O que é religião

Resenha: O que é religião?

Por Alcides Barbosa de Amorim

ALVES, Rubem. O que é religião?. São Paulo: Abril Cultural / Brasiliense, 1984. 133 p.

Rubem Alves foi mestre em teologia, psicanalista e professor livre docente da Unicamp, além de escritor, jornalista e poeta. Nasceu em 1933, em Boa Esperança, Minas Gerais, morou no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos, onde fez doutorado em Filosofia na Princeton Theological Seminary, foi também pastor presbiteriano durante algum tempo em Minas Gerais, e morreu em 2014, em Campinas, São Paulo.

Suas principais obras são: O que é religião?; Teologia do Cotidiano; Cenas da Vida; Lagartixas e Dinossauros; A Pipa e a Flor; Ostra feliz não faz pérola; Conversas com quem gosta de ensinar; Variações sobre o prazer; Os quatros pilares: Aprender, fazer, conviver, ser; Conversas sobre política; A pedagogia dos caracóis; Perguntaram-me se acredito em Deus; Do universo a jabuticaba e Pimentas: para provocar um incêndio não é preciso de fogo…

O que é religião? É um livro de apenas 133 paginas, “pequeno, simples e alegre”, porém, que leva o leitor às boas reflexões sobre o conceito de cultura, alienação, história, e, principalmente, sobre o fenômeno religioso, sempre sob uma ótica antropológica, filosófica, teológica, psicanalítica…

No primeiro capítulo[1] Rubem Alves destaca, sob o subtítulo “perspectivas”, o tempo em que a religião estava acima de praticamente todas as outras atividades humanas, porque lhes fazia sentido. A religião estava acima da ciência, esta propagando a não-necessidade de Deus, porém não pode rompê-la. Ficava a perspectiva de um dia isto ocorrer. Alves destaca o tempo em que os descrentes, sem amor a Deus e sem religião, eram raros e considerados como uma doença contagiosa. Tudo era feito em nome do sagrado e em torno do drama da alma humana. Com o desenvolvimento da tecnologia e da ciência, Deus passa a não ser mais necessário ‘como hipótese de trabalho’. Também leva o leitor a questionar se a religião está desaparecendo ou não, para logo em seguida afirmar que ela permanece viva, pois o avanço da ciência não conseguiu fazer desaparecer a religião. Ele encerra o capítulo acrescentando que ‘não é difícil identificar, isolar e estudar a religião como o comportamento exótico de grupos sociais, mas que é necessário reconhecer a invisibilidade da sua presença nosso dia-a-dia’. O texto nos leva a entender que o autor ‘viaja’ desde o tempo do início do cristianismo, passando pela Idade Média, pelo período da Revolução Industrial e chegando até nossos dias. O texto é lúcido e com marcos históricos implícitos na própria narrativa.

No segundo capítulo, “os símbolos da ausência”, Rubem Alves faz uma comparação entre os animais e o homem. Descreve como os animais conseguiram sobreviver ao longo de milhares de anos, fala de suas adaptações ao meio-ambiente e como, diferentemente do homem, eles conseguem transmitir sabedoria para a sobrevivência das suas gerações, sem a necessidade de palavras e mestres. Já o homem para sobreviver necessita produzir o meio, criar os elementos culturais e valorizar os símbolos criados, dando-lhes um valor sagrado. Ao longo da sua narrativa ele ainda diz que no fracasso dessa cultura criada pelo homem, surgiram os símbolos e consequentemente a religião.

No terceiro capitulo, “o exílio do sagrado”, o autor comenta as diferenças existentes entre as coisas do mundo humano e as coisas que constituem a natureza e, diz que ‘as coisas da natureza são independentes da vontade do homem’. Faz uma narrativa sobre os símbolos vitoriosos e os símbolos derrotados e a importância dos símbolos sagrados vitoriosos na Idade Média. Isso se deveu ao fato de que na Idade Média, todo o universo era compreendido como se fosse dotado de um ‘sentido humano’. Mas, de repente, os homens passam a fazer coisas não previstas no receituário religioso e em nome do princípio da utilidade, uma nova classe social surge, a burguesia, corroendo as coisas e os símbolos do mundo medieval e, fazendo perecer as coisas inúteis. Como conseqüência o mundo não passou a ser mais guiado pelo sagrado. A natureza idem. O homem teria agora que gerar riqueza e bens. Rubem Alves encerra o capítulo tecendo comentários sobre a trilogia riqueza, economia e religião.

Na sequência, no quarto capítulo, com o subtítulo, “a coisa que nunca mente”, Alves explica o significado das coisas, fazendo breves comparações e como essas coisas podem ser transformadas em símbolos. Ele transporta o leitor para uma reflexão teológica sobre os filósofos da Idade Média e os filósofos empiristas/positivistas. Para os filósofos da corrente empiristas/positivistas, com a ênfase dada ao conhecimento científico, o homem não necessitaria mais da religião e como conseqüência ela iria desaparecer. Mas isso não aconteceu. Essa reflexão teológica culminou  com a revolução sociológica. Ao citar Durkheim, ‘considere os fatos sociais como se fossem coisas’, ele reconhece que o mesmo instaura um novo mundo de compreensão da religião e quando ele buscava explorar a religião, na verdade ele estava procurando investigar e chegar a conclusões sobre as próprias condições para a sobrevivência da vida social.

No quinto capitulo, “as flores sobre as correntes”, o autor inicia citando Durkheim e Marx. Inicialmente ele mostra um Durkheim fascinado com o sagrado e em busca das origens da religião mais simples e primitiva que se conhecia. Para tentar compreender o presente, Durkheim mergulha no passado em busca de respostas do mundo sacral. Diferentemente de Durkheim, Marx desconhecia esse mundo sacral. Desconhecia os valores morais e espirituais e somente conhecia a ética do lucro e da riqueza. Para alguns filósofos, a religião era a principal culpada por todos os problemas sociais da época. Mas como, se ela não fazia diferença alguma? Mas Marx entendeu que a religião não tinha culpa alguma e que a culpada eram as falsas ideais que atormentavam as cabeças dos homens, fruto da alienação. Marx não estava preocupado com isso e sim com as forças que realmente movem a sociedade. Marx considerava a religião como ‘um ópio do povo’, ou seja, uma “felicidade ilusória do povo”. Além disso, Rubem Alves nos mostra um Durkheim preocupado na exploração do universo religioso e um Marx preocupado com as mazelas sociais, mas relacionando-as ao lucro obtido pela burguesia em detrimento do operariado.

Continuando, no sexto capítulo, “a voz do desejo”, são destacados os filósofos do movimento empiristas/positivistas que acreditavam que a religião não ia além de um discurso sem sentido. Porém outros pensadores, como por exemplo, Marx e Durkheim, achavam que podiam analisar a religião através de um ângulo sociológico. Segundo Feuerbach, ‘a religião é um sonho da mente humana’ e deveríamos compreendê-la da mesma forma como analisamos os sonhos. Os sonhos estão relacionados com os desejos de todos nós. E é nessa turbulência que nasce a religião. As religiões são ilusões que tornam a vida mais esperançosa, mais suave, mais prazerosa, os mais  fortes e urgentes desejos da humanidade. A religião afirma a divindade do homem.

Em “o Deus dos oprimidos”, no sétimo capitulo, Rubem Alves destaca que há cerca de 2.500 anos, antes que qualquer pessoa dissesse que a religião é o ópio do povo, alguns profetas perceberam que até mesmo os nomes de Deus e os símbolos sagrados poderiam ser usados pelos interesses da opressão, e acusaram os sacerdotes de enganadores do povo e os falsos profetas de pregadores de ilusões, alertando-os que a vontade de Deus é forjada na justiça e na misericórdia. Em oposição a essa falsa religião que sacralizavam o presente eles teceram, com as dores, tristezas e esperanças do povo, visões de uma terra sem males, uma utopia, o Reino de Deus, em que as armas seriam transformadas em arados, a harmonia com a natureza seria restabelecida, os lugares secos e desolados se converteriam em mananciais de águas, os poderosos seriam destronados e a terra devolvida, como herança, aos mansos, fracos, pobres e oprimidos. É provável que os profetas tenham sido os primeiros a compreender a ambivalência da religião: ou seja, ela se presta a objetivos opostos, tudo dependendo daqueles que manipulam os símbolos sagrados. Com uma série de fatores coincidentes, resgatou-se a religião como instrumento de libertação dos oprimidos. A história normalmente é narrada através da visão dos vencedores. O desenvolvimento da ciência das religiões possibilitou a recuperação dos fragmentos do passado, permitindo visualizar  a cortina de interpretações que os vitoriosos haviam erigido. E posteriormente, o desenvolvimento da arte da interpretação permitiu enxergar, através do discurso dos vitoriosos, a verdade acerca dos vencidos.

E no oitavo e último capítulo, “a aposta”, a religião continua seu caminho, convivendo entre acusações e defesas. Convocam-se e ouvem-se testemunhas: psicólogos, filósofos, cientistas sociais. Uns, ao lado da acusação, nos asseguraram que a religião é uma louca que balbucia coisas sem nexo, distribuindo ilusões, fazendo alianças com os poderosos e narcotizando os pobres. Outros, pela defesa, afirmaram que sem religião o mundo humano não pode existir. Ao ser defendida ou acusada, fica claro que essas atitudes só ocorrem no plano científico, onde normalmente não são considerados os fatores relacionados às experiências com o sagrado. É justamente com esse símbolo sagrado que os oprimidos constroem suas esperanças e se lançam à luta. Num mundo ainda sob o signo da morte, em que os valores mais altos são crucificados e a brutalidade triunfa, é ilusão proclamar a harmonia com o universo, como realidade presente. A experiência religiosa, assim, depende de um futuro. Deus e o sentido da vida são ausências, realidades por que se anseiam dádivas da esperança. De fato, talvez seja esta a grande marca da religião: a esperança. E talvez possamos afirmar, com Ernest Bloch: ‘onde está a esperança, ali também está a religião’.

 

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Veja o texto completo, atualizado segundo o Acordo Ortográfico atual, adaptado e gravado por mim, em PDF. In:

O que é religião – Por Rubem Alves

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