistas em qualquer país. Era a época da grande expansão imperialista da Rússia, cuja esfera de influência logo incluiu a maior parte da Europa oriental. Na Ásia, após o período sob o domínio japonês, a China também se tornara comunista, fazendo parecer, na época, que nesse imenso país a Igreja Católica – bem como todas as outras igrejas – havia sido completamente aniquilada. Contra essa ameaça, e esperando também evitar guerras futuras, Pio XII juntou-se às vozes que clamavam por uma Europa unificada. Em 1953, ele assinou uma concordata com o regime de Franco, na Espanha – o principal baluarte sobrevivente do fascismo após a guerra. Suas razões para isso eram muitas. À medida que a tensão aumentava, crescia a influência dos comunistas no governo da Espanha antes da guerra civil. Os católicos que temiam o comunismo viam em Franco e em seu movimento a única alternativa, o que, por sua vez, deu origem a um anticlericalismo crescente. Depois, a guerra civil desencadeou ânimos violentos, resultando na morte de milhares de padres, freiras e monges. Quando assentou a poeira, Franco mantinha o controle firme da nação, e seus aliados mais fiéis eram os membros mais conservadores do clero católico. Por conseqüência, em meio a um mundo em que cada vez mais governos pareciam voltar-se contra a igreja, o Vaticano acolheu Franco e seu regime.

A orientação do papa também podia ser percebida em seu entendimento do papado e sua autoridade doutrinária e administrativa. Ele tendia a centralizar o governo da igreja, privando os episcopados nacionais de grande parte de sua iniciativa. Embora fosse mais favorável ao movimento ecumênico do que seus antecessores, Pio XII impôs, em 1950, mais um obstáculo ao progresso de tal movimento, ao proclamar o dogma da assunção corporal de Maria aos céus. Não obstante, ele desconfiava sobretudo das inovações no campo da teologia. Em 1950, a bula Humani generis reiterou advertências anteriores contra as inovações teológicas. Foram silenciados alguns dos teólogos católicos mais criativos da época, entre os quais diversos autores cujos escritos estabeleceram a base para o Concílio Vaticano II. O Santo Ofício proibiu Pierre Teilhard de Chardin, um dos pensadores católicos mais criativos do século XX, de publicar suas obras teológicas – elas finalmente foram publicadas após sua morte, em 1955. Na França, alguns líderes católicos haviam tentado entrar no movimento operário por meio dos “padres trabalhadores”, que se empregavam como operários comuns, às vezes até mesmo sem deixar que se soubesse, inicialmente, que eram padres. Embora o movimento fosse criticado pelos membros mais conservadores do catolicismo francês, no início teve o apoio do Vaticano. No entanto, quando diversos padres se tornaram líderes do movimento operário e assumiram uma postura contra o capital, o papa retirou seu apoio. Ele ordenou que todos os padres operários deixassem o mercado de trabalho e fechou o seminário onde a maioria deles estava se formando. Era a época da guerra fria, e o papa, que durante a Segunda Guerra Mundial tivera esperanças de ser mediador, encontrava-se agora imerso no conflito, aparentemente sem nenhuma opção entre o comunismo e o conservadorismo reacionário.

Por outro lado, algumas das medidas de Pio XII realmente prepararam o caminho para as grandes transformações ocorridas no pontificado seguinte. Sua encíclica de 1943, Divino afflante Spiritu, estimulava o uso de métodos modernos de estudo bíblico. Embora mais tarde ele insistisse na necessidade de cautela em tal empreendimento, os mesmos estudos bíblicos viriam a contribuir para a renovação da igreja. A reforma da liturgia, uma das primeiras medidas do Concílio Vaticano II, fora encorajada por ele, embora com muita cautela. Não obstante, ele conduziu sobretudo o processo de internacionalização da igreja, que, por fim, tornaria possível o Concílio Vaticano II. Pio XII entendia que a era do colonialismo chegara ao fim e, portanto, deu continuidade aos planos de seus antecessores de fortalecer as igrejas fora da Europa. Estimulou também a emancipação das colônias, a ponto de ser criticado como inimigo da Europa – particularmente da França, que durante algum tempo permaneceu muito relutante quanto à concessão de independência às suas colônias. Embora insistisse em sua jurisdição universal e em seu controle direto sobre todas as igrejas, o papa promovia o estabelecimento de igrejas nativas sob a liderança de bispos nacionais. Para desenvolvimentos posteriores, foi muito significativa a formação, sob os auspícios do Vaticano, da Conferência dos Bispos Latino-Americanos (CELAM), a primeira organização de caráter oficial de atuação tanto regional quanto internacional. Pio XII ainda levou para a Cúria religiosos não italianos e internacionalizou o Colégio de Cardeais, que na época de sua morte era apenas um terço italiano. Assim, embora ele próprio fosse um papa conservador, seguindo o estilo dos concílios de Trento e Vaticano I, Pio XII ativou o mecanismo que finalmente levaria ao Concílio Vaticano II e à reforma nele advogada.

João XXIII e o Concílio Vaticano II

A eleição do papa seguinte foi mais difícil do que a anterior. Quando se anunciou a eleição do cardeal Roncalli, após o décimo primeiro escrutínio, muitas pessoas comentaram que o cardeal, de 77 anos de idade, havia sido eleito como um papa transitório, a fim de dar tempo aos cardeais para determinarem o caminho a seguir no futuro. Contudo, o breve pontificado (1958-1963) do idoso papa, que assumiu o nome de João XXIII, foi marcado por transformações significativas. Sua própria decisão de ser chamado de João, nome que fora manchado com as memórias amargas do papado de Avinhão e do antipapa João XXIII (eleito no Concílio de Pisa, em 1410), indicava que o novo papa estava disposto a começar um novo empreendimento. Desde o início ele afligia muitos membros da Cúria, bem como seus guardas, com suas visitas inauditas aos bairros mais pobres de Roma. Houve até quem temesse que João XXIII pudesse ser simples demais para as sérias responsabilidades que pesavam em seus ombros. Contudo, era alguém de vasta experiência e profunda sabedoria, tendo demonstrado em cargos difíceis assumidos na Bulgária, em Istambul e na França que entendia as sutilezas das negociações e da diplomacia. Ademais, por ter vivido em Istambul, na Turquia, e na secularizada Paris, ele sabia até que ponto a igreja se havia distanciado da comunicação com o mundo em geral. Sua tarefa mais desafiadora seria restaurar a comunicação perdida. E essa tarefa exigiria todas as suas habilidades diplomáticas, pois havia muitos religiosos na Cúria e em outras posições de autoridade na igreja que não compartilhavam de seu modo de ver a situação.

Imagem relacionadaJoão XXIII, homem idoso com uma missão grandiosa, sentiu a necessidade de agir rapidamente. Assim, três meses após sua eleição, anunciou seu plano de convocar um concílio ecumênico. Muitos membros da Cúria não aprovaram a ideia. No passado, a maioria dos concílios fora convocada a fim de lidar com uma questão urgente – em geral uma heresia considerada particularmente perigosa. Além disso, após o Concílio Vaticano I ter declarado a infalibilidade papal, houve quem pensasse que a era dos concílios chegara ao fim e que, doravante, os papas deveriam dirigir a igreja como monarcas absolutos. De fato, desde a época de Pio IX tinha-se verificado uma tendência constante em direção a uma centralização maior. O papa João XXIII, contudo, via as coisas de outra forma. Ele insistia em chamar os outros bispos de “meus irmãos bispos” e em pedir o conselho deles, em vez de comandá-los. Também estava convencido de que chegara o momento de uma “atualização” total – em italiano, um aggiornamento – da igreja, e isso só poderia ser feito lançando mão da sabedoria e dos interesses conjuntos dos bispos de toda a igreja.

Resultado de imagem para Concílio Vaticano IIO trabalho preparatório para o concílio levou mais de dois anos. Nesse ínterim, o papa publicou a encíclica Mater et Magistra, que muitos ativistas católicos em causas de justiça entenderam como uma aprovação papal de sua militância. Finalmente, em 11 de outubro de 1962, o papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II. Poucos esperavam que esse conclave marcaria um desvio radical do curso que a igreja estivera seguindo durante os últimos quatrocentos anos. Os documentos a [serem] discutidos e aprovados pelo concílio haviam sido preparados pela Cúria e, em geral, faziam pouco mais do que reafirmar a doutrina católica tradicional, advertindo contra os perigos da época. Mas o papa também dera passos a fim de guiar o concílio em outras direções. No ano anterior, havia criado o Secretariado de Promoção da Unidade Cristã, demonstrando assim seriedade na busca de uma reaproximação com outros cristãos e manifestando sua intenção de que o concílio visasse a tal preocupação. Seu discurso de abertura também estabeleceu um tom diferente daquele da maioria dos documentos preparatórios, pois ele indicava que chegara a hora de a igreja atender aos interesses do mundo moderno com palavras de compreensão e de estímulo, em vez de lançar condenações empoladas. Esses objetivos foram também favorecidos pela presença de observadores não-católicos – 31 na instalação e 93 na época em que o Concílio encerrou a última sessão – e, especialmente, pela composição da própria assembleia. De fato, apenas 46% dos prelados presentes vinham da Europa ocidental, do Canadá e dos Estados Unidos. Um total de 42% representava a América Latina, a Ásia e a África negra. Mais da metade dos bispos participantes originava-se de igrejas de recursos tão limitados que suas despesas de subsistência durante o Concílio tiveram de ser cobertas por fundos de igrejas mais ricas. Tais bispos estavam profundamente preocupados com a necessidade de voltar-se para a difícil situação dos pobres, falar ao mundo não-cristão e, em geral, proferir uma palavra de compaixão e compreensão, em vez de condenação farisaica. Portanto, o apelo do papa quanto ao “remédio da misericórdia“, em seu discurso introdutório, não caiu em ouvidos de mercador.

Logo ficou evidente que a maioria da assembleia desejava ver grandes mudanças na vida da igreja e, em particular, na maneira em que se dirigia ao mundo moderno. O primeiro documento a ser discutido tratava sobre a liturgia. De todos os documentos preparados de antemão, esse era o que propunha as transformações mais importantes, pois a renovação litúrgica fora uma das reocupações do papa anterior. Mesmo assim, a minoria conservadora procurou impedir as mudanças sugeridas, vencendo, porém, os que apoiavam uma atualização da liturgia. Quando o texto foi devolvido à comissão que o havia esboçado, as instruções anexas consistiam em clara derrota para os conservadores. A partir de então, os documentos redigidos pelas comissões preparatórias eram, em geral, devolvidos para ser reescritos, com instruções de mudanças drásticas.

João XXIII não viveu para ver seu concílio publicar o primeiro documento, pois faleceu em junho de 1963. O papa seguinte assumiu o nome de Paulo, usualmente associado ao Concílio de Trento, e alguns conservadores esperavam que ele fosse dissolver o Concílio ou pelo menos tomar fortes medidas para dificultar suas deliberações. Mas Paulo VI (1963-1978) declarou quase imediatamente sua intenção de que o Concílio prosseguisse com seu trabalho. Embora sem dúvida fosse mais conservador que João XXIII, durante a primeira sessão do Concílio, Paulo VI havia percebido até que ponto os líderes católicos em todo o mundo sentiam a necessidade de novos desvios significativos. Quando foi aberta a segunda sessão, em 29 de setembro de 1963, ele convocou os presentes a “construir uma ponte entre a Igreja e o mundo moderno“.

Sem precisar de nenhum outro estímulo, o concílio seguiu a recomendação do papa – talvez, às vezes, com mais entusiasmo do que Paulo VI teria desejado. O documento sobre a liturgia, desde o início o mais progressista, foi aprovado pela assembleia; os demais, porém, foram devolvidos para ser redigidos novamente em linhas mais concordes com a nova abertura da igreja ao mundo moderno. A Constituição a respeito da liturgia sagrada, o resultado mais tangível da segunda sessão, logo teve impacto entre os fiéis de todo o mundo, pois autorizava o uso das línguas vernáculas até um nível anteriormente não permitido. Também declarava que:

Desde que se preserve a unidade essencial do culto romano, na revisão dos livros litúrgicos serão dados os passos necessários para variações e adaptações cabíveis, segundo as necessidades dos diferentes grupos, regiões e povos, particularmente nos territórios missionários.

Murillo immaculate conception.jpgAs comissões encarregadas de reescrever os diversos documentos foram reconstituídas, havendo uma participação maior de membros eleitos pela assembleia. Havia indícios de que o papa não estava satisfeito com a direção dos acontecimentos, e alguns chegaram até a temer que ele declarasse o Concílio encerrado. Mas Paulo VI não recorreu a medidas tão extremas, e a terceira sessão do Concílio (de 14 de setembro a 21 de novembro de 1964) provou mais uma vez que todos os documentos apresentados antes que não se conformassem ao espírito reformista do Concílio, seriam rejeitados e devolvidos à comissão. O Concílio divulgou documentos sobre a igreja, as igrejas orientais e o ecumenismo. Muitos de seus membros ficaram constrangidos ao ver o papa acrescentar uma “nota explicativa” ao documento a respeito da igreja, no qual esclarecia que a colegial idade episcopal deveria ser entendida sob o aspecto da primazia do papa; além disso, anexou algumas interpolações ao decreto sobre o ecumenismo – já aprovado pela assembléia – que os não-católicos considerariam menos aceitável do que o documento original. Ademais, enquanto muitos membros do Concílio tentavam sublinhar a centralidade de Cristo e contrapor os extremos que a devoção a Maria poderia atingir, o papa, por iniciativa própria, declarou a Virgem como a “Mãe da Igreja.

Não obstante as implicações dessas atitudes papais, quando o Concílio se reuniu para sua quarta e última sessão (de 14 de setembro a 8 de dezembro de 1965), seus membros estavam determinados a ver sua obra frutificando. Houve sérias discussões sobre o documento a respeito da liberdade religiosa, ao qual se opuseram duramente os membros conservadores das nações onde os católicos eram maioria. Contudo, após o fracasso da última tentativa, a oposição desmoronou e o restante das deliberações da sessão esteve sob o controle absoluto dos mais progressistas. Assim, o Concílio promulgou, com relativa facilidade, documentos bastante progressistas a respeito de bispos, padres e sua formação, e acerca dos leigos, da igreja, dos não-cristãos, da atividade missionária e assim por diante. Os documentos sobre a liberdade religiosa e a igreja no mundo moderno foram extremamente significativos, por manifestarem um espírito diferente daquele que prevalecera no catolicismo durante séculos. O primeiro declarava que a liberdade religiosa individual, bem como a de grupos, tem de ser respeitada e que todos os grupos religiosos têm o direito de organizar-se de acordo com seus próprios princípios, “desde que os justos requerimentos da ordem pública não sejam violados“. A Constituição pastoral a respeito da igreja no mundo moderno é o mais longo documento jamais emitido por um concílio, e estabelece um tom drasticamente diverso daquele seguido ao longo do século XIX. Embora insista nos princípios católicos de fé e moral, mostra uma abertura genuína em direção aos aspectos positivos da modernidade e versa de maneira criativa sobre temas como vida familiar, questões sociais e econômicas, política, tecnologia, ciência, a importância e a variedade das culturas humanas etc. Como um todo, seu caráter é estabelecido no parágrafo introdutório (I):

As alegrias e esperanças, as dores e angústias dos homens de nossa época, particularmente dos pobres ou de alguma forma atormentados, são as alegrias e esperanças, as dores e angústias dos discípulos de Cristo. Deles é uma comunidade de homens, homens que, em união com Cristo e sob a direção do Espírito Santo, avançam para o Reino do Pai e levam a mensagem de salvação pretendida para todos. Por isso tal comunidade sabe que está profundamente vinculada à humanidade e à sua história.

Quando o Concílio foi suspenso, ficou claro que a Igreja Católica entrara em um novo período da história. Havia ainda muitos passos a ser dados para implementar as decisões do Concílio. Em muitas áreas, haveria resistência; em outras, as mudanças seriam rápidas e o Vaticano agiria para moderá-las. Em 1968, o papa ressaltou sua tendência conservadora ao publicar a encíclica Humanae vitae, na qual proibia todos os métodos artificiais de controle de natalidade, invalidando uma comissão papal que havia recomendado a aceitação de alguns desses métodos. Após a suspensão do Concílio, Paulo VI agiu lentamente, talvez temendo que mudanças rápidas demais pudessem levar ao cisma ou, pelo menos, à perda de alguns dos membros mais conservadores da Igreja Católica. De fato, sob a liderança de um bispo conservador, tal cisma realmente aconteceu. No entanto, não atraiu muitos membros e, vinte anos depois de sua primeira sessão, era evidente que o Concílio Vaticano II dera andamento a processos que não podiam ser parados. Exemplo dessa influência contínua foi a declaração dos bispos americanos a respeito da guerra nuclear e da corrida armada, veementemente rejeitadas por alguns por ser uma interferência indevida da igreja em questões militares e políticas. Em sua declaração, os bispos estavam simplesmente explicitando a declaração anterior do Concílio Vaticano II de que a corrida armada e a busca por equilíbrio quanto a máquinas de destruição não podem gerar paz permanente ou real.

Paulo VI faleceu em 1979 e, após o breve pontificado de João Paulo I, foi sucedido por João Paulo II, o primeiro papa não-italiano desde o século XVI. Polonês, o novo sumo pontífice conhecera a luta da igreja tanto sob os alemães quanto sob os russos, e não tinha ilusões sobre o fascismo ou sobre o comunismo. Seu pontificado foi marcado por uma tensão, na Polônia, entre o governo comunista e a Igreja Católica, cuja resistência foi estimulada pela eleição de um de seus nativos para a sé petrina. Embora seja conservador com respeito a questões ligadas à vida do clero, e aos votos monásticos e à moralidade pessoal, João Paulo II tem proferido palavras duras sobre a difícil situação dos pobres e a injustiça de sua opressão. Ele dirige ataques contra os padres envolvidos em cargos políticos, mas também insiste em que a Igreja deveria empenhar-se em questões de justiça. Desse modo, o papa tem-se caracterizado como conservador e progressista ao mesmo tempo, dependendo da perspectiva de cada observador.

Desenvolvimentos teológicos

A abertura do Concílio Vaticano II surpreendeu o mundo, que não estava familiarizado com as tendências ocultas de pensamento na Igreja Católica. Entretanto, o labor teológico que a produziu estivera se desenvolvendo por meio século. Experiências como a dos padres operários resultaram de agitações teológicas que Roma não via com bons olhos. Acima de tudo, porém, havia diversos teólogos cuja fé católica nunca foi posta em dúvida, mas tiveram obras rejeitadas ou desconsideradas pelo Vaticano.

Resultado de imagem para teilhard de chardinTalvez o mais original desses teólogos tenha sido Pierre TeiIhard de Chardin. Filho de uma família da aristocracia francesa, Teilhard decidiu tornar-se jesuíta quando ainda muito jovem, ordenando-se padre em 1911. Na Primeira Guerra Mundial, recusou o posto de capitão – que lhe caberia como capelão – e serviu como cabo, carregando os feridos em macas. Ao fim da guerra, foi admitido como membro pleno da Sociedade de Jesus e, em 1922, terminou o doutorado em paleontologia. Teilhard sempre estivera interessado na teoria da evolução, não como negação da criação, mas sim como uma maneira científica de entender a atuação do poder criativo de Deus. No entanto, seus primeiros ensaios acerca da relação entre fé e evolução provocaram a condenação imediata por parte de Roma. Foi proibido de publicar outras obras teológicas e enviado para servir na China, onde se esperava que não pudesse causar muitos problemas. Padre obediente que era, ele aquiesceu. A proibição, porém, não o impediu de continuar escrevendo, desde que não publicasse seus manuscritos. Assim, enquanto prosseguia com seu trabalho paleontológico na China, também continuava sua obra teológica, entregando os manuscritos a alguns amigos de confiança. Em 1929, ele foi muito útil na identificação do crânio de Sinanthropus, que posteriormente confirmou o princípio da evolução e trouxe a Teilhard aclamações da comunidade científica mundial. Não obstante, Roma recusava-se a permitir que ele publicasse suas obras filosóficas e teológicas, que começavam a circular entre os amigos na França. Finalmente, em 1955, após sua morte, os colegas publicaram seus trabalhos, que imediatamente receberam muita atenção.

Embora aceitasse os princípios gerais da teoria da evolução, Teilhard opunha-se à proposição darwiana de que a “sobrevivência dos mais aptos” seja a força diretiva subjacente à evolução. Em contraposição, apresentou a “lei cósmica da complexidade e consciência“, em que há um impulso evolutivo em direção ao mais complexo e ao mais profundamente consciente. Assim, o que vemos, em qualquer estágio evolutivo, são inúmeros organismos representando diferentes etapas ou esferas no processo evolucionário. Tal evolução começa com a “matéria do universo”, que então é organizada tornando-se a “geosfera” – matéria organizada formando moléculas, e moléculas, corpos. O estágio seguinte é a “biosfera”, em que surge a vida. Daí emerge a “noosfera”, na qual a vida alcança consciência de si mesma. A evolução não termina nesse ponto; antes, assume dimensão consciente. Os seres humanos, da forma em que os conhecemos hoje, ainda não constituem o final do processo evolucionário. Ao contrário, ainda somos parte de uma evolução contínua em direção a uma “hominização” humana. O que caracteriza esse novo estágio é que, como seres conscientes, estamos envolvidos em nossa própria evolução.

Entretanto, não ficamos sem orientação acerca de como essa evolução deve ser. O processo tem um “ponto ômega“, o ponto convergente de amadurecimento do processo cósmico inteiro. De fato, para entender a evolução, ela não deve ser observada do início ao fim, mas do fim para o começo. É o fim que dá sentido ao restante do processo. E esse fim, o tal “ponto ômega”, é Jesus Cristo. Nele um novo estágio de evolução surgiu – o estágio final: a “Cristosfera”. Assim como o humano e o divino estão perfeitamente unidos em Cristo, sem nenhuma confusão, no fim cada um de nós será unido perfeitamente a Deus, embora sejamos também perfeitamente nós mesmos. A igreja, o corpo de Cristo, é a nova realidade histórica centrada no ponto ômega. Assim, Teilhard combinava ciência com teologia e até mesmo com uma forte tendência mística. Diferentemente da maior parte da tradição mística, porém, ele era um místico que afirmava a realidade do mundo.

A influência de Teilhard podia ser percebida até mesmo entre muitos dos que não aceitavam todo seu grandioso esquema cósmico. Sua experiência de ver o processo evolucionário “do fim para o começo” estimulou os teólogos modernos, católicos e protestantes, a rever a escatologia – isto é, a doutrina das “últimas coisas”. Para setores muito significativos da teologia contemporânea, a escatologia tem provado ser um ponto de partida valioso, em vez de um apêndice ao restante da teologia. Em segundo lugar, o realce de Teilhard à continuidade do processo evolutivo e à nossa participação consciente nele estimulou outros teólogos a explorar o campo da participação humana nos propósitos divinos e a considerar a humanidade um agente ativo na formulação da história. Finalmente, seu misticismo voltado para este mundo inspirou muitos a relacionar sua vida devocional com ativismo político.

Henri de Lubac, S.J.jpgHenri de Lubac, também jesuíta francês e amigo de Teilhard, é outro exemplo da teologia que se estava desenvolvendo no interior da Igreja Católica Romana, mesmo contra a vontade do Vaticano, durante a primeira metade do século XX. Junto com Jean Daniélou, De Lubac editou longa série de escritos cristãos antigos. Essa obra, profunda e erudita, também foi planejada para leitores modernos e, assim, refletia o interesse de De Lubac em que o mundo moderno e a tradição cristã se unissem numa tensão criativa e dinâmica. Ele acreditava que, nos últimos anos, a igreja havia estreitado seu entendimento da tradição e, portanto, perdera grande parte do dinamismo de toda a tradição cristã. Se comparada à amplitude e à catolicidade da tradição antiga, a teologia católica de sua época parecia bitolada e envelhecida. Essas ideias, contudo, não foram bem recebidas em Roma e, por volta de meados do século, De Lubac também foi silenciado. Após a suspensão desse interdito, seus colegas jesuítas pediram-lhe que escrevesse um estudo crítico sobre a obra e o pensamento de Teilhard de Chardin, avaliando-os à luz da tradição católica. Em 1962, De Lubac publicou na França o primeiro volume desse projeto, ao qual Roma imediatamente se opôs, interrompendo-o e proibindo a reedição e a tradução do volume já publicado. De Lubac não era tão propenso quanto Teilhard a concepções cósmicas grandiosas, e isso, aliado ao seu profundo conhecimento da tradição cristã primitiva, provocou um impacto maior na teologia católica. No entanto, ele também acreditava que a humanidade inteira possui uma única meta e que o todo da história pode ser entendido melhor da perspectiva dessa meta, que não é outra senão Jesus Cristo. A igreja – não como organização jurídica, mas como corpo místico de Cristo – é um sacramento em meio ao mundo. Ainda que silenciado por Roma, De Lubac era muito admirado por diversos teólogos e bispos progressistas, tendo sido um dos “peritos” – isto é, especialistas – cuja participação no Concílio Vaticano II exerceu grande influência no resultado daquela assembleia. Sua própria concepção acerca da igreja como um sacramento no mundo encontra-se na base da preocupação do Concílio para que seus documentos refletissem uma igreja aberta para o mundo.

Yves Congar, outro dos peritos do Concílio Vaticano II, representava uma linha semelhante. Ele experimentara de maneira pessoal e direta a aspereza dos tempos modernos, já que, em 1939, recrutaram-no para o exército francês e, de 1940 a 1945, foi prisioneiro de guerra na Alemanha. Dominicano, tornou-se mais tarde diretor do Mosteiro Dominicano de Estrasburgo. Assim como De Lubac, estava convencido de que, em resposta às controvérsias, a igreja havia restringido sua própria tradição e, assim, negado grande parte da riqueza dessa tradição. Ele estava particularmente interessado em como a igreja se auto conceituava e, por esse motivo, sentia a necessidade de ir além da concepção hierárquica e jurídica da igreja prevalecente na época. Para tanto, inspirou-se em eclesiologias antigas, nas quais dominava a imagem de “povo de Deus” e os leigos estavam no centro das atenções. Por essa perspectiva, ele demonstrava uma abertura para outros cristãos incomum entre os católicos das primeiras décadas do século. Como a Teilhard e De Lubac, durante algum tempo Roma o silenciou. Não obstante, sua influência foi muito difundida e, quando o Concílio Vaticano II se reuniu, ele foi apontado como um de seus mentores teológicos. Pode-se perceber sua influência naquela assembleia particularmente nos documentos a respeito da natureza da igreja, do ecumenismo e da igreja no mundo moderno.

Resultado de imagem para karl rahnerTalvez o mais influente teólogo católico do século XX tenha sido o jesuíta Karl Rahner, outro perito do Concílio Vaticano II. Um dentre 7 filhos de um professor secundário alemão – seu irmão Hugo também é um famoso teólogo jesuíta –, Rahner escreveu mais de 3 mil livros e artigos, abordando desde as questões mais técnicas da teologia até assuntos cotidianos, como “por que oramos à noite”. Em todos os casos, porém, o método de Rahner é parecido: ele afirma tanto a tradição quanto o mundo moderno e, por esse modo, questiona a tradição de maneira muito diferente da usual. Seu propósito não é resolver o mistério do universo, mas sim esclarecer a misteriosa natureza da existência; trazer o mistério de volta ao âmago da vida cotidiana. Filosoficamente, baseia-se em Tomás de Aquino e em seu mestre Martin Heidegger, um dos primeiros defensores do existencialismo. Entretanto, Rahner não está particularmente interessado em filosofia, exceto à proporção que ajude a esclarecer a doutrina cristã. Além disso, ele produziu pouquíssimas obras popularizantes; antes, contentou-se em escrever basicamente para teólogos, desafiando-os a uma nova abertura e a uma interpretação renovada da tradição. Por essas razões, embora tenha repetidamente feito interpretações da tradição diferentes das concepções em geral aceitas, Roma nunca o calou, como aconteceu com seus colegas franceses. Ainda que sua influência, tanto direta quanto indireta, possa ser percebida em praticamente todos os documentos do Concílio Vaticano II, é provavelmente na compreensão do papel do episcopado que Rahner tenha exercido o impacto mais forte. De fato, por várias gerações a tendência dentro do catolicismo fora em direção a uma maior centralização em Roma, seguindo o modelo de um governo monárquico. Rahner explorou a noção do episcopado e, sem se opor à primazia romana, ressaltou a natureza colegiada do episcopado. Isso, por sua vez, significa que a igreja pode ser genuinamente universal – adaptando-se a cada cultura e não necessariamente assumindo perspectivas romanas e ocidental-europeias como padrão da verdade. Essa concepção do catolicismo e da colegialidade integra as decisões do Concílio, não apenas com referência ao episcopado em si, mas também quanto ao uso da língua vernácula e à adaptação da liturgia a diversas culturas e condições.

A combinação ponderada de erudição teológica profunda, recuperação e reinterpretação da tradição com abertura para levantar novas questões sobre essa tradição consistem em atuações de Rahner que também serviram de modelo para teologias mais radicais – em particular para as teologias latino-americanas da libertação, às quais voltaremos no último capítulo.

Em geral, durante o século XX, o que tem acontecido no catolicismo romano é que, após séculos recusando-se a lidar com os desafios do mundo moderno com outros meios que não os da confrontação e da condenação, ele criou uma abertura para dialogar com esse mundo. Por conseguinte, os católicos, assim como os protestantes e até mesmo os não-cristãos, têm-se surpreendido ao encontrar na Igreja Católica uma energia que poucos suspeitavam que tivesse. Muito antes do Concílio Vaticano II, teólogos a quem Roma considerava obliquamente já estavam preparando o caminho para esse desenvolvimento inesperado.

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