A era inconclusa (VI): Desde os Confins da Terra

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era inconclusa – Vol. 10. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 106 a 122.

“Bendizemos a Deus, nosso Pai, e a nosso Senhor Jesus Cristo, que une os filhos dispersos de Deus I…] Estamos separados uns dos outros não somente em questões de fé, de ordem e de tradição, mas também por orgulho de nação, classe e raça. Mas Cristo nos fez um, e ele não está dividido. Ao buscá-lo, encontramo-nos uns aos outros.” (Primeira Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas)

O século XIX fizera surgir uma igreja verdadeiramente mundial. Já na segunda metade desse século havia movimentos que buscavam maior colaboração entre as diversas igrejas de cada região. Em 1910, a Conferência Missionária Mundial, em Edimburgo, deu novo impulso a um movimento que, embora interrompido por duas guerras mundiais, finalmente levaria à fundação do Conselho Mundial de Igrejas e a outras manifestações visíveis de unidade cristã. Logo, porém, descobriu-se que tal unidade não significava que os cristãos de outras partes do mundo se uniriam em uma igreja essencialmente ocidental, mas que todos os cristãos, de qualquer raça ou nacionalidade, se engajariam em uma procura comum do sentido da obediência a Cristo no mundo moderno. Assim, o movimento ecumênico teve duas facetas: a primeira e mais óbvia foi a busca por uma unidade maior e mais visível; a segunda, talvez com consequências mais drásticas, foi o nascimento de uma igreja mundial para cuja missão e autoentendimento todos contribuiriam. Examinemos esses dois aspectos por ordem.

A busca pela unidade

A Conferência Missionária Mundial de 1910 nomeou uma Junta Permanente, que por sua vez resultou na fundação do Conselho Missionário Internacional, em 1921. Nessa época, em parte por causa do trabalho realizado em Edimburgo, já haviam surgido na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália outras organizações regionais e nacionais para a cooperação missionária. Tais organizações serviram de núcleo para o novo corpo; entretanto, decidiu-se também que as “igrejas mais jovens”, resultantes da obra missionária, seriam diretamente representadas. Mais uma vez, o Conselho Missionário Internacional não pretendia estabelecer diretrizes ou regras para a obra missionária, mas sim servir de lugar de encontro em que se pudessem compartilhar estratégias, experiências e recursos diversos. Na Primeira Assembleia do Conselho Missionário Internacional (realizada, como não podia deixar de ser, em Jerusalém, em 1928), quase um quarto dos delegados pertencia às igrejas mais jovens – um grande progresso em relação aos 17 presentes em Edimburgo. Tanto em Jerusalém quanto na Segunda Assembleia, ocorrida em Madras, na índia, em 1938, esteve em primeiro plano a questão da natureza da igreja e do conteúdo da mensagem cristã, mostrando assim que era impossível excluir a discussão teológica de um encontro verdadeiramente aberto com a missão mundial da igreja. Depois a Segunda Guerra Mundial interrompeu os trabalhos do Conselho, e a Terceira Assembleia, realizada em Whitby, no Canadá, em 1947, dedicou a maior parte de suas atenções ao restabelecimento dos laços rompidos pela guerra e ao planejamento da reconstrução da obra missionária que o conflito destroçara. Entretanto, nessa época já havia uma consciência crescente da união indissolúvel entre igreja e missão, de maneira que parecia insensato discutir assuntos missionários sem iniciar também um diálogo sobre a natureza da igreja e sobre outras questões teológicas. Esse tema foi ouvido cada vez mais nas duas assembleias seguintes do Conselho Missionário Internacional, realizadas, respectivamente, em Willingen, na Alemanha, em 1952, e em Gana, de 1957 a 1958, quando já se decidira que o Conselho Missionário Internacional deveria unir-se ao Conselho Mundial de Igrejas, o que ocorreu no encontro do Conselho Mundial em Nova Délhi, em 1961. Na época dessa incorporação, tomaram-se medidas para que as instituições que não quisessem ou não pudessem juntar-se ao Conselho Mundial de Igrejas ainda assim estivessem plenamente representadas na divisão que herdou a obra do Conselho Missionário Internacional.

Resultado de imagem para pacto de lausanneOutro grande movimento que levou à fundação do Conselho Mundial de Igrejas foi “Fé e Ordem”. Para desfazer as suspeitas, a convocação da Conferência Missionária Mundial de 1910 excluíra explicitamente as questões de fé e de ordem – o que significava qualquer discussão das crenças das igrejas ou acerca de seu entendimento e prática da ordenação, dos sacramentos e assim por diante. Embora fosse uma exclusão necessária a fim de tornar a conferência o mais abrangente possível, muitos estavam convencidos de que chegara o momento de iniciar um foro para debater tais questões. Entre eles destacava-se Charles H. Brent, bispo da Igreja Episcopal, a partir de cujo estímulo a comunidade anglicana deu os primeiros passos para a solicitação de um encontro sobre fé e ordem. Logo, outros aderiram e, após a interrupção da Primeira Guerra Mundial e as longas negociações que se seguiram, em 1927 a Primeira Conferência Mundial sobre Fé e Ordem reuniu-se em Lausanne, na Suíça. Seus 400 delegados representavam 108 igrejas – protestantes, ortodoxas e católicas antigas (as que haviam abandonado o catolicismo na época da promulgação da infalibilidade papal). Muitos deles tinham adquirido experiência em reuniões ecumênicas e internacionais com a participação no Movimento Cristão Estudantil – que por décadas proveu a maior parte dos líderes para diversos ramos do movimento ecumênico. Na conferência, decidiu-se que não se buscaria unanimidade nem mediante declarações muito generalizadas e, portanto, sem sentido, nem com definições doutrinais que necessariamente excluiriam alguns setores. Ao contrário, o método adotado foi a discussão franca e aberta das questões, com o esboço de um documento que começava por ressaltar os pontos sobre os quais se tinha chegado a um acordo e, depois, manifestava claramente aqueles outros pontos em que ainda havia diferenças. Assim, os documentos caracterizavam-se por expressões como “concordamos” ou “cremos”, seguidas por esclarecimentos introduzidos por frases como “há entre nós concepções divergentes” ou “muitas igrejas representadas na Conferência sustentam”. Quando a reunião chegou ao fim, estava claro para todos os presentes que seus pontos em comum eram muito mais significativos do que as opiniões diferentes e que provavelmente inúmeras divergências poderiam ser superadas com outros diálogos e esclarecimentos. Antes de suspender a conferência, nomeou-se a Junta Permanente, sob a liderança de William Temple, arcebispo de York (e posteriormente da Cantuária). Após a morte de Temple, Brent o sucedeu, e, em 1937, em Edimburgo, finalmente se reuniu a Segunda Conferência Mundial sobre Fé e Ordem. Tendo seguido o mesmo método de Lausanne, novamente obteve resultados proveitosos; sua decisão mais significativa, porém, foi concordar com o pedido da Segunda Conferência sobre Vida e Obra, reunida em Oxford no mês anterior, pela fundação de um “Conselho Mundial de Igrejas”.

O movimento Vida e Obra também resultava das experiências missionárias de gerações anteriores, bem como da convicção de que as diversas igrejas devem unir-se em todo esforço prático no qual tal colaboração fosse possível. Seu líder de maior envergadura foi Nathan Söderblom, arcebispo luterano de Uppsala, na Suécia. Embora interrompesse os planos de uma reunião internacional, a Primeira Guerra Mundial deu a Söderblom e a outros clérigos a oportunidade de trabalharem juntos na busca de soluções para os imensos problemas gerados pelo conflito. Finalmente, em 1925 se reuniu em Estocolmo a primeira conferência sobre o “Cristianismo Prático” – antigo nome do movimento. A pauta consistia na busca de respostas comuns, com base no evangelho, para os problemas contemporâneos. Os delegados foram divididos em cinco setores, cada um discutindo um dentre cinco temas principais e suas ramificações: questões econômicas e industriais, aspectos morais e sociais, assuntos internacionais, educação cristã e meios pelos quais as igrejas poderiam continuar colaborando. Desde o início, esse movimento assumiu uma postura firme contra toda forma de exploração ou de imperialismo. Assim, numa época em que a mecanização estava gerando o desemprego, enfraquecendo os sindicatos e diminuindo os salários, a Conferência repercutiu “as aspirações dos trabalhadores a uma ordem equitativa e fraterna, a única compatível com o plano divino de redenção“; além disso, com uma voz profética cuja veracidade seria confirmada décadas depois, observou um “ressentimento geral contra o imperialismo branco“, que ameaçava irromper num conflito aberto. Tal assembleia também nomeou uma Junta Permanente, que organizou a Segunda Conferência sobre Vida e Obra, reunida em Oxford no ano de 1937. Seus documentos finais incluíam palavras duras contra toda forma de totalitarismo e uma condenação da guerra como método para resolver conflitos internacionais. Ademais, como já ressaltamos, pedia a união do Vida e Obra com o Fé e Ordem em um único Conselho Mundial de Igrejas.

Com essa decisão e a anuência do Fé e Ordem, o palco estava pronto para a fundação de tal conselho. Os dois movimentos nomearam uma comissão conjunta e passaram a trabalhar pela convocação da primeira assembléia do conselho. Entretanto, a Segunda Guerra Mundial interrompeu tais planos. Durante os embates, os contatos estabelecidos por meio do nascente movimento ecumênico serviram para formar redes de cristãos em ambos os lados da frente de batalha, apoiando a Igreja Confessional da Alemanha e salvando os judeus de diversas regiões sob o domínio nazista. Finalmente, em 22 de agosto de 1948, em Amsterdã, foi aberta a sessão da Primeira Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, com a participação de 107 igrejas originárias de 47 nações. O sermão de abertura foi entregue por D. T. Niles, metodista do Ceilão (atual Sri Lanka), que tinha vasta experiência como líder do Movimento Cristão Estudantil. Outros oradores foram Karl Barth, Joseph Hromádka, Martin Niernöller. Reinhold Niebuhr e John Foster Dulles. O Conselho foi organizado de maneira que incluísse tanto as preocupações anteriormente associadas ao Vida e Obra quanto as do Fé e Ordem – sob sua Divisão de Estudos, havia uma Comissão sobre Fé o Ordem que continuou a reunir-se e organizar conferências mundiais, enquanto as questões mais práticas do Vida e Obra foram de modo geral incluídas sob a Divisão de Ação Ecumênica.

Embora alegres com a unidade que a própria existência do Conselho manifestava, os delegados também consideravam o mundo a seu redor e procuravam lidar com as questões nele enfrentadas. Significativamente, numa época em que começava a Guerra Fria, o Conselho convocava todas as igrejas a rejeitar tanto o comunismo quanto o capitalismo liberal e a opor-se à noção errônea de que esses dois sistemas esgotam todas as alternativas possíveis. Como seria de esperar, essa declaração e outras semelhantes, elaboradas posteriormente, nem sempre foram bem recebidas.

Após 1948, o número de membros do Conselho Mundial de Igrejas continuou a crescer. Era extremamente importante a participação cada vez maior dos ortodoxos, que em conjunto haviam decidido não se fazer presente na assembleia de Amsterdã. Quando ficou claro que o Conselho Mundial não era, nem reivindicou ser, um “concílio ecumênico” segundo o modelo de Niceia e que não tinha nenhuma intenção de se tornar uma igreja, os ortodoxos aderiram. Visto que diversas igrejas ortodoxas estavam sob regimes comunistas e seus delegados só poderiam participar das reuniões do Conselho Mundial com a autorização do governo, muitos suspeitaram ainda mais que o Conselho Mundial estava tornando-se o instrumento de uma conspiração comunista internacional. De qualquer forma, na Segunda Assembleia, reunida no ano de 1954, em Evanston, Illinois, estiveram presentes 163 igrejas. O Conselho começou a voltar as atenções para a igreja em sua realidade local, tentando evitar os perigos de esquecer que os participantes das assembleias, afinal, eram os representantes de milhões de pessoas que viviam e adoravam em todos os cantos do planeta. Em 1961, quando a Terceira Assembleia se reuniu em Nova Délhi, as igrejas membros chegavam a 197. A fusão entre o Conselho Missionário Internacional e o Conselho Mundial de Igrejas, ocorrida em Nova Délhi, também proporcionou a este último contatos mais diretos com o Terceiro Mundo e com as igrejas mais jovens. Tais contatos foram ampliados com a entrada no Conselho de duas igrejas pentecostais chilenas – os primeiros grupos desse tipo a participar. Ademais, a assembleia manteve a ênfase anterior na igreja no nível paroquial ao falar da unidade de “todos em cada lugar”. Os encontros posteriores em Uppsala (1968), Nairobi (1975) e Vancouver (1983) seguiram essas tendências. Em Vancouver, os delegados insistiram na relação indissolúvel entre a paz e a justiça, falando da “sombra escura” da mais perigosa corrida armada e dos mais destrutivos “sistemas de injustiça” que o mundo jamais conheceu. Então, em resposta à nova abertura da Igreja Católica associada à obra de João XXIII e ao Concílio Vaticano II, o Conselho Mundial já havia estabelecido também diálogos proveitosos com a Igreja Católica, frequentemente resultando na colaboração em diversos projetos e estudos.

Enquanto esses eventos ocorriam no nível mundial, nos planos regional e nacional havia um movimento semelhante em direção à unidade cristã, manifesto em concílios de igrejas locais, regionais e nacionais e nas uniões orgânicas buscadas por muitas igrejas. A maioria dessas uniões, particularmente na Europa e nos Estados Unidos, abrangia igrejas de contextos e teologias muito parecidos; entretanto, outras áreas lideraram uniões eclesiásticas mais ousadas. Em 1925, formou-se a Igreja Unida do Canadá. Ao longo de uma extensa série de uniões – 19 ao todo – essa igreja veio a incluir o que originariamente eram 40 denominações diferentes. Em 1922, o Conselho Cristão Nacional da China convocou os missionários e as igrejas que os enviavam a “eliminar todos os obstáculos” no caminho da união orgânica. Em 1927, foi aberta a sessão do primeiro sínodo da Igreja de Cristo na China, que incluiu cristãos das tradições reformadas, metodistas, batistas e congregacionais, entre outros. Durante a Segunda Guerra Mundial, sob pressão do governo, fundou-se a Igreja de Cristo no Japão – ou Kyodan – com a participação de 42 denominações. Após a guerra, alguns dos grupos se retiraram, mas a maior parte permaneceu, convencida de que a obediência ao evangelho exigia deles um testemunho comum. Em 1947 surgiu a Igreja do Sul da Índia. Essa incorporação foi particularmente significativa, pois era a primeira vez que uma união desse tipo incluía cristãos que insistiam em manter os bispos com sucessão apostólica – os anglicanos – e outros que nem mesmo tinham bispos. Desde então, tem havido centenas de diálogos sobre união por todo o mundo, e o número de fusões ocorridas é grande demais para mencioná-las. Nos Estados Unidos, o Conselho de União Eclesiástica (cocu) propôs às suas denominações participantes um projeto para uma “Igreja de Cristo Unida”.

Missão desde os confins da terra

A iniciativa missionária sempre declarou ser seu propósito fundar igrejas nacionais e maduras em diversas partes do mundo. Nos círculos católicos romanos, isso tradicionalmente significa implantar uma igreja com sua própria hierarquia – e por fim uma igreja nativa. Entre os protestantes, em geral o objetivo vem sendo expresso com base nas “três autonomias”: autonomia quanto ao governo, ao sustento e à propagação. Contudo, na maioria dessas formulações originais, tanto católicos quanto protestantes pressupunham que a teologia cristã como um todo teria pouco para aprender com as igrejas mais jovens. Quando muito, esperava-se que essas diversas igrejas manifestassem a teologia ocidental tendo em vista o próprio ambiente cultural. Não obstante, o movimento ecumênico, o fim do colonialismo e uma crescente autoconfiança por parte das igrejas mais jovens produziram resultados inesperados, pois algumas das igrejas estão propondo questões e sugerindo respostas que oferecem não uma mera adaptação, mas um desafio para grande parte da teologia tradicional.

Entre os protestantes, inúmeros livros lançados nas últimas décadas vêm cumprindo essa função. Na Ásia, Kosuke Koyama, ex-missionário japonês na Tailândia, escreveu Waterbuffalo theology [A teologia do búfalo]. Alguns anos depois, o chinês ChoanSeng Song publicou Third-eye theology: theology in formation in Asian settings [A teologia do terceiro olho: uma teologia em formação em contextos asiáticos] e The compassionate God [O Deus compassivo]. Na África, em meio às lutas contra o apartheid sul-africano, Allan A. Boesak escreveu Farewell to innocence [Adeus à inocência]. Na América Latina, o metodista argentino José Míguez Bonino publicou Fazendo teologia em circunstâncias revolucionárias e Cristãos e marxistas. Embora fossem extremamente distintos entre si, esses vários livros – e inúmeros outros – tinham uma característica comum: buscavam observar toda a teologia cristã de uma perspectiva completamente diversa da tradicional. Mais frequentemente, o que tornava essa perspectiva diferente não era apenas seu contexto cultural, mas também o fato de levar em consideração as lutas econômicas e sociais dos oprimidos.

Entre os católicos, os desenvolvimentos mais surpreendentes e abrangentes ocorriam na América Latina, onde inúmeros fatores se fundiram para o surgimento de uma nova teologia. Em primeiro lugar, desde seus primeiros momentos o catolicismo romano latino-americano estivera dividido entre uma igreja que servia os interesses dos poderosos e uma igreja de orientação missionária dirigida por frades com votos de pobreza, os quais viviam entre os pobres e participavam de suas lutas. Em segundo lugar, a existência de uma organização regional incluindo todos os bispos latino-americanos (CELAM) e a tendência a uma maior liberdade de ação por parte dos bispos proporcionaram o veículo para que fossem levantadas questões de âmbito continental quanto à missão da igreja. Por fim, o Concílio Vaticano II, com sua abertura para o mundo moderno, deu o impulso necessário para uma consideração arrojada da missão da igreja na América Latina. Após alguns trabalhos preliminares, essa reavaliação audaciosa ocorreu no ano de 1968, em Medellín, na Colômbia, onde os bispos latino-americanos rejeitaram tanto o capitalismo quanto o comunismo. Falando de uma “injustiça que clama aos céus“, os bispos comprometeram-se com a causa da justiça e exortaram os cristãos a ficar do lado dos lavradores e dos índios em sua luta por dignidade e melhores condições de vida. “A luta cristã por justiça“, declararam, “é uma exigência do ensino bíblico“.

Por trás dessas afirmações estava a obra de inúmeros pastores e teólogos que haviam chegado à conclusão de que o evangelho exigia que a igreja tomasse o partido dos pobres em sua luta pela libertação. Entre esses “teólogos da libertação” estavam os líderes Gustavo Gutiérrez e Juan Luis Segundo, cuja proposta não era meramente uma teologia que abordasse a questão da libertação, mas sim uma teologia que considerasse o todo da doutrina e da vida cristãs da perspectiva dos pobres que Deus está capacitando – conforme diziam, “de baixo para cima”. Com tal perspectiva, alegavam, eles poderiam confirmar a crença cristã ortodoxa e ao mesmo tempo interpretá-la de modo radicalmente novo. Em particular, descobriram nas Escrituras elementos que achavam que a teologia mais tradicional havia deixado de perceber ou obscurecido. Assim, seu trabalho tornou-se um desafio, não apenas para os poderosos da América Latina, mas para toda a comunidade cristã no mundo inteiro, que tinha de responder à interpretação radical do evangelho feita por eles.

Resultado de imagem para Dom Paulo Evaristo ArnsEssa resposta não demorou. Roma pressionou os bispos latino-americanos e, quando se aproximava sua conferência seguinte, havia indícios de que iria anular as declarações feitas em Medelim. Entretanto, nessa nova assembleia, realizada no ano de 1978 em Puebla, no México, os bispos reafirmaram a postura anterior. Na imprensa ocidental, em geral se interpretava a teologia da libertação com base no conflito Oriente-Ocidente, simplificando-a demasiadamente como se fosse uma “teologia marxista”. Na própria América Latina houve quem reagisse com veemência. À medida que as confrontações se tornavam mais violentas, os partidos opostos se consolidavam. Em EI Salvador, o arcebispo Oscar A. Romero foi assassinado pelos que o consideravam uma ameaça à ordem estabelecida. No Brasil, Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns lideravam os bispos que ansiavam por uma nova ordem. Na Nicarágua, havia um confronto crescente entre o regime sandinista e o episcopado. Na Guatemala e em outros países, centenas de catequistas católicos leigos foram mortos pelos que os consideravam subversivos. Nos Estados Unidos e na Europa, alguns declaravam que a nova teologia era um anátema, ao passo que muitos teólogos e líderes cristãos diziam justificar-se sua exigência de uma nova análise das implicações radicais do evangelho.

Para onde tais debates e confrontações levarão, isso ninguém sabe. Mas uma coisa está clara: as últimas décadas do século XX ficarão marcadas por tensões crescentes entre o Norte e o Sul. Da perspectiva do Norte, a grande questão é o confronto entre Oriente e Ocidente. Para muitos cristãos americanos e europeus, isso significa o confronto entre o capitalismo e a democracia, por um lado, e entre o comunismo e o totalitarismo, por outro. Da perspectiva do Sul, as preocupações básicas são muito diferentes: a busca por uma ordem econômica que não continue empobrecendo o Terceiro Mundo, a distribuição de riquezas dentro das próprias nações e o medo de ser a frente de combate de guerras por procuração entre as grandes potências do Norte.

Enquanto tudo isso ocorre, também fica evidente que o Norte está-se tornando cada vez mais descristianizado, enquanto as maiores aquisições numéricas da igreja acontecem no Sul. Semelhantemente, as igrejas do Sul que durante muito tempo foram consideradas adormecidas – incluindo a Igreja Católica na América Latina – estão registrando uma vitalidade inaudita. Embora em 1900, 49,9% de todos os cristãos vivessem na Europa, em 1985, esse número foi estimado em 27,2%. Além disso, embora em 1900, 81,1% dos cristãos eram brancos, as projeções para o ano 2000 mostram que esse número cairá para 39,8%. Portanto, independentemente de como se reaja às diversas teologias emergentes do Terceiro Mundo, parece provável que o século XXI será caracterizado por uma imensa iniciativa missionária do Sul para o Norte. Assim, os territórios que um século antes eram considerados os “confins da Terra” terão a oportunidade de testemunhar aos descendentes dos que anteriormente haviam testemunhado a eles.

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